Um pediatra polémico

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Carlos González equipara muitas vezes as crianças aos adultos

Carlos González é um pediatra espanhol diferente. Deve ser, provavelmente, o pediatra mais empírico que conheço, que baseia muitas das suas teoria na observação do comportamento dos seres humanos, sejam crianças ou adultos. Hoje, o jornal online “Observador” fez-lhe uma entrevista muito interessante, em que González desenvolve algumas ideias que podem ser vistas como polémicas por muitos pais. Diz ele que não há mal nenhum em deixar as crianças dormirem na cama dos pais, que não se deve bater nem sequer castigar os nossos filhos, que não os devemos obrigar a comer (nem sequer as verduras) e que a melhor forma de educarmos as crianças é dando-lhes amor, colo e mimos sempre que eles precisem. Dito assim, se calhar isto parece um pouco excessivo, mas podem ler aqui toda a entrevista, feita pela jornalista Ana Cristina Marques, e perceberão melhor todas as ideias.

Quando estava a ler a entrevista, admito que houve coisas que me fizeram confusão, mas que, depois, ao analisar o contexto aquilo até fez sentido. Como a ideia de que não devemos forçar os miúdos a comerem coisas saudáveis. Para González, “as crianças devem procurar alimentos de alto teor calórico: massa, frango, arroz, pão”. Por acaso, é isto que elas mais gostam (a par de hamburgueres, pizzas e essas porcarias). Mas isto não preocupa o pediatra que, diz, “com o tempo, o gosto muda”. “Atualmente, todos comemos coisas que em pequenos não gostávamos, a menos que os nossos pais tenham insistido tanto que nos fizeram odiar verduras. Os vegetais são muito saudáveis, mas o importante não é quantos vegetais comemos aos nove meses, mas sim durante toda a vida. Obrigar um bebé a comer muita verdura, fazer com que este a odeie e, de seguida, deixar de tentar é um desastre. Se o deixarmos estar, comerá pouco na infância e, uma vez crescido, comerá mais”. Cá está, parece uma teoria parva, mas, bem vistas as coisas, faz sentido o que o médico diz. Achei particular graça quando ele comparou uma criança a um adulto. “Se estou a comer com um amigo e vejo que este deixa metade da comida no prato, não o obrigo a acabar tudo. Com os meus filhos também não faço isso”.

Uma das coisas que mais me custam, enquanto pai, é ver o meu filho triste ou a chorar. Por muito que nos custe, por vezes sentimos que é necessário deixá-los conviver com a tristeza, a frustração, porque entendemos que os estamos a fazer crescer. González discorda desta visão e uma vez mais coloca as crianças num patamar idêntico ao dos adultos. “Se vejo a minha esposa ou um amigo a chorar, pergunto o que se passa e tento consolá-los. Com os meus filhos é igual”. É também por isso que é contra qualquer violência física. “Jamais bateria na minha mulher, no meu pai ou em companheiros de trabalho. Muito menos nos meus filhos”.

Para o médico, o melhor que um pai e uma mãe podem fazer pelo seu filho é dar-lhe tempo, companhia. Bem sabemos que muitas vezes isso é impossível, porque os pais trabalham, mas, diz González, isso é o mais importante para eles. “Alguns (pais) preocupam-se demasiado se o filho tem tosse ou se se passa algo sem importância. Em contrapartida, há muitos que não se preocupam que um bebé com menos de um ano passe dez horas diárias separado dos pais”.

A entrevista é toda ela muito interessante e mostra um lado da pediatria que muitas vezes nem sequer nos apercebemos que pode fazer sentido. Mas faz. Há muitos anos que leio livros e teorias de pediatras e já percebi que há gente que diz e defende uma coisa e outras pessoas que acham exactamente o contrário. Por isso, habituei-me a julgar pela minha cabeça, a beber isto daqui e aquilo dali e a construir a minha própria teoria educativa. Numa coisa, concordo em absoluto com González: mais do que tudo, quero ter filhos felizes. Não quero génios, não quero os melhores alunos na escola, não quero craques no futebol, quero putos de bem com a vida. Se assim for, o resto virá por acréscimo.

18 Comentários

  1. Parece- me que confunde percurso acadêmico com educação. Infelizmente ( ou não) pessoas com curso superior mal educadas e gente fantástica com a 4 classe é o que não falta.
    Já li alguns dos livros deste pediatra, inclusive um que apenas trata de alimentação. E em lado algum refere que se deve substituir os pratos que os pequenos não querem comer por guloseimas. Mas também não se deve obrigar a comer. O meu pai , um dia , também decidiu me obrigar comer orelha de porco. Odeio orelha de porco, e não me consigo esquecer daquela textura pavorosa no interior da minha boca. Vá lá, a minha mãe intercedeu por mim e não cheguei a engolir.

    Quanto ás palmadas… A ausência delas não são sinónimo de ausência de educação. Não acredito que haja pessoas bem educadas por causa das palmadas, mas “apesar” das palmadas.

  2. Eu sigo a corrente de pensamento do Dr Carlos Gonzalez e não é por causa disso que o meu filho não ouve várias vezes a palavra “não”.
    E fazendo a comparação com os adultos como o pediatra faz, também digo várias vezes “não” ao meu marido, aos meus amigos e a tantos outros adultos.
    Acima de tudo, o pediatra defende o bom senso, a intuição, colo e muito mimo. E mimar não é igual a falta de regras/rotinas ou fazer as vontades aos nossos filhos.

  3. Não concordo, nalguns países já é crime se os pais deixarem um filho chegar à obesiadade!

    A minha tia é exactamente assim! Fartou-se de mimar os filhos, comiam o que queriam, tinham o que queriam. Quando era criança tinha uma inveja enorme e revoltava-me contra os meus pais. A minha tia continua super meiga, parece a melhor pessoa do mundo e perdoava constantemente os filhos. Em contra partida, os meus pais sempre me ‘obrigaram’ a comer de tudo. Não me obrigavam a comer o prato cheio de couves como eles, mas de uma folha grande de couve eu não me safava. Diziam que era para me habituar a todos os sabores. Mais, os meus pais bateram-me em infancia, geralmente porque faltava ao respeito, devido às más notas na escola ou cigarros! Se gostava? Não! Mas ainda bem! Agora estou a caminho do meu doutoramento e a minha irmã provavelmente ainda me superará! Tenho a melhor relação com os meus pais, somos incrivelmente próximos e damos muito valor aos momentos juntos que passamos. Obrigada pais pelas palmadas no rabo, que embora raras, me fizeram crescer! Voltando à casa da minha tia, infelizmente, os meus primos perderam o respeito pelo pai, continuam a comer o que bem entendem (apesar de um ser magro, o outro está perto da obesiadade), nem o 12º têm, passam a vida fora de casa etc…

    É tudo muito relativo!

    Ainda quero adiantar que o melhor mesmo é habituar a crianças a comer coisas saudáveis, em particular legumes. Em casa, não abusar das massas, pães e arroz e digo isto porque já passei por isso. Na escola o dinheiro que os pais dão, em 70% dos casos, não é gasto na cantina. É gasto na mercearia da esquina, em gomas, pacotes de batatas fritas, panikes e bolos.

    Não acreditem em tudo o que os vossos filhos dizem, é assim, as crianças mentem…é normal! Por isso, comer bem em casa é apenas uma medida preventiva!

  4. Ele compara a criança a um adulto. E honestamente não consigo compreender.
    Meus amigos são as pessoas com quem me identifico. E educo os meus filhos de acordo com a minha filosofia de vida.
    Aturamos tudo dum marido ou mulher, amigo ou familiar?! Não. Cortamos relações, afastamos-nos. Algo que não podemos fazer com uma criança.
    E cada caso é um caso. Cada filho é único. Não se educam da mesma forma.
    O que ele diz, levado a um extremo é uma idiotice. Os pais seriam devorados pelos filhos.

  5. E quando a criança tem problemas de peso ( mesmo tendo uma alimentação equilibrada)? Cabe aos pais, se querem filhos saudáveis, recusar certos alimentos aos filhos em detrimento de outros, mesmo que não seja essa a sua opção. O gosto educa-se!

  6. O Gonzalez ajuda-me horrores, desde sempre. O que mais gostei de ler dele foi algo como “nunca faças a uma criança o que não farias a um adulto”. Eu, pelo menos, nunca deixaria um adulto a chorar, nem nunca bateria num adulto.

    Elas merecem o mesmo respeito.

  7. Ainda não li a entrevista, mas a avaliar pelos exemplos apresentados no post, fico muito contente por, sem ter lido as teorias, praticar esta educação. Tenho seguido os meus instintos, e afinal parece que há alguém estudioso da pediatria que veio legitimá-los. Fico muito satisfeita. Vou ler mais sobre este pediatra. Gosto dele 🙂

  8. Concordo plenamente. O principal é dar o exemplo em casa e os próprios pais terem uma alimentação e comportamentos de acordo com o que querem para os seus filhos. Acho abominável o pai que come a mousse de chocolate e diz à criança de 5 anos que ela não pode comer. O resto vem com muito amor e bom senso. Obrigar a comer legumes não é certamente uma boa opção. Obrigar seja lá ao que for não é boa opção. Penso que é melhor levar a criança a querer comer, com muita imaginação na decoração dos pratos, etc.

  9. Para mim há uma pessoa, portuguesa, que melhor fala da parentalidade positiva e que tanto me ensina.

    Eu, como adoro culinária, defendo a parte da alimentação de uma forma um pouco diferente, e passa sobretudo por envolver a minha filha na cozinha. Com isto fez com que ela com 5 anos coma de tudo.

    Mas se gostas e te interessa ler acerca destes assuntos, aconselho vivamente a Magda Dias (mumstheboss.blogspot.pt). Para mim, ela é TOP!
    Beijinhos

  10. Muitas vezes leio ou ouço queixas de que esta sociedade está a criar pequenos ditadores, crianças habituadas a mandar e a fazer o que lhes apetece, sem noção de regras, de autoridade e sobretudo de frustração, porque não sabem lidar com um ‘não’.
    Ainda que perceba em certa medida alguns pontos que ele defende, acho que no geral as teorias dele só ajudam a esse caminho, o da supremacia da vontade da criança sobre todo e qualquer bom senso. A criança não quer ou não lhe apetece, os pais vergam-se.
    Aquilo que eu acho é que, muitas vezes, antes de educar a criança temos de educar os pais, porque é daí que vem o exemplo. Um casal que não faz refeições saudáveis ou que não come regularmente legumes ou sopa, muito mais dificilmente leva o filho a comê-los de livre vontade porque não é isso que ele vê, não é esse o exemplo que ele apreende. Não faz sentido nenhum os pais terem pizza à mesa e depois quererem dar peixe cozido aos miúdos, eles são pequenos mas não são parvos.

  11. Nota-se que o anónimo não percebeu o que o Dr. Carlos Gonzalez quer dizer. Não é liberalismo nem perto disso. Numa casa com crianças não deverão existir chocolates, rebuçados e refrigerantes, a criança deve escolher entre alimentos saudáveis e vai tender sempre mais para os hidratos de carbono (pão, massas, arroz, etc).

  12. Ja tinha lido entrevistas a este senhor e tentei inclusivamente encontrar o livro dele, mas a tradução portuguesa parece estar esgotadíssima…

  13. A minha filha sempre comeu pouco a raiar o nada. Aí pelos seus 15 meses desisti de stressar com a comida e passar a oferecer-lhe o que cozinhara e se ela comesse, melhor. Se não comesse, azarucho. Ofereci legumes, carne, peixe e ela só comia o peixe. Paulatinamente foi querendo provar o resto e agora come pouco mas variado. As crianças são neofóbicas, não gostam de provar coisas novas. Se não lhe oferecer chocolates ao jantar, duvido que se lembrem de pedir. E se pedir, é dizer que não. Não morrem por uma negativa.

    Quanto a obrigar, é uma faca de dois gumes. Obrigaram-me a comer sopa de espinafres em pequena e eu agora adoro. Mas também me obrigaram a comer pescada cozida e eu agora vomito só com o cheiro.

    Quanto à palmada no rabo num momento de perigo ou extrema falta de comportamento, não posso dizer que seja contra. Não gosto mas não condeno.

    Mas por isto é que há vários livros, várias correntes de pensamento, para os pais lerem vários pontos de vista e decidir por si mesmos. Quantas vezes dei por mim a permitir às minhas filhas algo que sempre disse que jamais ia permitir? Ahahahah… a maternidade é uma loucura.

  14. Acho que são teorias muito bonitas… quer dizer se as crianças quiserem jantar rebuçados e chocolates vamos deixá-las livremente fazer isso? não é por comerem legumes quando forem adultas que vão compensar!
    Os meus pais obrigavam-me a comer legumes e não é por isso que os odeio (aos meus pais e aos legumes), acho que bem pelo contrario.
    Sinceramente não acho que seja a melhor opção uma educação demasiado liberalista do “faz o que te apetecer” a vida não é assim, e fazer o que nos apetece tem consequências, também não sou apologista de uma educação com tantas regras que faça das crianças adultos “quadrados”.
    Mas caramba se as crianças fizerem asneiras, porque a asneira a faz contente, não devem ser chamadas a atenção? não estou a falar de violência mas um “olha lá que te estás a esticar” faz mal ou faz bem??

    E sim a maior preocupação dos pais deve ser a felicidade dos filhos… se bem que não conheço ninguém infeliz por causa de ter sido obrigado durante a infância a comer favas ou a arrumar o quarto ou ainda a chegar a casa à hora combinada… para tudo há um meio termo que é o mais difícil de encontrar!
    mas…ainda não tenho filhos por isso “não posso comentar”…

  15. Não querendo ser fundamentalista, o González tem uma teoria para quase tudo e quase tudo vai fazendo sentido…ao longo dos tempos!
    Gosto muito, mas muito de o ler…

    O pior que apareceu por aí foi o Brazelton mesmo 🙁

  16. Finalmente alguém que me entende… Se há psicólogo cujas teorias eu abomino (vá.. exagerando um pouco no termo) é o Dr. Quintino que volta e meia lá está na TV com as suas teorias incontestáveis. Uma das coisas que diz é que as crianças não devem dormir com os pais porque isso afeta o seu desenvolvimento, auto-estima e etc… Pois eu digo (não com grande orgulho, admito) que dormi com o meu pai (e o meu irmão com as minha mãe) até aos 10 anos… Às vezes até adormeciamos cada um no seu quarto, mas de manhã lá estavamos todos trocados… Porquê? Porque eu tinha muito medo de espíritos e afins e porque não havia nada melhor para me deixar dormir sossegadinha do que ter o meu pai mesmo ali ao lado… Os meus pais são casados há 28 anos… Eu tenho 25 e o meu irmão 20 e somos os dois pessoas equilibradas e, felizmente, sem qualquer problema psicológico… Não conheço casal mais “amoroso” do que os meus pais… Nem família mais unida do que a nossa… Perante um grave problema oncológico da minha mãe pude comprovar que essas teorias são apenas isso… teorias… Não foi o facto de dormirmos com os nossos pais que nos tornou mais fracos ou vulneráveis… Não foi também isso que afastou o casal… Não digo que vá deixar os meus filhos dormirem comigo nem que não vá deixar… Acho que cada família se adapta à sua realidade… Ao pai, à mãe, ao filho, à filha… E, acima de tudo, acredito que devemos mesmo ser e deixar ser feliz, dar colo, dar amor, sem nunca esquecer o respeito que, para mim, é a chave de tudo! O resto… “é cantiga!”

  17. Como não tenho filhos (e espero não ter tão cedo que ainda sou demasiado jovem) não tenho uma opinião formada sobre este assunto. Vou lendo opiniões aqui e ali.
    Não concordo a 100% com o pediatra mas sempre que o tentava contestar ele deitava-me abaixo com as suas comparações.
    Porém todas as crianças são diferentes e necessitam de métodos educativos. No fundo a única coisa que se pede que sejam é felizes! (tal como o médico concluí)

  18. A coisa que mais me orgulha é que me digam que a minha filha é feliz, não que é bonita, fofa ou inteligente! E mesmo que me digam “nota-se que é tão feliz”, por isso concordo contigo nesse aspecto. Quando a minha filha se sente frustrada também tento perceber o porque é consola-la – e isso não implica que lhe vou fazer a vontade a seguir e por enquanto resulta bem. E é verdade, a mesa nunca deve ser um espaço de guerra, deve oferecer-se a comida várias vezes até a criança querer provar, mas nunca as deve obrigar

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