Sobre a exposição: o que é isso de falar da intimidade

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Existem blogues institucionais, blogues de marcas, blogues associados a jornais, blogues políticos, blogues culturais, blogues de moda, blogues de bola, blogues de gajas, blogues de cinema, blogues de livros, e podia continuar aqui a manhã toda. Mas também existem blogues pessoais. E o que são os blogues pessoais? São blogues em que os autores falam daquilo que bem lhes apetece, são generalistas, têm um cunho próprio, falam de experiências próprias, de coisas da vida dos autores, de gostos, de sonhos, de projectos, no fundo, de tudo o que ao autor apetecer falar. Só os deve ler quem, de alguma forma, se identifica com alguma coisa que ali é escrita. Mas mesmo aqueles que dizem que os odeiam passam por lá recorrentemente, porque é claro que não odeiam, gostam é da ideia de os odiar.

Ao longo destes anos em que tenho o blogue já recebi vários comentários de gente “preocupada” com a exposição que farei sobre a minha intimidade com algumas das coisas que escrevo. Para mim a questão é outra: o que é, para cada um, “intimidade”?

Fui jornalista durante 20 anos, e sempre que fiz entrevistas procurei que as pessoas se dessem um bocadinho a conhecer. É interessante para quem está a ler saber mais sobre aquele indivíduo que, provavelmente, só conhece enquanto político, ou ator, ou jogador de futebol, ou músico. Sempre defendi que isso, de alguma forma, humaniza os entrevistados, trá-los ao mundo dos leitores. E na verdade quase todos o fizeram. Falaram-me de histórias de infância, dos filhos, de férias, de paixões clubísticas, de atividades que fazem nos tempos livres, enfim, daquelas coisas normais na vida de cada um. A pergunta é: isso é intimidade? É exposição da vida íntima? Não, para mim não é. Intimidade é muito mais do que isso, e eu tenho essa linha traçada, e sei o que fica para lá dela. E sobre essas coisas, de facto, não falo, apesar de receber frequentemente comentários de gente que gosta de deixar o tradicional “Ah, disso não falas tu”. Não, não falo. Isso, para mim, é intimidade.

Num blogue pessoal, parece-me estúpido que o autor não fale de si. Este espaço não é para falar exclusivamente de mim — basta lê-lo para perceber, aliás, que a grande maioria dos posts é sobre assuntos da vida em geral, e não da minha vida — mas não tenho qualquer problema em falar de férias, e de filhos, e de coisas que fiz ou quero fazer, da infância, de banalidades do dia-a-dia. E não tenho problemas porquê? Porque não acho que isso entre na esfera da “intimidade”. As coisas de que falo no blogue poderiam perfeitamente ser discutidas em voz alta com amigos num restaurante com 500 pessoas, que podiam passar e ouvir a conversa. Não tenho vergonha delas, não as escondo, não são tabu nem as considero, sequer, íntimas. Depois, seguindo a regra que aplicava aos meus entrevistados, acho importante que um blogue pessoal tenha vida do autor, precisamente porque o humaniza, porque quem o lê entende que quem está ali daquele lado não é apenas um nome, ou uma personagem, mas uma pessoa, com uma cara e uma vida igual à de tantos outros.

Em 2008, quando lancei a primeira versão de O Arrumadinho, tentei manter o anonimato, porque isso me permitia escrever coisas que, de outra forma, não poderia escrever. Quando esse anonimato se perdeu, a minha vida tornou-se num inferno porque muita gente não entendia que eu pudesse ter um blogue daqueles, que falava de amor e sexo, e relações.

Nas duas versões seguintes, fiz o contrário: dei a cara. Pus sempre a minha foto lá em cima, no header do blogue. Há um nome e uma cara. Não tenho vergonha de nada do que escrevo, não tenho problemas em assumir a minha opinião, não tenho nada a esconder.

Isto tudo para dizer que há coisas sobre as quais eu não falo, porque entendo que entram na esfera da intimidade, e há outras sobre as quais falarei quando entender que é o timing certo para falar delas. E, goste-se ou não, quem determina esse timing sou e serei sempre eu.

50 Comentários

  1. Não conhecia o blog, fiquei a conhecer e já percebi que existem problemas pessoais, quando a pessoa é alguém conhecido, os media atacam, não perdoam e ai torna-se chato ter que ver a intimidade exposta para toda gente. Espero que se resolvam as coisas, e independentemente da escolha, que seja a mais acertada!

    Abraço!

  2. Uma separação não é um divórcio. E se a situação, os sentimentos não estão resolvidos (há uma linha que separa o que é definitivo e o que não é), não há para já nada a dizer. Possivelmente nem haverá… Alguns gostavam de um report da esfera privada minuto a minuto, não é? Sigo os dois e faz-me confusão isso ser tão importante. Fala-se muito dos haters, mas cá para mim há por aí é stalkers com fartura. Da minha parte a única coisa que peço é mais posts (sobre coisas em geral).

    • Nao.,, nao é o fim do mundo,,, mas quem tem um filho da idadevdo mateus sabe que por mais bem explicado que seja uma separação é uma separação. .. e esse entra e sai dos pais fora de casa só prejudica (antes que ataquem, passei por isso 2 vezes, ate que disse chega porque? Porque senti o meu filho a ser afectado com as mudancas e nao havia discussoes ou dramas… o painera maravilhoso bpara ele e eu amsva o… mas amei mais o meu filho!)

  3. Eu devo ser a única pessoa no mundo que estava completamente a leste dos factos acima referidos. [com isto do Mário Soares e dos haters todos que quiseram matar o homem, já depois de morto, o meu objecto de estudo foi outro]. E não foi só por isso, foi porque também pouco me interessa a vida, doméstica, dos outros. No entanto Ricardo, tenho de te dizer, que talvez, pela primeira vez, gostei honestamente do que escreveste. Não te sei explicar porquê. Talvez porque me identifique com as separações que fazes entre o que é ou não da intimidade de cada um. Eu tenho um blogue. E também lido com isso. [numa escala muito mais pequena, é claro]. E às vezes passa-me pela cabeça perguntas como: será que as pessoas pensam, efectivamente, que somos apenas e tão só aquilo que escrevemos nos nossos posts? Não somos. Mas ter um blogue, não dá o direito a ninguém de saber mais do aquilo que nós queremos dizer ou contar. Recentemente vi-me confrontada com isso. Tive um cancro. Tenho. Ainda não defini bem este estado em que vivo. E de repente apeteceu-me deixar de escrever sobre isso. E sinto que algumas das pessoas que me seguiam, perderam o interesse em fazê-lo. Não entendo porquê. Eu sou jornalista. Sempre escrevi. É natural que o continue a fazer e que os temas vão variando. [aleluia!!!]. Nesta fase, um único conselho: não dês ouvidos a quem não te conhece [na intimidade] 😉

  4. As vezes a quente tomam se atitudes, são ditas coisas, que é muito difícil voltar atras, seja por orgulho, por
    desilusão é complicado voltar atras. Não sei o que se passou com os dois, mas parece que a vossa separação
    foi por uma coisa estupida, e as coisas tomaram uma proporção surpreendente. Como “conselho” acho que
    vocês deviam deixar baixar a poeira, deixar passar um tempo e depois falar, se gostam mesmo um do outro
    não deixem a vossa oportunidade “fugir”, é difícil encontrar a nossa alma gêmea. Se pelo contrario se o
    encantamento acabou, então cada um siga a sua vida com muito respeito por vocês, e pelo vosso filho.
    Já algum tempo que me apetecia vir aqui dizer isto, mas é para ti Ricardo, prefiro que não publiques.
    Boa Sorte

  5. E tudo o que precisavam agora era de deixar de ser a pipoca e o arrumadinho até estar tudo resolvido… dentro de vocês. Caramba ser conhecido é do caraças, todos opinam e poucos se preocupam ou respeitam. Um beijinho

  6. Concordo com tudo. Nesta fase e neste assunto em particular trivialidade seria dizer, a ser a verdade: estamos separados/divorciados. Privacidade seria dizer porque, onde, quando, quem falhou (se o houve), o que falhou, como vai gerir a paternidade… mas seguindo os vossos blogues há anos e conhecendo muitos dos haters que andam por aqui, o que se quer e invasão da privacidade, mesmo, para poder esmiuçar a tragedia alheia.
    Eu desejo que corra bem e que sejam felizes, juntos ou separados

  7. Gosto de te ler (há já uns bons anos) e senti falta de temas ‘normais’ durante o tempo da tua ausência…
    Achei-te particularmente triste no Natal e fiquei mais triste quando percebi o q tinha acontecido, especialmente pelo Mateus… pq por mta consciência q tenha q é melhor 2 pais felizes separados, do q 2 pais juntos infelizes, fico sempre de coração apertado pelos mais pequenitos!
    E se nunca falares sobre o assunto não tens de o fazer, s falares é porque achas q quem te acompanha pode ‘eventualmente’ querer perceber o q aconteceu aquilo que aparentemente funcionava… A intimidades, essa, será sempre tua, vossa.
    No fundo desejo q continues a escrever-nos é q sejas feliz! 🙂

  8. Ricardo, na minha opinião não se esperava da vossa parte qualquer tipo de explicação ou informação dos motivos do divórcio. Isso só a vocês diz respeito.
    Acho que bastava um simples post em simultâneo a dizer que estão divorciados. Só isso. Enquanto bloggers sempre partilharam situações em família, enquanto casal. Acho que fazia sentido essa informação.
    O post que escreveste sobre a família, neste contexto que estão a passar, parece um desabafo/reflexão sobre o que terá corrido mal.

      • Claro que sim.
        No entanto, na minha opinião, se não é o momento de falar sobre isso, é contraditório estar a publicar fotos e textos que induzem a que todos especulam a vossa separação.
        Não quero estar a ser moralista, apenas tenho o Ricardo como alguém assertivo, ponderado e estranhei.

  9. Ricardo, cada vez gosto mais de vir aqui, ler o que escreve! Continue assim, há imensa gente que gosta de si!
    Desejo lhe um Bom Ano, não vai ser fácil mas com o tempo vai melhorar, o tempo cura tudo!
    Um beijinho,
    Sandra

  10. Tudo aquilo que escreveste é certo. Mas o que me encanita, e o que me faz te criticar, é que sempre escreveste sobre relações, e alguma vezes sobre a tua relação, e agora disseste a uma revista que não falas sobre o assunto separação. Era tão mais fácil dizer que “sim, estamos separados” do que dar azo a tudo isto. E a verdade é que dar uma informação desta não é intimo: nascimentos, baptrizados, casamentos e divórcios são públicos.

    • Olá O Homem de Caxemira. Eu não falei sobre o assunto a uma revista, pelo simples facto de que tenho a minha própria plataforma para falar sobre os assuntos que têm a ver comigo. Quando eu achar que devo falar sobre eles, falo, e falarei aqui, que é o meu espaço. E se não o fiz — nem na revista, nem aqui — foi porque entendo que nesta altura não há nada a dizer sobre esse assunto.

      • Percebo o comentário d’O Homem da Caximira. Se por um lado naturalmente tens o direito à privacidade e a preservar a esfera íntima pessoal e dos teus, temos vindo a acompanhar a tua vida nos últimos anos e, falo por mim, sinto alguma curiosidade. Sei que não é da minha conta, não estou a cobrar explicações mas curiosidade tenho, confesso.. (na prática ainda estou à espera que alguém se desbronque e diga que isto é tudo uma brincadeirinha…)

  11. Ricardo, cada vez gosto mais de vir aqui ler o que escreve! Continue assim, há imensa gente que gosta de si!
    Desejo lhe um bom ano, não vai ser fácil mas com o tempo as coisas melhoram, o tempo cura tudo.
    Um beijinho, Sandra.

    • Por acaso, e no meu ponto de vista que vale o que vale, acho que até foi a Pipoca que escondeu mais. Embora nenhum de nós tenha alguma coisa a ver com isso! Que sejam felizes, juntos ou não!!
      Só me irrita um bocado esta coisa das pessoas idolatrarem a pipoca de um modo que meu Deus. E atenção eu também leio o blog dela!!

      • Hum? A pipoca não escondeu nada, apenas não falou sobre o assunto. Ao contrário do Ricardo, que passou o mês de dezembro a fazer posts sobre a familia, os filhos, e a dar justificações para o fim da relação (dando a entender que a pipoca foi a culpada). Além disso se o divórcio é algo intimo, o casamento também não o será? Fico triste com este desfecho e admiro a postura da pipoca em relação a este assunto, a sua nem por isso.

        • Admirar a postura de uma pessoa que, face a um divórcio, “goza” com situação, é que não me parece bem. Não esquecendo o facto de haver um filho em comum.

      • Não, Marta. A base deste texto é de há 5 anos, de 2011. Está absolutamente atual e representa tudo o que penso e tenho a dizer sobre este assunto, daí ter pegado nele.

        • ok.. o texto aparece-me com data de 5 de janeiro 2016 ainda que os comentários sejam de 2011… também percebo pouco destas tecnologias! Mas mais uma razão para não se especular tanto apenas com um texto, ou há 5 anos atrás este texto foi escrito com o intuito de anunciar uma separação?!?!! Parece-me é que existe por aí demasiada abelhice e cuscuvelhice da vida alheia. Se for verdade, não posso negar que fico triste sim porque estou habituadada a ler ambos os blogs e associá-los a uma familia, mas é um assunto que apenas diz respeito aos envolvidos e apenas estes têm o direito de falar o que entenderem sobre o mesmo (ou não falar). Porque mesmo que nunca falem para nós é igual, estejam juntos ou separados que diferença isso faz em quem os lê? Depois encanita-me ainda mais as mentes férteis que se dão ao trabalho de vasculhar ambos os blogs para tentar juntar peças; ainda não percebi onde foram buscar a ideia de andar sem aliança por exemplo (em todas as fotos e videos que me apareceram no último mês ainda não consegui ver nada que apontasse para isso)…. ou de o Ricardo estar em outra casa (óbvio, se a Pipoca viajou certamente preferia juntar-se à familia do que enfiar-se em casa sozinho com os 2 filhos)…
          Só desejo é muitas felicidades a todos da maneira como acharem melhor!

  12. E se mexer, vai estragar! Está muito bem assim como está. O mundo está cheio de gente cinzenta e "anónima", cheia de "carneiros".
    O Arrumadinho é tudo menos isso, e o encanto está aí.
    Eu adoro o blog, venho cá todos os dias, sou fã no Facebook e sou fã, muito fã de tudo o que escreve, da maneira como escreve e dos assuntos que aborda.
    Como costumo dizer às minhas filhas: "Sabes quanto vales? 5 ESTRELAS".

  13. A questão da salvaguarda da identidade é algo que nos EUA por exemplo, não faz sentido falar. Sigo vários blogs americados e em todos eles o autor dá a cara. Independentemente de serem blogs temáticos ou pessoais.
    Achava interessante que analisasses estas diferenças. Porque será que em Portugal todos os bloggers cortam a cara nas fotografias e escrevem por trás de screen names e nos EUA praticamente não há bloggers anónimos? Talvez o blogger português goste de cultivar o mistério…

    • É por estas e por outras que depois é curioso quando os portugueses se admiram que não têm a repercursão que os bloggers estrangeiros têm e levam a mal quando não consideramos “blogger” profissão.

  14. Arrumadinho,

    ADORO o blog, desde há uns tempos que subiu ao pódio no meu top de blogs (e não são poucos, acredite)

    a maneira de escrever honesta e descomplicada, os temas variados, a actualização frequente, o facto de me pôr a pensar sobre certos assuntos, …! vale mesmo a pena ser seguidora: gosto muito muito!

    admiro-o

    S.

  15. É um blogue generalista, boa escrita, boa onda, despretensioso. Gosto. Vim cá ter pela Pipoca que também comecei a ler há já uns tempos. Até os nónis às vezes me fazem rir de parvos que são. Keep going 😉

  16. Não sou de fazer muitos comentários mas só para meter mais uma colherada no assunto – há gente que se preocupa demasiado com a forma de viver das outras pessoas! Só podem ser pessoas muito desinteressantes. Eu cá gosto muito de ler aqui o "Arrumadinho"- porque escreve de tudo e não só do mundo homem – é sempre giro ler palavras de gajo em vez de andar por aí a ler só coisas de gaja. Não conhecia antes deste blog… e só cá vim ter porque sigo a Pipoca há alguns anos.

  17. Ana, não te aborreças comigo. Isto não é uma resposta. É apenas um post com uma perspectiva minha sobre um tema amplamente debatido na comunidade blogosférica. Achei interessante, por isso o escrevi. Nada mais.

  18. eu gosto mesmo de vir cá para "lê-lo"!
    parabéns por conseguir ter disponibilidade para vir aqui fazer os posts que tem publicado.
    espero que continue assim.
    Camilitas.

  19. Concordo e gosto muito do teu blogue, mas essa mania constante de resonder a comentários estúpidos já enerva. Eu sei que não, mas parece que não gostas de ser criticado: e isso faz parte dos blogues pessoais. Ignora.

  20. tenho por convicção que os homens são todos iguais
    afinal existe um que me parece diferente,tu
    obrigada por seres assim,continua

  21. Concordo contigo, até pq os que nos agarra a estes blogues é acima de tudo as experiências pessoais. O cunho que cada um de nós põe nos artigos que escreve. Se assim não fosse, não existiriam nem metade dos blogues que existem.

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