Se o diretor do jornal do Benfica não for despedido, Moniz deve demitir-se da direção do clube

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Liberdade de expressão não é dizer tudo como os malucos. Ter opinião sobre um assunto é muito diferente de fazer ataques pessoais e insinuações sobre as pessoas. Qualquer indivíduo com dois dedos de testa devia saber isto, um diretor de um jornal, com um passado de décadas ligado a cargos de direção de órgãos de comunicação social, tem obrigação de o saber. E sabe-o, mas não o respeita. E as minhas perguntas são: porquê? Qual é o objetivo?

Em dois dias consecutivos, o diretor do jornal do Benfica, José Nuno Martins, usou a TV e o jornal do clube para lançar um ataque pessoal a José Eduardo Moniz, vice-presidente, por este ter defendido, numa entrevista à Rádio Observador, que deveria existir uma limitação de mandatos na presidência dos clubes. José Nuno Martins não exerceu o seu direito de opinião, não usou de liberdade de expressão para contrariar a opinião de José Eduardo Moniz, o que ele fez foi atacar de forma absolutamente inaceitável uma pessoa da direção do clube, a quem deveria, no mínimo, respeito institucional.

Liberdade de opinião e expressão teria sido dizer que não concorda com a opinião do vice-presidente, e defender que não devem existir limitações de mandados presidenciais. Democracia e respeito é isso, dizer o que se pensa sobre qualquer assunto, mesmo que essa opinião não seja partilhada por outros, pela maioria, pelos colegas, pelos superiores hierárquicos. Cada deve pensar por si e ser livre de apresentar publicamente as suas ideias e a sua visão das coisas. Foi, aliás, o que José Eduardo Moniz fez. Disse o que pensa sobre a questão da limitação dos mandados. Não deu “recados” a Vieira, como José Nuno Martins afirma. A opinião de Moniz, quanto muito, pode não agradar a Luís Filipe Vieira. O presidente do Benfica pode até sentir que aquilo que um vice-presidente do clube pensa não serve os seus interesses. Admito, claro, que Vieira tenha ficado incomodado com a opinião de Moniz, mas o que o vice-presidente do Benfica disse foi apenas uma opinião, não foi um ataque a Vieira, e é uma opinião que vale para todos os presidentes de todos os clubes, e que, acredito, deverá ser defendida por muita gente.

José Nuno Martins não se limitou a dizer que discorda de José Eduardo Moniz. Não deu a opinião dele, defendendo que não deve haver limitações de mandados. Não disse, e ninguém levaria a mal se o tivesse dito, que José Eduardo Moniz não deveria ter falado publicamente sobre esse assunto num momento em que há paz e estabilidade no clube. O que José Nuno Martins fez foi um ataque pessoal, sem nível, carregado de insinuações de gosto duvidoso, que não podem ficar a pairar sem que haja consequências. Alguma coisa tem de acontecer, porque é importante que os benfiquistas percebam como é que se chegou até este ponto, e quais os objetivos das declarações de Moniz e Martins.

Para quem não ouviu (na BTV) ou não leu (no Jornal do Benfica), o que José Nuno Martins disse foi que Moniz teria “um plano secreto” para se candidatar à presidência do FC Porto ou do Sporting, numa evidente ironia ao facto de não ter hipóteses numa hipotética candidatura contra Luís Filipe Vieira. E os termos usados são de uma violência que fazem com que este caso não possa ser inconsequente. “Como jornalista, ele também é especialista em agendas e enredos casuísticos da atualidade. Quem sabe se quando ele volta a referir-se à limitação de mandatos presidenciais de clubes, ele não está a lançar a sua própria candidatura para substituir o avozinho de Contumil, no cargo, lá nas Antas, no ano que vem. Poderia ser uma boa saída. Aquilo é extraordinariamente bem pago lá nas Antas. E os Andrades até gostariam de ter uma pessoa cosmopolita. É um lobo vestido de avôzinho cosmopolita, que também pode servir para o Campo Grande. Num lado ou noutro é igual”.

Estas palavras têm demasiado peso e relevância, até porque vêm do diretor de um órgão oficial do Benfica. As insinuações de que um vice-presidente do clube tem “um plano secreto” para se candidatar à presidência dos dois clubes rivais é gravíssima. A forma como se refere aos rivais, essa, é só desprestigiante para o próprio José Nuno Martins, bem como para o Benfica, e para o jornal do Benfica. Numa altura em que se procura pacificar o futebol e restabelecer relações saudáveis entre os clubes (veja-se o exemplo de Bruno Lage e Marcel Keizer, que deram uma entrevista conjunta antes do dérbi), estas palavras, num tom de péssimo gosto (avôzinho? Andrades? Lobo?), vêm mostrar que antes de dar grandes passos é preciso corrigir muita coisa internamente, e afinar o discurso institucional, para não se ter o treinador com uma postura, a direção com outra e os órgãos oficiais do clube com outra ainda.

O que é que sai disto tudo? Que José Nuno Martins terá de ser demitido depois destas afirmações gravíssimas sobre um vice-presidente do próprio clube. E se isto não acontecer, terá de ser Moniz a sair, porque ao não demitir o diretor do jornal do Benfica, o presidente, Luís Filipe Vieira, está, indiretamente, a validar o que Martins disse, ou, pelo menos, a pactuar, pela inação, com o diretor do jornal do clube. E, ao não defender Moniz, Vieira está a desprotegê-lo internamente. Acredito que possa ser essa a vontade do presidente, por não ter gostado de saber o que o seu vice pensa sobre as limitações de mandatos, mas, se assim é, que seja Vieira a convidar Moniz a sair, ou que seja Moniz a sair por sua vontade.

Volto à pergunta inicial: qual é o objetivo de José Nuno Martins? Estará ele a dizer isto por sua iniciativa sem saber se teria o apoio do Presidente do Benfica? Parece-me arriscado? Estará Vieira a usar José Nuno Martins para ele próprio tirar o tapete a Moniz? É o que fica no ar, e é aquilo que eu, como benfiquista, sócio, quero perceber.

O que não pode, mesmo, é ficar tudo a assobiar para o ar como se nada disto se tivesse passado.

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