Saudade

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Nunca tinha sentido a dor da perda. Também não a senti na hora há muito anunciada por todos, mas que tardava sempre e sempre, quase como se ameaçasse não chegar nunca.

Chegou, claro. Mas tardou como um grito que se solta no topo de uma montanha, percorre o vale e alcança o outro lado um tempo depois. A dor veio assim, atrasada e acerta-me agora com um murro de mão fechada.

De todos, sempre fui o que disse que ainda que te fosses nunca te perderíamos. Pelo exemplo, perdurarias em todos nós, todos os dias, nos gestos pequenos de bondade, nos grandes gestos de humanidade. E assim é.

Estive há dias no teu espaço, que foi e continua a ser o meu espaço, a casa onde me recebeste ainda antes de me fazer homem. Deixaram esse trabalho para ti e abraçaste-o com o coração cheio. Ainda lá estava a mesa que se abre ao meio, os bichos de África, o sofá das sestas, a colecção de moedas, arrumada em cima do guarda-fatos.

E na mesa que se abre ao meio estivemos todos, os de sempre, já com mais uns quantos que conheceste mas não tiveram a sorte de viver a tua grandeza. Não lhes faltará quem lhes conte as tuas histórias.

Por mais que saiba e que grite que também estiveste ali, sentado connosco, a verdade é que não estiveste, porque muitas vezes essas merdas são coisas que dizemos para apaziguar a dor, e para nos enchermos de força, mas não estiveste, o lugar estava vazio, ninguém nos beliscou até doer, não se comeu pão à refeição, não havia uma cabeleira branca nem ninguém para discutir com a avó.

Continuas e continuarás a viver sempre dentro de mim, como o meu guia para a vida.

Foda-se, mas devias era ter estado naquela mesa.

1 Comentário

  1. Emocionei-me muito ao ler isto… Senti tudo o que disseste. Não passa um único dia que não me lembre da minha avó, que me criou (fiquei órfã de mãe aos 3 anos), e tenho tantas saudades dela, tantas! Curiosamente essa saudade e essa dor começou a crescer algum tempo depois da sua partida… Soltei uma lágrima ao ler isto! Obrigada…
    (Partilhei no Facebook)

  2. É a primeira vez que comento cá. E comento porque li neste texto sentimentos que conheço, saudades e mágoas que me são familiares. Perdi um avô há quase 10 anos e o meu mundo desmorou-se, parecia que o chão se abria e eu sentia-me engolida num poço sem fundo e confuso de dor e sofrimento. E o lugar vazio à mesa, meu Deus, aquele lugar que era dele vazio foi dos maiores murros de realidade. A dor vai acalmando mas a saudade não passa nunca mais, só cresce cresce cresce. Nos últimos dois anos perdi o outro avô e uma avó… e a vida perde um pouco de sentido de cada vez que a morte bate assim à porta. Amo os meus avós e não conseguia imaginar a vida sem eles… percebi que a vida continua, tem de continuar, mas não – nunca mais será a mesma coisa. O nó que sinto apertar-se na garganta enquanto faço força para segurar as lágrimas faz doer… mas a dor e a saudade que tenho deles é incomparavelmente maior. Os meus avós continuam, para mim, sempre cá, comigo, porque não sou capaz de viver se não acreditar que eles estão sempre cá.

    Força 🙂

  3. Este post podia ter sido escrito por mim… Também eu perdi o grande alicerce da minha familia há 11 anos atrás. Nunca me passou pela cabeça que aquele dia pudesse chegar, mas chegou… e a vida continuou, sim, mas nunca me conformei. Tenho muita pena que os meus filhos não tenham tido o privilégio de o conhecer físicamente.
    Ficáram as saudades e as histórias que pretendo sempre contar-lhes para que possam saber a pessoa fantástica que ele era.

  4. Olá Arrumadinho. Leio-te todos os dias. Normalmente à hora de almoço ou quando tenho o tacho ao lume para o jantar. Leio-te sempre de fugida, porque me faltam sempre minutos aos meus dias que deviam ter mais que 24 horas. Hoje, não resisto a comentar. E não é que o tema seja mais ou menos importante do que outros, mas comento-te por inveja: devia ter sido eu a escrever esse texto, mais ou menos com as mesmas palavras, acabando com uma frase diferente, mas com o mesmo sentido. Sim, devia ter sido eu a usar essas palavras, a soltar cá para fora o que ainda não consigo. E é por me rever no que escreveste, por te invejar pelo facto de dizeres através das palavras o que te vai aí dentro, que te comento. E que zanguem comigo todos os escoceses desta cidade por estar a tratar de problemas pessoais em horário laboral. Que se danem todos! É que Eu, talvez depois disto consiga perceber que é bom falar da dor, que escrever sobre a dor, não a faz passar, mas alivia. Depois disto, estou certa que pelo facto de me teres feito pensar na minha perda, te mereces, no mínimo, este longo, mas não menos sincero, comentário.
    Bem hajas!

  5. Lamento a sua perda…

    Quando imaginava como seria a minha vida sem ela, chorava…chorava e pensava que não iria aguentar tanta dor se ela partisse… Mas partiu, deixou-me " sózinha" e deixei de ter a minha zona de conforto, paz e compreensão que era o teu colo.
    Sou agora uma parte de ti, daquilo que tu eras e sentias, pensavas e sonhavas para mim… avózinha.

    Sou e serei a tua maior fan, eras super!

    Força nesta fase difícil!
    Maria José

  6. Já lá vão 24 anos que perdi pela primeira vez alguém. A minha avó. E aidna hoje me lembro dela e do dia que soube da notícia. Foi ela que me criou no meu primeiro ano de vida e que me acompanhou mais oito. São marcas e memórias que nos ficam para a vida.

  7. Vai passar! A dor da ausência trnsformar-se-à na alegria da lembrança, no carinho e imenso amor que ficarão perpétuados nas vossas histórias. Força. beijinhos*

  8. Nunca conheci o meu avó. E tenho muita pena por isso porque também não conheci o meu pai. Também eu fico com "inveja" quando os meus amigos me falam das histórias e aventuras com os avós. Acho que neste momento nada que se possa dizer te reconforta, especialmente vindo de meros "estranhos", mas lamento, muito.

    Bárbara.

  9. "Ao avô

    Doía-nos a tua magreza
    os olhos que pareciam medrar
    os ossos que queriam furar a pele

    doía-nos essa pele tão branca
    tão ausente de sangue
    tão distante dos teus dias de granjear

    doía-nos a visão dos teus braços
    negros pisados picados
    de quando não te achavam as veias

    doía-nos que as tuas pernas já não deixassem
    adivinhar que foras muito mais rápido
    que a noite e que a chuva

    doía-nos trancar a tua grandeza
    num quarto tão despido e tão pequeno
    e doía-nos o teu silêncio

    doía-nos que as feridas na tua boca
    calassem a tua eloquência
    sempre tiveras um responso para tudo

    doía-nos que o teu coração bombeasse a tua morte
    e doía-nos que as covas que se cavavam no teu rosto
    antecedessem a tua própria cova

    mas o que mais nos doía
    era saber que as nossas dores eram
    nada
    rigorosamente nada
    comparadas com as dores que sentias.

    De Pedro Carreira de Jesus (retirado de: http://theonlyshoethatfits.blogspot.com/2011/06/62-lisboa-1552011.html)

  10. PENSAMENTO:o AMOR,tem destas coisas, como este blog-ARRUM. passou da raiva, frustação, ressentimento, etc., à surpresa, alegria, nostalgia,recordação,SAÚDADE, etc. parece-me bem diferente(mtº.melhor). então que tal, neste DIA,tão especial, passarmos ao HUMOR.(diz-se quase a mesma coisa por outras palavras, em vez de chorarmos(alegria), rimo-nos (alegria),(TAMBÉM É BOM -lá dizia uma bela amiga).Benefícios:activa hormonas,melhora a boa disposição,rejuvesne-se a pele(corpo físici) e activa o sistema imunitário(forma barreiras contra doenças),etc. etec. etc. e esta EM?. "Transformar/Viver".k.

  11. Como te entendo… Ontem foi um dia duro para as bandas de cá, 5 anos de saudade do meu Pai… Estou a ver que aqui a dor também habita..

    Não só as saudades doem, doi também o que ficou por dizer, o que ficou por ouvir, mas acima de tudo, a ignorancia de quem chegou mais tarde e não teve o DIREITO de privar com alguém tão grandioso.

    Um beijo

  12. De todos os netos sempre fui a sua preferida, talvez por ter sido a rapariga mais velha e aquela que ia com ele ver o coelhinhos bebés acabados de nascer e aquela que se agarrava sempre ao seu pescoço quando se tinha que se despedir dele. Quando se foi, não me deixaram dizer-lhe adeus pq ainda não tinha idade para enfrentar essa coisa da dor que só os crescidos devem (?) sentir. Passados anos, muitos anos é que consegui falar da morte dele, pq antes… antes, sofria-a sozinha em qualquer sítio a chorar! Tenho saudades tuas, avó… mil!!!!

  13. Apesar de ser algo(a morte) normal, custa a aceitar.
    Eu que lido com ela de perto ainda não a aceito.
    Dos meu avós apenas conheci duas. Ambas diferentes. Uma autoritaria e a outra docil.
    Tenho saudades.
    E essa saudade doi…
    Conheço o teu blog há pouco mas gosto do que li.
    Boa semana

  14. Sei que neste momento aquilo que vou dizer não ajuda muito porque a saudade é atroz. Mas com o tempo fica um pouco adocicada. Perdi a minha Avó há 6 anos e ainda a sinto, por vezes, quando entro em casa dos meus pais (porque sempre viveu connosco). A dor da perda não desaparece jamais mas com o tempo conseguimos lembrar-nos apenas dos bons momentos, daquilo que nos deram, que nos transmitiram e até sorrir com a lembrança do sorriso deles! Que falta que me faz a minha avó! Mas que feliz que fui ao lado dela enquanto me foi possível!

  15. Caro Arrumadinho, são vários os posts com que me identifico e blogosféricamente falando “as palavras que podiam ser minhas…”. É o caso deste texto. O sentimento de perda de alguém que foi um guia, um exemplo a seguir, que nos fez crescer como homens, com valores e princípios… é a maior das perdas! Uma merda a vida humana ser tão limitada.
    Abraços e contínua a arrumar as ideias

  16. Tenho muitas saudades do meu avô, que foi o único pai que tive na vida e mais… Tento não pensar muito na ausência e faço de conta que ele ainda lá está, no seu sofá da sesta, com o seu jornal.

    Li o teu texto e chorei, pela primeira vez, desde que partiu. Li muito rápido, para custar menos.. Não costumo fazê-lo, mas vou partilhá-lo no meu blog. Obrigada.

  17. Sinto precisamente o mesmo (e, se me permites, faço minhas as tuas palavras) em relação ao meu Pai (não sei se é ao teu que te referes).
    Na nossa mesa, também faz (muita) falta aquela cabeleira branca…
    Um beijinho.

  18. Nunca conheci os meus avós. Apenas duas me viram em bebé, mas eu, nunca as conheci! E tantas vezes tenho alguma “inveja” dos meus amigos que contam histórias maravilhosas dos avós e de tantas peripécias que passaram com eles!
    A saudade dói tanto…e na minha opinião nunca passa, apenas vai atenuando!
    Um beijinho cheio de força para “estes dias”!
    Inês

  19. A vida prega-nos partidas. Por mais esperadas que sejam nunca deixam de nos surpreender e fazer sofrer.
    O teu reconhecimento pelo trabalho (bem) feito "com o coração cheio" demonstram, apesar de tudo, que podemos, de fato, viver também para os outros e isso contribui para a felicidade de todos.
    Força! Um abraço.

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