Relvas, as pressões e as ameaças

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O novo assunto dominante no País é o das alegadas pressões do ministro Miguel Relvas junto de responsáveis editoriais do jornal Público, e uma suposta ameaça de divulgar aspectos da vida privada da jornalista que iria assinar um texto que não agradaria ao braço-direito de Passos Coelho.

Há, nesta questão, vários pontos diferentes que importa analisar. Uns óbvios, outros nem tanto.

A questão das pressões, para mim, é ridícula. Quem faz jornalismo há muitos anos sabe que tentativas de pressão há quase todos os dias, vindas de todos os lados. Todos os alvos de notícias desagradáveis pressionam, sejam ministros, actrizes, empresários, jogadores de futebol, políticos da oposição. Nem todos ameaçam, mas não me lembro de nenhum caso de uma pessoa que se tenha conformado com a revelação de qualquer coisa que lhe desagrada. Quase todos tentam, da forma como podem, impedir que a notícia saia na imprensa. Claro que um ministro, para mais com a tutela da Comunicação Social, tem muito mais responsabilidades, e deveria saber como fazer as coisas. Mas, como disse, pressões há todos os dias, a toda a hora, de todos os políticos.

Já fiz parte da direcção de um jornal diário e sei o que isso é. Sei o que é receber pressões de todos os lados, ameaças de todos os lados. Ameaças de perder o emprego, ameaças de se irem queixar ao meu patrão, ameaças de cargas de pancada, já apanhei de tudo. E tive de aprender a viver com isso. Nunca me achei uma vítima da sociedade, um coitado que está a ser pressionado por um todo-poderoso ministro.

Ser jornalista é, também, saber gerir as diversas pressões e conseguir ter sempre o discernimento para escrever o que tem de ser escrito, desde que respeite a verdade e o interesse noticioso.

A questão das ameaças, aqui, é ligeiramente diferente, mas ontem ganhou contornos de comédia. Segundo o Público, o ministro Relvas teria ameaçado divulgar questões da intimidade da jornalista, na blogosfera. Eu não sabia do que é que ele estava a falar quando se referia a “questões da intimidade”. Mas ontem fiquei a saber. E fiquei a saber porque vi um vídeo da também jornalista Fernanda Câncio, do Diário de Notícias, em que ela defendia que Relvas deveria demitir-se por “ameaça de devassa da vida privada”, explicando que o que o ministro queria dizer da jornalista do Público era que ela tem um relacionamento amoroso com um político da oposição. What?! Então, afinal quem é que expos a vida da jornalista e devassou a sua intimidade? A própria colega. Ela fez o que acusa o ministro de ameaçar fazer.

Podem ver o vídeo aqui, mais ou menos no minuto 7.

Ainda assim, acho que depois de toda esta situação, Miguel Relvas deveria demitir-se. O não ter desmentido as pressões e ameaças faz com que as mesmas ganhem contornos de verdade. E, se assim é, e tendo ele a tutela da Comunicação Social, só lhe resta sair, ou então explicar publicamente o que aconteceu, o que não me parece que irá acontecer.

1 Comentário

  1. Julgo que o termo «pressões» é um eufemismo que fica mal quando, seja de que partido for, há supostas ameaças e chantagem.

    Lá por se ter de lidar com isso todos os dias e de ser algo absolutamente banal, as coisas ganham contornos diferentes e agravados quando: 1) é um Ministro a fazê-lo; 2) as tais pressões são ameaças directas no sentido de prejudicar um jornal e jornalista; 3) é o braço-direito do P.M. e aquele que tem a pasta da Comunicação Social.

    A partir do momento em que um Ministro que tutela esta pasta tem este tipo de comportamentos, é fácil dar asas à imaginação e perceber como é que são geridas outras situações eventualmente desagradáveis ao mesmo.

  2. 1. "Não pode fazer um artigo com detalhes da minha vida privada. A senhora gostava que eu pusesse detalhes da sua na net?"
    2. "A senhora devia fazer uma declaração de interesses, se se soubesse que a senhora tem uma relação com um político da oposição, talvez o seu artigo perdesse impacto."
    3. "Se os jornalistas tivessem a sua vida exposta, se calhar pensavam duas vezes antes de fazerem isso aos outros."
    Apenas 3 exemplos do que o Miguel Relvas pode ter dito e que foi qualificado omo ameaças. Não gosto do Miguel Relvas, mas também não gosto de jornalistas sem escrúpulos com a mania que são os defensores da humanidade.

  3. Creio que não sabem bem a diferença entre uma ameaça e dizer simplesmente um facto.

    O Relva ter ameaçado de algo a uma jornalista viola os direitos da pessoa; uma amiga/colega dizer o que disse é muito diferente. Muito provavelmente foi combinado. Agora, já ninguém a pode ameaçar com essa informação.

    O prpblema encontra-se na forma, não no conteúdo. Será que não entendem a diferença?

  4. Visto assim, tenho a impressão que a "revelação" foi mais ou menos agendada entre as duas jornalistas, com o fim de retirar "poder" ao ministro.

  5. Se o Relvas tivesse optado por oferecer uma quantia choruda em vez de ameaçar, talvez se tivesse saído melhor neste país de vendidos. Mas adiante.. sim, obviamente que deve demitir-se. E por muitas pressões que os jornalistas estejam habituados a sofrer, não penso que seja dar uma de coitadinho revelá-las e até fazer um enorme filme à volta disso, para que os próximos pensem duas vezes antes de agir. Pressão com pressão se paga 🙂

  6. É curioso, quase toda a gente com quem falo acerca do Miguel Relvas, ninguém gosta dele, ninguém vai com a cara dele. Não sei se é da arrogância que demonstra, da postura de quem tem mais poderes que os outros…
    Eu confesso que também não gosto dele e acho inadmissível que uma pessoa na posição dele ameace um jornalista, muito menos tendo a tutela da Comunicação Social.
    Era bom que ele se demitisse e só estaria a fazer um favor ao governo de Passos Coelho.

  7. Não acredito que a Câncio se chibou… que coisa ridícula. O Relvas é o único ministro do actual Governo que não me inspira a mínima confiança. Toda a gente que o conhece diz que é um sacana… incluindo do PSD.

  8. O facto de todos os políticos, artistas, empresários e sei lá mais quem o fazerem, não faz com que seja legítimo!
    Foi pena o Arrumadinho há uns meses ter vindo para o seu blogue dizer tão bem deste Sr. Relvas. Acho que lhe ficou mal ter feito "campanha" a favor do recém-ministro (na altura).
    Esta história só prova que é "mais um" no meio de tantos outros políticos iguais…infelizmente!

  9. A criatura deveria demitir-se, mas para isso é preciso ter um mínimo de bom senso e vergonha na cara, coisa que os políticos portugueses não têm. É o país que temos…:(

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