Ranheunhéu pardais ao ninho (do melhor)

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Eu raramente dou atenção a comentários de gente que vem aqui só para ver se consegue chatear, ou destilar ódios que não sei muito bem de ontem vêm, mas ontem recebi um comentário que, na forma, não é um ataque pessoal – embora o queira ser. Mas como me deu um certo gozo lê-lo, vou passar a desmontá-lo.

Diz então o comentador (anónimo, pois claro).

“A tua noção de “amo-te” é pobre – paupéria, na verdade – redutora, limitadora, fraca. Tu só vês no sentido sexual. Não amas mais ninguém a não ser alguém que mexa com a tua líbido. Relacionas esse sentimento com o físico”

Bom, qual é a parte do meu texto que fala de “sentido sexual”? Qual é a parte que se refere à “líbido”? Quando é que eu relaciono alguma parte do texto “com o físico”? O senhor devia estar a ver coisas impróprias na televisão e depois veio comentar o blogue ainda sob influências eróticas, não foi? Ai, ai!

E continua:

“Isso não é amor. Isso é outra coisa. (Devias aprender umas coisinhas com o Allen Gomes, talvez te fizesses um homenzinho, digo eu, mas não prometo nada.)”

Cá está a parte da tentativa de achincalhamento pessoal – “talvez te fizesse um homenzinho”. Muito bom. Ah! Ah!

Adiante:

“O amor é aquilo que fica quando não resta mais nada e, mesmo assim, ficam juntos. Ah, pois é! Quando as pessoas se separam e dizem que já não há amor, não é o amor que falta, é outra coisa, porque o amor é aquilo que existe ao fim de 40, 50, 60, anos de se viver juntos”.

Agora o senhor comentador resolveu dissertar sobre “amor”, quando o meu texto era sobre a importância de se usar a palavra “amo-te”. Mas ele tem uma desculpa – já deve ir a caminho dos 80 anos, visto que ele diz que o amor é aquilo “que existe ao fim de 40, 50, 60 anos de se viver juntos”. E como ele é que sabe o que é o amor, presumo que já esteja numa relação com alguém há mais de 50 anos. Mas pronto, tem sabedoria e vida, que é o que interessa.

Seguindo:

“As pessoas acabam os seus casamentos/relações porque andam sempre atrás da paixão, daquilo que os faz andar com borboletas no estômago. Depois, a paixão acaba e puff!, dizem que já não amam. Na verdade, nunca amaram; estavam tão somente apaixonados – e a paixão tem um limite no tempo”.

Aqui concordamos. Há muita gente que confunde amor com paixão. O que não quer dizer que numa relação de amor não se procure sempre a paixão – eu acho que sim, que não se deve ignorar a paixão.

Mas continua:

“E, deixa-me que te diga, adorar é muito, mas mesmo muito mais que amar. Adorar está a um nível muito superior ao amar, tanto que, por norma, guarda-se o adorar a divindades. Mas, por quem é, basta ir a um dicionário (minimamente bom e não precisa ser temático, basta um normal) e ver a diferença entre um e outro. Tanta experiência, tanto ranheunhéu, pardais ao ninho, afinal não sabes o que é o amor”.

Esta é a minha parte preferida. Primeiro, porque sempre tive o sonho de receber uma mensagem com a palavra “ranheunhéu, pardais ao ninho”, depois porque vai-se a ver e esta pessoa, tão esperta, tão sabedora, tão experiente, não leu nada do que eu escrevi. Começa com a guerra de palavras do “adorar/amar” e a relação gramatical de cada uma. Toda a gente sabe o que quero dizer quando digo que é diferente dizer “amo-te” e “adoro-te”. E não, o “adoro-te” não é o mais forte. Não vivemos numa sociedade hindu em que “adoramos” deuses. Vivemos relações com pessoas. E as pessoas “amam-se” ou “adoram-se”. Eu adoro os meus amigos, mas não os amo a todos. E a minha mulher não espera que eu apenas a adore, mas que a ame. O meu filho não espera que eu o adore, mas que o ame. E é isso que eu sinto por eles, amor, e não adoração. Lamento. Fique lá com a sua adoração pelos deuses, que eu fico com o meu amor, pode ser?

Mas o que prova mesmo que esta pessoa não entendeu nada do que eu escrevi é a parte final: “Afinal, não sabes o que é o amor”. Mas em que parte do meu texto é que eu tento explicar o que é o amor? O meu texto era uma definição de amor? Não, era tão só um texto sobre a importância da palavra amo-te. Este comentador deve ser como aquelas crianças a quem o professor pergunta alhos e elas respondem bugalhos, porque estavam na paródia quando deviam estar com atenção.

Antes de fazer má figura, vamos tentar prestar mais atenção aos textos, sim? Ou então não prestar nenhuma, e não voltar a passar por aqui, pode ser?

22 Comentários

  1. Gosto de pessoas que se dão ao trabalhinho de comentar de forma destrutiva os textos alheios. Revela que percebem muito da coisa. Ó Ó! Se essa/esse fosse dar uma curva poderia ter encontrado o tão desejado "adoro-te" ao "amo-te" ou "da.se! outra vez por aqui?" que lhe enchesse as medidas.

    Gostei muito do teu texto Arrumadinho, btw. É puro e teu. Parabéns.

  2. Pelos comentários e número de visitas que tenho tido em determinados textos aqui http://diascaes.blogspot.com , já deu para perceber que a malta gosta mesmo é de sofrer por amor e de amor. Temas complexos e que dão que pensar são raras vezes lidos mas qualquer chachada sobre amor, serve.
    E já agora… adoro o seu blog. Inteligente. Equilibrado. Sem tretas.

  3. O amor é tão subjectivo quanto o número de pessoas que existem. Cada um ama de uma forma diferente e não sei se há uma forma melhor do que outra.
    Como disseste, na prática o texto nem era bem sobre o amor, era sobre a vontade de dizer amo-te. E sobre isso quero dizer duas coisas:

    1- é preciso ter mesmo muita coragem para o dizer apenas 3 semanas depois do 1.º beijo, sem medos nem desculpas

    2 – é mesmo invejável o facto de conseguires saber sempre o que estás a sentir

  4. Hum… Freudian Slip? Ahah
    O comentário em questão parecia vir de alguém, que em vez de estar a comentar, estava mais a projectar as suas próprias incertezas e as suas problemáticas em cima de alguém que apenas raspou no assunto que o comentador realmente queria ver abordado. Interesting!

  5. Muito bom!!!
    Ando há que tempos para comentar aqui no teu blogue: também adoro o filme when Harry met Sally: O teu fundo de blogue está o máximo! Um filme brutalmente inteligente, intemporal e com diálogos excepcionais. É, sem dúvida, dos meus filmes preferidos. Bom gosto e boa continuação de escrita. Farto-me de rir com este blogue. Continua!

  6. É em blogues que se encontra a percentagem maior de fieis seguidores.
    Engraçado como dizem a tudo que sim, tudo é impecável, muito bem escrito e inteligente.
    Pergunto-me se também farias um texto destes a "dar baile", se fosse algo a idolatrar a tua escrita e raciocínio fora do comum…

  7. Aqui está uma interpretação verdadeiramente sapiente. Este senhor é um verdadeiro astro das relações, sem dúvida. 50 (quiçá mais) de verdadeiro saber-amar.

    Foi muito bem respondido, concordo com tudo o que disseste e respondeste. No entanto, apesar do texto nada ter a ver com a noção do que é o "amor" e sim do significado da palavra "amo-te", o título não induz isso. Mas claro, quem dissertou maravilhosamente sobre o conteúdo, é porque o leu e não se deixou ficar pelo título.

  8. Bem eu só comento o comentário para dizer que não entendi, nem sub-entendi nada de sexual no texto, apenas uma dissertação sobre o uso da palavra amo-te

  9. É "ranheunhéu"?? Ía jurar que era "rebeubéu"!! 😉

    (acho mesmo que o melhor é continuares a não dar atenção a comentários de quem não consegue perceber a essência do que se escreve! Isto digo eu… que raramente tenho anónimos a comentar!)

  10. Brilhante desconstrução!

    Gosto sempre de discutir sobre o amor e ouvir as "definições" pessoais sobre o mesmo. Aliás adoro divagar sobre o assunto!!
    Que definição tão pobre de amor: ao fim de 30 a 50 anos juntos, "quando não restar mais nada" fica o amor. Como se o amor fosse feito de restos, de pedacinhos pequenos…O amor reduzido ao que sobra – ao supérfluo.
    Eu pensei sempre que quando não restasse mais nada, restava o hábito, o acostumar-se ao outro – que a meu ver, nem é amor, nem adoração, nem é gostar muito: É simplesmente o "fui ficando" – como os móveis empoeirados e as porcelanas da avó com teias de aranha.
    Pelo menos já sei que quando fôr velhinha vou encontra-lo – ao amor!! Até lá posso viver de tensões sexuais e paixões e mais o raio que me parta!!!
    E sim dizer amo-te (e não adoro-te, ou gosto muito de ti – isso fica para os rissóis de pescada – que adoro tanto que me babo – ou para o meu gato Micha) é importante por duas razões: porque é bom ouvi-lo e é preciso expor-se para o dizer…
    E quem se expõe: AMA!!!

  11. Quanto ao adorar divindades posso acrescentar uma coisa: conheço muita gente, especialmente mais velha, que dizem que amam Deus. Portanto esse argumento cai logo por aí.

    Quanto à tua resposta: "O senhor devia estar a ver coisas impróprias na televisão".
    Nem acredito que estivesse, porque nos pornográficos nunca ouvi ninguém usar a expressão "amo-te" ou "amor"…looool

  12. Como é triste não amar, como é triste ter que se escrever um comentário desses sem +erceber o que é a palavra amor. Eu acho que esse anónimo de todo não sabe o que é amor. Uma pessoa que acha que amor só ha a partir de 40 ou 50 anos, nunca amou. Não há amor mais forte do que aquele que os filhos nos dão no 1.º sorriso, no 1.º olhar quando nascem, na 1.º x que fazemos amor, com quem realmente amamos e nos entregamos. E meus amigos isso não é ao fim de 40 ou 50 anos. Como é mau não amar. Continua assim arrumadinho, dá lhes.

  13. Adoro estas distorções mirabulantes (que não lembram ao Diabo) que algumas pessoas se dão ao trabalho de fazer em relação ao que se escreve. A parte boa? Um comentário estúpido a roçar o desadequado deu origem a um post que me fez soltar uma gargalhada. E fazer rir as pessoas não é para qualquer um. Isso já é serviço público Arrumadinho! 😉

  14. Bem, eu acho que depende de cada um. Eu não aprecio dizer "amo-te", prefiro e dou muito mais peso quando digo "gosto muito de ti". Porque só o digo a quem amo, adoro e gosto. De resto, discordo por completo do senhor que diz que só se ama ao fim de 40 anos juntos. Só posso pensar que um casal que está junto durante 29 anos e ele morre, a pobre da mulher só pode deduzir que foi um azarito e que nunca conheceu o amor. Bolas, só lhe faltava 1 ano para saber o que é amor!!!!
    Que estupidez.

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