Os tempos de crise afectiva

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Tenho imensos amigos divorciados, ou solteiros, mas que viviam em união de facto e que deixaram as namoradas. Eu próprio já passei por isso duas vezes – um divórcio e uma separação.

Há mil e uma razões para se chegar a esta situação, a de decidir que não há nada a fazer, a de ter de ter “a conversa”, a de fazer a mala, dividir coisas, fazer contas, desmanchar projectos de vida. Na verdade, hoje em dia é quase mais comum ver gente que está em segundas, terceiras ou quartas relações do que com a mulher ou o homem que um dia pensaram ser “o tal” ou “a tal”. Na verdade, essas pessoas especiais são aquelas com quem estamos agora – outros já o foram e foram-no enquanto fomos felizes ao lado delas.

O ponto em comum que encontro em quase todas as rupturas é a falta de diálogo. E falta de diálogo não é aquela coisa de chegar a casa e não ter muito para contar, ou o estar à mesa e não ter nada de verdadeiramente novo para partilhar – o que também acontece, muitas vezes, em relações mais longas (e não há grande mal nisso, nem sequer vejo isso como um mau sinal – aliás, estar em silêncio com alguém sem sentir desconforto revela sobretudo cumplicidade). Falta de diálogo é não falar sobre os problemas nas alturas certas. Há casais que se separaram porque um traiu o outro e foi apanhado. A traição é só a gota de água, porque o problema foi o casal não ter falado na altura em que aquele que traiu começou a sentir necessidade de estar com outra pessoa. Por que é que isso aconteceu? O que é que estava a correr mal? O que é que faltava na relação?

Já falei aqui de um caso de um homem que descobriu que a namorada com quem se ia casar andava em flirts com um colega, e que, quando a confrontou com isso, ela não admitiu que houvesse alguma coisa a correr mal entre eles, e que apenas o fez por necessidade de se sentir apreciada e cobiçada. Mas também isso eu acho que advém da falta de diálogo. Se sentimos isso, por que é que não podemos partilhar essa preocupação, ou frustração, com a pessoa que amamos? Eu acho que é o que devemos fazer. E depois cabe ao outro fazer qualquer coisa para que algo mude. E, nestes casos, será ser mais atencioso, mais provocador, fazer com que a outra pessoa se sinta sexy, e desejada, sem que tenha de ser uma terceira pessoa a fazer isso.

Da mesma forma que há quem se separe porque o casal deixa de ter tempo para si, absorvidos que estão com trabalho, com as crianças, com as obrigações familiares, com projectos paralelos. Treta. O que separa as pessoas não é a falta de tempo para a relação, é a opção que fazemos em privilegiar tudo o resto menos a relação. O trabalho é importante, claro que sim, a família também, pois, os putos, óbvio, mas então e o parceiro ou a parceira? Também. E por isso merecem esse tempo, merecem que se desligue o computador mais cedo, que se abdique de um jogo de futebol, que se diga que não ao patrão, porque é preciso dar tempo e amor à pessoa com quem estamos. Mas também sobre isto os casais devem falar. E têm de falar. Não podemos ouvir e engolir ou aceitar. Temos de dizer que não e dar murros na mesa e abrir os olhos ao outro. A aceitação mútua de que não há nada a fazer, de que o trabalho tem de ser prioritário, é o caminho para o fim de um amor, porque, como é óbvio, as relações não vivem do ar, o amor platónico e por carta (hoje são sms e mails) já não chega. É preciso contacto, e beijos, e amassos, e fins-de-semana a dois, e é preciso empandeirar o puto para os avós de vez em quando e mandar uma rapidinha à hora de almoço. Temos de ser um bocadinho mais putos, um bocadinho mais malucos, e menos avós.

Na verdade, não há falta de tempo, há sim opções. Depois, só temos de aceitar e compreender as consequências dessas opções. Quando a opção deixa o outro de lado, então, o fim é quase inevitável.

Bom, agora é aquela parte em que todos acham que algo vai mal comigo ou com a minha vida amorosa. Não, descansem, está tudo óptimo. Só acho este um tema interessante, e sei que afecta muita gente. Como já passei por duas situações do género, consigo olhar para trás e ver o que falhou. E o que falhou foi, sobretudo, a falta de diálogo, ou a falta de aceitação em relação a essa conversa. E aqui está outro tópico importante: nem sempre a conversa é bilateral, ou seja, muitas vezes há uma parte que, pura e simplesmente, se recusa a ouvir ou entra em negação. E quando isto acontece, de facto, a conversa não adianta grande coisa, mas ainda assim é preferível uma conversa unilateral do que nenhuma conversa, é preferível despejar tudo, mesmo que pareça que o outro está desligado, do que não dizer nada.

A vida ensinou-me que sempre que temos um problema na relação devemos falar abertamente sobre ele. Só assim o poderemos resolver. Quem nunca tentou, que experimente. Se não resolve tudo, pelo menos, ajuda alguma coisa.

1 Comentário

  1. Não podia concordar mais e também tenho vindo a perceber isso pelo que a vida me traz e mostra ao longo do tempo. O diálogo é a peça chave para manter sã uma relação durante muito tempo e faz bem às partes da relação, não há nada guardado e sufocado na garganta, não há aquele incómodo, aquele desconforto que, quer queiramos, quer não, quer nos apercebamos ou não, vão mudando a relação e a atitude para com a outra pessoa até ao ponto de já não fazer mais sentido estar junto.
    "estar em silêncio com alguém sem sentir desconforto revela sobretudo cumplicidade" acho que isto diz tudo e concordo plenamente, este é um dos sinais de cumplicidade que mais aprecio em qualquer relação (seja amorosa ou de amizade)!

  2. Olha das melhores coisas que li nos últimos tempos. Por isso gosto tanto de te ler.
    Até vou partilhar isto com alguns amigos que precisam ler estas palavras.
    Obrigada e um bjnho muito grande.
    mais uma vez, parabens pelo talento e a habilidade que tens por escrever textos tão certeiros.

  3. Ideias bem arrumadas sim senhor. É muito, muito isto. 🙂 E também o deixa andar e o comodismo que a S* falou, o hábito de se ter sempre e não conquistar todos os dias. O deixar andar, o não cuidar, o não cativar.

  4. Não há uma receita mas definitivamente falar faz milagres!A conversar é que nos entendemos, mas é preciso ouvirmos e querermos que as coisas se resolvam!Hoje em dia muita gente não está para se chatear e ao minimo problema viram-se costas…pena!

  5. Mas a vida é mais complicada que isso. Quando se é afastado do nosso amor mais de 200 Km, quando o dinheiro é pouco e não permite viagens frequentes, nem passeios,… quando no emprego não se pode vacilar, se é explorado com excesso de trabalho, muitas vezes fins-de-semana,… a relação vai-se deteriorando e sentimo-nos impotentes para dar a volta. Lamento, mas ás vezes o diálogo não resolve.

  6. Tens razão em cada palavra, já passei por um situação que aqui descreves e a sensação de impotência e perda é horrível.
    Partilhei no meu facebook.

  7. Na mouche… faltou foi referir (conclusão minha, obviamente) que isto se trata das relações adultas e saudaveis que, NA MINHA OPINIÃO (antes que me venham bater) são normalmente "preto no branco" (no sentido que, ou as pessoas querem estar juntas e gostam uma da outra, ou nao querem – ou pura e simplesmente não estão em sintonia). Da minha parte, cada vez acredito mais que não há segredos, nem magia, nem quimicas inexplicaveis para fazer uma relação durar. há conversa, há honestidade, há caminhar para um mesmo lado. tudo o resto é (ou pode ser) irrelevante. claro q isto tem tudo a ver com a idade (ou maturidade, e há pessoas que nascem já mais maduras do que outras, a mim foi uma descoberta recente, e do alto dos meus 33 anos estou ainda a aprender a falar sobre as coisas que incomodam, sem fazer disso drama mas sim com naturalidade).
    gostei mto deste texto e partilho mto esta opinião 🙂
    Magali

  8. Falta de esforço e falta de dedicação. É isso que mata as relações. O comodismo, o "já estamos juntos à tanto tempo, não é preciso conquistar". É sempre preciso, diariamente, a todo o instante.

  9. Concordo plenamente e o facto de já ter passado por um divórcio e de ter analisado o que correu mal faz-me acreditar que para a próxima vai correr melhor e mesmo que não corra acho que os mesmos erros não devo cometer.
    bjinho 🙂

  10. é tão verdade, a parte do diálogo.
    e, ou as duas partes chegam lá em momentos diferentes, ou não entendo pq só um dos lados chega a essa conclusão.
    mas acho que é tão dificil dar esse passo, o seguinte.
    começar a pensar onde vou viver? e o que vai implicar a separação para as crianças, e sbtd ter de lutar contra tudo e contra todos que neste caso é o tal "outro" que não quer acordar/ aceitar a realidade…

  11. Grande regresso Arrumadinho! Concordo a 110%. Muito diálogo sobre o que está bem e o que está mal (discussão com gritaria não! diálogo sim!), honestidade acima de tudo, dar o murro na mesa quando sentimos que tudo está "demasiado estável", querer algo mais. Proporcionar surpresa e ser surpreendido. Querer alguma loucura, o tipo de loucura que nos desestabiliza de uma forma muito saudável.

    Orlando B (o meu primeiro comentário! Tenho-me identificado imenso com os teus textos. Grande abraço)

  12. Bem este texto é muito bom. Muito bem escrito. Estou como a Juanna, acho que o preto no branco não existe, acho que nem sempre quando se trai é porque algo está mal. Mas este texto é maravilhoso e veio numa altura certa. É verdade que há muita svezes falta de diálogo, que há afastamento. E acho que se deve fazer tudo para tentar colmatar essas falhas, porque não há nada mais doloroso do que uma separação / divórcio. E falar sobre a temática viver junto/ estar casado? É a mesma coisa, não é? Acho um tema interessante. E não penso que seria necessário justificar se a sua relação vai bem ou mal, aliás, pelo que leio nos dois blogs e sem os conhecer a vossa relação é uma inspiração para mim. Significa que depois de muita cambalhota e de bater com a cabeça nas paredes: O amor acontece. Felicidades

  13. Olá!

    Voltei a ler-te desde que voltaste à blogosfera e para variar tenho gostado mas ainda não tinha comentado.
    Comento hoje porque apesar de não ter grande experiência em relacionamentos tenho uma amiga que namora há uns anos e que não sente química com o namorado. Resultado? Traições. Apenas da parte dela claro. E convencê-la que aquela relação não a fará feliz? Impossível. Ela diz que ele tem tudo o que ela quer em alguém, que partilham planos, mas que apenas não há química.
    E eu confesso que não consigo perceber. Talvez porque não tenho grande experiência. Mas não consigo perceber que se continue com alguém com quem não se tem química.

    Beijinhos

  14. Eu só tive 1 relação de longa duração em toda a vida e foi de apenas 3 anos, em que vivi junto com essa pessoa. Por acaso não vejo que, neste caso especifico, tenha sido a falta de diálogo. Foi outra coisa que também acho que é uma das grandes "culpadas" das separações e que não é facil de identificar: falo da alteração dos objectivos.

    Olhando para trás, para essa tal relação de 3 anos, posso dizer com certeza que só deveria ter durado 2 anos, porque vi que a partir dessa altura os meus objectivos (de vida) e os dela mudaram bastante e nem nos apercebemos. Só quando a frequencia de "fazer amor" caiu a pique é que a coisa nos atingiu. Depois falamos sobre isso e decidimos que terminar a relação era o melhor.

  15. Óptimo conselho..contudo..por vezes é difícil falar quando o outro não quer ouvir..ou encarar a realidade daquilo que lhe está a ser transmitido. Por isso para além de falar há que tentar que um se coloque na perspectiva do outro e talvez assim entenda como certos "dramas" não passam de pequenas poeiras do dia a dia.

    óptimo texto, concordo plenamente!

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