Os nossos limites

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Uma das participações que me chegaram ontem por mail, de uma interessada em participar na Corrida Terry Fox, abordava um dos assuntos que acho mais importantes e pertinentes na nossa motivação para fazer seja o que for, e que encaixa naquilo que defendo e de que já falei várias vezes aqui no blogue: a determinação, o saber olhar para dentro, a procura dos nossos próprios limites.

Dizia a leitora que um dia decidiu cortar com a vida sedentária e começou a correr. Foi evoluindo até chegar a fazer 10 km. Até que umas dores a começaram a incomodar e decidiu parar. Ainda fez mais uma prova, mas depois desistiu. Agora, motivada pela história do Terry Fox, decidiu voltar, com ou sem dores, porque este atleta é a prova de que, de facto, conseguimos ir mais longe, basta acreditarmos, querermos, superarmos o que achamos serem os nossos limites físicos.

Há mais de 20 anos que corro com regularidade. Já passei por todo o tipo de dores e experiências, por desafios que achei inalcançáveis, por provas que me pareciam não ter fim. Lembro-me de ter terminado a minha primeira meia-maratona, em 1992 ou 1993, e ter achado que seria impossível algum dia correr uma maratona completa. Lembro-me de ter dores intensas em provas, de ter vontade de desistir várias vezes, de correr nos meus limites e, ainda assim, ter acelerado mais em busca de melhorar um tempo. Umas vezes consegui, noutras não. Mas tento sempre. Há dois anos, lembro-me de ter ido passar uns dias ao Algarve e ter decidido inscrever-me numa meia-maratona. Não treinava há algum tempo, estava fora de forma, com uns três ou quatro quilos a mais, e fui para a prova com o objectivo único de a terminar. Ao fim de uns sete ou oito quilómetros comecei a sentir dor de burro, o que raramente me acontece. O corpo pediu-me para parar, mas não lhe obedeci. Continuei. Uns quilómetros mais à frente, senti uma pontada forte no tornozelo esquerdo, que me causava uma dor intensa por toda a perna. Tentei por tudo esquecer essa dor. E continuei. Aos 17 quilómetros senti uma quebra física grande e comecei a arrastar-me. O relógio ia já na 1h15. Lembro-me de ter pensado em parar e continuar o resto do percurso a andar. Estava para lá dos meus limites. O corpo não dava mais. Sentia as pernas bambas, gelatinosas, sem força, a respiração ofegante, dores por todo o lado. Decidi, uma última vez, contrariar tudo isso e fazer o oposto: acelerei. Corri mais depressa do que nos primeiros quilómetros, a uma média de 4’10” por quilómetro. Fui nesse ritmo até à meta. Terminei a prova em cerca de 1h35, um tempo que não anda longe do que faço quando estou em forma (1h28/1h30). Estava arrasado, mas com um sentimento de missão cumprida, de vitória, que só entende quem corre. Esse foi, para mim, um dos maiores exemplos de que os nossos limites estão muito para lá daquilo que nós achamos. Só precisamos é de ir atrás deles, de acreditarmos, de nos superarmos.

No post anterior falei da história de Terry Fox e de como ele atravessou o Canadá de uma ponta à outra em 143 dias, correndo 5300 quilómetros, uma maratona por dia. Fê-lo com um cancro nos ossos, sem uma perna, com dores intensas e uma doença que o corroía por dentro.

Muitos de nós não corremos, não fazemos exercício, não mexemos uma palha porque somos preguiçosos, porque achamos que não aguentamos, que somos inaptos, que temos cinco quilos a mais, que temos ossos fracos, enfim, cada um inventa as suas desculpas. Quase nunca olhamos para dentro, para as nossas próprias limitações psicológicas. Culpamos tudo e todos menos a nossa inércia e preguiça.

Já recebi vários mails de leitores que me dizem que começaram a correr por lerem as coisas que escrevo no blogue sobre as provas que faço. Até poderia ter sido só um, que já teria valido a pena. Se, com este texto, conseguir desviar outra para o caminho das corridas, do exercício, então, ganho o dia.

Nada melhor do que começar já, e com esta causa nobre, a luta para a ajuda na luta contra o cancro. Sábado de manhã, no Parque das Nações. São 4 km, para fazer a andar ou a correr.

Quem se quiser juntar a mim já sabe, é só enviar-me um mail. Iremos todos juntos. Podem levar maridos, mulheres, filhos, cães, o que quiserem. O que importa é que saiam de casa e que se mexam.

18 Comentários

  1. Se for progressivo, não acho que seja perigoso. Não me parece que alguém sedentário, no seu perfeito juízo, vá logo correr 20km. Pode começar com uma caminhada diária e ir evoluindo (:

  2. Correr em extremo esforço tem varias contraindicacoes. Agora todos têm de gostar de correr. É bem. Há formas bem mais equilibradas e saudáveis de manter a actividade física.

  3. Nada melhor do que testar os nossos limites. E aqui depende sempre de cada um. No meu caso, algumas dores são sinal de que devo continuar com o exercício pois só assim passam. E conheço também muito bem aquelas que mal dão sinal servem para que perceba que tenho de parar. O facto de fazer desporto desde pequeno (tenho 31 anos) faz com que conheça as dores muito bem.

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

  4. Vá conveceste-me hoje vou fazer o treino de taekwondo que não me apetece nada fazer…

    P.S. E os blogues ali ao lado » já não se actualizam? :)É que nem sequer os blogues da semana… :)))

    DESBOCADO!

  5. Li no texto exactamente o mesmo problema: não é prudente incentivar que se corra com dores sem se ter a experiência suficiente para perceber o que é uma dor por falta de energia ou uma dor que pode causar lesões permanentes.

    Dor nos joelhos, por exemplo, é muito raramente um sintoma que se deva ignorar.

  6. Cara Ana, eu não estou a aconselhar as pessoas a correrem com dores intensas. Há que saber perceber o nosso corpo. Precisamente por correr há mais de 20 anos é que sei o que são dores que podem resultar em lesão e o que eu chamo de dores psicológicas. Mas este texto é sobretudo para quem nunca se decide a começar porque acha que não vai conseguir, por mil e uma razões. E para quem pára aos 500 metros porque sente uma dor de burro, ou acha que tem uma dor num pé, que passa ao fim de 2 minutos. Todo o esforço causa desconforto, que muitas vezes é confundido com dor. É preciso entender que para chegarmos aos nossos limites temos de sentir dor, cansaço, exaustão. Só assim se evolui. Temos é de ter força para nos superarmos. Mas, obviamente, não estou a falar de casos clínicos sérios.

  7. Mas não me parece sensato aconselhares as pessoas a correrem com dores intensas. Porque as dores servem para alertar que algo no corpo não está bem. Portanto, correr sim, acho muito bem, mas com cuidado e sensatez. É que por vezes fazemos asneiras – pioramos hérnias, joelhos, etc.- precisamente por querermos excessos desnecessários.

  8. O meu marido anda a desafiar-me há imenso tempo para ir andar de bicicleta com ele, e eu vou adiando… Já chega! Amanhã é o dia! Chega de sedentarismo, desculpas e preguiça. Vou mesmo amanhã. Prometo. Obrigado pelo empurrão que era preciso.

  9. Boas Ricardo

    Só um reparo. O Terry Fox não atravessou o Canadá de uma ponta à outra. Esse era o objectivo inicial, mas quando ia sensivelmente a meio da aventura – em Ontario – foi hospitalizado e descobriu-se que o cancro se tinha espalhado pelo resto do corpo. Morreria cerca de seis meses depois.

    Abraço e boas corridas

  10. Vou ser muito sincera. Gosto de ler o blog mas hoje quando aqui cheguei levei com uma janela gigante de publicidade a "piscar" e quando fui para comentar, novamente a dita janela. Perdi a vontade de falar sobre o post. :/ Não tenho nada contra terem publicidade, mas como em tudo, quando é exagerada chateia.

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