Os miúdos e o desporto

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Desde que me lembro de existir que tenho uma ligação directa ao desporto. Em miúdo joguei futebol, fiz atletismo, fui atleta federado de andebol, jogava na equipa de voleibol do desporto escolar e passava horas agarrado à bola, fosse ela qual fosse. Na altura era apenas paixão, mas hoje tenho a certeza que esta vivência, esta cultura desportiva, fizeram de mim uma pessoa totalmente diferente daquela que seria caso isto não tivesse acontecido.

Penso muitas vezes nisto quando olho para as gerações mais novas, que se interessam cada vez menos pela rua e cada vez mais pelas actividades electrónicas. Para os miúdos que hoje têm entre os quatro e os dez anos jogar futebol é jogar FIFA, fazer um jogo é brincar numa consola, num iPad ou num iPhone. E isso preocupa-me. Claro que depende muito dos pais alterar isso, mas também não acho que o problema se resolve unicamente com uma mudança de atitude dos pais. O mundo é hoje diferente, as cidades são diferentes, o estilo de vida é diferente, e, numa grande cidade, como Lisboa, é muito mais difícil que as crianças se encontrem numa esquina de bairro para jogarem à bola, como eu fazia quando era miúdo.

Pôr as crianças a mexerem-se é importante, e é relativamente fácil. Mas não é só disso que eu estou a falar. A cultura desportiva é mais do que simples exercício, é competição, é responsabilidade. Quando era miúdo, sabia que tinha horários dos treinos, tinha jogos aos fins-de-semana, tinha de me aplicar para poder ser titular, sabia que o meu rendimento dependeria do meu empenho nos treinos. Ou seja, mesmo com 10/12 anos já tinha uma série de obrigações que me forçavam a ser responsável, aplicado, disciplinado, a entender o trabalho de equipa, a perceber que o meu desempenho individual afectava o rendimento colectivo. E isto acontecia cinco ou seis vezes por semana, sempre que treinava ou jogava. E via-se em coisas tão simples como o ter de preparar as malas para os treinos, ter a preocupação de ter sempre roupa limpa e pronta para treinar, levar tudo o que precisava, chegar sempre com antecedência para me poder equipar e aquecer em condições. E acho que é esse sentido de responsabilidade que não se vê tanto nas crianças de hoje.

O outro lado desta questão, e que referi há pouco, complica muito mais as coisas. No meu tempo, eu ia a pé ou de autocarro para todo o lado, percorrendo distâncias relativamente grandes. Tinha chave de casa, andava à vontade na rua, ia ter com os meus amigos a descampados, a campos de futebol de areia que conhecíamos ali por perto. Hoje, também acho que isto tudo é muito mais complicado, também por “culpa” dos pais. E meto aqui umas aspas porque não acho que seja bem uma culpa. Eu próprio, não me sinto preparado para deixar o meu filho mais velho a andar sozinho na rua em Lisboa, e ele já vai fazer sete anos. Mesmo sendo um miúdo responsável, não me sinto seguro só de pensar que ele teria de atravessar estradas sozinho. Muitas vezes penso nisso, e no quão bom seria se eu lhe pudesse dar mais liberdade e responsabilidade, mas talvez ainda seja cedo para isso. Mas mesmo que eu o deixasse ir brincar para a rua com os amigos, por exemplo, seria preciso que os outros pais também deixassem – e não deixam. Seria preciso que eles tivessem campos de futebol ou descampados para jogar à bola ao pé de casa – e não têm. Seria preciso que houvesse uma cultura de rua – que se perdeu.

Não sei, sinceramente, qual o caminho para contornar isto. O que sei é que o desporto federado e competitivo pode, ainda, ajudar a colmatar este buraco que existe na sociedade actual. Porque quando se compete, quando se faz parte de uma equipa, sabe-se, pelo menos, que haverá um espaço para se praticar desporto, e que a determinadas horas os amigos vão aparecer, e ninguém vai ter a missão de levar a bola – ainda que cheguem pela mão (ou pelo carro) dos pais.

13 Comentários

  1. É pá…afastei-me um pouco do tema do post. No meu tempo jogávamos à bola na praceta atrás do meu prédio…tínhamos marcações e tudo no alcatrão. Quando um carro estacionava no meio ficávamos doidos de raiva, hoje às 6 da tarde a praceta está à pinha. Não há espaço para se jogar á bola. Tudo isto aliado ao que disse no outro post explicam o pq das coisas serem diferentes.

  2. Nascido e criado na Ajuda e em Alcântara aos 10 anos já tinha chaves de casa e ía para a Escola Paula Vicente a pé. Um dia a minha mãe estava atrasada para me ir buscar ao colégio e fui a pé até casa que passei a fazer o caminho todos os dias sozinho. Tinha uns 7/8 anos.
    Na rua ficávamos a brincar até às tantas (nas férias ou fim de semana, claro).

    Hoje as coisas são completamente diferentes. Os perigos são outros. E temos que dizer o que realmente pensamos: naquele tempo ninguém tinha o medo de que aparecesse alguém e levasse uma criança. Não existia esse medo nas pessoas, hoje existe. E com razão. Naquele tempo já havia chungas, já havia putos a assaltarem outros putos, já havia perigos mas era raro a confusão que envolvesse facadas e ainda mais raro pistolas. Era tudo resolvido com empurrões e uma ou outra chapada. Hoje é diferente.

    Não é culpa dos pais (e eu não sou pai), é culpa da realidade, dos tempos duros e crueis que actualmente temos que suportar.

  3. Tenho sentimentos mistos quando leio o seu texto. Na teoria concordo com tudo, mas na prática…

    Tenho dois filhos, 6 e 4 anos, tento levá-los à rua o mássimo possível e acho o desporto importantissímo. A mais velha anda no ballet e natação, o mais novo ainda só anda na natação, por mês 86 €. Se o colocar no futebel são mais 60€. Podem-me dizer que existem outras alternativas mais baratas, mas para quem sai de casa às 8:30 e regressa às 19:30, as alternativas são escassas e o orçamento não estica.

    Quanto ao brincar na rua, ainda não são independentes, para eles irem eu tenho de ir. Com a idade dela eu já brincava sózinha na rua, mas os tempos são outros, não podemos comparar.

    Eu tenho a sorte de poder pagar a uma empregada, por isso posso ao fds sair com eles em vez de ficar nas limpezas, de qualquer modo, muitas vezes depois de os deitar, fico a trabalhar até às 2, para acordar às 7 com a ‘alegria matinal’ imposta por eles. Nessas alturas deixá-los com a televisão ou jogos é o mais fácil… Nós não somos perfeitos.

  4. ihhhh, chupar azedas!! Já não me lembrava disso. Fez-me recuar uns bons anos… parece que foi noutra vida. E sim, vivo e vivi sempre em Lisboa. Nos anos 80, em que não havia telemóveis, era possível os miúdos de 10 anos andarem na rua sozinhos. A campainha de casa era uma coisa que funcionava efectivamente e as pessoas não sabiam mesmo quem estava lá em baixo. Quase ninguém telefonava a avisar. “Bora tocar no fulano, a ver se ele pode descer…” e era assim, mesmo em Lisboa.

  5. Acho que em Lisboa também é bastante diferente, é uma responsabilidade diferente para os pais ! A verdade é que se vê muito menos crianças na rua a brincar e mais agarrados a pc/ipad/iphone/PSP mas isso também tem um pouco a ver com o meio ambiente e com o próprio interesse da criança. O meu sobrinho adora pintar em papel, fazer desenhos, fazer aviões mesmo com ipad à mão.
    Aqui na minha rua ainda se brinca na rua, de verão mais ! Os miúdos encontram-se às 18h e ficam até 20h/21h, crianças desde os 4 aos 12 anos, andam de bicicleta jogam apanhada, à bola ao lencinho e depois jantam na casa umas das outras. É uma urbanização e não passa carros quase nenhuns e eles próprios tem algum cuidado e tomam conta uns dos outros.

  6. No seu tempo fazia todos esses desportos e provavelmente não pagava um cêntimo. Hoje em dia um filho em tantas atividades desportivas como as que referiu ficaria por uma pequena fortuna. O desporto transformou-se num negócio lucrativo sobretudo nas camadas mais jovens. Isso dá que pensar, não?

  7. Toda a razão! Eu tenho sensivelmente a sua idade e cresci na rua…mas no bom sentido, não estava abandonada. Eu e tantas crianças da geração de 70… Sujávamo-nos, brincávamos, corríamos, etc etc chegava a casa depois de um dia quase inteiro na rua onde iamos de lanche na mão. Isso e tanta coisa que se perdeu. E porquê? Por medo, comodismo e também pela tecnologia que os miudos têm hoje ao dispor. Jogos de PC Playstation etc. Não sei se é melhor ou pior mas eu não trocava o bate pé, o elástico, a ceruma, a macaca e o ter chupado as azedas, por nada deste mundo!

  8. Concordo 100%. Sendo Mãe de 2 rapazes (a caminho do 3.º, provavelmente) acho importantíssimo terem desporto – sobretudo de equipa – na sua formação.
    Para colmatar as falhas que referiu estou a pensar inscrevê-los num colégio que tenha uma oferta desportiva muito alargada e este será um dos principais factores de escolha da escola. Tão ou mais importante que o projecto educativo.

  9. Quando tinha 12/13 anos, tendo hipótese de ir para a escola de carro, os meus pais preferiam que fosse de autocarro. Não é levando e buscando sempre os filhos à escola, que eles vão ser pessoas desenrascadas. Entendo que, numa grande cidade, as coisas sejam um pouco mais complicadas mas em todos os outros casos, penso que é importante que os jovens vão fazendo as coisas sozinhos.

  10. É se facto, um problema os miúdos hoje em dia meterem-se a jogar playstation em casa e não irem para a rua perder umas calorias e divertirem-se com um joguito de futebol. Ainda ontem uma senhora me contou que estava a ficar desesperada porque o filho não saía de casa apesar de estar um belo dia de Verão. O mais caricato é que na rua onde a senhora mora, as casas são do tipo em banda, todas as casas têm miúdos e esses miúdos muitas vezes estão todos na net a falarem e a jogarem jogos uns contra os outros, quando podiam perfeitamente sair de casa e continuar a jogar uns com os outros mas, jogos reais, no mundo real. É pena… Mas tal como você diz, não sei qual será a solução para isto.:(

  11. A verdade é que os miúdos agora não querem outra coisa a não ser que, como dizes no post, os pais “contrariem” ou criem outros hábitos desde pequenos. Porque aqui o papel é dos pais pois como se costuma dizer “de pequenino se torce o pepino”. Por isso cabe à entidade parental criar outros hábitos de modo a contrariar esta tendência de substituir todas as brincadeiras por objetos tecnológicos. Eu vou tentar fazer isso..

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