Os corta-tesão profissional

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Faz-me alguma confusão ver casais que não se apoiam, que são desligados dos projectos e ambições um do outro, gente que só pensa em si e nas suas coisas, deixando que o outro pense nas coisas dele e trate das coisas dele. O individualismo está cada vez mais presente, talvez por culpa do estilo de vida que promovemos, dos ritmos dos nossos trabalhos, que não permitem que se chegue a casa às cinco e que se vá passear, ou que se fique a falar sobre o dia, ou que se partilhem grandes coisas. Por norma, chega-se a casa a tempo de fazer o jantar, janta-se, arruma-se a cozinha, trata-se dos miúdos e quando se olha para o relógio são 22h30 ou 23h e já não há tempo para muito mais.

Mas isto não desculpa o desinteresse pelos projectos e ideias do outro. Há sempre um dos membros do casal que é mais dinâmico e aventureiro, e outro menos ambicioso, mais resignado e menos activo. Muitas vezes, os problemas estruturais das relações vêm desse desequilíbrio de forças e ambições, do desgaste que uma das partes sente por não se sentir apoiado, ou por sentir que o outro não o acompanha em quase nada, não o ajuda a sonhar, e nem sequer se dá ao trabalho de promover dias diferentes, preferindo sempre as zonas de conforto, as tardes no sofá, os passeios de sempre, as rotinas instaladas.

Da forma como as coisas estão, com um mercado cada vez mais exigente, e em que as empresas se veem obrigadas a cortar gorduras (que muitas vezes são trabalhadores dispensáveis), torna-se imperativo que todos sejamos mais activos, mais empreendedores, mais imprescindíveis. Isso dá mais trabalho, obriga-nos a sair das tais zonas de conforto, mas também nos torna melhores profissionais, pessoas mais interessantes e atentas a coisas que normalmente nos passavam ao lado.

Só que estas pessoas – as naturalmente dinâmicas, ou as que aprenderam a sê-lo – têm de ser acompanhadas em casa nessas suas ambições, ideias não podem esbarrar contra muros de indiferença, que só servem para travar sonhos e amputar projectos que até poderiam ser interessantes. A sensação de chegar a casa cheio de adrenalina para fazer qualquer coisa nova, para avançar com uma ideia que se teve e que anda a fervilhar na cabeça há dias, falar com o parceiro sobre isso e ter como resposta um “ah, que giro, mas olha, tens de ir lá abaixo comprar rabanetes para a sopa” é o que eu chamo de corta-tesão profissional. Um homem ou uma mulher com ideias e ambições que tenha como companheiro alguém mole e desinteressado dificilmente será feliz. E pior: o mais provável é a pessoa mais ambiciosa anular-se, deixar-se vencer pelo cansaço, e desistir da sua forma de ser, contrariar a sua natureza, deixar-se escorregar para o sofá, que até é confortável. Quando assim é, todos perdem. A pessoa, o casal, o país.

1 Comentário

  1. porque é que os que não querem fazer parte das estatísticas de todas as doenças do século… o stress,são os culpados ? afinal também tem direito ao seu sossego ao seu momento de paz…

  2. Bom dia!Escrevo-lhe não para comentar este seu post mas para fazer-lhe umas perguntas.As minhas perguntas abrangem os problemas dos cidadãos em geral e os meus problemas em particular.O sr. é jornalista certo? E as minhas perguntas vão incidir sobre este campo.

    Porquê que os jornalistas que entrevistam o 1º ministro ou um outro qualquer ministro não os confrontam com as seguintes perguntas:

    A 1ª pergunta é a seguinte: "se estão a pedir aos cidadãos esforços, se estão a cortar com os subsídios de férias e de natal aos funcionários públicos, porquê que não são vocês os primeiros a prescindirem desses mesmos subsídios?"

    A 2ª pergunta: "porquê que estão a cortar esses mesmos subsídios a pensionistas que nunca foram funcionários públicos, que desde os 15/16 anos trabalharam no privado e que a sua reforma é fruto desse seu trabalho?"

    A 3ª pergunta: "porquê que pensionistas que recebem duas reformas, uma de 300€ do trabalho que fez em França e outra de 150€ do trabalho que fez em Portugal, estão a ser cortados em 100€/150€ porque, segundo a segurança social, não podem auferir duas reformas(miseráveis) e depois existem senhores e senhoras, como o Sr. Cavaco Silva , a Sra Presidente da Assembleia da República, a Sra Ministra da Justiça e tantos outros que auferem reformas milionárias e ordenados milionários e essas situações não são depois "revistas" como são "revistas" as reformas miseráveis?"

    As perguntas seriam muitas mas o espaço é pequeno e o seu tempo deve ser precioso.

    Apenas gostava que houvesse algum jornalista que não tivesse medo de represálias/despedimento/ despromoção e que fizesse perguntas para as quais nós, todos os portugueses, gostariamos de ver respondidas.

    Sou uma cidadã atenta ao que se passa em meu redor. E o que vejo nos telejornais nacionais, o que leio nos jornais nacionais dá-me a clara sensação que existe censura "disfarçada". Vejo a CNN e fico espantada quando lá oiço assuntos tão importantes sobre Portugal e quando tento ver se o mesmo assunto vai ser passado nos nossos telejornais e…nada.

    Peço, desde já, desculpa por este meu pequeno desabafo. A minha revolta é pessoal, familiar e social. Estou preocupada comigo, com os meus e com este país em geral. Injustiças sempre houveram, existem, e continuarão a existir mas tão à descarada e tão às claras é que penso nunca tinham existido.

    Cumprimentos.
    Sónia Barreto
    sonia_barreto@hotmail.com

  3. «Só que estas pessoas – as naturalmente dinâmicas, ou as que aprenderam a sê-lo – têm de ser acompanhadas em casa nessas suas ambições»
    Não necessariamente. Ajuda, é certo. Mas o companheiro/a não deve ser a única fortaleza nas nossas vidas. Ou então coitados dos solteiros, como é o meu caso. Chego a casa e não está lá ninguém, quer tenha eu projectos, quer não tenha. Mas nunca me faltou apoio. O apoio tem que vir de dentro de nós, acima de tudo. É bom ter família e amigos com quem e a quem contar, deve ser muito bom ter um companheiro ali nos bastidores, pronto para tudo, mas, mesmo sós, só escorregamos para o sofá se quisermos.

  4. Caro "Arrumadinho",

    Fiz copy/paste do seu comentário, embrulhei em papel verde ("o mais que tudo" é sportinguista, vá-se lá saber porquê) e enviei directamente para o mail. Ao conversar entretanto com a criatura do meu coração, perguntou-me,se "aquilo era para ele" (entre risos). Parece-me a mim que surtiu algum efeito as suas palavras, pelo menos naquele dia. Falou imenso (coisa rara) perguntou-me, partilhou e pareceu interessado. Veremos se é para continuar. De qualquer maneira, um grande OBRIGADA.

    Beijinho de uma leitora um pouco mais feliz.
    CA

  5. Mas como sabes que saem todos a perder?
    Se para ti não funciona, talvez para outros casais funcione precisamente assim!

    Trata lá da tua vidinha e deixa de fazer juízos de valor sobre a relação dos outros.

  6. Abre Latas não deixa mesmo de ser irónico…e va lá deixarem-me ter uma conta no banco já é uma sorte 😛 Obrigado pelas ideias, mas já existe tudo o que sugeriste. Sim sei que para quem vive em grandes cidades o Algarve é provincia, mas não é, há mesmo tudo o que possa imaginar. Bom, se isto continuar assim vou para Freira.Não pago renda, nem comida e ainda ganho um lugarzito no céu 😉

  7. Não poderia concordar mais! Chegarmos a casa cheios de energia e termos a pessoa que mais nos deveria apoiar, a cortar-nos as pernas deve ser mesmo horrível…

  8. Pois é, em geral os bancos só emprestram a quem já tem dinheiro. Irónico , não é?
    Depende da área em que queira trabalhar, mas por vezes com amigos, familia, conhecidos começar qualquer coisa… tipo uma associação para… baby-sitting? Pet-sitting (já existe em Lx)? Cuidar de jardins das familias estrangeiras que não vivem aí todo o ano? Sei que havia/há (?) apoio para a abertura de livrarias em zonas onde elas não existam…
    Boa sorte :))

  9. Abre latas, obrigado pela preocupação. Eu acho que a malta se esquece que para se investir, ser empreendedor e todas essas coisas que se adora falar em tempos de crise, tem de haver capital, dinheiro, guito, como lhes queiram chamar. Os bancos não emprestam,e eu,no alto dos meus 26 anos e a ganhar o ordenado minimo desde que trabalho, não consegui juntar nadinha. Ideias???

  10. No meu caso foi isso mesmo. Pedi a separação por não cuidar, por não se interessar. O amor tinha morrido e eu não me reconhecia mais. Ele implorou, a família meteu-se ao barulho. E ele regressou. E ele mudou, para melhor. E agora eu disse-lhe que, embora ele tenha tudo feito e dito, a verdade é que não o amo mais. E agora? Vale a pena esperar que o amor volte, se é que volta? Ou seguir c a minha vida e fazer acontecer as coisas?

  11. Assim como aqueles que são mais activos tê que ser acompanhados nos seus projectos, também os que são menos activos têm que ser acompanhados ao estarem na sua zona de conforto.

    Significa isso que aqueles que são menos activos não têm lugar nesta sociedade? Que todos somos obrigados a nos superarmos dia após dia? No trabalho acredito que sim, que devemos ser bons. Já na vida pessoal há quem prefira aproveitar a vida, ao invés de andar numa correria a tentar fazer tudo e mais alguma coisa. E se aproveitar a vida for passar tardes no sofá, ao invés de fazer uma coisa diferente a cada tarde, óptimo. Desde que as pessoas se sintam realizadas tudo bem.

    Não me venham é dizer que quem não está tão motivado para outras aventuras é pior do que aqueles que estão, ou que não têm lugar na sociedade.

    O que me parece é que este post está a misturar vida profissional com vida privada. E se na vida profissional temos q ser competitivos e melhor q os outros, talvez haja quem na sua esfera privada prefira não ter essa postura. E isso é tão válido quanto o oposto

    Afinal não são só os menos activos que têm que acompanhar os mais activos. O oposto deve igualmente suceder.

  12. Hei..cheguei!
    Mais um "BRAVO" para a forma como expões as tuas ideias, usando as palavras com toda a frontalidade e clareza.
    Querido arrumadinho gostas de escrever e eu gosto de ler os teus posts, principalmente quando dás aso ao teu tão peculiar sentido de humor, intercalando a "chalassa", no texto, sem lhe retirar a essência.
    – «Os rabanetes para a sopa» divertiram-me búe, porque adoro ser surpreendida e tu tens esse "dom" que eu admiro.
    A vida é agridoce, mas o + importante é no momento certo saber introduzir o ingrediente secreto de modo a suavisá-la.
    -BEM HAJA!
    "PRECISO DE TI".
    Beij.K:).

  13. Tens toda a razão, revejo-me no que escreveste e o meu enredo tornasse mais complexo porque envolve o elemento feminino que me faz-me sentir grande e existe a oficial que pura e simplesmente não me valoriza e me faz muitas vezes pensar se vale a pena…continuar.
    S.

  14. Possa, deixas um tipo em introspecção a meio duma sexta-feira…

    Eu vejo isto como um post em cadeia. Ligo este a outros. E às tantas estou a meditar na vida. O que é bom, mas também é mau 🙂

    És "gajo", mas sabes escrever, especialmente nestes assuntos.

    Bom, vou saltar duma ponte a 300 metros de altura, no meio do Ártico, só para voltar a "enrijar"…

    http://simaoescuta.blogspot.com

  15. Há várias maneiras de ver a situação. Claro que se alguém trás consigo uma ideia empreendedora o outro deve apoiar. "Hoje por mim, amanhã por ti"… mas que dizer dos vendedores de vento, que todos os dias chegam a casa com uma ideia nova? E aquelas que para singrarem necessitam tanto, mas tanto do apoio do outro, que este corre o risco de ter que abdicar de si próprio para viver o sonho de alguém e que no fim até poderá vir a não participar nele?…
    Eu concordo genericamente com o texto, no entanto é preciso ter em atenção que um projecto para ter a participação de duas pessoas, terá que ser motivador para ambas, sob pena de se transformar num objecto narcisico para um e parasitário para o outro.

  16. A sociedade actual fomenta o individualismo, é um facto. Mas, como em tudo, só "vai atrás" quem quer!
    No caso das relações podemos falar de um individualismo q.b., que significa não nos anularmos e respeitarmos o espaço de cada um. Mas claro que tem de haver apoio, confiança e respeito (além do amor, claro 🙂 ), não só na questão das ideias como em tudo o resto!

    Quanto à questão do mercado de trabalho actual valorizar certas e determinadas características, infelizmente tenho de concordar pois é o que se vê e é o que é.
    Agora, se isso é bom? Na minha opinião, não. O sucesso está na diferença. De opiniões, de experiências, de personalidades. Por estas e por outras é que este país não anda para a frente!

  17. Belo texto, só com um ou dois senão:
    Rabanetes na sopa ??
    Desculpe mas esta coisa de "embora lá agora ser melhor profissional por causa da crise" é altamente irritante: sou trabalhadora indepentente há dezoito anos – se não fosse boa estava tramada! E como eu, muitos!
    Acho uma "filha da mãezisse" a forma como só agora certas empresas usam a crise e o medo do desemprego para exigir este mundo e o outro aos seus empregados – com tudo o que isso implica a nível familiar-, tal como acho impensavel que cada um não faça o seu melhor quando trabalha!

    Menina Perdida uma sugestão: tem que ser algo que goste, que conheça bem e/ou que tenha futuro. Que tal turismo da natureza p. exp?

  18. Tenho medo de ser ou de me tornar uma "corta-tesão profissional"…Já mandei o post por email ao meu namorado com a seguinte nota "Espero não ser uma…" 🙂

  19. Arrumadinho mais um post para eu reler todos os dias….
    🙂
    queria pedir-te um favor se podias ir ver o meu post de hoje que é sobre a "mão do homem" mais propriamente sobre se o dedo anelar é maior que o indicador…caso seja é suposto a pessoa ter predisposição para trair……gostava de saber a tua opinião!
    se dizer de tua justiça eu gostava muito! desde já obrigada!
    o post é de dia 27-01-2012 quando tiveres tempo….
    um bom dia!!

  20. Gostei do post, mas fala-se muito em ideias novas, em investir em projectos, em pessoas empreendedoras…Eu como desempregada,quase que me sinto uma atrasada mental quando se fala destas coisas. Eu vivo numa cidade pequena,Portimão, mas que tem 2 shoppings, 11 supermecados, lojas de tudo e mais alguma coisa, vou investir em que? Ideias?
    Beijinhos

  21. E este texto vai de encontro com aquele que escreveste sobre os exigentes e os desleixados: quando há alguém que se acomoda e outro que investe na relação, a coisa está condenada.
    E quando se investe na relação também passa muito por isto do apoio e incentivo aos projectos da cara-metade, sendo que, como alguém disse aqui – e muito bem -, esse apoio possa passar pela simples disponibilidade para ouvir.

  22. Muito bem escolhido este tema! Muito bem lembrado!
    Mais uma vez gostei do teu post!
    Acho que tens toda a razão, nada pior do que termos ideias e não sermos acompanhados pela nossa cara metade, que devia ser aquela pessoa que mais nos deveria apoiar nos nossos sonhos e projectos!
    É claro que, por outro lado, também é bom haver alguém mais moderado ou sensato para colocar um freio caso o outro seja demasiado sonhador e irrealista porque isso depois também pode trazer maus resultados…
    Por isso considero que é muito importante num casal haver este equilíbrio a nível profissional e de projectos, nem corta-tesão como lhe chamas, nem mais maluco do que o outro 😉 senão a coisa pode não dar certo ou então, alguém não será feliz…

  23. O problema pode ser na exequebilidade do projecto em si, e se o mesmo vingará ou não. É óbvio que só se saberá se se arriscar, mas isso não basta.Há mais projectos mais fúteis e básicos e podem resultar, e outros mais complexos que na actual conjuntura económica, saberemos à partida que vão ser um fiasco. É necessário haver equilíbrio em tudo, até nas relações.

  24. Infelizmente esse é um mal presente nas relações amorosas, familiares e nos círculos de amigos. Façam o favor de dar mais atenção aos que vos rodeiam, não sejam egoístas e seremos todos de certo mais felizes!

  25. Mais uma vez muito bem escrito!
    Vive-se num individualismo cru e duro. A partilha faz parte do dia a dia… E todo o resto está no texto.
    Bjinhos. 🙂

  26. Há uma coisa que se chama: personalidade.

    E segundo uma teoria da personalidade bastante conhecida : Eneagrama, há 9 tipos de personalidade.

    Os do tipo 3 por exemplo são ambiciosos, vaidosos e adoram ser o centro das atenções. Os do tipo 6 são medrosos que até dói.
    Os tipos 7 só levam a vida a rir e por aí adiante…

    Ora, pondo isto,nem toda a gente gosta de arriscar..e como tal essa mentalidade pacóvia de que só as pessoas ambiciosas e extrovertidas e dinâmicas…tem lugar nesta sociedade….então vivemos na mais pura ignorância!!!

    PS: Até o Fincher necessitou agora no seu novo filme um estudo sobre isso e conseguiu mt bem uma personagem do tipo 5.

  27. Não é um exercício fácil. Exige alguma elasticidade de parte a parte.
    O cansaço impera e, por vezes, leva a melhor, mas aqui por estas bandas existe a facilidade de saber ouvir o outro e opinar/apoiar/contrariar.

    O que nem sempre leva a algo de concreto. Mas saber que alguém está disponível para ouvir já é reconfortante q.b.

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