Os 70s

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Há sensivelmente ano e meio decidi mudar de vida. Estava num jornal diário que admirava, que tinha um enorme potencial de crescimento, onde trabalhavam excelentes profissionais, mas que me obrigava a passar pelo menos 12 horas por dia na redacção, seis dias por semana. O desafio era grande, mas esgotava-me. Impedia-me de ter vida familiar, de estar com o meu filho, com os amigos, com a minha mulher. Acho que quando temos 20 anos ligamos pouco a isso, e eu já fui desses, dos que se entregam a 200 por cento, que trabalham 14 ou 15 horas seguidas, 10, 12, 14 dias seguidos, se preciso for. Andei nessa vida dos 20 aos 32 anos, sempre em jornais diários, em desportivos, em jornais online, tudo publicações que nos sugam toda a energia, que nos desfocam da vida fora das redacções, que nos distanciam das pessoas que amamos, sejam os pais, avós e irmãos, sejam a mulher ou os filhos. Mas acho que jornalista que é jornalista, de coração, entrega-se sempre ao trabalho, principalmente quando está nos vintes, quando sente a profissão a pulsar, quando a adrenalina de uma reportagem, de uma grande história, de um acontecimento de última hora, de um exclusivo, é mais importante do que ir para casa mimar a família.

Ao fim de mais de 10 anos nesse ritmo, apeteceu-me parar, inverter prioridades na vida, continuar a ser o melhor profissional possível, mas também um melhor pai, um melhor marido, um melhor filho, amigo ou irmão. Esta decisão coincidiu com um convite para fazer parte da equipa da revista SÁBADO. Aceitei-o. Foi no final de 2010. A altura em que a minha vida mudou, e mudou para melhor.

Profissionalmente, encontrei uma das melhores equipas com que já trabalhei. Gente focada na revista, que sabe o que quer, que sabe para o que trabalha, que rema toda para o mesmo lado. Encontrei uma revista à minha imagem, onde as coisas acontecem, onde as boas ideias se concretizam e não ficam por discussões malucas de café, onde é possível ser criativo e passar essa criatividade para as páginas da revista. Na SÁBADO, há um nível de exigência onde nunca encontrei noutro sítio, porque se acredita que é exigindo o impossível que se consegue o melhor possível, porque se cultiva a certeza de que as pessoas têm de dar o melhor de si, porque é para isso que são pagas, porque não há lugar à preguiça, e pede-se sempre mais um retoque, mais uma emenda, até se chegar ao melhor texto possível.

Numa das últimas reuniões, falou-se na hipótese de fazer uma revista dedicada aos anos 70 – a propósito do 25 de Abril. A ideia foi ganhando forma e concretizou-se (já disse que aqui as coisas acontecem, não disse?). Amanhã, nas bancas, vai estar uma revista diferente. Um grafismo vintage, inspirado no que se fazia nos anos 70, uma reportagem com vários políticos de hoje a fazer os famosos testes da quarta classe dos anos 70, um texto meu sobre como o futebol português seria diferente se três decisões importantes tivessem sido tomadas de outra forma e vai haver também uma fotonovela protagonizada por alguns jornalistas da revista (eu sou um deles). Esta fotonovela deu imenso gozo e demonstra não só a união que há na revista, como o facto de os jornalistas não terem preconceitos em dar a cara em paródias, sem aquela conversa da treta de que, com isso, vão perder credibilidade, ou vão deixar de ser levados a sério. Aqui não há isso, e ainda bem que não o há. Todas as pessoas que participaram desta produção são grandes profissionais, pessoas fundamentais no funcionamento da revista, e que admiro enquanto colega e jornalista.

Por achar que este é um produto que vale mesmo a pena, por ter orgulho no resultado final, aconselho-vos a comprarem a SÁBADO de amanhã. Nem que seja para ver a minha figura na fotonovela.

1 Comentário

  1. Como eu compreendo!!
    Compreendo o que deve significar mudar para uma equipa em que TODOS dão o seu melhor e não se cede à preguiça ou desenrasque rasca…

    Como eu compreendo!!
    As horas e horas no trabalho, em semanas sem fim-de-semana e como as coisas mudam quando os 20 são uma miragem…

    Sorte a tua.
    Muita sorte (além de trabalho, claro) em encontrar um «oásis» assim.

  2. De vez em quando compro a Sábado. E ainda ficou melhor com o suplemento Tentações. Parabéns pelo vosso trabalho e continuem sempre a inovar! E a enriquecer culturalmente os portugueses.

  3. A revista Sabado e Excelente..sou leitora assidua ha alguns anos! E credivel tem humor e devia ser de leitura obrigatoria…e pena ser um pouco cara mas vale a pena!
    Parabens pelo blog e pelo livro.
    Silvia [Braga)

  4. A avaliar pela expressão facial, o Miguel Frasquilho, teve dificuldades no exame da 4ª classe. Não sou desse tempo, mas, pelos vistos vem confirmar da sua dificuldade a que os mais velhos tanto se referem.

    João Pedro.

  5. Muito bom!! Uma bela ideia, como já se espera da revista Sábado.

    Amanhã é certinho que vou comprar.

    Quanto ao video… já valeu pela bela música, não podia ser outra! E claro, por ter ver à anos 70 (o risco ao meio está demais!!!)

    Beijinhos

  6. Belo post! A primeira parte está muito bem explicada. Tal como tu também sou jornalista e é uma grande verdade que é uma profissão que nos consome grande parte do dia. Hoje em dia… ainda mais com constantes ameaças de que o mercado está complicado, etc e tal. Seja como for, dou-te os parabens pelo teu percurso e pelas mudanças que fizeste.

    Em relação à ideia dos 70. Muitos parabens e estou curioso para ver o resultado final.

    Abraço
    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

  7. Eu sou finalista do curso de Ciências da Comunicação e confesso que também sempre receei um pouco esse trabalho exaustivo dos jornais diários. O trabalho do jornalista é, sem dúvida, um desafio constante e que acaba por ter muito pouco de aborrecido, já que todos os dias podem perfeitamente ser diferentes uns dos outros. Mas, ainda assim, é só um emprego e há muito para além disso.
    No teu lugar, creio que também não tinha pensado duas vezes antes de tomar a minha decisão de trocar de vida profissional. Sobretudo porque essa escolhe envolvia a revista Sábado.

    A ideia foi, no mínimo, genial. Estou bastante curioso para ver qual foi o resultado.

  8. Olá Ricardo.

    Sou o Ricardo (lol) e sigo o teu blog desde a versão 1.0. Final da primeira fase, mas ainda assim li algumas coisas dessa versão. Raramente comento, mas hoje não podia deixar de comentar.

    Vou comprar a revista sábado amanhã, pois estou a realizar uma curta que se passa precisamente nos anos 70, no rescaldo do 25 de Abril e do Verão Quente, em Tomar e no Ribatejo.

    Tenho tido muita curiosidade e tenho feito muita pesquisa acerca do contexto social da época e por isso de certeza que será um bom complemento a essa pesquisa, quanto mais não seja para te ver na foto.

    E quando a curta estiver pronta, la pra inicios de Junho passo aqui a enviar o link para veres =)

    Abraços e continua com bons posts 😉

  9. O Arrumadinho fica o máximo a 70´s! Pois é 38 anos depois … não me recordo pois nasci nesse ano, o que quer dizer que estou a ficar .sdfbsdfhbw! lol ! Muitos sucessos!

  10. Por coincidência hoje encontrei-te num suplemento da revista sábado…
    numa fotografia na qual integras a equipa de futebol da "Sábado".
    Fiquei assim a saber que camisola vestes!

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