Olhar para trás*

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Não gosto muito de falar sobre o passado, mas nestas alturas temos sempre aquele tique de vida de olhar para trás, para o que vivemos em todo o ano que terminou, e descobrirmos coisas boas e coisas más. Sinceramente, e apesar da conjuntura nacional e internacional, não me posso queixar. Houve muito mais altos do que baixos. Muitas alegrias e apenas uma grande tristeza.

A nível pessoal foi um ano bom e só não foi perfeito porque perdi uma das pessoas mais importantes na minha vida, o meu avô. Não recordo 2011 por isso, porque há algum tempo que sabia que isso aconteceria – era uma questão de dias, semanas, meses. Não se pode dizer que estava à espera, mas também não me surpreendeu. E essa perda fez-me perceber que até na hora da morte eu consigo ser uma pessoa positiva e otimista, e prefiro muito mais lembrar com um sorriso tudo aquilo que ele deixou em mim, e em todos os que o rodeavam, do que ficar a chorar pelos cantos pelo facto de o termos perdido. Para mim não o perdemos, apenas deixámos de poder estar fisicamente com ele. Mas eu consigo vê-lo em todo o lado, até no meu filho, que tem o nome dele, e isso é o suficiente para que ele continue a viver todos os dias comigo. Isso garante-lhe uma vida por muitos anos, garante que o nome dele não se perca e se prolongue por mais gerações – e sei que isso o deixaria feliz (pelo menos a mim deixa, porque vou querer passar ao meu filho a educação que ele me deu, e vou querer que o meu filho eduque os filhos dele com os mesmos valores que me foram transmitidos a mim).

De resto, 2011 foi um ano de muito amor, com uma reconciliação com uma pessoa importante na minha vida, com um casamento feliz, com amigos por perto e com muita saúde.

A nível profissional um dos anos mais importantes da minha carreira, e que marcou uma viragem na minha vida. Pela primeira vez deixei de trabalhar numa publicação diária e passei para uma semanal (já tinha tido uma curta experiência há 11 anos, mas não deu para sentir a coisa). E isso revelou-se decisivo na minha qualidade de vida. Percebi que é possível ser jornalista, ser um bom profissional, sem ter de abdicar sempre da família, sem ter de sair todos os dias às 22h30 ou 23h do trabalho, sem ter de trabalhar fim de semana sim, fim de semana não, sem ter de viver num stresse diário. A 3 de janeiro de 2011, faz hoje um ano, entrei para a revista onde mais queria trabalhar, para um projeto que tem tudo a ver comigo, com aquilo que eu gosto, fui trabalhar com pessoas de que gosto e que admiro, e, um ano depois, continuo com a motivação e dedicação do primeiro dia – e em 15 anos de carreira nunca tinha sentido isso.

Tudo o resto de que se possa falar é acessório. Mas pronto, é engraçado. O melhor filme que vi este ano que passou foi o “Drive”, que estreou já no final de dezembro (até aí tinha sido um ano cinematograficamente miserável), o melhor livro que li foi o “A Queda dos Gigantes”, do Ken Follett, a cidade que mais gostei de conhecer foi Chicago, consegui correr mais de 700 km ao longo de todo o ano (para 2012 o objetivo é chegar aos 1000 km), consegui passar mais um ano sem ter estado doente uma única vez (a 20 de Fevereiro de 2012 atinjo a marca de 7 anos sem adoecer – nem uma gripe, nada), remodelámos a nossa casinha, que passou a ser a mais bonita da cidade (e eu perdi espaço para roupa, mas ganhei um escritório só para mim), e por fim, este foi o ano em que voltei a dar vida a O Arrumadinho. E acho que isso foi um passo importante para mim e, acredito, para muitos de vocês, que me leem.

Que 2012 nos mantenha juntos. E de preferência felizes e com saúde.

Bom ano para todos.

* Ah, e este texto marca a minha primeira tentativa de escrever segundo o novo acordo ortográfico. Pode ter-me escapado alguma coisa, mas pronto, baby steps.

1 Comentário

  1. Também perdi a minha mãe há quase cinco anos, foram 3 meses intensos de hospital, e percebo-te tão bem aquilo que escreveste. Sempre me mantive optimista e agradecida por ter a possibilidade de estar junto dela durante a doença. E sei que dia a dia continua comigo e me guia em tudo aquilo que faço e por onde vou. Com cada novo post consegues sempre surpreender-me Arrumadinho. Conheci o teu blog há alguns meses e ainda bem 🙂 Um Excelente 2012, no mínimo, igual ao ano anterior.

  2. OI! oi! oi!
    Li o texto e gostei búe, nã entendi grande coisa, mas sorri, sorri, porque me transmite bom astral,lembra o famigerado acordo ortográfico que vou ter que utilizar e comentar com os colegas e li nas entrelinhas,dinamismo, esperança,confiança, etc. etc.
    O "tsunami" 2011, apareceu com + altos que baixos,lembrou-me a crosta terrestre com toda a sua diversidade……(AMEI).

    Eu acredito, num ano 2012, cheio de "mudanças" e algumas Mtº.BOAS.

    Vamos todos ser "PACIENTES"(nã é o «paciente inglês»,filmado em grande parte na Tunísia, cujos cenários destroçados eu tive o prazer de ver no grande deserto).

    Enfrentemos o "dragão" 2012 que está a chegar em meados de janeiro.

    Sejam felizes!
    Beij.K:).

  3. Acho esta história do acordo ortográfico uma treta!! estou mesmo a ver os ingleses, os americanos, os autralianos, etc a fazerem um acordo ortográfico!

  4. Ai Arrumadinho, acordo ortográfico NÃO, por favor.
    Bom ano para si e para todos os que mais ama.

    PS – e por falar em amor what about ITMFL?

  5. e foi neste regresso que conheci o teu blog e ainda bem que assim o é! gosto mesmo muito de ler o sentido das tuas palavras. feliz ano, para ti e pipoca.

    magda

  6. O Arrumadinho é a "prova provada" de que a felicidade reforça o sistema imunitário:) Achei muito bonita a forma como falou do seu avô e de como prolonga a sua memória.
    Muitas felicidades para 2012

  7. Com o tal conversor (que tem falhas) não aprendes. Lê o Acordo e com a prática isso vai lá. Tudo o que se pronuncia, escreve-se. Por exemplo, no Brasil dizem "infecção", pronunciam o C. Nós dizemos "infeção"… Boa sorte. 🙂

  8. Hj recebi a noticia de que tb eu perdi o meu avô, e tal como tu apesr de ja se esperar ha dias,semanas meses doi e doi muito, estando eu a espera do meu primeiro filho espero tb ser capaz de reagir como tu, saber que el só me abandona em presença e não em espirito e que todos os seus ensinamentos não vão ficar esquecidos.

  9. Eu achei o filme "Drive" horrivel de tão fraquinho que foi 🙁
    Chorei o dinheiro que gastei…

    Os dialogos eram quase nulos, e os que se faziam eram de uma pobresa impressionante…

    Mas gostos, são gostos… 🙂

    Bom ano

  10. (preparando o segundo Bloody Mary do dia, o primeiro estava miserável por causa de ter trocado a marca de vodka)

    Meu caro Arrumadinho, a maior dádiva de 2011 foi a ressurreição deste blog, uma força da natureza, um espaço introspectivo e de inteligência acutilante, sempre com ponta por onde se lhe pegue. Um grande bem haja por este farol que nos guia a todos.

    (agitando vigorosamente o copo e deliciando-me com o som do gelo a bater no interior do vidro)

  11. Olá, Arrumadinho! Em relação ao acordo ortográfico, escaparam-te três coisas: facto continua escrever-se com c, e não fato, fim-de-semana passa a escrever-se sem hífens, fim de semana, e lêem passa a escrever-se sem o acento circunflexo, leem (assim como veem, creem, deem…). Podes sempre passar os textos por um conversor ortográfico, como o da Porto Editora ou o Lince (o da Priberam, para mim, tem algumas falhas), o que te ajudará a familarizares-te com as mudanças e as regras. Basta procurá-los no Google.

  12. Um bom ano para si, Arrumadinho! E continue a presentear-nos com os seus textos.
    Ao fazer o balanço do meu ano, a descoberta do seu blog aparece como uma das coisas positivas e felizmente também não me posso (nem quero) queixar do ano que passou! Vamos ser positivos e esperar que este, que agora inicia não seja tão mau como tem vindo a ser anunciado…
    Bom Ano 2012

  13. Arrumadinho um bom ano para si e para a família.

    A sua perda de 2011 foi do seu avô, que claro que deixa saudade. que foi muito importanta na sua vida, como a minha avo tb falecida, uma segunda Mãe, deixa uma enorme saudade, mas a vida é mesmo assim. Agora se tivesse perdido as duas tias que sempre moraram ao seu lado e me viram crescer, e do nada, olha morreu (uma em 97 e outra em 2007). Ou a prima que morou na outra casa ao lado uma vida inteira, aquela irmã que mesmo sem o ser é, desaparece assim de cancro no estômago com 20 anos, depois de meio ano de MUITO sofrimento. De certeza que não falava com tanta ligeireza da coisa e não iria ver o lado positivo da coisa. Porque foi-nos roubada (que Deus me perdoe, mas é isso que sinto) passados 11 anos, a dor da perda Dela é imensa, não passa e dói, mas doí tanto que não imagina! 11 anos, não há vez que não chore quando falo ou escrevo sobre ela.

    Não precisa adicionar o comentário, foi apenas um reparo, porque na morte, não dá para ver o lado positivo. A minha Avó, que era uma segunda Mãe, morreu de desgosto, quando se descobriu a doença da minha prima. Ela a 13 de Dezembro de 99 e a minha prima a 8 de Julho de 2000. Foram duas perdas brutais. E eu, pura e simplesmente, não consigo aceitar!

  14. Tb estou a tentar aderir ao novo acordo e, por isso, cá fica uma dica: facto não perde o "c", apesar de ser um dos exemplos mais divulgados pela comunicação social, está errado! 🙂

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