Olá, eu sou o Ricardo e não tenho carro há dois anos

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Há quase dois anos tive um acidente com o meu carro, que foi parar à sucata. Ia a 40 à hora, choquei contra o automóvel de um senhor que se atravessou à minha frente sem parar num sinal de STOP, e o meu pobre Qashqai enfiou-se pela porta lateral do outro veículo. A frente do meu carro ficou completamente destruída. Após aquelas burocracias todas dos seguros, fiquei a saber que a avaliação que fizeram do carro era inferior ao preço do arranjo e que, por isso, não o iam mandar arranjar, mas sim dar-me o dinheiro do valor do carro (segundo os peritos, porque na verdade o carro valia muito mais).

Ainda andei uns meses a ver opções de carros para comprar, mas quanto mais o tempo passava mais percebia que, efetivamente, um carro não me faz falta alguma. Lá em casa já temos um carro, que usamos para aquelas coisas normais — ir às compras, ir passar um fim de semana aqui e ali, ir almoçar ou jantar com os pais, fora da cidade, ir a algum sítio com os miúdos — mas de resto nem eu nem a minha mulher o usamos para as rotinas diárias. Chega a ficar parado dois, três, quatro dias. Vivemos perto do metro e usamo-lo para ir a todo o lado, a escola do Mateus é perto de nossa casa, eu vou a pé para o trabalho, por isso, não preciso efetivamente de um carro. Então, decidi que não ia comprar carro, que ia tentar viver sem carro, uma experiência totalmente nova, já que desde que tirei a carta, aos 18 anos, que tenho carro próprio.

Ao fim destes quase dois anos, tenho a certeza que tomei a melhor decisão e, fazendo as contas, já poupei milhares de euros em gasolina, parques de estacionamento, revisões, impostos, EMEL, seguros. Sempre que preciso de carro ando de Uber, táxi ou uso o CityDrive carsharing — se gasto 75 euros por mês nestas coisas todas já é muito.

A verdade é que por não ter carro acabei por construir outras rotinas. Percebi que muitas das vezes em que usava carro fazia-o apenas por preguiça e comodismo, e não por necessidade absoluta, ainda que achasse que sim, que precisava mesmo de ir de carro aqui e ali. Não há praticamente sítio a que queira mesmo ir onde não chegue de metro, e quando o carro é mesmo, mesmo preciso, então, aciono uma das alternativas que referi. Balanço: acho que sou mais feliz assim.

23 Comentários

  1. Nós lá em casa só temos um carro. Chega e sobra. Nada como andar de transportes públicos na cidade. Ganha-se conhecimento – pelo que podemos ler e observar – e poupa-se muito dinheiro. No futuro mais serão como nós.

  2. Olha, Ricardo; se tens realmente estas facilidades dentro da cidade de Lisboa, acho que fazes muito bem em aproveitá-las de modo a melhorar a tua qualidade de vida, assim como o da tua família.

    No entanto, infelizmente tenho que concordar com boa parte das opiniões que aqui se escrevem, pois se há locais em que é fácil viveres sem carro, outras há em que o carro se torna indispensável.

    Aqui, na Área Metropolitana do Porto, um cidadão comum pode experimentar várias realidades, das quais destaco duas:

    – Um cidadão que vive numa cidade em redor (Ermesinde) em que tem, pelo menos, dois a cinco comboios por hora que o ligam à cidade do Porto, assim como autocarros que ligam a cidade (duas linhas para a Baixa do Porto, uma para a Boavista e outra para o Hospital de S. João) que dão, a grosso modo, uma frequência média de 10/10 minutos num dia útil e em horário diurno. Isto sem contar com ligações para Valongo (frequência de 30/30 minutos) e para a Maia. Por norma, o cidadão, dependendo da área onde se encontra, tem uma loja, um café, uma escola, um supermercado que, se não se encontra perto da sua casa, tem, pelo menos, uma linha de autocarro que a serve. Á noite, a coisa é mais complicada, mas quem vive perto da estação de Ermesinde tem uma linha de autocarro que oferece ligação ao Porto de 60 em 60 minutos entre a 1 e as 5 da manhã. Pergunta: pode viver sem carro? Eu diria que sim.

    – Outro caso é um cidadão que vive num local menos urbano (por exemplo, uma freguesia mais afastada da Maia, Vila do Conde ou de Vila Nova de Gaia) que não tem Metro à porta (excepto as freguesias servidas pelo Metro do Porto e pelos comboios suburbanos da CP), como é bom de ver), a rede de autocarros é mantida por empresas privadas (e até mesmo públicas – a STCP tem linhas de autocarro que passam por áreas rurais cuja frequência é de 100/100 minutos durante o dia) que oferecem poucas ligações por dia (há locais onde ter umas cinco ligações por dia é simpático), em autocarros que nem sempre são confortáveis, as lojas nem sempre são próximas da residência das pessoas, as escolas também não… ou seja, à primeira vista, fica-se com a vida muito condicionada. Faço a pergunta: conseguiriam viver sem carro? Se calhar não…

    Faz as contas do sítio onde vives e pensa que se calhar quem vive numa Malveira, Venda do Pinheiro ou Cova do Vapor e tem que trabalhar em Lisboa, se calhar tem que pensar duas vezes antes de deixar o carro em casa… 🙂

  3. Onde moro não existe metro, nem Uber, e se me pusesse a usar um táxi todos os dias, chegava ao final do mês e mais valia ter carro próprio! Confesso que por vezes podia ir a pé a determinado sítio, mas por hábito lá pego no carro e vou…
    Mas estive em Londres há uns tempos, e só usava o metro. Ocasionalmente o autocarro, mas o metro era bem mais rápido e fácil. Conclusão: Se vivesse numa cidade em que existe uma estação de metro praticamente em cada esquina, com certeza que só utilizaria o carro para fazer compras de supermercado e pouco mais…
    Era bom que o mundo fosse mais futurista e o metro fosse coisa banal em todas as cidades…

  4. Catarina, infelizmente Lisboa não tem muitos exemplos destes! Eu conheço pouquíssima gente que vá a pé para o trabalho, ou que leve os filhos a pé ou de transportes para a escola (especialmente porque trabalho num local onde se ganha um bocado acima da média, então toda a gente tem carro e fala de carros, já é uma espécie de status também, eu é que sou a ovelha negra). Às vezes até pessoas que vivem mais perto do trabalho que eu!

    Mas é uma questão de escolha e de hábito, para mim seria muito pior ter de andar de carro no meio do trânsito, nunca saber quanto tempo demoro a chegar aos sítios, estar preocupada onde o havia de estacionar, levar com esse stress todos os dias, gastar dinheiro no carro, seguros, combustível, garagem, parquímetros… que fazer o meu caminho diário a pé 🙂 e também não tenho o apoio da família, somos ambos filhos únicos, os meus pais vivem a 200km e os sogros a 250km! Mas vou alternando com o marido, normalmente um leva-a e o outro vai buscá-la e, lá está, na escolha da creche foi preponderante a localização e ser um sítio que ficasse o mais perto possível do nosso caminho diário.

  5. Empurro com uma só mão, enquanto a outra segura o chapéu, e quando tenho de subir um passeio ou assim, encosto o chapéu entre o pescoço e o ombro e empurro com as 2 nesse momento 🙂 na escolha do carrinho pesaram muito as irregularidades da calçada portuguesa e o ter de ser um carro prático para quem anda muito a pé! Mas a verdade é que são poucos os dias em que calha estar a chover muito precisamente à hora a que a vou buscar, felizmente que em Lisboa não chove muito e, quando acontece, é raro ser por longos períodos seguidos… então é sempre gerível 🙂

  6. Verdade desde q se viva em Lisboa… A rede de transportes nos subúrbios é para lá de miserável (pelo menos na linha de Cascais) e quem não vive perto de uma estação de combóio não consegue não pegar no carro… Infelizmente

    Ana

  7. Gabo-te a coragem, apesar dos gastos eu não conseguia viver sem ter um carro à porta, sempre disponível. Mas o que queria mesmo dizer é que me parte o coração, ver esse moço todo trucidado 🙁

  8. Na verdade, eu posso não ser muito prática, Sofia, é certo… Mas o que quis dizer foi que, para mim, seria realmente difícil, na cidade em que vivo – não podendo contar com apoio familiar nem com o do marido (que trabalha noutra cidade) – não ter carro para as rotinas diárias. Parece-me que Lisboa tem excelentes exemplos e ainda bem. Por aqui, ainda se vêem poucos. Mas estamos sempre a tempo de melhorar.

  9. ainda gostava de saber como empurra o carrinho e segura no chapeu de chuva? é que já me vi numa situaçao dessas e foi um filme….

  10. Embora nos façam crer do contrário, o facto é que os automóveis representam um grande peso a vários níveis.
    Cá em casa temos apenas um carro que só é utilizado em deslocações significativas e necessárias, todas as outras são feitas a pé ou de bicicleta.
    É tudo uma questão de mentalidade e de atitude, e disso, tanto o teu texto, como o comentário da Joana, são um bom exemplo.

  11. Concordo com tudo o que refere no seu post. No entanto, sabemos que para que se forme uma opinião como a sua é necessário olhar a vários factores, tais como: o local onde se vive (é impensável para as pessoas que vivem na maior parte do nosso país não terem um carro para as suas deslocações diárias); viver-se perto do trabalho ao ponto de se poder ir a pé (em Lisboa então isso é mesmo muito complicado pois, por mais que queiramos é, na maior parte das vezes, impensável morar-se no centro de Lisboa dado o preço elevadíssimo das casas); para quem tem filhos, ter a possibilidade de, a pé, conseguir levá-los e ir buscá-los diariamente à escola. Posto isto, caso as pessoas tenham uma vida como a do Ricardo (em termos de organização espacio-temporal, claro), acho lindamente que se livrem do carro, pois é uma grande fonte de despesa! Já para não falar de aborrecimentos e prejudicial para o ambiente e essas coisas todas que já sabemos.

  12. Isso funciona para quem vive rodeado por transportes públicos… Eu consegui fazer isso comprado uma moto o balanço é muito positivo também, seguro super barato 60€ ano, imposto 5€ anuais, consumo 15 litros = 450km, manutenções oficiais 17,50€ e acaba por ser um divertimento andar de moto…

  13. Acho que quem vive em grandes cidades, com o metro à disposição, consegue sem dúvida prescindir do carro a maior parte do tempo. Eu também já vivi num grande cidade (sem metro, mas com uma boa rede de autocarros) e raramente usava o carro. Agora, onde vivo, nem pensar. Fora das grandes cidades, há terras onde há um autocarro para a cidade mais próxima de manhã e outro de regresso ao final do dia. Depende muito de onde se vive. 🙂

  14. Já eu rezo por vir a ter um carro!
    Vivo e trabalho em Lisboa e quer um, quer outro ficam a 20 minutos do metro já para não dizer que a distância entre os dois é uma linha do metro. Depois tenho os autocarros que dão voltas infernais e passam de 30 em 30 minutos.
    Só de viagens de transportes são quase 2h40 por dia… com carro resumia-se a 1h diária!
    Mas sim, quem tenha a vida “facilitada” e com uma rede de transportes rápida é o melhor que faz.

    • ​Acontece-me exactamente o mesmo! “Mas tu devias tirar a carta?!?” Para quê? Se tenho metro, carris, vimeca e rodoviária à porta? Mas o melhor é mesmo usar a bicicleta para curtas distâncias em que se for de autocarro tenho de apanhar 2 😉

      Eléctrico 28: Descobre o melhor que Lisboa tem para oferecer!

  15. Já eu, fiz o percurso contrário. Não sou de Lisboa. Quando vim para cá morar, deixei de ter carro (até então pedia aos meus Pais sempre que precisava, embora no último ano de vida no Porto isso praticamente só acontecesse à noite, optando pela bicicleta nas deslocações diurnas – trabalho, compras, passeios, lazer, etc). Descobri uma qualidade de vida que desconhecia e supreendentemente, uma liberdade que achava impossível não tendo carro – reflecti até muitas vezes em como o não ter carro me tinha tornado melhor pessoa: mais organizada, mais independente, mais autónoma (?!), mais paciente… Agora mudei de emprego, trabalho fora de Lisboa e preciso mesmo do carro para me deslocar…apesar de muito feliz com a mudança laboral, no aspecto mobilidade a minha vida mudou para pior, mesmo usando o carro apenas para o circuito casa-trabalho-ginásio-casa. Neste momento, rezo todos os dias para que a minha empresa finalmente venda os escritórios fora de Lisboa e venha para o centro, para eu voltar a ser livre!!! Do carro, do trânsito e do stress…

  16. Revejo-me em cada palavra que escreves. 🙂 E eu que pensei que era o último dos Ets. Tirei a carta com 18 mas desde que fui viver para Lisboa que não tenho carro. Entretanto mudei-me para os Açores, comecei a viver com o meu namorado e tive uma filha. Continuo sem carro e muito feliz! O meu namorado tem carro para ir trabalhar e usamos-lo pouco mais que para fazer compras maiores e um passeio até outra zona da ilha. Comprámos casa no centro da cidade, perto do meu trabalho (que também já foi o dele), da escola e de praticamente tudo o que precisamos. Não ter carro, para mim, é uma sensação de liberdade incrível. Poupo dinheiro e chatices. E ainda tenho o prazer de fazer pequenas caminhadas durante o dia.

  17. “principalmente em dias de chuva e frio”

    Pois eu pergunto-lhe: o típico português, adora dizer coisas como “ah, para mim era impossível viver em Londres ou em Bruxelas, só o tempo que faz naqueles países! Não conseguia, está sempre a chover, está sempre frio… nós aqui é que temos um país maravilhoso”… MAS, depois, está-se constantemente a queixar do tempo e a não fazer coisas por causa do “mau” tempo 😀 não digo que este seja o seu caso, mas peguei no seu comentário para dar esse exemplo porque vejo imensa gente assim!

    Pois nesses países, onde chove e faz muito mais frio que em Portugal, os pais levam os filhos a pé ou de transportes para a escola, às vezes até de bicicleta, ou vão os próprios miudos com esse tempo sozinhos. E nós não podemos fazer o mesmo?

    Vivo em Lisboa, demoro 20min a pé casa-trabalho, se levar/buscar a minha filha à creche tenho um desvio de mais 10min. De manhã costuma levá-la o pai, à tarde eu vou buscá-la. Está a chover ou frio? Ela tem um fato de neve, que lhe visto por cima da roupa, mais o saco cama do carrinho e a capota impermeável que dá para o cobrir. Eu tenho galochas, um casaco impermeável e um guarda-chuva. É mais que suficiente 🙂 felizmente não acontece todos os dias, não acontece na maioria dos dias, aliás, Lisboa tem um bom tempo. Tudo se faz, o carro é uma necessidade apenas em certos casos, as pessoas é que se habituam a fazer as coisas de uma determinada forma, porque “toda a gente” o faz assim em Portugal e criam essas necessidades 🙂

  18. Não podia concordar mais 🙂 tenho 28 anos, já vivi em 4 cidades em Portugal e 3 no estrangeiro e nunca em nenhuma usei o carro nas minhas deslocações diárias, sempre consegui fazer tudo a pé e de transportes públicos. Neste momento vivo em Lisboa e o meu marido tem carro (já desde o tempo da Faculdade) e apenas o usamos esporadicamente, também chega a ficar 3/4 dias parado sem lhe mexermos. Vamos ambos a pé para o trabalho e qualquer deslocação mais longa é feita de transportes. Só conduzimos à noite ou ao fim-de-semana, quando não há trânsito e quando é grátis estacionar nas zonas públicas. Poupamos imenso dinheiro assim e, mais importante ainda, não temos stresses (sempre que calha conduzirmos no meio do trânsito em Lisboa, ao fim de 2min acabamos sempre a perguntar-nos como é possível que haja tanta gente que suporta isto diariamente, durante horas às vezes).

    No meu trabalho, num departamento de 16 pessoas, apenas eu e outra colega vimos a pé. Todos os dias os meus colegas se queixam do trânsito, da 1h que perderam para fazer 500m, dos dias em que chove, ou há um concerto, ou um jogo de futebol e já sabem que o trânsito vai ficar impossível e vão perder horas lá parados. Eu a pé sei que, independentemente seja do que for, demoro sempre o mesmo tempo. Uso também uma série de serviços que ficam no meu trajecto casa-trabalho (supermercado, lavandaria, correios, banco, farmácia, etc) e, quando necessário, trato desses assuntos ao longo do caminho, de manhã ou à tarde. Por isso, não preciso mesmo do carro para nada, as situações em que o usamos ainda são por mero comodismo e, um dia que o que temos se estrague, provavelmente não vamos comprar nenhum novo.

    Para nós, é essencial organizarmos a nossa vida de modo a não ter de usar o carro no dia-a-dia. Viver num sítio em que dê para ambos irem a pé, ou de transportes, para os seus trabalhos e onde tenhamos tudo “à mão”. Dei o exemplo acima de já ter vivido em várias cidades, onde estudei ou trabalhei e nunca ter precisado do carro, porque as pessoas que tentam contrariar esta ideia usam argumentos como “ah tens sorte de o teu trabalho ficar perto de casa”, mas não é esse o caso, não é uma questão de “sorte”, é de sempre ter procurado arrendar casas que me permitiam essa “sorte” e de procurar alternativas de deslocação a pé ou de transportes (esses meus colegas falam com um pânico da ideia de ter de andar de transportes, ou sequer a pé, muitas das deslocações que acham que têm de fazer de carro eu faço-as dessa forma, tem é a ver com a mentalidade das pessoas, sei que muitos deles se vivessem onde eu vivo, continuavam a vir com o carro).

  19. Bom dia,
    Percebo o que diz…mas se não tivesse o outro carro em casa, mesmo que parado durante dias, havia muitas coisas que poderiam não estar assim tão acessíveis. Não? Eu moro numa cidade relativamente pequena, que não dispõe de metro, tenho um filho da idade do Mateus e o estacionamento é o pior dos meus dias…mas não vivo sem carro (principalmente em dias de chuva e frio). A família mora noutra cidade a 80km de distância. Na minha opinião, hoje em dia não é um luxo mas uma necessidade.
    Bons passeios 🙂

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