O regresso de Manuela Moura Guedes

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Não sou fã de Manuela Moura Guedes. Não gostava da forma como ela apresentava o tão polémico jornal de sexta-feira, não o achava assim tão livre e independente quanto ela quer fazer crer, e achei perfeitamente legítimas as críticas de José Sócrates que se sentia perseguido pela equipa liderada pela pivô. Como jornalista, não gostava do tom imposto nas peças, com demasiado julgamento misturado com factos, não gostava do alinhamento, muito forçado e sempre com o objectivo de denegrir a imagem dos ministros ou do Governo e achava vergonhosos os pivôs da própria Manuela Moura Guedes, carregados de sarcasmo e ironia, coisas que entendo que não cabem num texto de lançamento de peças jornalísticas.

Na altura desta polémica, escrevi tudo isto no jornal onde trabalhava, e não mudo em nada a minha forma de ver este assunto.

Agora, isto não quer dizer que não ache que Moura Guedes é uma das grandes figuras da televisão nacional — é, para o bem e para o mal. Construiu o seu estilo, tem a sua entrada com o “Boa noite, o meu nome é Manuela Moura Guedes” como imagem de marca e já conseguiu liderar equipas que conseguiram excelentes trabalhos de investigação jornalística em todas as áreas. Um erro, um mau programa, um momento infeliz não apagam tudo o resto.

Depois de alguns anos fora da televisão, Manuela Moura Guedes regressou, agora à programação, para apresentar o “Quem Quer Ser Milionário”. Vi atentamente os dois primeiros programas e fiquei com sensações diferentes. Ontem, na estreia, pareceu-me confiante, segura, confortável naquele papel. Ajudou o facto de o concorrente não saber uma única resposta, mas ter conseguido chegar à sétima ou oitava fase, à custa da sorte, das ajudas e de uns empurrõezinhos de Moura Guedes, que claramente quis ajudar o rapaz, desempregado.

Hoje, e uma vez mais talvez por culpa do concorrente, não gostei tanto de a ver. O concorrente era um puto que quer ser primeiro-ministro ou Presidente da República (sim, ele disse isto com convicção) e que não tinha ponta de graça naquelas conversinhas entre respostas. Moura Guedes também não soube conduzir essas conversas, não soube aguentar o suspense, gerir os silêncios, não conseguiu tornar o programa interessante.

Quem se lembra do concurso apresentado por Carlos Cruz saberá perceber a diferença. A forma única como ele conseguia deixar-nos presos aos concorrentes, às respostas, como brincava com quem tinha pela frente, com seriedade e humor, confundindo os participantes, inclinando-os para uma resposta, depois para outra e por fim para outra era magistral. Moura Guedes ainda não o sabe fazer, e talvez nunca venha a saber. É impossível pôr uma mulher da informação a concorrer com aquele que será o melhor apresentador dos últimos 30 anos.

Vamos ver como corre daqui para a frente.

No programa de estreia, as audiências do “Quem Quer Ser Milionário” foram muito mais fracas do que eu esperava. O programa foi apenas o quarto mais visto do dia na RTP, não entrou no Top 10 e teve uma média de espectadores a ronda os 500 mil.

10 Comentários

  1. Seja como for, é mil vezes melhor ver o “Quem quer ser milionário” (ou outros programas de cultura geral) do que qualquer novelazeca (não lhes consigo chamar outra coisa) que passa nos outros canais. Não sendo fã da Manuela Moura Guedes, sinto que a actuação discreta dela deve ter a ver como o que foi dito num comentário anterior: apresentar um programa num registo diferente e mais sóbrio, muito diferente da altura em que apresentava as notícias na TVI à 6ª feira (com um estilo agressivo, forçado e parcial, nada próprio de um jornalista profissional). Vamos aguardar, para ver como a dinâmica do programa vai evoluindo…

  2. A propósito do Carlos Cruz, não consigo deixar de me lembrar que numa das edições do concurso, numa das primeiras perguntas, conseguiu que o concorrente duvidasse que um dos ingredientes de uma tarte de pêssegos era pêssegos (ou algo assim do género). Foi magistral a maneira como ele conduziu o concorrente. E hilariante!…

  3. Só ontem é que vi um pouco e não gostei. E não foi por causa do concorrente, achei que ela é que não estava nada à vontade. E aquelas conversinhas entre as perguntas não tinham graça nenhuma e pareceram-me forçadas. Talvez nos próximos ela já esteja melhor. Mas assim não vai prender os espectadores.

  4. Não vi o primeiro programa.
    Ontem vi (confesso que gosto muito deste concurso) e também não gostei, nada mesmo, da condução do mesmo pela MMG.
    Discordo consigo na parte do concorrente não ter ajudado. Penso que se o rapaz não tivesse falado tanto, participado e arrancado até alguns risos da plateia, a MMG teria ficado totalmente ‘à nora’ naquele programa de ontem.
    A ver vamos daqui para a frente. Acredito que irá melhorar.

  5. A questão da audiência explicar-se-á, penso, pelo facto de o povo preferir novelas, futebóis e séries a programas de conhecimento geral.

    Também gostei bem mais de ver a Manuela Moura Guedes no primeiro dia do que ontem; achei que podia ter “jogado” muito mais com o concorrente que se achava o maioral lá da zona e que não percebia a diferença entre ser-se “engraçado” e “engraçadinho”. Ela podia ter sido brilhante a provocá-lo e a tornar o jogo muito mais interessante e não foi. Não sei se por não ter essa capacidade ou por estar exatamente a querer passar uma imagem diferente daquela que o público ganhou dela com o caso Sócrates, sobretudo. Ainda não consegui perceber.

    Concordo igualmente (e finalmente alguém concorda comigo!) que não houve melhor apresentador deste concurso do que o Carlos Cruz. Era realmente único e tinha a inteligência e perspicácia para atacar nos pontos certos e tornar o programa realmente apelativo e viciante.

    Quanto a mim, o programa continuará a ter a minha preferência naquele horário televisivo. Veremos como corre daqui para a frente.

    Joana
    verde-vermelho.blogspot.com

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