O professor que já rebentou com uma camisa a um aluno

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O professor que diz que ser homem e ser negro são duas grandes vantagens na profissão

O Jornal i traz hoje uma entrevista muito interessante com o professor Gabriel Mithá Ribeiro, docente do ensino secundário há mais de 20 anos, com passagens por onze escolas daquelas chamadas de problemáticas, na Margem Sul do Tejo (podem ler na totalidade aqui). Mithá Ribeiro assume nesta entrevista ser um disciplinador autoritário pronto para usar o físico se isso for preciso, um defensor do silêncio absoluto nas aulas e um contestatário aos sistemas de ensino modernos que dão demasiado poder ao aluno, retirando-o ao professor. Há, ao longo de toda a entrevista, imensos pontos que geram uma discussão interessante.

Para Mithá Ribeiro, o maior problema das escolas não é a violência, que ele assume ser uma coisa empolada, mas sim “a indisciplina” dentro das salas de aula. O professor diz que hoje em dia “o ruído tornou-se tão normal” que os professores só reagem “quando se ultrapassa o nível do ruído”. Para o docente, “o silêncio é o aspecto que mais casa com a construção do conhecimento, mas foi banido das escolas. O ruído foi naturalizado nas aulas e incentivado pelos pedagogos que defendem a participação, a permanente actividade dos alunos”.

Concordo com esta ideia, e acho que ele tem muita razão. Recordo-me dos meus tempos de aluno e dos professores mais permissívos que tive, e, hoje, consigo perceber que nessas aulas era onde eu aprendia menos. Havia grande galhofa, eram aulas que passavam depressa, mas onde aprendia pouco. O pior professor que tive neste aspecto foi um de Matemática, no nono ano, a quem chamávamos Saddam Hussein, por ser fisicamente igual ao antigo ditador iraquiano. O homem deixáva-nos fazer tudo, o pessoal levantava-se a meio da aula, saía quando queria, não havia o mínimo respeito. Resultado: foi a única negativa que tive num terceiro período em toda a minha vida.

Diz Mithá Ribeiro que “muitos professores queixam-se da indisciplina porque optaram por modelos pedagógicos participativos, que dão muito poder ao aluno”, um modelo que, segundo defende,  “tem virtudes mas também tem problemas e um deles é incentivar a indisciplina”. A solução, para este docente, passa pelo regresso do modelo autoritário e com o fim do que chama de “ditadura da democracia”. “Se percebermos que a disciplina é central vamos perceber também que o modelo autoritário directivo consegue mais eficazmente impor o silêncio. Mas passou-se de um modelo autoritário da ditadura para uma ditadura da democracia que impôs o modelo participativo. Quem hoje defender o modelo autoritário parece que está a cometer um pecado capital.

Uma das partes mais polémicas desta entrevista tem a ver com a postura que o professor admite ter, de agressividade, pronto, até, para o uso do físico. E para isso diz ter duas vantagens: ser homem e ser negro. “Sou um professor autoritário, mas para isso beneficio de duas vantagens que são vergonhosas de dizer num estado civilizado. Uma: sou homem e posso ser fisicamente afirmativo. Se um aluno desobedecer à minha ordem estou preparado para actuar. Não dou aulas sem estar fisicamente bem preparado – faço jogging, exercício, etc. Assumo a robustez física como condição de sobrevivência na sala de aula. Por outro lado, ser negro é uma grande vantagem para lidar com minorias. A maioria do corpo docente são mulheres de etnia portuguesa. Se alguém estiver interessado em perceber o que é a violência sobre as mulheres é entrar numa sala de aula. Combater a violência contra as mulheres é combater a indisciplina nas escolas. Mas o que temos é um discurso académico politicamente correcto que, ao mesmo tempo que defende a condição da mulher, defende exageradamente a condição do aluno que massacra essa mulher”.

Acho que por esclarecer está o que o professor quer dizer com o “ser fisicamente afirmativo” e com o “se um aluno desobedecer à minha ordem estou preparado para actuar”. É que uma coisa é ser fisicamente afirmativo, corpulento, e, só por isso, intimidador, o que é legítimo e natural, outra é este “actuar” quando um aluno desobedece a uma ordem. Actuar é o quê? Puxar-lhe as orelhas? Aplicar-lhe um estalo? Agarrar nele e colocá-lo fora da sala? Acho que a resposta a estas perguntas condiciona a minha opinião sobre este ponto, da mesma forma que gostava de saber o que é o “desobedecer a uma ordem”. Uma coisa é uma falta de respeito, uma afronta física, outra bem diferente é o professor dizer a um aluno para ler e este recusar-se a fazê-lo. Nestes casos vai agir fisicamente? Pois, não sei. Se sim, acho um disparate e um caso grave, se for só para casos extremos, acho que deve ser analisado caso a caso. Mas de uma coisa tenho a certeza: no momento em que forem retirados todos os poderes de intervenção e disciplina aos professores os alunos vão tomar conta das salas, com gravíssimo prejuízo para o ensino.

O modelo de aulas de Mithá Ribeiro também é susceptível de polémica. Diz o professor que só ele é que fala “nos primeiros 15 ou 20 minutos de aula”. Chama a isto “a parte da aula autoritária e expositiva”. Aqui, não admite interrupções, nem sequer para dúvidas. Diz ele que “no início do ano há sempre uns espertos que querem interromper” e que a sua reação é: “Pegue nas suas coisas e rua!”.

Acho que, em parte, ele tem razão. É essencial criar-se um ambiente de aula, com silêncio e um professor a explicar a matéria. Mas também acho que os bons alunos são aqueles que interrompem quando acham que não estão a perceber alguma coisa, que não estão a seguir bem o raciocínio. Eu, pelo menos, era assim. Ouvia tudo com muita atenção e não tinha qualquer problema em interromper o professor com dúvidas, e sempre achei isso saudável. Em 20 minutos dizem-se muitas coisas, e uma dúvida que eu possa ter aos 7 minutos, dificilmente fará sentido se a colocar ao 20.º minuto.

O truque para manter os alunos interessados, diz Mithá Ribeiro, é “ter o dom da palavra”, é o “saber contar histórias”. E neste capítulo é muito crítico em relação aos colegas que diz gostarem de ser “intelectualmente preguiçosos”. Claro que este modelo de contar histórias sem ser interrompido não resulta a 100 por cento, e ha sempre casos de indisciplina. “Chegava a pôr na rua o mesmo chico-esperto todos os dias. Ao fim de um mês, chegava a dizer ao aluno que ele já estava chumbado”, conta Mithá Ribeiro, que diz que não se importa de castigar um ou dois alunos para salvar 20 e tal. O professor garante mesmo que já quebrou a lei e chegou a expulsar alunos para sempre da sua sala. “Toda a escola sabia, os pais sabiam, mas nunca ninguém contestou. Sabe porquê? Havia silêncio e os alunos aprendiam”, revela.

Mithá Ribeiro é autor do livro “A Pedagodia da Avestruz” conta que já rebentou a camisa a uma aluno que gozava com os colegas, e que ele ficou de tal maneira assustado que nunca mais apareceu nas suas aulas. “Nesse ano tive o meu carro riscado de ponta a ponta. Mas nunca contestei. É o preço a pagar”.

A educação ao modo antigo, mais autoritário, é apontada por muita gente como uma receita de sucesso, e uma necessidade para que os alunos aprendam mais e ganhem bases mais sólidas de conhecimento. Mas a verdade é que os tempos de hoje são outros, os direitos individuais são muito mais presentes, e os próprios pais muito mais activos na relação com as escolas, o que impede que possa haver muitos Mithás Ribeiro. Agora, que fazem falta mais professores destes, lá isso fazem.

30 Comentários

  1. E SE DEIXASSEMOS DE OLHAR APENAS PARA O UMBIGUINHO DOS NOSSOS FILHOS?

    o RESTO DA HUMANIDADE TAMBÉM EXISTE E TAMBÉM MERECE SER FELIZ, TER AUTO-ESTIMA, SENTIR-SE REALIZADO, BLÁ, BLÁ, BLÁ…. PROFESSORES DA SUA FILHA INCLUSIVÉ!!!

  2. As escolas transformaram-se em depósitos dos filhos. Os pais demitiram-se de educar. E a falta de tempo não é desculpa…
    Os pais de hoje em dia esqueceram-se que a escola é para instruir e a família para educar.
    Hoje vêem-se filhos a falar de qualquer maneira seja para quem for (incluindo os próprios pais), a fazerem o que querem. Não há regras, não há disciplina, não há educação.
    Pena que só mais tarde estes pais percebam os monstrinhos ” que criaram…quando mandarem neles e já nada conseguirem fazer deles…

    Espero ansiosamente que a próxima geração seja uma geração minimamente regrada, onde exista um pingo de educação, de saber ser e de saber estar! Acima de tudo que exista respeito pelo outro! Perdeu-se totalmente a noção de valores!

    Tenho 32 anos, sem filhos, e farei de tudo para que um dia um filho meu não corresponda aos padrões de hoje. A educação vem de casa!!

    Se aos alunos da minha mãe, aos filhos de amigas e às crianças que assisto na rua, só me apetece dar-lhes um “correctivo” (para ser meiga!)…eu não teria estofo para ser professora. Como vou corrigir/educar um miúdo se o pai/mãe é pior que ele??? Como vou educar uma criança se os pais precisam primeiro de ser educados??
    Assusta….

  3. Boa tarde a todos, escrevo este comentário em resposta às várias pessoas que comentaram o que escrevi anteriormente. Em primeiro lugar, deixem-me esclarecer desde já que quando referi “não concordar com esta opinião” estava a falar da opinião geral dos comentários anteriores e do próprio autor do blog de que “fazem falta professores destes”…Em segundo lugar, esclareço também que não dou aulas num colégio privado nem nunca dei e foi até em escolas chamadas problemáticas que melhores resultados vi usando um método de participação ativa dos alunos! Esclareço também que não defendo a anarquia dentro da sala de aula e que, infelizmente, essa realidade é muito frequente e dificulta muito o processo de ensino e de aprendizagem.. Ninguém dúvida (nem eu), que a indisciplina e a violência nas escolas constitui um aspeto gravíssimo e que é cada vez mais difícil a um professor impor-se numa sala de aula! Posso dizer que já dei aulas com a porta fechada à chave para que não entrasse ninguém de fora dentro das salas (uma medida de segurança imposta pela escola)… Vejam como esta realidade está taaaaoooo longe da dos colégios privados onde afirmaram (curiosamente) que eu trabalhava… O problema é que se passou do 8 ao 80 e agora parece, por alguns comentários, que querem voltar do 80 ao 8… Então e o equilíbrio? Acreditam verdadeiramente que violência se resolve com violência ou ameaças desse género? Enquanto pais querem, para os vossos filhos, um professor como este? Acreditam que a escola não tem nada que promover o espírito crítico porque as crianças e jovens não tem capacidades para o desenvolverem? Acreditam que o ensino superior se encarregará de desenvolver essa capacidade? Quanto à ideia de que quem quiser saber argumentar deve procurar formação em filosofia acho que nem preciso comentar… É realmente preocupante a realidade em que vivemos, é realmente fundamental que os alunos voltem a respeitar os professores mas, mais uma vez, defendo que não é através de um ensino autoritário e diretivo que isso se consegue.. A oportunidade de participar na aula (de forma controlada claro), de esclarecer dúvidas quando elas surgem, de sugerir, de debater, de decidir aspetos em conjunto é, na minha opinião uma fonte de enriquecimento curricular mas também pessoal… Eu pessoalmente não quereria este professor para os meus filhos.. Mas cada um tem a sua opinião e o importante é respeitá-la.. Para terminar parece-me importante referir que talvez estas opiniões tão marcadas contra a minha ideia tenham por base um outro problema da educação em Portugal: o papel primordial que é dado à avaliação e que, segundo o meu ponto de vista, merece também uma reflexão… Respeitando as vossas opiniões espero que respeitem também esta e que, tal como me aconteceu, possa possibilitar pelo menos uma reflexão.. Cumprimentos

  4. Este grande senhor foi meu professor no 8º ano e desde então que tenho grande respeito por ele e sei exactamente a sua postura numa aula.

    Há professores que não impõem respeito e não têm presença nem controlo na aula e é exactamente isso que ele tenta combater, porque uma aula com barulho e com cada aluno na sua a fazer o que lhe apetece não vale nada. Ele era autoritário, rígido nas regras que impunha e não aceita afrontas. No entanto as suas aulas eram cativantes e produtivas, onde se aprendia a sério. Há aqui pessoas a dizer que isso é impor medo, claramente nunca tiveram de tentar impor respeito numa sala com diversos alunos de bairros sociais por exemplo, que não têm o mínimo respeito pelos professores nem se interessam minimamente pelas aulas. Como é óbvio ele não trata da mesma maneira alunos interessados e ‘arruaceiros’.

    Outro ponto que vejo aqui comentado é a falta de interacção no início da aula. Aqueles 15-20-30 minutos iniciais da aula ninguém está autorizado a falar, o que não implica que não se tomem notas quando há uma dúvida. Uma aula tem 45 ou 90 minutos, existe mais que tempo para interacção organizada no tempo que resta da aula, e ele faz isso e muito bem.

    Para que conste o professor Gabriel chegava a fazer com que um aluno desse uma aula aos seus colegas (caso ele assim o quisesse), e ajudava quem fosse dar a aula a prepara-la e da minha experiência essas aulas corriam muito bem, ninguém perturbava o colega que estava a dar a aula e o professor ajudava e complementava o que o aluno dizia.

    Grande exemplo de professor, deviam dar ouvidos ao que ele diz.

  5. Tenho 20 anos e ando no 2º ano da universidade. O meu professor favorito era o professor Luís Cunha. Deu-me aulas de História no 7º e 8º ano (já lá vão uns bons anos…).
    Era alto, careca e com um físico robusto – ex-militar. Comandante, se não me engano. Tinha uns 35 ou 40 anos.
    Eu tinha uma turma muito problemática. Alguns colegas chegaram a ser várias vezes suspensos e já eram bastante mais velhos que nós. Mas nem esses, que não respeitavam nada nem ninguém, se atreviam a faltar ao respeito ao professor Luís. Não faltavam às aulas, não faziam barulho, nem se mexiam. Não tiravam boas notas, mas também não incomodavam quem queria tirar, o que não acontecia nas outras aulas.
    E o que fazia esse professor? Nada. Apenas estava lá. Não levantava a voz, não ameaçava, não batia nem insinuava sequer. Bastava um olhar, um gesto discreto ou um silêncio.
    Tinha o respeito e a admiração de todos os seus alunos e até daqueles que não se cruzavam com ele nas aulas. Sim, porque o conselho executivo sabia do “poder” que exercia sobre nós e pôs o professor, nas suas horas vagas, a inspecionar o recinto. Era ele que apanhava os que fumavam atrás do bloco D e que apanhava os que saltavam do muro para sair da escola ou andavam a trocar muito mais do que beijos numa esquina. Mas nunca ouvi ninguém a dizer mal dele, nunca o vi a ser agressivo, nunca o vi a perder o controlo e acreditem, havia gente que fazia um santo perder a paciência.
    Nunca me vou esquecer do professor Luís Cunha. Não só pelo respeito que tenho por ele mas também pelas suas aulas. Era História e não havia Power Points. Ele falava e nós ouvíamos. E não havia barulho! Eram interessantíssimas e ele era extremamente exigente. Os Excelentes dele valiam ouro para mim! E eram muito frequentes. Eu esforçava-me muito para não o desiludir.
    Eu acho mesmo que isto é tudo uma questão de postura e de bom senso. De não perder o controlo e de ser coerente. Não é deixar abusar num dia e no outro expulsar o aluno porque falou para o lado. A violência, muito honestamente, não resolve nada. Eu, pelo menos, não queria estar numa sala de aulas com um professor violento. Acho que lhe ia ter medo, mas respeito… Isso já era outra história.

  6. Sou professor e, devido ao desporto que pratiquei toda a minha vida, tenho uma constituição física que me permite fazer o que este excelente professor faz. Acho que só no primeiro ano que leccionei perdi o bom senso levantando um aluno no ar mas, logo de seguida fui falar com ele e hoje quando nos cruzamos ficamos sempre a conversar.
    Eu sempre tive um exmplo de um professor assim em casa e ai de mim que um professor meu fizesse queixa ao meu E.E. É por serem dados os direitos aos meninos que, há mais chumbos, que mandam nas aulas como querem, que se recusam a fazer seja lá o que for ( recusar uma leitura na aula?! mas isso cabe na cabeça de alguém??? nunca me passou pela cabeça dizer isso a um professor meu…o respeito/medo era tal que nem sequer me passou pela cabeça). Devíamos voltar aos tempos em que quem realmente comandava as aulas eram os professores. Bem haja a este sr. professor.

  7. Foi dos melhores professores que eu tive.
    Orgulho-me de ter sido sua aluna.
    Garanto a toda a gente que a maneira como este professor dá as suas aulas, capta a atenção de qualquer um.

    Muitas felicidades.

    Mónica

  8. Mais um. É para rir… ou para chorar. Para mudar é necessário mudar toda uma sociedade que virou costas à família e em que o dinheiro é o deus. É preciso tirar as mulheres da escola e colocá-las em casa. É necessário que os maridos ganhem mais…! Isto sim, é que é necessário.

  9. Há duas formas de disciplinar pelo “medo”: ou medo do professor e do sistema de punições da escola, ou medo dos pais.

    Ora dos pais já ninguem tem medo (excepto os professores), há que voltar pelo menos à disciplina dos anos 80, onde já não reinava a ditadura, mas havia respeito pelos professores (ou medo dos castigos).

  10. Posso saber em que colégio privado é que a senhora dá aulas?
    Sim, porque pelo seu comentário, presumo (erradamente?) que não dá aulas numa escola pública, mas num colégio privado, onde todos os alunos são educados e estão lá para aprender, ao contrário do que acontece com a maioria dos alunos da escola pública.

    Vejamos.

    A senhora disse que, passo a citar:”Em primeiro lugar, parte de uma premissa totalmente errada: em que ponto é que permitir e incentivar a participação dos alunos, dando-lhes um papel ativo na sua aprendizagem, significa incentivar a indisciplina?”
    O entrevistado explicou que o método que usa é aquele que diz que o professor fala e o aluno ouve para aprender. Se tem dúvidas, não pergunta imediatamente, mas depois. Isto porque, se o aluno interromper, nem que seja uma vez, para tirar a dúvida ao aluno, perde toda a linha de raciocínio que estava a criar e, se é interompido uma vez, passa a ser habitual interrompê-lo. A sra. gosta de ser interrompida quando está a explicar alguma coisa? Eu, falo por mim, não gosto.

    Depois diz que:
    “Aqui está outra premissa muito errada: respeito é muito diferente de medo! Este professor impõe-se pelo medo..”
    Mais uma vez está enganada pois o próprio professor já o assumiu que ficou com o carro riscado, pelo que medo foi coisa que não instigou num aluno, certamente.

    Depois:
    “Como é possível que em pleno séc. XXI alguém afirme concordar com a violência por parte de um docente para impor respeito numa sala de aula?”
    Pela mesma razão com que cada vez mais vemos notícias sobre violência de alunos sobre professores e colegas. Como é que é possível se ter chegado a este ponto?

    Terminando:
    “Mas onde promove, por exemplo, a capacidade de argumentar? Como promove o espírito crítico?”
    Os alunos estão na escola para aprender. Não estão na escola para serem formados em argumentação. Para isso existem disciplinas como a Filosofia
    “Não há aspetos tão ou mais importantes a desenvolver na sociedade do que os conteúdos escolares propriamente ditos?”
    Não, isso aprende-se com a sociedade em que estão inseridos. Isso somos todos nós que devíamos ensinar, começando em casa.

    Mas esta é a minha opinião. E, graças à Internet, todos nós podemos divulgá-la, quer vivamos num mundo ilídico, utópico e ideal, quer não.

    Cumprimentos.

  11. 1) Em que ponto é que permitir e incentivar a participação dos alunos, dando-lhes um papel ativo na sua aprendizagem, significa incentivar a indisciplina?
    “(…) o modelo autoritário directivo consegue mais eficazmente impor o silêncio.”

    2) Como é possível que em pleno séc. XXI alguém afirme concordar com a violência por parte de um docente para impor respeito numa sala de aula?
    “Acho que por esclarecer está o que o professor quer dizer com o “ser fisicamente afirmativo” e com o “se um aluno desobedecer à minha ordem estou preparado para actuar”. É que uma coisa é ser fisicamente afirmativo, corpulento, e, só por isso, intimidador, o que é legítimo e natural, outra é este “actuar” quando um aluno desobedece a uma ordem. Actuar é o quê? Puxar-lhe as orelhas? Aplicar-lhe um estalo? Agarrar nele e colocá-lo fora da sala? Acho que a resposta a estas perguntas condiciona a minha opinião sobre este ponto, da mesma forma que gostava de saber o que é o “desobedecer a uma ordem”. Uma coisa é uma falta de respeito, uma afronta física, outra bem diferente é o professor dizer a um aluno para ler e este recusar-se a fazê-lo. Nestes casos vai agir fisicamente? Pois, não sei. Se sim, acho um disparate e um caso grave, se for só para casos extremos, acho que deve ser analisado caso a caso.”

    3) É muito mais fácil ensinar com os métodos desse senhor e acredito que tenha resultados visíveis, se nos basearmos apenas nos conteúdos escolares.. Mas onde promove, por exemplo, a capacidade de argumentar? Como promove o espírito crítico?
    “Diz o professor que só ele é que fala “nos primeiros 15 ou 20 minutos de aula”. Chama a isto “a parte da aula autoritária e expositiva”.” As aulas ainda não têm apenas 20 minutos de duração.

  12. No primeiro dia de aulas da minha vida a minha mae disse-me a porta da aula : “aqui, quem manda é esta Senhora”. Ficou para sempre. Acredito em absoluto na linha pedagógica deste professor. Tenho 36 anos -portanto ja nao vivi a autoridade do tempo da ‘antiga Senhora’. Os professores que recordo sao os que mantinham a ordem e consequentemente o poder de ensinar. Dos laxistas esqueci, nem da cara me lembro. Obrigado Mithá.

  13. Ana, não entenda como provocação ou ofensa, mas dá/deu aulas nas escolas ditas problemáticas?
    Se sim, como correu?

    Eu acho que faltam professores como o citado no post. Professores que incutam respeito (ou medo) aos alunos de modo a que quem quiser aprender o faça sem ser prejudicado pelos outros. Se é o método correcto? Talvez não. Mas os tempos são outros (tenho 37 anos) e precisam de medidas extremas.

    É fácil fazer frente a uma professora. Se calhar partir o carro a um negro matulão já seria mais difícil… é patético estarmos a discutir estes termos? Sem dúvida. Mas é a realidade.

  14. Permita-me um comentário. Não sou professora, mas fui aluna e sou mãe.
    Acho que tudo depende da idade das crianças/jovens em causa.
    Uma criança do ensino básico ou do preparatório não tem capacidade para ter sentido crítico. 1.º há que aprender muito para poder ter alguma opinião. Senão é só um pensamento anarca.
    Há que estruturar, formar uma criança em crescimento e quando esta tiver capacidade, quer por maturidade quer porque já adquiriu conhecimentos suficientes nalgumas matérias, ensiná-la a ter sentido crítico.
    É preciso fundar as bases, não começar pelo telhado. E daí que este professor diga – e a meu ver bem -, que o ensino obrigatório é muito diferente do ensino superior, em que aí sim se deve promover o sentido crítico e o poder de argumentação.
    No ensino obrigatório as pessoas estão ali para aprender conteúdos básicos.

  15. Vou só deixar aqui um texto que li e que resume para mim o que é a escola e o que eu quero para a minha filha que foi para o primeiro ano :
    Aos meus filhos, a todas as crianças…

    Que possas sentir, sempre, o valor que tens, por quem és…

    Nunca me vou preocupar com as tuas notas, nunca. Quero é saber se estiveste a aprender coisas novas com alegria, com interesse, com vontade… Não quero saber se tens um suficiente ou um muito bom… Quero saber se estiveste num ambiente onde te sentiste respeitado por quem és e não pelo que produzes. Não quero saber qual o teu lugar na estatística… Não quero saber se a média da tua escola é boa ou má comparado com as outras… Não quero saber se o nosso país está bem ou mal comparativamente com os outros países na União Europeia ou no resto do mundo….

    Não quero saber se a as previsões para a tua entrada no mercado de trabalho são boas ou más… Não me interessa nada saber como o ‘sistema’ olha para ti. Só quero saber como TU olhas para TI. Interessa-me saber se o ‘sistema’ te deixou exprimir quem és. Quero saber se o ‘sistema’ esteve lá para ti, nos teus altos e nos teus baixos. Quero saber se tiveste a oportunidade de explorar livremente o teu caminho, sem julgamentos, sem deveres… Quero saber se te viram, se te sentiste respeitado, apoiado. Quero saber se te divertiste. Quero saber se estiveste mesmo bem.

    Interessa-me saber que consigas manter a tua auto-estima, o teu gosto pela vida, a tua vontade de explorar enquanto passas pelos anos todos da escola. Quero saber se conseguiste ouvir os teus próprios pensamentos no meio das opiniões todas. Interessa-me saber se houve espaço para as tuas perguntas… Quero saber se te deixaram manter os teus sonhos e se conseguiste manter a confiança em nós adultos. Interessa-me saber se conseguiste continuar a acreditar em ti, em mim, nos teus professores, nos teus amigos, na vida… Interessa-me saber se conseguiste manter a tua curiosidade natural, o teu entusiasmo…

    Quero mesmo muito saber se conseguiste passar estes anos todos de escola, sentindo o teu valor indeterminável… ainda com muito amor-próprio. Ainda com empatia e amor pelos outros. Se conseguiste isso, então fizeste um grande, grande trabalho.

    Se quando receberes o teu diploma estiveres com a tua integridade intacta, com a tua auto-estima em alta, com amor e entusiasmo pela vida, cheio de coragem para enfrentar todos os teus desafios, então sim, vou ficar muito feliz e contente.

    Se naquele dia, estiveres com grande auto-conhecimento, em contacto com as tuas emoções, relacionando-te saudavelmente contigo, respeitando te a ti e às tuas necessidades, tanto como aos outros… então vais-me ver com um grande sorriso. Se naquele dia, estiveres com uma grande confiança em ti, acreditando que o teu coração é o teu guia… então, vou-te deixar voar com muita tranquilidade… e digo-te que conseguiste muito mais do que alguma vez poderia esperar.

    Com muito, muito amor,
    Mia

  16. Não podia concordar mais. Há professores que sofrem imenso com a má educação dos filhos dos outros, como é o caso da sua mãe. Isso não está certo.

    Este professor pode ser rígido, mas consegue resultados. Gostei principalmente do facto de ele não ter permitido bullying na sua sala de aula. Teve uma ação mais violenta para com esse aluno, ao agarrá-lo deve tê-lo feito com tanta força que lhe rasgou a camisa. Mas e então, qual é o drama? Todos sabemos que um simples “pára” com esses miúdos não chega, eles vão continuar passado 10 minutos (ou nem isso). E quantos alunos são prejudicados pelos maus tratos de outros colegas e sofrem com essa humilhação? Eu sei que sofri, e sofri mesmo debaixo do nariz dos meus professores, e nunca ninguém fez nada. Eram professores simpáticos, mas que nunca me deram a proteção que eu preciso. Por isso gostava de ter tido a sorte de ter um Mithá Ribeiro.

  17. Gostei de ler, Maria. Tem claramente uma formidável percepção e noção das coisas e uma formação cívica sólida, especialmente tendo tido que vingar face a todo esse background complicado e algo controverso.

  18. Enquanto professora não posso discordar mais desta opinião… Em primeiro lugar, parte de uma premissa totalmente errada: em que ponto é que permitir e incentivar a participação dos alunos, dando-lhes um papel ativo na sua aprendizagem, significa incentivar a indisciplina? Como é possível que em pleno séc. XXI alguém afirme concordar com a violência por parte de um docente para impor respeito numa sala de aula? Não é necessário ter aulas de jogging e preparar-se fisicamente para levar os alunos a respeitarem um professor.. Aqui está outra premissa muito errada: respeito é muito diferente de medo! Este professor impõe-se pelo medo.. Antigamente os alunos também aprendiam.. Decoravam caminhos de ferro e tudo o mais mas tinham e têm dificuldade em interpretar um mapa com as estações e zonas a que correspondem as estações… É muito mais fácil ensinar com os métodos desse senhor e acredito que tenha resultados visíveis, se nos basearmos apenas nos conteúdos escolares.. Mas onde promove, por exemplo, a capacidade de argumentar? Como promove o espírito crítico? Não há aspetos tão ou mais importantes a desenvolver na sociedade do que os conteúdos escolares propriamente ditos? Bom… Termino por aqui… Desculpem o tamanho do texto mas acho importante que se conheçam outros pontos de vista! Obrigada pela oportunidade e tudo de bom para o seu blog e para si 😉

  19. Concordo plenamente com este tipo de ensino porque hoje em dia as crianças e os jovens estão cada vez mais indisciplinados e mal-educados. Uma boa educação só é possível com um bom ambiente na sala de aula, isto é, silêncio e uma boa dose de respeito por quem está ali à nossa frente. Como tu, recordo que as aulas onde aprendi mais (e os meus professores preferidos!) eram aqueles que mais respeito impunham. Nas aulas de ‘rebaldaria’ em que toda a gente falava, gritava e se levantava perante a passividade do professor, não se aprendia nada.

    A minha mãe é professora e uma vez conheci uma aluna dela por acaso. Quando lhe disse o nome da minha mãe, por ela me ter dito que andava na escola dela, ela disse que a minha mãe era considerada ‘difícil’, no sentido em que era autoritária e exigente nas aulas, mas ao mesmo tempo disse-me que toda a gente achava que era das melhores professoras que tinham, em termos de explicação da matéria e conhecimento que adquiriam. E essa foi de facto a experiência que sempre tive com os meus próprios professores.

  20. Eu pessoalmente defendo um sistema onde a crianca/jovem/adulto deve merecer a educacao gratuita e nao ter direito a ela como fosse algo esperado ou mesmo obrigatorio. A disciplina tem forcosamento que ser acompanhada por algum tipo de responsabilizacao dos actos, e ‘e isso que muitas vezes falha neste contexto.

    Se a crianca tem uma postura assumidamente indisciplinada (nao estamos a falar de notas mas sim de agressoes a professores etc.) deve ser imediatamente expulsa da escola publica e depois que seja um problema da familia, dos amigos de quem quer que seja mas nao da escola paga pelos contribuintes.

  21. “O pior professor que tive neste aspecto foi um de Matemática, no nono ano, a quem chamávamos Saddam Hussein, por ser fisicamente igual ao antigo ditador iraquiano. O homem deixáva-nos fazer tudo, o pessoal levantava-se a meio da aula, saía quando queria, não havia o mínimo respeito.”

    Ele era permissivo demais e voces chamavam no de “ditador” apelidando-o Saddam? Já eram muito inteligentes para putos de nono ano lol ja faziam antíteses e tudo hehe

  22. “Mas a verdade é que os tempos de hoje são outros, os direitos individuais são muito mais presentes, e os próprios pais muito mais activos na relação com as escolas, o que impede que possa haver muitos Mithás Ribeiro. Agora, que fazem falta mais professores destes, lá isso fazem.”

    Sou filha de uma professora. Deu aulas em escolas que ninguém queria. Ela queria, pois tinha 2 filhas para sustentar. A atitude dela do politicamente incorreta, valeu-lhe um carro destruído (por um pai que não gostou de ver o seu pequeno Einestein chumbar por não saber português – ou como ele disse à minha mãe: “preta do car”##$, vá para a sua terra ensinar, que por cá mandamos nós”) e por vezes uma perseguição danada por parte de outras colegas (“olha que assim vais ter problemas com a diretora, com a drel, com as inspetoras, com deus e com o diabo”). Eu estudei numa escola um pouco para o complicado (bem longe de casa pois dava para fazer as asneiras que queria) e lembro-me muito bem das regras: falta de material – check (hoje tal fator pode ser suficiente para um professor perder uns dentes); suspensão de 3 dias (estive suspensa 2 xs em 2 anos e com direito a um castigo exemplar dentro de casa); hoje os pais irrompem pela escola e toca de sovar o professor. E as associações de pais vem gritar pelos direitos dos alunos. Filmados em direito, pois assim vende mais.
    A educação começa em casa.
    As regras começam em casa.
    O saber dar e receber respeito começa em casa.
    Se um professor é pago (todos aos gritos: “com o dinheiro dos nossos impostos!” – adoro esta frase tão típica dos ignorantes) para ensinar, o mínimo que se pode esperar por parte do educando é um pouco de silêncio para ouvir.
    Tal como em casa.
    Saber ouvir, saber escutar, saber perguntar.
    Já vi e ouvi crianças/jovens a ameaçarem os pais em plena rua. E não, não são de bairros sociais.
    Apenas aterrorizam os progenitores porque podem. E estes deixam.
    Vivemos tão cheios de direitos que não temos espaço para os deveres.
    Não quero uma escola como no tempo dos meus pais. Mas também não quero uma escola como a de hoje.
    Tal como não quero alguns pais do tempo dos meus avós, também não quero alguns pais como os de hoje.
    Aqueles reprimiam cegamente, estes demitem-se do papel cegamente.

    Mas se o professor Mithás consegue ter resultados na escola, porque não?
    Mas se o professor Mithás consegue obter respeito, porque não?

    É um exagero? Talvez. Mas resulta, não é?

  23. este “post” tem tudo para estar no top dos mais comentados eh eh.
    e eu vou dar uma pequena ajuda.

    não conheço o livro. também não conheço o professor.
    baseio-me na mesma entrevista que leste e cujas principais passagens reproduziste no “post”. e também nas memórias da minha mãe, professora durante uma vida inteira, alguns anos em escolas problemáticas do Porto.

    os professores são como as outras profissões: há os fantásticos – que 10 ou 20 anos depois ainda são recordados, porque se empenham e dão o melhor de si – há os normais – no sentido de fazerem o que é esperado e nada mais – e os maus profissionais.
    e tal como sucedeu com outras profissões do sector público (médicos, enfermeiros, juízes, etc.) de há alguns anos para cá, com a mãozinha “amiga” dos governos, foram desvalorizados, desconsiderados pelas pessoas em geral.
    os alunos têm direitos.
    mas mais do que isso, têm mais deveres. porque isso é próprio daquele espaço. não é só de brincadeira. também é para aprender, coisas que serão úteis para o resto da vida: matemática, português, história, inglês, geografia, cidadania, música, etc. etc. e se não forem aprendidas nessa altura, a seguir será cada vez mais dificil.
    e os professores são-no porque estudaram para isso, foram aprovados em exames, superaram provas e foram avaliados para, justamente, exercerem essa profissão. nem todos chegam ao fim.
    e não é fácil ser professor quando os pais questionam sem mais os professores, quando os alunos levam 2 telemóveis para a sala de aulas, quando o governo deixa escolas em que chove lá dentro, quando ninguém se insurge contra o aluno que bateu no professor e, tal como noutras matérias, quando todos achamos que podemos dar a nossa opinião sobre o que é ser professor.

    sei que os professores não substituem os pais, são, vá lá, um complemento dos pais. mas há pais que, pura e simplesmente, não sabem/não querem/não podem dar educação. e há alunos que não estão a fazer nada na escola. e quando interrompem e prejudicam os outros alunos da turma, se a violência (desde que não seja exagerada, claro) for a única forma de impedir que um só parvo e idiota prejudique os demais 29 ou 30 alunos, então admito que partilho da opinião…e se for preciso puxar as orelhas ou pegar no reguila nervoso e colocá-lo fora da aula, então siga.
    porque, no final do dia, por causa dele, os outros 29 ou 30 não puderam aproveitar nada na escola.

  24. acho que nestas coisas um dia espero ser como a minha mãe se alguém me tratava mal ou me fazia algo que não é aceitável nos meus tempos de escola era a primeira a dizer que ia comigo falar com a professora sobre o assunto mas se eu fizesse algo errado também era a primeira a “puxar-me as orelhas” e a explicar-me porque é que naquela situação não tinha razão. Ora quando li o texto foi essa ideia de equilíbrio que me ocorreu. É impossível ensinar-se quando numa sala está tudo na conversa. O respeito tem de ser imposto quando não vem ensinado de casa e os professores têm de ter formas de o impor, salvaguardando-se claro as ideia básica que a força física não deve ser usada nem pelo aluno nem pelo professor.

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