O Natal

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Este deve ser o ano em que sinto menos espírito natalício aí pelos ares do País. A culpa será da falta de iluminações de Natal – o que deixa o Miguel Sousa Tavares irado? Eu acho que não. Para mim a culpa é mesmo do pessimismo em que todos mergulhámos ao longo do ano, da falta de perspectivas, de esperança, numa descrença que se instalou um bocadinho em todos nós e que já nem nos deixa ser completamente felizes nesta altura. Estamos a 21 de Dezembro, e houve aí umas quatro ou cinco pessoas que me desejaram Bom Natal, como se o dia ainda viesse longe. Também não vejo tantos sorrisos, tanta gente animada, pessoal a decorar as secretárias, ninguém brinca tanto, acho mesmo que este é um ano sem espírito, ou com muito menos espírito do que os outros.

Eu não me sinto diferente. Também vejo este Natal a passar-me um bocadinho ao lado. Não fosse a excitação que sei que esta altura traz às crianças – ao meu filho, às minhas sobrinhas – e acho que a coisa se ficava mesmo por um jantar de família como tantos outros.

Nem sempre fui um adepto do Natal. Passei por aquela fase de repulsa – entre os 18 e os 24 ou 25 anos – em que me revoltava o consumismo da época, o peso excessivo dos presentes, em detrimento do convívio. Acho que era a  minha costela de esquerdista (na altura havia quem me chamasse Comuna) a fervilhar dentro de mim. O facto de ser um ateu revoltado com a igreja (na altura era assim, acho que já falei sobre isso aqui) também não ajudava.
Hoje, isso já me passou um bocadinho. Acho que se as pessoas se sentem felizes a dar presentes, óptimo, se outros preferem não dar grande coisa e passar o dia a comer borrego, maravilhoso, e o que me interessa é que todos estejam felizes.

Depois disso, também tive dois natais verdadeiramente terríveis, com acontecimentos marcantes a estragarem-me a época, o que fez com que não recordasse esta altura com grande saudade.

Mas nos últimos anos passei a ver o Natal como uma época de celebração familiar, uma oportunidade de poder estar em paz com as pessoas mais importantes da minha vida. E isso é, para mim, a coisa mais importante que se pode ter. Estar ali, lado a lado, com aquelas pessoas que sempre estiveram connosco, que amamos com cada partícula do coração, faz com que passe a ver a noite de Natal como um dia único. E pode parecer coisa de velho, mas a única coisa que eu gostaria mesmo de receber seria a possibilidade de continuar a ter todas estas mesmas pessoas à minha volta durante muitos e muitos anos. Porque este foi o ano em que perdemos um de nós. Diria que o mais importante de todos nós. Mas o que ele nos deixou é mais do que suficiente para que continuemos unidos, porque as recordações ficam e a herança de vida está marcada em todos nós.

Mesmo sem crise, mesmo com iluminações de Natal por todo o lado, mesmo com árvores carregadas de presentes, mesmo com subsídios completos, mesmo com votos de boas festas a cada esquina, este seria sempre o mais triste dos natais.

1 Comentário

  1. Não há alegria mas o consumismo excessivo continua. Não há sorrisos, há presentes…
    As pessoas armam-se em ricas até ficarem a 0€.
    Depois vêm as consequências.

    Cá em casa será um Natal simples.

  2. Definitivamente este vai ser um Natal diferente para muitos de nós. Por bons ou maus motivos, mas vai ser diferente. Tb perdi recentemente o meu "Pai Natal". O meu tio que todos os anos se mascarava e na noite de 24 de Dezembro aparecia com o seu saco de presentes e alguns carvões para distribuir. Felizmente tenho esta memória de infancia. Talvez por isso sempre tenha AMADO o Natal. E contínuo a amar. Mas este ano vai ser mais complicado…
    Nunca consegui ver a coisa apenas pelo lado comercial. Mesmo. Sempre vi pelo lado kitch da coisa. Pelos disparates, pelas iluminações nas ruas, pelas decorações natalícias nas casas, pelos jantares, pelos lanches, pelos almoços. Pelo o facto de nesta altura os adultos ficarem mais crianças, mais humildes… Isso sim é o que vejo no Natal e espero continuar a ver por muitos e bons anos.

    Feliz Natal a todos!!

    Ass: Gattaca

  3. Arrumadinho, tal como tu, também perdi "um dos nossos", e apesar de não haver fórmula ou solução para ultrapassar a dor que às vezes sufoca, consegui, com o tempo e ajuda, aceitar algumas coisas… Uma das coisas que me ajudou foi este poema que te envio e que espero que te conforte no Natal.

    "O Amor jamais desaparece é eterno

    A morte nada é.
    Eu estou apenas noutro lado;
    Eu sou eu, tu és tu;
    Aquilo que éramos um para o outro
    Continuamos a ser.
    Chama-me como sempre me chamaste.
    Fala-me como sempre me falaste.
    Não mudes o tom da tua voz,
    Nem faças um ar solene ou triste.
    Continua a rir daquilo que juntos nos fazia rir.
    Reza, sorri, pensa em mim,
    Reza por mim.
    Que o meu nome seja pronunciado em casa
    Como sempre foi;
    Sem qualquer ênfase
    Sem qualquer sombra,
    A vida significa o que sempre significou.
    Ela é aquilo que sempre foi.
    O “fio” não foi cortado.
    Porque é que eu estando longe do teu olhar,
    Estaria longe do teu pensamento?
    Espero-te, não estou muito longe,
    Somente do outro lado do caminho.
    Como vês tudo está bem."

    Canon Henry Scott Holland

  4. Eu já perdi o meu pai há 10 anos ( tenho 37 anos ) e ainda hoje me custa a sua ausência física. Também já perdi a minha avó e um ex namorado e apesar de não ser propriamente religiosa continuo a sentir uma "magia" qualquer no Natal.

    Desejo ao Arrumadinho Pipoca e restante família tudo de bom e um Natal Feliz na medida do possível. Aos leitores que aqui vêm todos os dias também 🙂

  5. Acho que a "sindrome de velha" também bateu para as minhas zonas! Também só quero "a minha gente" junta à mesa com saúde!
    A herança (em todos os níveis) que te deixou…essa nunca vai faltar no teu coração! 🙂
    Um Santo e Feliz Natal Arrumadinho, para ti e para a tua família!
    Bjs
    Inês

  6. Com sorte, o pessoal vai sentir o Natal no seu verdadeiro esplêndor. Deixar a parte material um pouco de lado, e concentrar-se no facto de ter a familia e aqueles que gostam ao seu lado…

    Mas isso se calhar é o meu lado mais optimista a pensar.

    Mas de qualquer maneira, caro Arrumadinho e prezados leitores que o seguem, desejo-vos um Feliz Natal e um belo 2012. Que ao menos a crise não nos bata tanto na cabeça como em 2011. :-)))

  7. perdi o meu Pai em Abril, continuo sem trabalho, perdi o meu encanto de Natal, perdi alguns sonhos e muitos sorrisos, perdi muito da minha alegria em cada mês que passou deste ano…mas quero entrar em 2012 com alegria, com sorrisos e principalmente com ESPERANÇA! iluminei a minha árvore de natal e vou fazer uma festa de aniversário para o meu "namorido" porque sei que vale a pena continuar a sonhar com esperança.

    (desabafos!)
    Magda M.

  8. Eu ao contrário da maioria das pessoas sinto até mais este ano o espírito natalício do que nos anteriores, porque é nestas alturas que apercebemos do que realmente é importante: saúde, família e amigos.

    Ainda está para vir a crise que irá tirar-me a alegria de estar com as pessoas que mais gosto.

    Acho que também que as pessoas usam agora a crise como desculpa para tudo, até parece que temos de andar todos infelizes até a crise passar.

    Na minha opinião temos é de ser mais criativos e com pouco fazer a celebração na mesma. Esta ano não tirei ninguém da minha lista de prendas, gastei menos mas não vou deixar de dar uma lembrança às pessoas que gosto, nem que seja com uma flor.

    Por isso Um Feliz Natal a Todos!!!
    E tenho a certeza Arrumadinho que quando tiveres com os teus vais olhar para eles e sentir o espirito natalício.

    Beijos***

  9. Esta época é essencialmente de partilha, de convívio com a família, com os amigos e de amor. Claro que devido à situação económica do país, estamos todos mais desmotivados, mas temos de pensar positivo e que melhores dias virão.
    Feliz Natal!
    nini

  10. Não creio que seja pela falta de iluminação, tal como tu, penso que é pelo verdadeiro desanimo em que vivemos nos dias de hoje. Não és o único a sentir isso. Aliás, este ano ainda não ouvi ninguém que dissesse o contrário. Está tudo com vontade de adiar o Natal em prol da crise.
    Talvez é assim, porque se pensa no lado material da coisa. Não há dinheiro para isto ou para aquilo, desanima-se. Contudo, tal como tu referiste, a família é cá para mim o verdadeiro significado do Natal, e quanto a isso, a crise não tem qualquer domínio. Por isso, não há que desmotivar, tem é que se aproveitar o convívio familiar pelos que cá estão e ainda mais, pelos que pelo infortúnio da vida já não estão, mas deveriam estar.

  11. Olha a crise até serve para sossegar a minha cabeça. Todos os anos corria tudo à procura do presente ideal (dentro das possibilidades económicas). Tentar fazer tudo como deve de ser e no fim o meu presente era apenas mais um, para o monte. Este ano reduzimos só aos de casa. Não há dinheiro, paciência. Fica a essencia da coisa. E não andei a correr as lojas todas, não me cansei e acabo por ficar na mesma. Sem dinheiro e sem falsas ilusões. Se calhar melhor assim!
    Odeio consumismo.

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