O Natal é a altura mais triste do ano

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A publicidade vende-nos esta ideia desde sempre, toda a gente a repete, mas eu sinto quase sempre que nos andamos todos a querer enganar uns aos outros quando insistimos nesta coisa de que o Natal é a época mais feliz do ano. Não é. Pelo contrário: o Natal é a altura mais triste do ano.

Cada vez mais, vivemos numa sociedade de famílias desestruturadas, partidas, desunidas, com pessoas emigradas, pessoas deslocadas, pessoas que já foram uma família a viverem em casas diferentes. É precisamente no Natal que todas estas pessoas sentem de forma mais intensa e profunda a dor do afastamento, da solidão, do falhanço nas suas vidas, dos erros que cometeram e que contribuíram de alguma forma para, naquela época que o mundo inteiro diz ser de paz, amor e união, estarem longe física e emocionalmente das pessoas que amam, já amaram ou que já os amaram. Tudo isto leva a uma tristeza muito mais forte do que qualquer outra que possamos sentir ao longo do ano. E a culpa é do Natal, do período do Natal.

É também no Natal que normalmente nos lembramos das pessoas que já não estão connosco, mas estiveram noutros natais. As pessoas que morreram, familiares, amigos, mas também gente que se evaporou da nossa vida, porque nos chateámos com elas, porque nos incompatibilizámos com elas, e às vezes por merdinhas de nada, mas que, depois, acabámos por não saber contornar a zanga, que levou a um afastamento emocional irreversível. E quando, no Natal, pensamos nestas pessoas, nas que morreram, nas que desapareceram das nossas vidas, sentimo-nos frágeis, profundamente tristes e muitas vezes deprimidos.

O Natal não deve ser uma época de amor, paz, perdão, união, deve ser uma época de celebração do amor, da paz, do perdão da união. Não interessa nada sermos bons, justos, carinhosos, unidos de 22 a 27 de dezembro, e depois voltarmos às nossas vida egoístas de sempre e esquecermos tudo aquilo que o Natal deve simbolizar. Não interessa nada montarmos uma árvore linda, cheia de luzinhas e presentes, se depois não há ninguém para celebrar o amor, a paz e a união connosco. Não interessa nada andarmos a correr stressados pelos centros comerciais a comprar presentes para a prima, a tia, o sobrinho-neto se depois, ao longo do ano, não queremos saber deles para nada. Não interessa nada que tenhamos uma série de miúdos felizes a desembrulhar presentes e excitadíssimos com o Natal se, por dentro, estamos deprimidos, destruídos ou a sentirmo-nos miseráveis.

Ao longo da vida, ainda assim, acho que já tive mais natais felizes do que tristes. Recordo momentos maravilhosos, mas também profundamente depressivos e introspetivos. E acho que isto aconteceu comigo e com a maior parte das pessoas, porque nesta altura temos os sentimentos à flor da pele, tudo nos faz chorar, tudo nos emociona, tudo nos fragiliza. Por isso, os senhores da publicidade que me perdoem, mas a ideia de que o Natal é a altura mais feliz do ano é pura poesia. O Natal é a altura mais triste do ano. E a culpa é nossa.

Feliz Natal a todos.

12 Comentários

  1. Concordo contigo e à medida que fico mais “amadurecida” mais penso que o Natal é uma época triste.
    Neste ano senti isso particularmente. Nas lojas as pessoas pareciam mais impacientes e cheguei a presenciar uma briga entre dois homens no dia 24.
    Ao contrário do que parecia acontecer nesta época, este ano achei que as pessoas andavam mais intolerantes umas com as outras.

    Na verdade sempre gostei do Natal, das decorações, das luzes, do ambiente aconchegantes nas casas e nas ruas. Mas gosto cada vez menos. Por um lado por também ter parte da família separada, por outro porque ver as crianças a abrirem dezenas de presentes faz-me cada vez menos sentido…

  2. Concordo inteiramente contigo Ricardo… época muito triste esta, a do Natal!!!!
    Nem as luzes, as músicas, as prendinhas me conseguem fazer esquecer quem já perdi, a família que já se desfez, a filha que ora passa uma natal cá, ora passa outro lá!!!! Todas as luzinhas e musiquinhas me trazem à memoria as piores recordações do ano e é estranho porque dantes não era assim. Trata-se duma nova consciência em mim, duma dor que o Natal faz despertar em mim… por isso também acho que o Natal é uma época muito triste!!!!! E que me desculpem MAS RESPEITEM os que adoram o Natal!!!!

  3. O natal ,é assim mesmo ,penso que ninguém esta a espera do natal ,para recordar ,que não tem a familia junta que os nossos familiares morreram ,porque isto meus amigos é um ciclo da nossa vida ,morre-se o ano intyeiro ,vive-se o ano inteiro,e ama-se o ano inteiro ,pois o natal apenas e só significa o nascimento de JESUS ,E POR ISSO CELEBRAMOS ,COM ENTUSIASMO E AMOR ,POIS COMO TAMBÉM CELEBRAMOS A PASCOA QUE SIGNIFICA A RESSURREIÇÃO DO SENHOR ,O CARNAVAL ,E ETC,,compram-se presentes ,pois os réis magos foram oferecer ao menino ,ouro ,incenso e mirra ,daí nos ,QUEM PODE, OFERECE E SOBRETUDO AS CRIANÇAS PRESENTES
    NÃO DIGAM QUE NÃO GOSTAM DO NATAL ,POIS RECORDAÇÕES TRISTES E BOAS ,TEMOS TODOS OS DIAS ,EU PELO MENOS TENHO E LEMBRO,CELEBREMOS O NATAL COM AMOR ,E SOBRETUDO AMOR ,AMANDO-NOS A NOS NESMOS,UM BEM AJA E SJAM SEMPRE FELIZES ,BOM NATAL

  4. 100% de acordo. É de facto exactamente assim… parece que as luzinhas, os presentinhos, as montrinhas lindas, a fartura da comidazinha, a “boavontadezinha” a “solidariedadezinha”, os jantarinhos de solidariedade, os mercadinhos solidarios, as corridas solidarias, as acções solidarias, os cabazes solidarios, só duram de 22 a 27.12. Tudo é inho e zinho (ate o azevinho)… Fazer desta data o ano inteiro é que eraaaaaaa… Por mim é FELIZ NATAL TODO O ANO.

  5. Obrigado por este seu post!
    Sou católica e catequista, mas acima de tudo respeito todas as crenças e ideais, neste texto está mais do que tudo um grande alerta ao que nos rodeia.
    Vivemos inebriados (ainda mais nesta época), por sentimentos consumistas, que nos vendem uma felicidade fugaz.
    Para mim este Natal será muito especial. Duas pessoas muito importantes para mim, reconciliaram-se ao fim de 4 anos, e isso é mais valioso que qualquer presente.
    Os bens materiais podem nos reconfortar por momentos, mas para quê vivermos rodeados de coisas, quando o mais importante, que é a presença dos nossos, ainda que vivos, não existe?
    Sei que é ateu, mas as suas palavras são de uma grande verdade para nós cristãos, que muitas vezes pregamos isto e aquilo, mas os exemplos práticos ficam às vezes guardados, por orgulho, medo, cobardia, e assim lá vamos nós perdendo dias e oportunidades de esquecermos “merdinhas” que se resolvem com uma boa conversa/mudança de atitudes.
    Obrigado!

  6. Boa noite Ricardo,
    Para mim o natal é a época do ano mais linda pelas luzes, pelos cheiros, pelas músicas, etc… No entanto nunca acreditei que fosse a época mais feliz, até porque ta como tu, também acho que nestes dias há muita tristeza.
    Para mim, natal é estar com aquelas pessoas que me aquecem o coração, mas há alguns anos que comecei a dar por mim a pensar como será quando um deles partir (maioritariamente porque tenho um medo enorme de perder uma destas pessoas) e sofro só de pensar.

    Dito isto, espero que tu e a tua família tenham um natal feliz e de preferência rodeados de amor e harmonia.

    Beijinhos e feliz natal
    ??

  7. Não concordo contigo, acho que o Natal, ao invés de enfatizar a tristeza e solidão, consegue trazer ao de cima as coisas boas das pessoas. Ou porque estamos mais atentos a iniciativas solidárias, vamos a um jantar de natal com aquelas pessoas que não vemos no resto do ano ou porque usamos algum do nosso tempo a pensar nos outros, nem que seja para comprar prendas.
    Pessoalmente nunca dei grande importância ao natal até ter filhos. Tenho dois, de 4 e 5 anos e digo-te que desde há uns 3 anos que o Natal é absolutamente mágico, a emoção e alegria genuína deles nesta altura não tem explicação. Emociona e contagia. Por isso, para mim é mesmo das alturas mais felizes do ano.

  8. Texto fabuloso, Ricardo. Concordo inteiramente contigo. É no Natal que mais sentimos as coisas menos boas. Natais perfeitos e inteiramente felizes, cheios de paz e amor para toda a gente, acho que só mesmo na publicidade.

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