O exemplo de um pai na vida de um filho

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Infelizmente, tive de aprender ao contrário. A olhar o caminho por onde ele me levava e a ter a certeza de que a direcção certa era a oposta. E isto desde a idade em que a minha preocupação maior devia ser a de conseguir pôr o pião a girar (o que nunca consegui), porque ainda não havia Beyblades.

Hoje sou eu a mostrar o caminho. Apesar das curvas, muitas vezes apertadas, a viagem está a ser tranquila, e feliz.

Sobre quem me guiou, escrevi um dia, inspirado pelo filme “Big Fish”, do Tim Burton:

“Descobri há uns anos que sou filho do Edward Bloom, e que não existem apenas Edward Blooms nos mundos fantasiosos e criativos de Tim Burton. Há Edward Blooms lá, no cinema, nas backstories dos grandes argumentistas, que se esforçam por inventar personagens fascinantes, como há Edward Blooms cá, a viver as suas vidas de faz-de-conta, a contar as suas histórias mirabolantes a quem gosta de se deixar levar.

Cresci a ouvir, encantado, as histórias do meu Edward Bloom. Como naquela noite tão escura, tão escura, tão escura em que ele me revelou, pela primeira vez, a sua verdadeira identidade. Afinal, o meu pai era o Homem-Aranha, o meu herói da banda desenhada. Estava ali comigo, naquele quarto, na Praia das Maçãs, mas logo que eu adormecesse teria de subir pela teia até à sétima nuvem, a verdadeira casa do senhor mascarado de vermelho e azul.

Quando percebi que, afinal, não havia Pai Natal, o Homem-Aranha não podia ser o meu pai e o meu herói já era o Bento, guarda-redes do Benfica, fui encantado por outra história, a da noite em que ele, o meu pai, pisou o relvado do Estádio da Luz, equipado à Académica de Coimbra, acabado de saltar do banco de suplentes para marcar um penálti ao Costa Pereira, o lendário número 1, campeão da Europa e titular da Selecção Nacional. O meu pai fez o golo, mas a Académica perdeu por 4-1.

E depois vieram as histórias da guerra do Ultramar, das namoradas que podiam ser miss mundo, dos feitos no jornalismo, das amizades tu-cá-tu-lá com gente que enchia revistas e abria telejornais. E eu sempre lá, a ouvir, já sem encanto, já sem crença, mas com a certeza de que, ao deixá-lo contar, ao deixar o Edward Bloom ser apenas ele, o Edward Bloom, estava a fazê-lo feliz, a oferecer-lhe o brilho de que ele precisava como de ar para respirar.

Tal como o outro Edward Bloom, o do Tim Burton, também o meu viveu aventuras ao lado de gigantes e anões, mulheres com dois torsos e bruxas mágicas, poetas e assaltantes de bancos. Eram todos eles que abrilhantavam as histórias, davam-lhes grandeza, profundidade, validade, traziam sorrisos a quem as ouvia e inveja a quem não as tinha vivido. Era para mim que invariavelmente se viravam os olhares dos que, no fim, me diziam: “Quem me dera ter um pai assim, com tantas histórias incríveis”. Eu devolvia o sorriso, já que era só o que podia fazer.

As histórias do velho Bloom, o do cinema, tinham tanto de bonito como de inocente. Eram fantasias que serviam para dar cor a vidas cinzentas, davam essência a dias que, de outra forma, não teriam o porquê de ser recordados. Como a história que Bloom criou para contar ao filho sobre o dia em que ele nasceu. Disse-lhe que nesse dia capturou um peixe gigantesco – o Big Fish – que lhe havia comido a aliança, e que ele o obrigou a cuspi-la, já que ele não lhe admitia que lhe roubasse o símbolo do amor que tinha pela mãe do rapaz. Mais tarde, à beira da morte, o filho ouviu do médico que assistiu ao seu nascimento, que o pai nem sequer lá estava, e que não houve peixe algum, e que o parto correu bem, que foi normal, e que nada de especial ou diferente aconteceu. E o miúdo sorriu, e preferiu continuar a pensar que no dia em que nasceu, afinal, houve peixe, e aliança, e uma história para animar plateias em dias de festa.

Muitas histórias do meu Bloom eram assim, inocentes, como a do Homem-Aranha ou a do golo no Estádio da Luz. Mas muitas outras tinham pouco de risível, e muito de coisa séria. E enquanto a ouvi-las estava apenas eu, o eterno ouvinte, o ouvinte inocente e que se limitava a sorrir com ternura a ouvir aquelas fantasias mascaradas de verdade, não havia problema. Só que as histórias, fantasiadas, e sobre coisas sérias, foram sendo contadas umas e outras vezes a toda a gente, a gente nada habituada a ouvi-las, gente que se encantava de facto por não as perceber como fantasias, mas como verdades. Só que essas fantasias duravam pouco e, quando reveladas, criavam desencanto, raiva, inimigos, guerras, ódios. E o meu Bloom não parou de as contar. E foi contando e contando e contando, e as pessoas foram desaparecendo. Os gigantes, os anões, as bruxas e os assaltantes de banco continuaram a ser histórias na boca do meu Bloom, mas, num estalar de dedos, a plateia deixou de estar lá.

As cadeiras estão vazias. A tenda há muito que foi desmontada. E, sozinho, o Bloom continua a pregar.

No dia em que morreu, o Bloom do cinema teve lá os seus gigantes, anões, bruxas, poetas e assaltantes de bancos.

No dia em que morrer o meu Bloom não terá lá ninguém. E nem as histórias, as fantasias, ficarão para contar. Porque já não encantam, apenas envergonham.”

1 Comentário

  1. Arrumadinho:

    Lembro-me muito bem deste post, porque foi um dos que mais gostei na anterior versão de O Arrumadinho. Só agora me apercebi que tinhas voltado à blogoesfera e fico muito contente. Fico mais contente ainda por teres dado ouvidos aos leitores e não teres baixado a cabeça ao patronato conservador com este regresso. Sucesso, sorte e posts tão bons quanto este é o que te desejo!

    um beijinho
    O Arroz de Casca
    Gi

  2. Que lindo texto (o vídeo não consigo ver, porque barraram aqui os youtubes).

    Só não compreendo a última frase, porque é que as histórias do teu bloom te envergonham?
    Parto do principio que também te envergonham, porque dizes que ele não terá la ninguém…

    Histórias são histórias, não precisam de ser verdadeiras para nos encheram a alma, e pelo que li, serviram bem o seu propósito, de encherem a tua.

  3. Um dia fazemos competição de maus pais e aposto consigo que o venço. A única sugestão que lhe posso deixar, enterre-o, não o deixe acompanhá-lo pela vida toda, é isso que merecem os maus pais, serem perdidos na vida dos filhos.

  4. belo texto! apesar de se notar algum ressentimento, não me parece que quando ele faltar não esteja lá ninguém… o embaraço das histórias é uma coisa tão passageira, quando pensamos em tudo o que os pais são para nós! acho que só nos apercebemos disso quando perdemos as pessoas que realmente têm significado na nossa vida, e aí já é tarde. não valerá mais a pena, olhar para o lado bom do que ele lhe transmitiu e tirar partido dos anos que ainda podem ter pela frente para reconstruir outras memórias?

  5. Em primeiro lugar, muitos parabéns. Descobri o seu blog à pouquíssimo tempo, através da Pipoca e tenho a dizer que adoro.
    Quanto à sua história, fiquei com um nó na garganta. A forma como foi escrito o texto está magnifíca e acho que ele pode ser um conforto para pessoas que passaram pelo mesmo. Às vezes nem são só os bons exemplos que contam, os maus também se tornam importantes para percebermos que não é por aquele que caminho que queremos ir ou não é aquele exemplo que queremos transmitir aos outros.

    Muitos Parabéns pelo blog..

  6. Muito bom, memso. Dá que pensar e de que maneira…

    Concordo com o primeiro comentário.E, apesar de já o seguir a algum tempo enquanto jornalista é bom vir cá ler neste registo. Adoro a escrita do arrumadinho e acho que deveria escrever um romance:)))

    beijinhos

    Parabéns!

  7. Tive também uma "Bloom" na minha vida, eu e os meus irmãos fomos presenteados com todo o tipo de histórias e personagens, um verdadeiro circo de animais encantados e cuspidores de fogo e domadores de dinossauros. Há um dia em acordamos, em que saímos do transe e nos conseguimos libertar dessa hipnose. Porque é tão fácil viver assim. Assim maravilhado com as mentiras. Sempre são mais agradáveis e chegam mesmo a ser mais credíveis e que a própria realidade.
    Não escrevo por me ter vindo as lágrimas aos olhos, não escrevo por sentir simpatia por alguém. Escrevo por sentir um nervosinho no lábio que quer deixar soltar um sorriso. Porque leio que afinal os anos de terapias, psicologias, esoterismos e psiquiatrias de vários feitios foram em vão, pois afinal há mais pessoas assim.

    Obrigada.

  8. Não tive um Bloom, mas uma Bloom… e agora fez-me chorar….e não digo mais nada!

    Escreve muitissimo bem, é fantástico.

  9. Apesar de tudo, serviu para te ensinar o que "Não" se deve fazer… há sempre uma lição de moral e todas as histórias, sendo elas de fantasia ou reais…

    🙂

  10. Bom dia!

    Fiquei com um nó na garganta depois de ver o vídeo! É lindo… Quem me dera que o meu tivesse sido assim… Sei que faz o melhor que sabe, mas essde melhor que sabe é muitas vezes a pensar nele e nos seus desejos e menos em mim… Mas é o único que tenho, e quer o que é melhor para mim, só tem é uma maneira muito própria de o mostrar…
    Obrigada pela partilha do vídeo. Obrigada!
    **

  11. Embora Pai, há Pai e pai.
    Ao ler-te, vejo que tiveste Pai com letra grande, tal como eu, e nem sempre os Homens de letra grande são bem compreendidos e ouvidos com a atenção merecida. Nem sempre lhes é dada a oportunidade de transmitirem a sua magia, a sua sabedoria, a sua história. Mas tu tal como o teu Pai, és um Homem de letra grande, que entendeste a importância de cada momento, de cada gesto e lhe ofereceres "o brilho de que ele precisava como de ar para respirar".

    No dia em que o teu Pai morrer levará o coração cheio de um filho que o faz sentir brilhante, e olha que isso não é para todos.

    Através de ti, ser-lhe-à permitido continuar a viver.

    bjs

    Olhares

  12. Que bom acordar e ler já uma história assim…não é boa, que não é, mas escreve TÃO bem…e eu, lembrei.me do meu, que já lá está em cima há um ano, mas deixou tudo de bom cá em baixo. Uma mulher maravilhosa que enfrenta o luto dia após dia. 2 filhos com a cabeça no lugar…e SAUDADES…muitas muitas…mas a certeza que foi um homem maravilhoso, apesar de carrancudo, não havia quem não gostasse dele (prova disso foi o funeral, onde estavam centenas e centenas de pessoas!). Quanto a mim, só desejo encontrar para os meus filhos um homem assim… Quanto ao Arrumadinho, a forma como começou mostra que é um bom homem com a noção do certo e do errado "nfelizmente, tive de aprender ao contrário. A olhar o caminho por onde ele me levava e a ter a certeza de que a direcção certa era a oposta".

    Continuação de uma vida feliz junto do seu filho (e estamos ansiosos para que haja alguma pipoquinha brevemente!)

  13. Ainda bem que estou sozinha no escritório porque:

    -ainda não consegui parar de chorar desde que vi o vídeo e li o post
    – passei a vida a observá-lo e hoje percebo que o melhor ficou comigo e por vezes o pior também
    – espero e acredito que é hoje ele que me observa, onde quer que esteja e tento não fazer má figura mas é difícil, sempre foi difícil estar à sua altura
    -tenho muitas saudades dele e na minha opinião até podia ter um pouco mais de Edward Bloom, ver a vida com mais cor, mas sempre se pautou por uma seriedade exímia e quando morreu todos lá estavam

    e por fim porque hoje dava tudo para lhe poder telefonar nem que fosse só para lhe dizer que dormi mal

    Obrigada, a catarse que o seu post despoletou em mim fez-me bem

    Um excelente dia para si

  14. Tens vergonha do teu pai, percebi bem? Palavra? Ná! Devo ter percebido mal. Deves ter vergonha apenas das histórias e fantasias, não é?

  15. Conheci-o há pouco, através da sua pipoca, que leio religiosamente todos os dias.
    E descobri, de repente, outro prazer diário ou, pelo menos, sempre que possível, na blogosfera e no face :O Arrumadinho.
    ^
    Lê-lo é tãaaaao reconfortante!
    No dia em que o seu Bloom partir, não estará sózinho. Nota-se, pelo que escreve, que embora magoado, estará lá. Pelo menos em pensamento.
    E pense que o seu Bloom serviu, pelo menos, para lhe ensinar o pai que deveria ser e que acredito que seja hoje.
    Boa semana.
    Susana

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