O estilo e o falatório

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Nunca percebi muito bem por que é que as pessoas levam tão a peito as críticas à forma como se vestem, como se apresentam. Hoje em dia, chamar “pirosa” a alguém é quase a mesma coisa que chamar “filho da puta”. Quase já não se pode dizer a alguém que está mal vestido, porque isso parece que é um atentado à liberdade criativa e de gosto de cada um. Claro que cada um veste o que quer, claro que cada um sai à rua da forma que lhe apetece, que julga ser mais adequada, mais confortável, mais apropriada ao seu estilo próprio, o que não quer dizer que esse estilo seja bom, ou bonito, pelo menos aos olhos de quem percebe de estilo. Mas aqui reside outro problema: a maioria das pessoas acha que quem percebe de estilo é um tontinho, ou um vaiodoso, só porque percebe de estilo (ou acha que percebe, como dirão os críticos). A moda é uma arte como outra qualquer. Há quem perceba de pintura, de literatura, de cinema, e também há quem perceba e se preocupe com moda.

Eu não sou um expert de cinema, nem de literatura, nem de moda, mas interesso-me por estes assuntos, tento ler, estar a par do que se faz lá fora, leio revistas internacionais, sites, livros, procuro entender as coisas, as tendências, o porquê das tendências, o que, dentro dessas tendências, é mais e menos comercial, mais e menos adequado ao nosso mercado. Isso não faz de mim um especialista, mas também não me sinto um total leigo na matéria. Consigo olhar para uma pessoa e perceber se ela tem pinta, se tem noção estética, porque mesmo tendo apenas uma T-shirt e umas calças de ganga vestidas consegue-se, muitas vezes, ler o estilo de uma pessoa.

Não sou particularmente crítico em relação aos outros. Ao contrário de muita gente, não ando sempre a reparar no que os outros vestem, nos acessórios, mas gosto de ver uma pessoa arranjada, gosto de ver uma mulher ou um homem com pinta, e quando os vejo eles saltam-me à vista. O problema é que para muita gente esse “saltar à vista” é quase sempre pela negativa. Principalmente quando quem se veste de forma diferente é um homem.

Mas claro que as pessoas despreocupadas com estilo podem criticar quem se veste de forma mais arrojada, ou de acordo com tendências. Mas uma pessoa com pinta está proibida de tecer comentários sobre aqueles que se vestem de qualquer maneira, com o primeiro trapo que apanham no armário. Aí, se abrem a boca, são uns fúteis, uns pedantes, como se a moda fosse uma arte menor, ou apenas de elites. E não é.

Acho, sobretudo, que as pessoas levam tudo demasiado a sério, chateiam-se com coisas que não interessam nada, vivem aborrecidas e preocupadas com os outros, não sabem rir-se de si e têm problemas em rir-se dos outros. E quando assim, tem tudo menos graça.

1 Comentário

  1. Seguindo as 'deixas' que vão nos comentários anteriores – a arte é abstracta, subjectiva, blá blá, a moda idem – estou completamente de acordo.
    Mas há coisas, que tal como o "Arrumadinho" diz, podem ser altamente criativas e tal mas que se formos bem a ver é algo do género "Uau ela/ele tem um look muito incomum, é engraçado e tal mas nada que eu no meu juízo perfeito vestisse."
    Penso que aquilo a que o arrumadinho se referia ao analisar "o que os outros vestem" é mais numa vertente de sobriedade, algum cuidado com a aparência, um estilo clean. Manter um look actual, mas nunca chegando ao extremo de copiar exactamente as tendências, porque convenhamos – há coisas que não são para vestir no dia a dia. Há a moda mais virada para a livre concepção artística – e nisso os estilistas têm a liberdade de fazer o que bem lhes apetecer, e há a moda mais comercial, que obviamente tem de estar mais adaptada aos 'comuns mortais'.
    Não quero com isto dizer que o arrojo é uma coisa má, mas com peso e medida e claro – cunho próprio. E por aquilo que vejo raras são as pessoas que têm essa 'criatividade fashionista' per se. A grande maioria limita-se a clonar esta ou aquela tendência e isso é, no mínimo, triste.

  2. Cada um tem direito a vestir-se como quer. A não ser em trabalho, e principalmente se repreentar uma empresa, aí sim, terá que estar em conformidade. Mas na vida pessoal, quem é que tem a ver com isso? Se quer usar a moda de há 10 anos atrás ou a última tendência pós apocaliptica… e então?!…

  3. A moda não é arte, é uma industria que envolve muitos milhões de euros, yens, etc. E o estilo, graças a Deus, ainda não está à venda.

  4. Boa noite,

    à muito que leio o teu blogue e à muitas coisas no qual concordo, outras que nem tanto.
    Acho que não tens de opinar o que quer que seja, cada um é como cada qual, cada um tem o direito a vestir-se como quer e como lhe bem apetece, tem esse direito e ninguém tem nada a ver com isso.
    Eu tenho dias em que me visto muito bem, como tenho dias que uma t-shirt e uns ténis está óptimo e ninguém tem nada a ver com isso, e se me apetecer ir assim para um sitio em que devo ir "de acordo com as tendências da moda" e que sei que todas as pessoas me vão olhar…puff não estou nem aí… não quero saber eu sou eu e com as opiniões dos outros posso eu muito bem.

    Penso que por mais que leias e pesquises sobre este assunto, não tens esse direito. Acho sinceramente que a tua maneira de vestir não é minimamente máscula, não digo que não estejas de acordo com as tendências da moda mas a forma como te vestes é no mínimo duvidosa. E daí ? é assim que gostas não é ? então continua a vestir-te assim e ninguém tem nada de opinar ou deixar de opinar.

  5. Acaba por ser subjectivo…Eu por exemplo não aprecio o modo como te vestes, acho muito forçado, muito pouco natural, quase uma caricatura.Se o meu marido se vestisse assim acho que olharia para ele e pensaria" ai que este hoje deve estar a gozar comigo….só lhe falta ao bleiser branco de linho!"
    No entanto se o fazes é porque te sentes bem com esse looko, pelo que qualquer comentário menos bom não te besliscará a auto-estima.No entanto há pessoas que não têm um ego tão desenvolvido e criticar a imagem acaba por ser como critica-las directamente…daí ser um assunto tão sensível.

    Clara

  6. Quando falamos de arte não estaremos a falar de algo bastante subjectivo? Da mesma forma que os bons escritores e maus escritores o são de acordo com a nossa preferência, não será o estilo algo muito relativo? Quem será o deus maior que pode julgar os outros, se vestem mal, se têm estilo?

    Tudo isso é uma questão de opinião. E os olhos são sempre diferentes. Ter pinta para o Arrumadinho não é ter pinta para mim. Somos pessoas diferentes. E isso não significa, penso eu, que eu seja menor ou que o Arrumadinho seja menor no que toca ao poder de análise.

    Para mim, ter estilo é eu olhar para uma peça, um acessório, um cd, um livro e conseguir associá-lo a uma pessoa. Porque essa pessoa é marcadamente uma opinião, uma cor ou paleta de cores, um tipo de música, uma preferência por um autor. Para mim ter estilo é ter personalidade e isso não se vende a modas. É ter a noção do que se gosta e do que se quer e se é. Mesmo que essas combinações possíveis não sejam as que uns quantos criadores se lembraram de juntar, só porque têm nome. Render-nos a isso só porque sim, como diz a anouc, é que não é ter estilo, na minha opinião.

    A arte, como tudo, gera um grande número de correntes. E todos achamos que a nossa corrente é a correcta. Por isso, todas as nossas análises para serem correctas têm que levar uma boa dose de subjectividade e razoabilidade.

  7. Eu acho que o estilo é uma coisa completamente diferente daquilo que falas e do que se tem falado. O estilo nunca é algo que alguém – designers, estilistas, gurus da moda, etc… – impõe e defendem para cada estação. Aliás, quando vou na rua e vejo um "manequeim" de montra a passear, nunca diria que essa pessoa tem estilo. Porque o estilo é algo que vem de dentro, que não se aprende, não se estuda, não se obriga, não se pode construir. É espontâneo, intrínseco. Essas são as pessoas verdadeiramente com estilo. O resto são bonecos.

  8. Anouc, eu percebo o teu ponto de vista, mas a moda, como a literatura ou a música, tem regras, e as regras, as bases, são as tendências. Agora, o que cada um pode fazer dentro dessas tendências não tem limite. Por isso, uma pessoa que siga tendências não tem necessariamente de ser igual a todas as outras. Não é por te dizerem que a cor da estação é o nude que isso vai tornar o guarda-roupa de toda a gente igual. Há milhões de combinações possíveis. É possível manteres o teu estilo próprio sendo influenciado pelas tendências, mas sem perderes identidade, e sem te tornares num clone de outros. Uma pessoa também pode rabiscar umas frases num caderno, e isso pode ser muito original, mas não será literatura. Eu também posso criar uma música que acho linda, mas que não faz sentido nenhum de acordo com quem percebe de música. Na moda não é muito diferente. Uma pessoa pode apresentar-se com um look extremamente criativo e original, mas isso não fará do look uma obra de arte – o mais provável é ser apenas ridículo, tal como seria a música que eu inventasse, tal como seriam os rabiscos no caderno.

  9. Vítimas de uma sociedade? mas vivem neste mundo? mas isso tem algum significado…bolas, não devem viver neste mundo para perceber quem é realmente vítima da sociedade…por acaso passam fome? por acaso são vítimas de uma guerra? por acaso tem de lutar para sobreviver? não entendo…se calhar só se levantam as cinco da manhã para se porem a porta de uma loja, mas já não faziam o mesmo se fosse para fazer voluntariado, tenho pena destas vítimas da sociedade…

  10. Olá Arrumadinho!
    0% de acordo.
    Quem segue as tendências, é quem menos originalidade tem. Há pessoas que mais parecem catálogos da Zara ou montras de loja. Tudo é estudado ao pormenor… e tudo o que é estudado ao pormenor perde a piada.

    Mostra-me uma tipa de saia verde estampada com mal-me-queres gigantescos, camisola cor-de-rosa, sapatos azuis e lenço lilás, que eu mostro-te uma pessoa super original. Para uns poderá parecer um acidente com uma caixa de guaches, mas para outros será pura "arte".

  11. Pois é Margarida, as pessoas que gostam de moda são umas vítimas da sociedade. É importante que se diga muitas vezes, para que não caia no esquecimento. Sigh

  12. Pessoalmente, acho que dizer a alguém que está mal vestido é falta de educação – a menos que sejas o director da tua revista e um jornalista vá entrevistar o presidente da república de chinelos, fato de banho e uma t-shirt a dizer Tabaco Silva.

  13. aiás, ainda nem tinha visitado o teu blog e escrevi o meu último post exactamente sobre esse assunto.. porque pessoas a discriminar quem gosta de moda é do que mais há! 🙂

  14. as pessoas julgam imenso pelo aspecto exterior e cada vez me deparo mais com isso..
    não percebem que uma pessoa que se vista bem possa gostar de actividades culturais. pessoas que ligam à moda são fúteis para a maior parte da sociedade! é triste, mas é o "mundinho" em que vivemos…

  15. A serio, se tiveres um tempinho lê o meu ultimo post… Eu sou a prova de que não há nada como começarmos a ver as figurinhas que nos próprios fazemos… E, como sempre, escreves bem como o Caracas ….

  16. Olá boa noite!
    Sigo a moda numa atitude informativa de actualização cultural.
    A moda p'ra mim, é apenas uma tendência, que aproveito os tons que gosto e algumas peças alietórias.
    Normalmente,sinto-me confortável com o que escolho e visto em cada ocasião.
    Costumo até ser solicitada por algumas amigas, menos seguras, para opinar nas suas "toiletes" a usar em festas e romarias.
    Só com as amigas(do peito),nas quais confio, me atrevo e permito comentários + ou – lisonjeiros.
    Com o restante "people" não costumo comentar e mtº. menos tê-los em conta.
    Aproveito, sim, com os "artistas" da má lingua, para de uma forma indirecta e suptuosa aligeirar as suas arestas.
    Quando aprendemos a gostar de nós próprios esse tipo de coisas passam-nos ao lado.
    Beij.K:).

  17. Olá arrumadinho! Este post faz-me lembrar a velha história entre gordos e magros, ou seja, os gordos podem criticar,dizer que és esquelético, sêco e por aí fora,agora os magros não podem te chamar gordo, porque se o fazem são uns insensíveis e mais uns que tais. Olha é isso mesmo, as pessoas levam-se demasiado a sério e se lhes damos essa importância toda acabamos por ser piores do que elas. Beijinhos

  18. Olá arrumadinho.. 100% de acordo!!
    Se nos vestimos melhor ou de acordo com a tendência somos criticados porque somos vaidosos, porque pensamos que somos mais do que os outros.. Não ligo, porque normalmente essas "críticas" vêm de pessoas que não têm o minimo sentido de moda e que se poderiam vestir muito melhor (hoje em dia ninguém tem que ser rico para se vestir bem)

    Tenho uma amiga minha que de vez em quando vem tomar café de fato de treino.. é a pior coisa que me pode fazer, uma vez que ela é bem gira e tem roupa que lhe fica bastante bem e aí eu costumo brincar com ela e digo-lhe que até para ir deitar o lixo fora nos deviamos vestir!

    Gosto de me vestir bem e gosto que as minhas amigas se vistam bem porque penso que a nossa auto-estima despara. As minhas amigas sabem bem que tanto lhes digo que estão lindas e maravilhosas, como lhes digo que alguma peça não as favorece, sinceridade acima de tudo!

    Parabéns por mais um excelente texto..

  19. Estou como a Juanna, é como acordo e consoante o que tenho de fazer e os sítios onde ir. Que infelizmente nesta Lisboa uma pessoa não pode andar de saia e mostrar pernas, ainda que só do joelho para baixo, que há sempre meia dúzia de depravados que nos fazem pensar que exagerámos na redução do pano. Quando na realidade não foi isso que aconteceu.

    Mas entenda-se, eu também gosto de me vestir bem, também gosto de ver pessoas bem vestidas. Não gosto de ver exageros, mas se essas pessoas se sentem bem consigo próprias eu não sou ninguém para me rir delas. Ainda que ache ridículo. Mas eu só me rio de mim, e isso é a toda a hora. Porque sei que também há quem se ria de mim, e se eu o tiver feito primeiro não me incomoda rigorosamente nada! 😉

    E Arrumadinho, cheira-me que vais ser "apedrejado" por este post, mas esta aqui está do teu lado! =P
    Bjz*

  20. Ao ler este texto lembrei-me de algo que ocorreu comigo há algum tempo. Fui chamada de fútil por opinar sobre a maneira de vestir de alguém, mas melhor ainda: fui chamada de fútil por gostar de arte e interessar-me por cultura e exposições… =S

  21. Sou uma leitora razoavelmente assídua no teu blog, apesar de nunca ter comentado antes.
    Concordo a 100% c este post Arrumadinho! É impressionante a quantidade de pessoas que acham que toda a gente q gosta de moda, q se interessa por moda, é automaticamente uma pessoa fútil.
    Fútil e oca! Quantas pessoas acham que alguém que gosta dessa arte (como tu MUITO bem disseste), é sempre alguém com uma inteligência reduzida e que a sua vida se resume a sapatos e malas e trapinhos! Enfim, subscrevo totalmente este post e revi-me em cada linha escrita.
    Muitos parabéns pelo blog, consegues sempre escrever coisas interessantes, seja sobre o quotidiano geral, de toda a gente, ou coisas mais particulares. 😉

  22. Uma crítica de moda tem tanto valor como outra qualquer. Só acho que, hoje em dia, as pessoas levam a liberdade de expressão ao extremo, ao ponto da ofensa. *

  23. Olá Vitória
    O caso não se passou comigo. Eu raramento falo dos outros, ou critico os outros. Quem me conhece, sabe que é verdade. Mas se for um daqueles casos meeeeesmo gritantes gosto de lançar a minha piada. Mas também aceito que as digam de mim. Acho que assim tem muito mais graça.

  24. Olá,

    Sinceramente ou estou a apanhar do ar, mas não sei onde disseste que algo é/foi piroso, enfim existem pessoas que gostam mesmo de ser chatas, passatempo da vida delas.

  25. É como as pessoas dizerem que não ficam afectadas com as opiniões das pessoas, mas realmente que ficam. E muito.

    Cada um veste-se como quer e, desde que esteja apresentável isso é que interessa.
    E não nos podemos esquecer que muitas pessoas não têm dinheiro para comprar roupa que lhe satisfaça as vontades.

  26. Ohohohoh no que foste tu tocar.
    Há pirosos, há parolos, há fashionistas, há desinteressados, há os domingueiros, há de tudo. Quem olhar para mim pode ver-me de calças de pinças com sabrinas e t-shirt, de jeans e ténis de correr, de botas de 12cm e vestido decotado. Depende de como acordo. Chamam-me pirosa? Chamem 🙂

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