O caso News of The World

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Só acho estranho um escândalo como este do “News of the World” ter rebentado tão tarde. O que os tablóides britânicos fazem há muitos anos é verdadeiramente criminoso e um atentado ao jornalismo. Sei-o por experiência própria.

Há 11 anos, em Maio de 2000, conheci duas jornalistas do “Daily Mirror”, a Jane Ridley e a Ellen Atkinson. Estavam em Chaves a cobrir o estágio da selecção nacional, que preparava o Euro 2000, em que Portugal estava no grupo de Inglaterra. Como era dos jornalistas que melhor falavam inglês, colaram-se a mim para tentarem saber tudo sobre os nossos jogadores, hábitos, famílias, clubes, etc.. Ainda me lembro de como foi a primeira abordagem:

– “Olá, nós somos jornalistas do Daily Mirror e estamos a fazer um trabalho sobre a equipa portuguesa. Mas nenhuma de nós percebe nada de futebol. Podes ajudar-nos?”
– Posso, claro. De que é que precisam?
– Do teu NIB.
– Do meu NIB? Como assim?
– Para te pagarmos pelas informações?
– O quê? Mas não queriam ajuda?
– Claro, mas nós pagamos a quem nos ajuda.

As raparigas até eram simpáticas, mas viviam cada dia num stresse permanente que as levava às lágrimas. Em Londres, os editores exigiam-lhes a missão de tirarem uma fotografia equipadas à selecção inglesa ao lado de cada um dos 22 jogadores portugueses. A ideia era escrever um artigo do estilo “Dormindo com o Inimigo”, dando um ar de proximidade e rebaldaria que se viveria no estágio português.

A Jane, redactora, e a Ellen, fotógrafa, saltaram muros, fugiram de seguranças, infiltraram-se no hotel, embarcaram em aviões em cima da hora, perseguiram o autocarro, fizeram 30 por uma linha, mas lá conseguiram o que queriam. Recordo-me de no último dia elas andarem num stresse louco, lembro-me das lágrimas da Ellen (deixou-me a T-shirt toda suja) porque não tinham o Vítor Baía. Eu lá lhes sugeri que tentassem ir ao aeroporto do Porto, onde a equipa iria fazer escala, a caminho de Lisboa, e onde o guarda-redes iria ficar. Elas meteram-se num carro alugado e foram de Chaves ao Porto quase à mesma velocidade que o avião (que saiu de Bragança). Já estava no meu quarto de hotel quando recebi um SMS da Ellen que dizia apenas “Got Pic :)”. Fiquei contente por elas, pobres desgraçadas.
Ao longo dessa semana que passei com elas – em que jantámos quase todos os dias – fui ouvindo histórias que me deixavam verdadeiramente arrepiado. Literalmente, a verdade não podia interferir com uma boa história, e se interferisse, distorcia-se a realidade para a história ficar mais atractiva. Eu ria-me e perguntava-lhes como é que elas eram capazes de fazer aquilo e a resposta era sempre mais ou menos a mesma: o que interessa é que as pessoas se interessem, e comprem o jornal no dia seguinte – de histórias reais estão elas cheias, nós temos é de as fazer sonhar e de as entreter com algo que lhes interesse.

Uns dias mais tarde, li no Daily Mirror um conto de fadas sobre o estágio da selecção. Histórias que eram contadas em jeito de anedota assumiam contornos de verdade, locais sem qualquer interesse viravam fortalezas e castelos e mais não sei o quê e boatos estavam ali transcritos como verdades absolutas, e consubstanciados com declarações inventadas de gente que nunca falou ao jornal.

Uns anos depois, quando Ronaldo foi para Inglaterra, lembro-me de termos recebido da redacção um jornalista inglês que estava a fazer uma história sobre o facto de Kátia Aveiro querer ser a nova Victória Beckham. Aquilo parecia-nos verdadeiramente absurdo, mas enfim, era o trabalho do homem. Lá lhe explicámos que aquilo não fazia sentido nenhum, que a única coisa em comum entre a Kátia e a Victoria seria o facto de ambas cantarem. E mais nada. Mas ele queria à força ter a história. E chegou a falar com Kátia. Perguntou-lhe se ela ouvia as canções das Spice Girls, e ela respondeu que conhecia a banda mas não tinha qualquer CD delas. O que saiu no jornal foi que Kátia não fazia a mínima ideia quem eram as Spice Girls. Depois perguntou-lhe se ela era amiga da Victoria. Kátia respondeu que não a conhecia de lado nenhum, por isso não tinha qualquer opinião. O que saiu no jornal foi uma frase do estilo “Odeio a Victoria”. E podia continuar aqui a dar exemplos sem fim.

Eu não sou contra os tablóides, nem os jornais populares. Acho que quando são bem feitos são jornais importantes, corajosos, incómodos para os poderes instituídos, que têm uma função de equilibrar os pratos da balança. Muitas das figuras que se queixam dos tablóides são as que se servem deles quando isso mais lhes interessa. A quem se interessa pelo assunto recomendo que leiam o livro “The Insider”, de Piers Morgan, que foi director do “Mirror” e do “News of the World” e hoje é o substituto de Larry King nas entrevistas da CNN. Ela conta tudo sobre o mundo podre de uma série de celebridades e não poupa ninguém – desde Elton John, a Diana ou Tony Blair. Todos se serviram do poder dos jornais por ele dirigidos e, quando lhes era conveniente, faziam-se de vítimas dessa mesma imprensa.

Mas uma coisa é o jornalismo popular, outra é o que fazem os tablóides ingleses. Qualquer outro tablóide do mundo é uma formiguinha ao pé destes monstros.

Ainda assim, lamento o encerramento do News of The World. Acho que seria preferível demitir todos os responsáveis pelo caso das escutas, mudar a linha editorial, ou começar a respeitos os princípios básicos do jornalismo, a fechar portas (recordo que o jornal vendia 7,5 milhões de exemplares, e empregava, directa e indirectamente, mais de mil pessoas). Mas pode ser que a lição sirva a todos os outros, e que em Inglaterra comece a pensar-se mais na verdade e menos nas formas de entreter os leitores.

1 Comentário

  1. Licenciei-me em Comunicação Social há uns três anos… sonhava com o jornalismo, mas a única coisa que tive deste sonho foram uns estágios… o meu caminho seguiu outros rumos da comunicação… mas posso dizer, com toda a certeza, que ler este blog, me ensina tanto ou mais do que umas quantas cadeiras me ensinaram na faculdade!
    Obrigada =)

  2. Talvez o Arrumadinho um dia também faça como o Piers Morgan versão portuguesa…Inside information não lhe deve faltar e pelo que me lembro coragem também era seu apanágio na altura do 24.

  3. Ui, vais levar na cabeça dos teus anónimos fofixuxus porque tu trabalhaste num jornal qualquer de Lisboa que era assim a atirar para o Correio da Manhã.

    Lamento este tipo de jornalismo, mas suponho que ele só existe porque há gente que o consome. Ou será o contrário? Enfim, eu leio tudo o que é revista que vem da RBA (porque mas oferecem), não devo poder falar muito.

  4. Não te vais sem resposta.

    Recordas-te de um jogo entre Inter de Milão e Barcelona, em que o Olegário Benquerença foi o árbitro, no ano passado? O Mourinho era o treinador dos italianos, que venceram por… 3-1, creio.

    Nessa altura, eu trabalhava no Diário de Leiria e fartámo-nos de receber mails e chamadas de Espanha, para que "garantíssemos" que o Olegário e o Mourinho eram sócios num determinado restaurante leiriense.

    Como não era verdade, era notar o "tom" desapontado nas palavras dos nossos camaradas espanhóis :))

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