Nós e o Ronaldo

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Sinto que os portugueses têm uma relação quase esquizofrénica com Cristiano Ronaldo. Tão depressa parece que o amam como uns minutos depois já lhe têm uma raiva sem explicação. Isso tem-se visto com frequência ao longo dos últimos anos, em que o capitão da Selecção Nacional tão depressa é elogiado e levado em ombros como crucificado, apontado como principal culpado pelos insucessos da equipa e criticado pelo facto de jogar muito menos por Portugal do que pelo seu clube.

Acho que isto não tem propriamente a ver com o Ronaldo mas mais com a cultura muito nossa de gostarmos de ver os poderosos a cair. É uma coisa que nos está no sangue, e que se comprova com a forma apaixonada como seguimos desgraças relacionadas com gente importante. Mas depois existe o outro lado, o do nacionalismo de peito feito, e aí, ai de quem toque nos nossos, sobretudo estrangeirada. Nós podemos criticar, temos todo o direito de o fazer, mas se são os lá de fora a fazê-lo, ui, está o caldo entornado. Exemplo disso é o recente caso Blatter, o senhor que ousou gozar com Ronaldo e pôr Messi num patamar superior ao do português. Só que depois parece que nos esquecemos que somos o povo que quando as coisas correm mal é capaz de gritar por Messi só para chatear Ronaldo. E isto aconteceu há uns meses em Guimarães.

Este sentimento esquizofrénico não se resume a Portugal. Mesmo quando Ronaldo, ou mesmo Mourinho, actuam pelos seus clubes, no estrangeiro, sentimos uma certa irritação com o sucesso que têm, mas ao mesmo tempo queremos que eles ganhem para que os portugueses sejam reconhecidos. Conheço imensa gente que não gosta de nenhum deles, que deseja que os clubes delas percam, “só para baixarem a garipa”, como costumam dizer, porque os acham arrogantes, pouco humildes e demasiado vaidosos.

 Só que o nosso mal não é o de termos jogadores ou treinadores com a garipa levantada. O problema é não termos mais jogadores e treinadores que se possam dar ao luxo de andarem com a garipa levantada como Ronaldo ou Mourinho.

Eu sinto por eles um pouco o que os pais sentem pelos filhos quando eles vão à escola. Quero muito que tenham sucesso, mas se se portam mal, zango-me com eles, e zango-me porque gosto muito deles, reconheço-lhes valor e sei que podem dar muito mais. Também acho, algumas vezes, que Ronaldo não esteve bem neste ou naquele jogo, e critico, e exijo mais, mas nunca ao ponto de desejar que ele falhe só para eu ter razão, ou que a Selecção perca. E aqui entra-se noutra discussão interessante, a de criticar ou não criticar os jogadores quando eles erram. Aí, defendo que sim, porque acredito na crítica enquanto veículo de crescimento e não apenas como um modo de destruição. Mas isto não é bem aceite, nem por muitas pessoas, nem por muitos jogadores, nem por muitos jornalistas.

Está um pouco instalada a ideia de que se um jogador é bom, se já deu provas, não deve ser criticado, porque temos uma dívida para com ele. Acho isso errado. Sobretudo se as críticas que se fazem se resumem a um episódio, a um jogo, e não ao contexto de toda uma carreira. Ronaldo é exemplo disso. Lembro-me de ter escrito aqui um texto a criticar a forma como ele jogou contra a Dinamarca, no último Europeu, em que falhou um golo escandaloso, isolado em frente ao guarda-redes, e esteve mal em quase tudo o que fez ao longo dos 90 minutos, e caiu-me tudo em cima — que todos temos o direito de errar, que Ronaldo é o maior, que não é por ter feito um jogo mau que se tornou mau jogador, que lhe devemos muito. Totalmente de acordo com tudo isso. Mas a crítica resumia-se àqueles 90 minutos, e naqueles 90 minutos ele esteve mal. Passou mal, rematou mal, defendeu mal, atacou mal, e só ganhámos com um golo pertíssimo do fim, do Varela, que permitiu que nos apurássemos. Outro exemplo é o dos dois frangos recentes do Rui Patrício, um contra Israel, outro contra o Benfica. Em nenhum dos casos parece que é permitido dizer que o Rui Patrício foi o culpado daquele empate e derrota, respectivamente. E foi. Não foi o único, mas foram as falhas dele, ambas infantis e primárias, que fizeram Portugal perder dois pontos e o Sporting ser eliminado. Isto não quer dizer que ele seja mau guarda-redes, que não nos tenha levado ao colo no Europeu, que não seja o melhor guarda-redes português. É. Mas quando erra temos o direito de dizer que ele errou, sem que isso julgue toda a carreira do jogador. Os futebolistas têm de saber viver com a crítica boa e com a crítica má. Faz parte da profissão.

A Selecção Nacional joga nos próximos dias a presença no Mundial do Rio de Janeiro. Os jogos contra a Suécia são os mais importantes do ano. Eu lá estarei, na Luz e em Estocolmo, de escudo ao peito, e a gritar pelos nossos. Nesses dias, não haverá benfiquistas, sportinguistas ou portistas, haverá portugueses, e portugueses não são os que nasceram cá, em Angola, Moçambique ou no Brasil, são todos aqueles que entrarem em campo com a nossa camisola. E é com eles que eu estarei.

11 Comentários

  1. É engraçado, os americanos costumam dizer que adoram fabricar ídolos para depois os ver cair. Mas claro na mentalidade muito portuguesa, de nos mortificarmos isto é uma coisa só nossa. O Ronaldo se fosse americano era alvo de chacota todos os dias, mais que não fosse só pela maneira como se veste, ou fala.

  2. No meu caso, não gosto do Ronaldo. Admito o excelente jogador que é, mas não gosto dele. E não é de agora, asseguro-lhe que não é inveja.
    Sempre fui do Barcelona e não comecei a gostar do Real Madrid, porque o Ronaldo e mais tarde o Mourinho para lá foram, e isso, fará também com que desgoste mais do Ronaldo. Se quiser saber, sim prefiro o Messi.
    Mas se me disserem se fico contente com as conquistas do Ronaldo, fico. Como português, ouvir que o Ronaldo conquista o mundo deixa-me contente. É o lado patriótico a falar.
    Em termos pessoais, pouco me interessa a vida dela. Tudo pode ser verdade, tudo pode ser mentira. É lá com ele.
    Depois há a parte em que as pessoas acham que ganhando o que eles ganham, espera-se sempre que sejam os melhores e saiam vitoriosos. Isso nem sempre acontece, e quando há mesmo sinais de falta de empenho, as pessoas reclamam.
    Eu amanhã apenas espero aquilo que é normal ser: um Ronaldo mortifero, porque aí apenas uma coisa interessa: Portugal!

  3. Quem tiver a experiência de viver no estrangeiro, aprende muito, pode até retratar-se…. é preciso “mundo” para nos libertarmos dessas características da mentalidade portuguesa que afectam tudo na nossa sociedade… em várias áreas, em todas… Este texto no meu entender reflete quem somos, podíamos ser melhores, podíamos produzir mais, ter mais brio, ser mais unidos e construtivos… gosto tanto do nosso país mas tenho tanta vergonha por não sermos mais coerentes… sair do país é uma catarse… é a tomada de consciência de que, sim estamos errados… sim temos que querer mais, ir mais longe, agir e saber aplaudir os sucessos e apoiar as falhas… se cada um olhasse para o seu umbigo e visse como falha sistematicamente…

  4. Eu costumo dizer que só se sente incomodado pelo sucesso dos outros quem faz pouco da vida.
    E acho que nós, portugueses, de uma maneira geral, temos muito disso, somos muito invejosos, não tanto porque os outros não possam ter ou merecer o que têm, mas porque o sucesso dos outros é a evidência do nosso insucesso.
    Já eu, apesar de portuguesa de gema, não sou nada assim: gosto muito de reconhecer valor a quem o tem efectivamente. Enche-me de orgulho, comove-me mesmo, ver gente superar-se, passar obstáculos, etc, e produzir frutos. Só é pena é haver tão pouca gente com tanto valor. É que ter valor não é só sorte, dá muito trabalho.
    Como diz uma conhecida minha “a sorte dá muito trabalho” e é mesmo verdade!

  5. Brilhantemente identificados algumas das principais características (ou problemas, consoante o ponto de tomada de vista), a saber:
    1. Só eu posso dizer mal da minha mãe. Tu (cônjuge) não.
    2. – Queira desculpar, mas este trabalho não está bem feito.
    – Mas está a chamar-me incompetente?
    3. Aquele carro é espectacular. Há-de espetar-se na próxima curva.

    E já agora, em jeito de piada, cuidado ao afirmar “Eu lá estarei, na Luz e em Estocolmo”:
    4. Ainda dizem que há crise…

    Bom texto, para não variar.

  6. O Ronaldo dá pano para mangas. Em relação ao Blatter, acho que o seu cargo impede (por questões lógicas) que revele a sua preferência. Ousou dar a sua opinião. Limitava-se a dizer que gosta mais de Messi. Não precisava de imitar um e de dizer que o outro é o filho que todos os pais querem ter. Nesse sentido, do gozo, enquanto português sinto-me ofendido por ver um dos nossos maiores símbolos desportivos ser “humilhado” pelo homem que manda no futebol mundial.

    Quanto ao seu desempenho. Isso é outra coisa. Já disse por diversas vezes que lamento que Messi e Ronaldo tenham mais ou menos a mesma idade. Anulam-se. E considero que Messi é melhor. E para isso contribuem muitos factores. A começar pela estabilidade da equipa. Quem tem praticado o melhor futebol de sempre nos últimos anos. Ao contrário do Real que vive de escândalos e mais escândalos. Com treinadores, jogadores, dirigentes e por aí fora. E isso, acaba por ser mau para Ronaldo. O Real depende de Ronaldo. O Barcelona não depende de Messi. E isso dá espaço para que Messi brilhe sem o peso do remate à barra ou o que quer que seja. Aparentemente o Barcelona será campeão com facilidade. Mas, as lesões de Messi abrem a porta ao destaque de Ronaldo. Que poderá ter o seu ano este ano.

    Depois disto, existe o Cristiano Ronaldo pessoa. Que não deve ser tido em conta quando a discussão é sobre futebol. Enquanto português, vibro com as conquista de Ronaldo e Mourinho. Mas, enquanto adepto do Barcelona e do Manchester United, não sinto que tenho de vibrar com eles apenas porque são portugueses. Por mim podem ganhar tudo. Menos os jogos contra o Benfica ou contra os clubes que moram no meu coração. E acho que muitas pessoas não percebem isto ou entendem isto como ser contra eles. Não! Eu sou a favor deles. Mas antes deles existirem desportivamente a este nível já eu vibrava de alegria e ficava fulo de tristeza com os clubes de que gosto.

    Em relação à selecção. Concordo contigo. O público/país deve unir-se em torno da selecção. Infelizmente, as selecções, nos dias que correm são “quase” clubes. Custa-me saber que os jogadores que estão a defender um país queiram ter reuniões sobre prémios de jogo a horas de jogarem uma eliminatória de uma competição mundial. Isso é errado. Pelo menos para mim, que defendo que é uma honra ser escolhido para representar o país. Já para não falar dos milhões que ganham nos seus clubes.

    E a magia do futebol dos seus jogadores é mesmo esta. A paixão com que cada qual defende o seu “peixe”. Espero que Portugal esteja no mundial. Lamento, mais uma vez, que se chegue a este ponto quando o apuramento podia ser tranquilo. Mais do que ver um Ronaldo em grande, quero ver uma equipa. E até pode ser o Patrício ou o Bruno Alves a marcar golos. Por outro lado, espero que aquele terror sueco que calça o 46 (se não me engano) e dá por nome de Ibra não esteja inspirado.

    Força Portugal e desculpa o comentário longo mas o futebol faz-me isto 🙂

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

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