Livros para as férias #1 – A Última Canção da Noite

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O segundo romance do Francisco Camacho, “A Última Canção da Noite”, é um dos melhores livros que li este ano. Saiu há pouco mais de uma semana, mas bastou-me um dia e meio de praia para o ler. É daqueles livros que têm tudo para me agarrar: uma história de amor adulta, nada piegas, personagens fortes e carismáticas, e mundo. É um livro cheio de mundo.

“A Última Canção da Noite” é a história de Jack Novak e David Almodôvar. Jack é a estrela rock do momento, um guitarrista com o talento de Jimmy Hendrix ou Eric Clapton, a alma da grande banda rock da actualidade, os Bitters. Jack é também uma alma atormentada pela fama, que só deseja voltar a ser um homem comum, e que um dia resolve partir, desaparecer.
David é um criativo que se diverte a fazer crítica de música e que perde a credibilidade, o emprego e o ânimo quando é acusado, injustamente, de plágio. É seguido por uma psicóloga que nunca aparece e apenas se manifesta por frases soltas, mas nem assim consegue ser um namorado decente, o que o leva a ser deixado pela mulher que ama mas que ele não sabe amar, Vera. Ele é, também, um dos maiores fãs dos Bitters e um dos poucos críticos que souberam entender o interior de Jack.

O destino dos dois junta-se quando Jack Novak, desaparecido há três anos, vem para Portugal, onde passou grande parte da infância, e o único sítio onde foi verdadeiramente feliz. Jack quer contar a sua história, a história do seu desaparecimento, empurrado por uma notícia que lhe mudou a forma de ver a vida. David é o escolhido para o ouvir. Só aceita fazê-lo com uma condição: se Jack o acompanhar numa viagem a Marrocos, onde vai ter encontrar Vera e recuperar o seu amor.

Todo o livro é acompanhado de banda sonora. Francisco Camacho, ele próprio crítico de música, e conhecedor profundo do mundo do rock, planta por quase todos os capítulos diversos temas tão diferentes como os de Jim Sullivan, Black Keys, Smog, Pavement, Mazzy Star, Yo La Tengo ou Ramones, o que confere ao livro uma musicalidade constante. Acho, até, que numa edição de e-book o livro deveria vir acompanhado com os ficheiros de mp3 das dezenas e dezenas de temas e bandas que são referidos.

O que mais me seduziu ao longo da leitura foi todo o mundo que encontrei, e que o autor também já encontrou (o Francisco já foi director da revista “Volta ao Mundo”). O livro começa em Cluj, na Transilvânia (Roménia), passa por Berlim, Londres, La Herradura (Espanha) ou Lisboa. Há todo um enquadramento histórico da personagem de Jack que leva a acção à guerra dos Balcãs e à Croácia no início dos anos 90. Tudo relatado com delicadeza, sensibilidade, maturidade e conhecimento.

Até as personagens secundárias são marcantes. Victor Capri é um promotor manhoso muito bem conseguido, Lola uma desequilibrada lasciva, Vera, uma amante paciente, que se despede de David numa longa carta (dos capítulos mais bonitos do livro) que resume na perfeição muitos desamores reais. Até a bailarina que Jack e David conhecem em Marrocos nos deixa com vontade de a ver dançar (para ser politicamente correcto).

Costuma dizer-se que é ao segundo romance que um autor se afirma. Se assim é o Francisco vai ser, e merece ser, um dos nossos melhores romancistas.

2 Comentários

  1. Caro Arrumadinho

    Nunca comentei no seu blog, mas achei deveras curioso este post, uma vez que li este livro nas férias, na semana passada no Algarve. Adquiri-o na Feira do Livro há cerca de 1 mês e sendo eu uma apaixonada por música, a história cativou-me, ainda que desconhecesse o autor. Contudo – e é essa a parte interessante da leitura – se a sua perspectiva contemplou alguns pontos interessantes que não tinha valorizado, a verdade é que o livro deixa o final demasiado suspenso, em aberto. Gostei da forma como está escrito, não só a fluidez e precisão do discurso como a própria estrutura narrativa. Um pormenor que considerei muito interessante foi a capacidade de o autor deixar que os personagens ao longo da história nos despertem sentimentos contraditórios. A vida e os obstáculos diários, no fundo, são assim: revelam o melhor ou pior que há em nós.

    Boa noite

    Ana

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