Isto só vai lá à Machetada

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1888

Ainda não consegui perceber as razões que levam a que o ministro dos Negócios Estrangeiros, Rui Machete, continue no cargo. Nem as razões apontadas por ele para continuar, nem as razões (omissas) do primeiro-ministro para não o demitir.

Em Portugal confunde-se muitas vezes o fait-diver político com os assuntos verdadeiramente importantes. E a culpa aqui é, diga-se, da oposição, que por dá cá aquela palha pede a demissão dos ministros e dos secretários de Estado. E isto não é uma crítica ao PS. Quando digo oposição estou a referir-me a todos os partidos que estão na oposição, sejam eles quais forem. E depois acontecem casos como o de Rui Machete e o discurso é o mesmo, “ah, demita-se” e tal, e ninguém leva muito a sério aquilo que é dito.

Mas este não é um fait-diver político, as declarações do ministro à Rádio de Angola são de uma gravidade tal que, após terem sido tornadas públicas, o primeiro-ministro quase tinha obrigação de o demitir e fazer as perguntas depois. É que independentemente das respostas e das justificações, o fim teria de ser sempre o mesmo: a saída do ministro.

O que está aqui em causa não são só as relações entre Portugal e Angola, é toda a credibilidade do sistema judicial português, é o real funcionamento das instituições democráticas, que em Portugal existem e funcionam e em Angola não. Quando Rui Machete põe em causa o Ministério Público e dá a entender que nenhum angolano próximo do Presidente José Eduardo dos Santos será investigado pela Justiça portuguesa, Rui Machete está a colocar o nosso País ao nível de Angola num capítulo onde, felizmente, estamos décadas à frente, que é o da democracia, da independência de poderes. Por cá, a corrupção rasteira não manda (embora exista, como é óbvio), o amiguismo não faz jurisprudência e não basta ser da trupe de um Presidente para se estar a salvo da Justiça. E foi tudo isso que Rui Machete deu a entender com as declarações que fez.

Diz ele que quis salvaguardar as relações entre os dois países, mas não foi isso que fez, o que fez foi mostrar que Portugal está disposto a pôr-se de joelhos perante o poder financeiro e de investimento de Angola. Mas não, caro ministro, Portugal não está disposto a isso. Claro que todo o investimento estrangeiro pode ser bem-vindo, desde que enquadrado nos nossos parâmetros legais. Claro que o dinheiro de Angola é importante e muitas grandes empresas conseguiram resolver problemas sérios de liquidez e crédito com a chegada dos milhões angolanos, mas isso não está acima de tudo, nem do sistema judicial nem da nossa dignidade.

Portugal não é Angola, e ainda bem que não é. Angola tem os recursos naturais, os diamantes, os milhões que por cá escasseiam, mas nós temos a dignidade de viver num regime democrático e livre, temos o orgulho de viver num País onde podemos dizer o que pensamos sem termos de nos preocupar com a identidade de quem nos está a ouvir, ou com eventuais represálias por delitos de opinião. Portugal não é Angola, e ainda bem que não é. Vivemos num país onde podemos defender o despedimento de um ministro que nos quis pôr de joelhos perante uma nação onde ainda manda a corrupção e o dinheiro de origem duvidosa. Portugal não é Angola, mas só Rui Machete parece não ter percebido isso. Ou melhor, para agradar aos angolanos, Rui Machete quis dar a entender que sim, que Portugal é Angola, e que Angola é Portugal, e que somos todos amigos e irmãos. Não somos. E se um ministro dos Negócios Estrangeiros pensa assim (ele não pensa, eu sei, mas achou que ficava bem passar a imagem que pensa), então, que tente arranjar um cargo de luxo nalguma empresa angolana e que deixe a pasta que ocupa para alguém que saiba defender a imagem do nosso País.

Quer parecer-me que o nosso ministro gostaria que no nosso País vigorasse a lei “Machete”, em que tudo deve ser resolvido à machetada

6 Comentários

  1. Óptimo comentário.Excelente leitura do que realmente se passa.A mim também me causa estranheza Portugal se virar para Angola quando aqui também existem tantas “personalidades do estado” para se investigar.Na minha modesta opinião devia se começar pelo nosso Vice Paulo Portas.Mas Portugal não é Angola. E ainda bem que não o é.

  2. No meio de tanta machetada, perde-se o contexto da notícia… depois de ler o teu post é que finalmente percebi toda a história. É que no jornalismo atual, sobrepõem-se todas as novas informações à notícia principal.
    Parabéns pelo blog!

  3. Enquanto Angolana e Portuguesa não podia estar mais de acordo com a Anónima que frisa que Portugal deveria ocupar-se a limpar a própria casa antes de opinar sobre a casa alheia…
    É difícil manter uma posição neutra e imparcial, questionar origem de fundos e relações negociais quando os milhões que entram se revelam tão úteis e oportunos à economia portuguesa…
    Não é que não condene as declarações do senhor ministro… Mas se calhar o ideal seria não dizer rigorosamente nada sob pena de qualquer declaração se revelar uma grande hipocrisia…
    Quanto ao envio do senhor Machete para Angola… Eu sugeria manter o lixo nacional dentro das respectivas fronteiras.

  4. Excelente post . Parabéns. É isso mesmo. Portugal tem a sua dignidade que não é comparável a Angola. Ainda temos, por enquanto, eleições livres, que nos permitem eleger os nossos representantes de forma democrática.

  5. Portugal não é Angola, sem dúvida. Mas como Portuguesa incomoda-me que estejamos a investigar os dinheiros angolanos e altas individualidades de Angola quando temos tanto para investigar dentro do nosso país. Como é que os BPNs, PORTUCALES, Independente, FERROSTAL, etc.. continuam a passar pelas gotas de chuva com impunidade e, ai d’el rei que altas individualidades do estado angolano estão a colocar em portugal dinheiro indevidamente retirado aos cidadãos angolanos e sem terem pago o imposto devido. Não sei mas parece-me demasiado forçado e a típica atitude de assobiar para o lado e desviar as atenções.
    há também que fazer a ressalva da enorme comunidade portuguesa que se encontra em Angola e que pode ser “salpicada” com esta questão.

  6. aliás, em angola este blog não podia existir.
    nem o da pipoca.
    e este ministro adopta à escola “Relvas”, isto é, vale tudo, mas mesmo tudo, para agradar a angolanos.
    nada contra os angolanos, mas isto sim é que anti-patriótico, de joelhos perante estrangeiros.
    um bem haja pelo teu blog – confesso que me agrada esta tua “nova” fase, em que abordas outros temas, mas de uma forma leve ao mesmo tempo rigorosa.
    agora, ao trabalho.
    abraço do porto

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