Ir de vela

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A minha relação com os sapatos de vela começou há sensivelmente 20 anos, na altura em que quem não tinha uns era um ovo podre. Lembro-me de andar no 10.º ou 11.º ano e quase todos os looks decentes, de rapazes e raparigas, passavam pelas calças de ganga e sapatos de vela. Quem podia, tinha umas calças Uniform, Levi’s ou El Charro e uns sapatos de vela Portside, quem não podia arranjava calças de ganga mais baratinhas e uns sapatos de vela a imitar os Portside (até havia uns que tinham a chapinha de lado e tudo, mas que em vez de dizer Portside dizia outra coisa qualquer).

Como quase todos os putos daquela idade, gostava de ter as melhores coisas. Até ao 9.º ano, a minha prioridade era a roupa desportiva. Lembro-me de ter andado uns meses a juntar para comprar uns ténis Adidas pretos e brancos que adorava (hoje, quando penso neles, não consigo entender o que via naquilo – são fases). Na altura, os ténis custavam 13 ou 14 contos, uma fortuna. A minha mãe não mos podia comprar, por isso, juntei. E lá consegui o dinheiro. Quando os consegui encontrar, já só tinham o número 44. Eu calçava o 42. Fiquei tão desiludido, que resolvi comprá-los na mesma. E durante meses lá andei eu com uns ténis dois números acima, mas que me deixavam cheio de orgulho. Um puto estúpido, mas acho que dizer isto é quase redundante. Todos os putos com 14 ou 15 anos são parvinhos. Ou quase todos, vá.

Quando cheguei ao 10.º ano, e comecei a importar-me mais com miúdas, passei a dar outra importância à roupa. Fui parar à turma mais betinha da escola, e acabei por me juntar à turma da calça de ganga, camisa, pullover vermelho e sapato de vela. Tal como havia feito com os ténis, juntei dinheiro durante algum tempo para conseguir comprar os meus primeiros Portside. Tive de dizer à minha mãe que aqueles sapatos eram fantásticos, que o preço se justificava porque eram de muita qualidade. E lá os comprei, em castanho. Como tenho os pés chatos, os meus sapatos e ténis tendem a deformar-se em pouco tempo. E se dou muito uso a um determinado par, então, a coisa é ainda pior. E foi o que aconteceu. Ao fim de poucos meses, já os meus Portside tinham uma forma esquisita, estavam feios, mas acho que os usei até se desfazerem.

A moda dos sapatos de vela durou mais uns três ou quatro anos. Mas quando cheguei à faculdade já me tinha deixado disso – era mais botas de montanha. E nunca mais liguei muito aos sapatos de vela.

O ano passado, nos Estados Unidos, encontrei uns Converse muito engraçados, uns sapatos de vela com sola branca rasa e em camurça verde. Comprei-os. E fiquei logo com a ideia de comprar outros modelos, mas em cores diferentes. Só que nunca mais encontrei nada de que gostasse. A Zara chegou a ter uns modelos em cinzento e azul, mas a qualidade era muito fraquinha (também custavam uns 19 euros, não se podia esperar grande coisa).

Há dias, a propósito de um post que escrevi sobre uma marca de sapatos portuguesa, fui contactado por uma outra marca, a Common Cut, que não conhecia, e que me quis apresentar os produtos que tinha. Enviaram-me o link para o site e fui lá espreitar. E lá estavam eles: os sapatos de vela, de sola branca, e com todo um universo de cores. Mas mais: fazem sapatos a duas cores, uma das tendências desta estação.

Resolvi escolher um modelo, em azul céu, que me chegaram com três tipos de atacadores diferentes, em branco, preto e laranja. Tinha muitas dúvidas sobre um outro modelo, sem atacadores, e com uns berloques à frente. Já tinha discutido o assunto “berloques” com a minha mulher. Ela acha graça, eu tinha algumas reservas. Num sapato mais tradicional, clássico, não consigo gostar muito. Mas se for num sapato mais nesta onda, estilo vela, descontraído, com sola branca, sou capaz de usar.

Lá me chegaram os dois modelos. Experimentei-os logo no primeiro dia. Uns de manhã, outros à noite. E fiquei fã. São muito confortáveis, leves, divertidos, o material é de qualidade, e ficam bem com quase tudo, seja um look mais casual, mais formal, ou até de praia.

Os azuis combinam muito bem com calções de qualquer cor (até de banho – o tal look de praia) e calças brancas, de ganga com uma lavagem mais clara, ou de cores mais suaves (verde claro, amarelo suave, bege). Os castanhos ficam bem com tudo – calças de qualquer cor, calções de qualquer cor ou fato de banho.

A Common Cut é uma marca muito recente, criada por dois amigos de 31 anos, que não quiseram ficar a chorar os tempos de crise e fizeram-se à luta. Estes sapatos são o primeiro produto deles. Nas próximas estações haverá roupa e outros modelos de calçado. Eu vou ficar atento.

Se alguém quiser encontrar estes sapatos pode ir à Gardénia, em Lisboa, ou à Coisas D’Homem, no Centro Comercial Miguel Bombarda, no Porto. Vendem-se ainda na TrêsPês, em Braga, e na Trucks, no Fórum Vizela. Cada par custa 81 euros. Podem espreitar o site aqui.

1 Comentário

  1. gosto muito! mais dos 1os. tenho uns da timberland iguais aos 1os, de sola branca e tudo so que navy e atacadores castanhos, muito giros, elegantes e super confortaveis! nao sei se ai em portugal haja na loja Timberland, que e uma marca que adoro, mas se houver da uma espreitadela que sao super boa qualidade/preco.
    O meu marido tambem tem uns Timberland do genero tenis/sapato vela e sao de duas cores 😉 e uma mistura muito engracada

  2. Uma marca portuguesa e com um produto excelente! Assim vale a pena divulgar quem é empreendedor, no verdadeiro sentido da palavra, porque produzem e dão trabalho às pessoas!

  3. A publicidade à concorrência já está feita, mas não custa tentar.
    Também fazemos sapatos destes (excepto o dos berloques), baratinhos e de pele verdadeira. É a minha mãe que os cose à máquina, o meu pai bate na forma e o meu irmão que os acaba. Tudo muito familiar. Espreite o nosso blog. Se gostar de algum modelo é só deixar uma mensagem.

    http://fronteira-wildlandshoes.blogspot.pt/

  4. Graças aos Deuses sempre fui da bota da tropa e o dinheiro que poupava era para ir ao cabeleireiro pintar o cabelo de 4 cores diferentes. Sempre odiei sapatinho de vela e aqueles cacos verdes compridos que as betinhas usavam na altura. Não estou a dizer mal, pois cada um tem o seu gosto. Mas se calhar não eram só coisas de adolescentes, porque ainda hoje com 37 anos uso cabelo laranja e compro roupa em 2a mão, e o Arrumadinho continua com os sapatinhos de vela. Por isso não eram defeitos da adolescência…é feitio mesmo.

  5. Uma história engraçada:
    Há uns anos atrás fui a Barcelona com o meu marido e encontramo-nos com uns amigos nossos que lá vivem já há alguns anos. Estávamos à porta de um barzito à noite e esses meus amigos íamo comentando as pessoas que passavam por nós e diziam: "São portugueses! Estes não são. Ahh, estes são!"
    Estava incrédula, pois eles olhavam para o chão para afirmar a nacionalidade dos mesmos. Perguntei: "Como é que sabem se são ou não portugueses?"
    -"Fácil." – responderam-me – "Só os portugueses é que usam sapatos de vela, sem ser para velejar!"
    E, não é que tinham razão, pois todos os seguintes que íam passando que eu ouvia falar, só os portugueses usavam os ditos sapatos de vela.

  6. Eu tenho um fascinio por sapatos de vela e berloques, é público, as pessoas que me conhecem sabem e até me gozam. Quando conhecia alguém, olhava logo para os sapatos, são a minha praia, assim como quem os usa, nada a fazer 🙂 🙂
    na-província.blogspot.com

  7. Caro Arrumadinho o problema dá-se em eu estar a visualizar o look como um todo. Amarelo e calças será coisa que não combina, nada a fazer, vamos concordar em discordar, sendo que eu tenho razão, claro.

    (também acho uma ideia de valor, a deles, ainda que não sejam amigos, não a sua, das calças amarelas)

  8. Cara Pipoca Picante. Podia até dar-se o caso de estar a ajudar amigos. Mas não. Não conheço os donos da marca de lado algum. Apenas acho que fizeram um trabalho de valor. Eu gostei, pelo menos. Quanto às calças amarelas com sapatos, acho nao estás a visualizar o look no seu todo. Os sapatos azuis com umas calças amarelas e uma T-Shirt branca fazem um conjunto casual, divertido e perfeito para o Verão.

  9. Mas que bela iniciativa! Adoro os azuis! Em relação aos pés "chatos", se quiseres eu faço-te umas palmilhas personalizadas para corrigires isso e ficas muito melhor e mais confortável. 🙂 (a sério, é a minha área) Até já devias ter, já que fazes bastante desporto.
    beijinhos

  10. Estão muito bem e é simpático da sua parte ajudar os amigos, a vida é isso mesmo e o seu amigo terá muito valor, confesso que os berloques só combinam com os Sebago e daí talvez já nem com esses, agora por favor não use o sapatinho com uma calça amarelinha, a ganga clara estará adequada.

  11. Gosto dos sapatos,mas o que me leva a comentar,é a iniciativa doas pessoas! Aleluia! Já não há pachorra para o bota abaixo,para a crise grrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr…Desde que me conheço e pelas conversas dos meus avós,toda a vida ouvi falar das dificuldades,racionamento,a emigração nos anos 60/70 deveu-se a quê?? Turismo?? Só que dantes ia-se á luta,e agora querem a papinha toda feita! Por isso é que admiro quem se faz á vida! Também têm modelos femeninos?

  12. São maravilhoso, também me fazem lembrar os meus tempos de sapatos de vela, tempos em que as meninas também as usavam e os rapazes também como é óbvio, mas não foi assim há tanto tempo, há uns 5 ou 6 anos atrás ainda se usavam.
    Continuo a achar bastante piada e ainda por cima se são de uma marca portuguesa, mais piada acho.
    Adoro, Adoro…fico delirante de perceber que há pessoas a fazer por si, a investir num produto seu, a mostrar de Portugal tem pessoas capazes de erguer pequenas "montanhas" e este é mais um exemplo disso. Apetece-me fazer-me à vida. Cada vez mais 🙂
    Obrigada Arrumadinho por nos mostrares coisas tão lindas e feitas por Portugueses. Melhor acho que seria uma rubrica bastante interessante, tal como o IN the MOOd for love, um espaço onde as pessoas poderiam mostrar o que em Portugal se faz de melhor, muitas dessas coisas funcionam essencialmente a nível de sites que não são bem divulgados, aqui acho que seria um espaço excelente, principalmente porque tens uma opinião bastante ponderada e que todos gostam de ler (pelo menos eu gosto bastante), e poderiam ser produtos e até serviços, quem sabe? Mais uma ajuda ao "jovens" portugueses que se tentam erguer numa crise que parece que nos quer levar a todos.
    Bem excedi-me…mas é o que dá, este tema de novos investidores/criadores portugueses deixa-me inspirada e com muito Orgulho de ser Portuguesa 🙂

    mdefemme.blogspot.com

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