I fucking did it

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Obrigado ao Hugo Miguel por me ter enviado esta foto, nos Restauradores 

Pelo segundo ano consecutivo, consegui terminar uma maratona. Mas se o ano passado a coisa teve um sabor especial, por ter sido a primeira, este ano o facto de ter conseguido chegar ao fim soube-me a vitória, já que não fiz a preparação necessária para a prova, não treinei distâncias longas, não cumpri com um plano de treinos, e, ainda assim, completei a prova em 4h22m50s, apenas mais três minutos do que na Maratona de 2012, que preparei durante quatro meses. E isto deveu-se a vários factores. Muitos mesmo. A começar pelo pequeno-almoço.

O Pequeno-almoço

O ano passado, lembro-me de ter acordado umas três ou quatro horas antes da prova e ter tomado um pequeno-almoço de rei, com ovos mexidos, pão, uma banana, doce, fiambre, café com leite, etc. Durante muitos anos, meti na cabeça que antes de uma prova tinha de comer muito, e pequenos-almoços bem ricos, mas a verdade é que isso raramente influenciava positivamente o meu rendimento. Este ano, optei por comer o mesmo que como todos os dias: um iogurte magro misturado com uma banana cortada às rodelas, muesli e amêndoas. E o que é que aconteceu? Na partida senti-me perfeitamente, sem aquela sensação de estar ainda um pouco cheio, coisa que me aconteceu o ano passado.

Ou seja, o ideal é não alterarmos os nossos hábitos e comermos o mesmo de sempre. Os extras de que precisamos vamos ingerindo durante a prova.

A estratégia

A primeira maratona é sempre uma incógnita, porque não sabemos bem ao que vamos e que tipo de sensações vamos vivendo. Este ano, já sabia o que se ia passar, já conhecia “o muro”, que é o período de maior sofrimento para os maratonistas, ali entre o km 33 e 38, momento em que muita, muita gente acaba por parar ou caminhar. O ano passado senti-o logo ao km 33, mas também ao 36, 37 e 38. Foram quilómetros duríssimos, em que parei várias vezes. Este ano, optei por uma cadência mais baixa, sempre na casa dos 5’45”/5’55”. Mantive o ritmo durante os primeiros 25 km, sempre sem parar nos abastecimentos (levava a minha própria fonte de hidratação) e mantendo uma grande disciplina, controlando-me para nunca acelerar. Tinha decidido que se aos 35 km me sentisse bem, então, tentaria acelerar. Não aconteceu, naturalmente. Aos 32 km, quando passei nos Restauradores, senti que estava muito bem, e com mais do que energia para chegar ao fim, e com um tempo razoável. Tive a certeza de que conseguiria terminar sem parar, sem caminhar, desde que conseguisse manter a mesma cadência. Só que depois dei de caras com “o muro”, ali ao km 35. E então começou o diálogo entre o corpo e a mente.

Corpo — Bom, se calhar já paravas.

Mente — Não. Estou bem.

Corpo — Estás bem? Tens dores nas articulações das pernas, estás prestes a ter uma cãimbra, tens os ombros tensos, não tens força, já estás a ficar sem água na mochila e ainda te faltam 7 km para o fim. Vá, pára lá.

Mente — Não. São só 7 km, eu aguento.

Corpo — 7 km, ao ritmo a que vais, são uns 50 minutos a correr. Isso é quase uma hora. Não vais aguentar. Pára já, que depois ficas mais fresco.

Mente — Não páro. Não páro.

Corpo — Pára. És um fraco, admite.

Mente — Não! Não!

Corpo — Pára, rato do esgoto. Não podes com uma gata pelo rabo. Olha aquele senhor, com mais 20 anos que tu, a passar-te à frente. Fraco. Pára.

Mente — Eu vou passá-lo. No próximo abastecimento bebo um Powerade e isto vai ao sítio.

Corpo — Não vai haver próximo abastecimento. Pára, rato.

Mente — Cala-te.

Corpo — Vais ceder, vais ceder… está quase.

Mente — “Don’t stop me now, ‘cause I’m having a good time, having a good time”

Corpo — Canta, canta, que já choras. Olha para essas pernas, parecem gelatina.

Mente — Pronto, caralho! Já parei.

Parei aos 38 km. Não deu mesmo. Foi um morrer na praia, mas não aguentava mesmo. Caminhei durante uns 800 ou 900 metros, recuperei um pouco, e voltei ao meu ritmo, já a chegar ao Parque das Nações. Os últimos quilómetros foram duríssimos, de sofrimento puro, mas, ao contrário do ano passado, nunca pensei “mas por que raio é que achei que isto era uma boa ideia?”. Não. A determinação em cumprir com este desafio difícil falou sempre mais alto. Um obrigado especial à Sónia Morais Santos (a Cocó na Fralda), ao Ricardo e aos filhos, que estavam na estrada a aplaudir os atletas, e aquelas palmas são uma força fundamental para quem vai na estrada, sobretudo se levar 41 km nas pernas, como era o caso.

O equipamento

Este ano, mudei todo o equipamento relativamente ao ano passado. A começar pelos ténis: deixei os meus Asics e usei os Adidas Boost, com que já correra nas meias-maratonas de Setúbal, do Porto e nos 10 km da Corrida do Destak. São os melhores ténis de corrida que já usei, excelentes no amortecimento, extremamente confortáveis e favorecem uma passada leve e rápida. Sou fã.

Desta vez, também optei por levar o camel bak, a tal mochila de corrida com um reservatório de 1,5 litros que enchi com líquido hidratante. Também guardei duas bananas, duas barras energéticas e três pacotes de gel. O telemóvel e o ipod também foram no camel bak, o que me permitiu correr sem a braçadeira que costumo usar para levar o telefone. Numa corrida de mais de 4 horas, é natural que tudo incomode, e, assim, senti-me mais leve.

Na maratona de hoje testei umas meias de compressão da Compressport, que retardaram muito as dores musculares e me fizeram sentir muito mais leve durante mais minutos (amanhã faço um post a falar melhor sobre isto).

Pela primeira vez, usei também um boné, que foi fundamental para que o corpo não aquecesse tão rápido. Curiosamente, e ao contrário do que muita gente diz, o boné de running é de cor preta e não absorveu o calor, pelo contrário, senti-me sempre fresco e não me fui abaixo com o calor, como aconteceu no Porto, por exemplo.

Em vez de usar a aplicação da Nike para controlar a corrida, desta vez usei o meu relógio Garmin 910XT, que me ia alertando de tempos, distâncias, ritmos cardíacos, com avisos de velocidade e sempre que me estava a exceder em termos de esforço. É uma espécie de computador de pulso que permite, depois, dissecar toda a corrida e entender tudo sobre ela.

A alimentação

Desta vez tracei um plano de abastecimentos muito rigoroso, para conseguir equilibrar sempre o corpo e mantê-lo bem alimentado ao longo da prova. Aos 15 km tomei o primeiro gel, aos 20 km comi uma banana, aos 25 km tomei o segundo gel, aos 30 km comi uma barra energética, aos 35 km tomei o terceiro gel e comi a segunda banana. Mais ou menos nesta altura fiquei sem líquido hidratante na mochila, e acho que isso também ajudou a que me tivesse ido abaixo pouco depois.

Bom, e acho que tudo isto ajuda a explicar o porquê de este ano ter conseguido um resultado tão próximo daquele que alcancei em 2012, mas com muito menos treino.

De qualquer forma, naturalmente, o meu conselho é o de que preparem sempre com muito cuidado e muito tempo uma maratona, que é um assunto sério e uma prova que obriga a um desgaste a todos os níveis que não está ao alcance de gente que não corra com regularidade há muitos anos. O facto de ter conseguido isto terá, também, a ver com aquela ideia de que os músculos têm memória, e as minhas pernas devem lembrar-se de que correm desde os 18 anos.

Deixo aqui algumas imagens da prova e de dados recolhidos com o meu relógio Garmin.

O mapa com o percurso entre Cascais e o Parque das Nações

O certificado oficial para guardar

O descanso, a medalha e os Adidas Boost
Obrigado à querida Andreia Vale (que tirou a foto nos Restauradores) e ao grande João Moleira, que estiveram lá para nos dar apoio
A cadência de velocidade, km a km. Como se pode ver, apenas baixou ali no km 38, quando não aguentei e caminhei durante uns 800 m

A frequência cardíaca nunca passou as 177 bpm, o que é muito bom (tenho um alerta para os 180, que é a minha frequência máxima recomendada, e que representa 85 por cento do meu limite)

20 Comentários

  1. Gostava de lhe colocar uma pergunta. Diz que «A frequência cardíaca nunca passou as 177 bpm, o que é muito bom (tenho um alerta para os 180, que é a minha frequência máxima recomendada, e que representa 85 por cento do meu limite)». Como chegou a este valor de 85% do seu limite? É que pensei que a frequência cardíaca máxima era o limite, e isto estabelecido pela fórmula de 220 – idade…

    Já agora, parabéns pela conquista e por ter chegado ao fim. Essa, sim, a grande vitória.

  2. Parabéns Ricardo!!! Estava bastante curiosa por saber como te irias portar nesta maratona. Fui varias vezes ao facebook e pagina (tua e da Pipoca) para tentar saber novidades da maratona. Até que voilá, actualizaste o face e fiquei muito feliz por teres conseguido acabar.

    Tenho uma grande curiosidade sobre o “day after”. Como é que se recupera de um esforço brutal destes.
    Como é o dia seguinte à maratona? Conseguem andar? Conseguem andar sem mancar? Conseguem levantar da cama/sofá para ir à casa de banho sem gritar de dor? Conseguem ir trabalhar?

    Gostava de ler o que tens a dizer sobre isso. 🙂

  3. Antes de mais parabéns pela maratona! É preciso ter coragem, e eu admiro muito quem tem esse gosto e dedicação para a corrida.
    Podes-me dizer o nome de uma app para android que faça um bom acompanhamento na corrida, que avise ao fazer cada kilómetro, o tempo e a velocidade? Estou a usar o Runtastic, mas a ‘mulher’ só fala até ao 2ºkm, e depois cala-se. Como eu só corro 5km (por enquanto) não me causa grande transtorno, porque vejo o tempo pelo relógio e sei mais os menos por onde ando.
    Como tu és um atleta, que gosta de tecnologia, acho que és a pessoa ideal para me aconselhar.
    Obrigada 😉

  4. Parabéns Ricardo!

    Mesmo! Com a falta de treino e todos os argumentos que a nossa mente cria para contornar a corrida :).

    Muito bem preparada em termos de abastecimento, acessorios e determinação do pace realista. Inveja desse gráfico flat de pace!

    Obrigado pela partilha, estou a ganhar forças para trocar o “x” da meia para maratona na proxima inscricao! Keep running!

  5. É um port muito técnico, sim. Mas para quem vibra com o mundo da corrida é um excelente post. Eu fiz este ano, em Março, a minha primeira meia maratona, quiçá para o próximo ano não arrisco nos 42km 😉

  6. Ricardo, parabéns! Para mim e minha mulher foi a primeira maratona! Reconheço o dialogo mas consegui andar pouco, parando apenas para dar conta das cãibras e para subir aquela montanha ao lado da loja da Prorunner 😉

    (nao te deves recordar mas estive contigo em 2 das corridas solidarias da prorunner, até te pedi para tirar uma foto ao teu cão para mostrar à minha prole)

    Abraço

  7. Parabéns Ricardo! Se puderes diz-me onde te baseias para preparar as tuas corridas/maratonas. Tens alguém que te ajuda ou é know how e experiência? Eu pergunto porque tenho pensado muito em começar a correr “a sério” e quem sabe um dia correr uma meia ou até mesmo maratona.
    Entretanto fico à espera de mais posts sobre o assunto!

    Boa recuperação e boas corridas!

  8. Comentado na perfeição.

    Para mim foi a 1ª Maratona.
    Depois de várias meias Maratonas e por influencia de alguns colegas de corrida decidi inscrever-me na Maratona nos primeiros dias de Setembro, apenas comecei a preparar a dita desde então e durante essa mês fiz apenas 2 treinos longos (26/27 Kms) muito pouco para uma prova com esta distancia.
    Fiz os primeiros 21 KMS com 1.50 Hora, até aqui tudo muito bem, sem dores e com a corrida a fluir naturalmente e com uma paisagem deslumbrante. A partir do km 25 tive de baixar o ritmo, hora de muito calor e mais de 2 horas de prova comecei a sentir alguma fraqueza e dores essencialmente nas articulações Pés e Joelhos.
    A partir da praça do Comercio a paisagem modificou, os kms demoravam uma eternidade da passar cheguei a km 38 o tão falado muro onde o teu corpo atinge o limite do esforço e das suas capacidades, e fiz cerca de 500 metros a caminhar.
    Voltei a arrancar para o final e onde apoio do publico fez o resto, 3 kms finais ao som de aplausos e de palavras de apoio de famílias inteiras de pais e crianças e de alguns atletas que já haviam terminado a prova.
    3:56:01 Horas depois de muito esforço, dores, dedicação e emoções – a primeira maratona terminou, venham mais.

  9. Parabéns pela prova.
    Nestas provas a preparação é “quase” tudo, só que o “quase/mente” é tão importante como o resto 🙂
    Estive a assistir à passagem de alguns atletas com o meu filho (correção, eu estive a ver, ele passou metade do tempo a dormir). Quando chegou a hora de sair do Rossio para irmos almoçar, vi uma mochila da Salomon a passar para os Restauradores (ontem vi esta mochila em algum lado ?!?!?!), decidi esperar para tirar a foto e pareceu-me que vinhas muito bem. Espero que a recuperação seja rápida e que sábado à noite estejas pronto para mais uns Km’s.

  10. Boa, Ricardo! É mesmo verdade que os músculos têm memória e ainda mais que a nossa força de vontade é que faz a diferença. Também corri com essas meias de compressão e acho que ajudaram muito. Quanto ao combustível, para mim o truque foi comer uma pratada gigante de massa na noite anterior e ir repondo líquidos e hidratos de carbono regularmente, ao longo da prova. Que venham mais provas 🙂

  11. Tenho o desejo de uma dia correr uma maratona. Neste momento acho que é algo impossível por isso tiro-te o meu chapéu. É um esforço notável e um exemplo para quem gosta de desporto. Muito bem!

    Se quiseres, passa por aqui e fazemos uma maratona de sushi ;p

    Abraço

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

  12. Fantástico post e dicas nota 10 !!! Mais posts sobre este tema 🙂 Muito úteis para quem está a começar e quer chegar a Maratona !! 😉

  13. Compreendo mesmo bem isso de não estar preparado para a maratona! É uma senhora a quem se deve muito respeito e, por isso, apesar de me apetecer TANTO fazer toda essa marginal fora, desta vez tive que me ‘reduzir’ à meia.
    Agradeço a partilha sobre a maratona porque também foi uma oportunidade de reviver a minha primeira vez na prova raínha, em Março passado, em Roma: http://joaodelicadosj.blogspot.pt/2013/03/a-minha-primeira-maratona-roma-maratona.html.
    Abraço e… cuidado ao descer as escadas! 😉
    João.

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