Há 10 anos que sou pai (e é aquilo de que mais gosto na vida)

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Faz hoje 10 anos que nasceu o meu primeiro filho, o Henrique. É um miúdo do caraças, cheio de qualidades, com todas aquelas coisas que os pais ambicionam: é bem comportado, ótimo aluno, não dá chatices, o que me deixa orgulhoso todos os dias. Mas, muito mais do que tudo isso, revela todos os dias ter aquilo que eu mais valorizo em alguém: um coração do tamanho do mundo. No fim de tudo, acabará sempre por ser isso que o irá distinguir ao longo da vida, e ainda bem que o assim é.

Nunca fui daqueles jovens adultos cheios de medo da parentalidade. Por mil e uma razões, fui obrigado a crescer depressa, e por isso sempre me achei mais ou menos preparado para ser pai. Tinha uma série de ideias feitas sobre como a coisa iria ser, mas também sabia que reunia duas qualidades importantes para os primeiros tempos: paciência e muita calma.

O Henrique nasceu numa conjuntura difícil da minha vida, com muita coisa a acontecer ao mesmo tempo. Apanhou-me numa fase em que escrevia uma série para a RTP, estava a terminar três cadeiras que tinha deixado penduradas na faculdade e trabalhava num jornal diário, como chefe de redação, o que me obrigava a trabalhar muito mais horas do que qualquer pessoa deve trabalhar. Estava, por tudo isto, muitas horas longe dele.

Ainda assim, sempre fiz o que pude para tentar compensar a ausência. Mesmo que me deitasse à uma ou duas da manhã, acordava sempre que era preciso tratar dele à noite, ia fazer aqueles biberões das quatro da manhã, e ficava com as primeiras horas da manhã para mim. Levava-o sempre à escola, e ia sempre vê-lo quando saía (a creche era ao lado do jornal onde trabalhava). Era pouco, mas era o que me era possível fazer na altura.

Ele tinha pouco mais de um ano quando eu e a mãe nos separámos, por isso não tem qualquer memória de nos ver juntos. Durante vários meses, vivi uma realidade diferente, como pai solteiro. Mesmo não podendo estar com ele sempre, passei a estar muito mais horas, o que me fez crescer imenso como pai. Percebi, ao longo de todo esse processo, o quanto gosto de ser pai. Durante todos os anos que se seguiram, e mesmo tendo virado a vida de pernas para o ar várias vezes, esse gosto foi aumentando todos os dias.

Com o nascimento do Mateus, passei a gostar da missão a dobrar. Felizmente, quando o Mateus nasceu já não trabalhava num jornal diário, mas numa revista semanal, o que me permitiu não perder tanto da vida dele. Tive a sorte de poder tirar a licença de paternidade, o que obrigou a ter de ficar com a maior parte das tarefas rotineiras de um bebé recém-nascido, o que não me preocupou nada, porque já tinha passado por isso com o meu filho mais velho. Nestes três anos, em que consegui ser pai muito mais tempo, em que me consegui dedicar bastante mais a esta missão, percebi que ser pai é mesmo a melhor coisa que tenho na vida, e aquilo que melhor sei fazer. Cometo os meus erros, tenho as minhas preguiças, o meu estilo mais despreocupado (não sou nada aquele pai que está sempre em cima dos putos, que não os deixa fazer nada, com medo que se magoem), mas tudo o que faço é porque tenho a consciência de que estou a fazer o que é melhor para eles. Gosto, sobretudo, de os deixar serem crianças, porque acho que isso falta muito aos putos de hoje em dia, que vivem sufocados em atividades, e trabalhos, e obrigações. Tal como escrevi neste texto, não quero criar putos perfeitos, nem génios da música, nem Ronaldos, nem mestres da literatura, quero criar putos felizes, e de bem com a vida.

Hoje, 10 anos depois de ter começado esta missão, e percebendo a pessoa em que o Henrique se está a tornar, tenho a certeza de que estou a fazer bem o meu trabalho.

Este é um texto sobre mim e o meu filho. Naturalmente que muito deste mérito, aliás a maior parte desse mérito, é da mãe do Henrique, a quem agradeço todos os dias por tudo o que faz por ele.

6 Comentários

  1. hummm… a MAE NAO VAI AO JANTAR de anos do filho ………. hummmm …. ja se esta a ver o filme todo… leva la a taça da papa babado ….

  2. Tenho pena que a Ana não tenha estado no jantar de anos do Henrique, preferindo ir jantar com os amigos das corridas. Dá que pensar…

    • Não acho nada estranho, sou madrasta de uma criança e graças a Deus não fui responsável pela separação dos pais quando tinha 4 meses de idade ( engravidou numa altura em que a vida do pai era mais ou menos como a do Arrumadinho mas foi egoísta e deixou de tomar a pílula sem o companheiro querer ). Conheci o pai há 3 anos e a criança tem 8. Sempre foi tudo muito estranho, a mãe não queria que eu fosse buscar a criança juntamente com o pai e sempre fui barrada em todos os acontecimentos da vida da criança ( jogos na escola, festas de aniversário etc ). Neste momento a srª vai meter o pai em tribunal porque soube que eu estou grávida e quer mais dinheiro para a criança. Ora numa conjuntura destas que ligação pode a madrasta ter com a criança ? Impor a presença? É tudo muito bonito de julgar quado não é conosco.

  3. Parabéns ao Henrique (um pouco “desconhecido” para nós, mas por razões que se percebem perfeitamente). Gostei do texto e acredito que o Henrique também gostará de ler o orgulho que tem nele. Continue com esse bom trabalho de pai. Parabéns a si, afinal há 10 anos que passou a ter o estatuto de pai e, porque não, também parabéns à mãe do Henrique pois em conjunto têm construído um ser humano de bom coração. ?

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