Entretanto, o mundo gira

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O nascimento do meu segundo filho coincidiu com uma das mais agitadas semanas políticas dos últimos anos, com uma série de acontecimentos em catadupa que, no fim de contas, deram em quase nada, ou seja, chegámos ao ponto em que estávamos há umas semanas, na altura em que Passos e Portas se entenderam e fizeram chegar a Cavaco o organigrama do novo Governo, já remodelado.

A salvação nacional

Comecemos pelas reuniões de salvação nacional. Quando Cavaco Silva falou ao País e apresentou como solução um entendimento entre PS e os partidos do Governo, escrevi aqui o que me parecia mais ou menos óbvio: jamais haveria acordo. E não houve. Não houve porque, como também escrevi, as posições estavam extremadas e a cedência de qualquer uma das partes representaria um fatal sinal de fraqueza, que nem Passos nem Seguro se podiam dar ao luxo de apresentar. O PS quer eleições antecipadas, quer que o PSD se espalhe ao comprido, que assuma sozinho o ónus destes anos negros, não se quer enlamear na Troika, quer sair por cima como o partido que sempre disse que o caminho a seguir era outro que não o da austeridade. Acho que toda a gente sabe, no entanto, que estas são palavras ocas e que se o Governo fosse rosa faria o mesmo que este, andaria a toque de caixa da Troika porque há avaliações periódicas que têm de ser positivas, sob o risco de não recebermos a próxima tranche de dinheiro. Ou seja, a tal “solução” de Cavaco estava morta à nascença, como se veio a provar.

Também critiquei, no meu texto anterior, a decisão de Cavaco em programar eleições antecipadas para final de 2014, quando a legislatura termina em 2015. Foi uma ideia absurda, sem sentido. Por que raio se haveria de anunciar, com um ano de antecedência, a dissolução da Assembleia da República? Com esta ideia descabida, Cavaco iria apenas dar o tiro de partido para a pré-campanha eleitoral, que é tudo menos o que o País precisa.
Com tudo isto, acho que o Presidente emendou a mão nesta segunda intervenção, em que, basicamente, desdisse o que havia dito, e deixou tudo como estava, quase como se estas duas semanas não tivessem existido. Desconvocou as eleições e passou a ideia do “agora, amanhem-se”, que é o que deveria ter dito logo no início.

Eleições antecipadas

Na actual conjuntura, sempre fui contra eleições antecipadas. Quem as exige só está a pensar nos seus próprios interesses partidários e não no interesse nacional. Já se percebeu o que é que a instabilidade política nos pode trazer – taxas de juro incomportáveis, quedas brutais em bolsa, facadas na credibilidade internacional. É preciso que, de uma vez por todas, as pessoas entendam que não estamos a viver um período legislativo normal. Portugal está impossibilitado de se financiar, e sem financiamento não há dinheiro para injectar na economia, não há taxas de juros decentes para apoiar as pequenas e médias empresas, o motor da nossa economia, e com isso não se podem criar postos de trabalho ou baixar impostos. O discurso de António José Seguro pós encontro de salvação nacional, em que apresenta uma série de “propostas” socialistas (baixar impostos, criar emprego, fazer crescer a economia) são tão populistas, tão demagogas, tão hipócritas que tresandam a vendedor de banho da cobra. É óbvio que nem ele acredita naquilo, nem mesmo ele, uma pessoa com bastantes limitações, crê que aquele discurso é realista ou minimamente credível. Seguro quer convencer o povo dizendo aquilo que acha que o povo quer ouvir. Mas o povo não é estúpido.

A remodelação

Entretanto, Pedro Passos Coelho já apresentou a remodelação governamental, com dois novos ministros, Rui Machete e Pires de Lima, e três trocas, Paulo Portas, Mota Soares e Assunção Cristas. Primeira ideia: o CDS ganhou peso. Segunda ideia: caiu a ideia inicial de ter um governo mais pequeno e mais coeso. Terceira ideia: a entrada de dois pesos pesados, Machete e Pires de Lima, passa a ideia de quer fazer apostas certas, e não inventar, como aconteceu com Álvaro Santos Pereira e Vítor Gaspar. Há um cheiro dinossáurico, a apelar aos históricos do partido, com Machete, e outro a tecnocracia, com a entrada do gestor com provas dadas na Unicer, Pires de Lima. Será o suficiente para manter a unidade governativa até 2015? Vamos ver.

As vozes do povo

Uma nota ainda para as muitas vozes, sobretudo ligadas ao PCP (e CGTP, a sua extensão sindical) e BE sobre democracia e “o povo”. Os políticos de esquerda acham-se mais donos da democracia e da liberdade do que os outros. Acham que falam em nome “do povo”, e que “o povo está contra este governo” e “quer eleições”. A verdade é que em todas as sondagens que foram publicadas até ao momento, o PSD aparece colocado na segunda posição, e cada vez mais próximo do PS. PCP e BE continuam ali na casa dos 6 a 8 por cento. Ou seja, juntos, têm menos votos que o PSD, em algumas sondagens, juntos, têm metade dos votos do PSD. Então, porque raio é que eles se acham donos da voz do povo? O povo crê mais nos partidos do Governo do que na voz deles. Quando o povo vai a votos, não é neles que mais vota, nem de perto nem de longe, por isso, qual é a legitimidade que PCP e BE têm para se apresentarem como as vozes de um povo discordante e em luta? Nenhuma. Mas pronto, é o papel deles, serem do contra.

28 Comentários

  1. Eu acho piada como as pessoas ainda tem esperanca que o sistema muda so pela entrada de novos condutores. Basicamente, quando se esta a guiar um renault 5 contra audis e mercedes, nem o melhor piloto do mundo (vamos dizer o Senna yey) consegue ganhar, ou pelo menos manter na corrida.

    O resto da Europa anda a uma enorme velocidade, e nos simplesmente montamos o automovel errado. E uma analogia basica mas penso que cumpre o proposito.

    Isto tudo para dizer: nao se iludam. Nao e uma questao da pessoa, mas sim do cargo. O sistema esta errado e ninguem consegue/sabe/quer/tem coragem para o fazer.

    A populacao portuguesa tambem tem muita culpa no cartorio, nao so sao os politicos. E so falar em politica, e dizer que isto ta assim, aquilo ta assado, mas e o que e vcs fazem para alterar? Onde estao as grandes empresas portuguesas? As novas invencoes? As novas multinacionais portuguesas? Ha que fazer gente e agora e altura de falar de iniciativa privada que esta conversa do velho e moribundo sistema politico portugues ja deu o que tinha a dar.

  2. Pois é Arrumadinho!Não há como defender mais este governo!!!!Os resultados das medidas são desastrosos,a economia está parada,paradinha,os portugueses estão nas lonas e os partidos continuam numa guerra sem tréguas!Olhamos para a Assembleia da República e o espetáculo é constrangedor!Porque não dar oportunidade a outros?Não têm representação dos portugueses?E o CDS/PP?Que percentagem de votos teve para nos estar a governar?Que legitimidade tem também? Os portugueses têm medo de quê?Acham por acaso que ficariam pior se experimentassem outros governantes,outras politicas?Po r acaso discorda de partidos que tentam defender os seus direitos como trabalhador que é?Que defendem os nossos direitos e que se se calarem isto vira uma selva?Não acha que os partidos de esquerda fazem falta numa democracia?Estão sempre do contra,pois estão,porque defendem outras alternativas ,mas ,por esse prisma,os partidos de direita também estão sempre do contra ,porque não aceitam nada que venha da esquerda,sempre com o mesmo argumento estafado da cassete.A defesa de alternativas deve ser válida,estes partidos que nos governam e mal,mal,mal,há décadas estão estafados.Os portugueses não aguentam mais,tanta austeridade para tão escassos resultados!Que legitimidade têm estes políticos que nos têm governado (PSD/PS/CDS)para destruírem a vida de milhares de portugueses. É para isso que serve o voto?Para legitimar politicas destrutivas que teimam nos mesmos erros que empobrecem este país tão massacrado!Por favor!Venham politicas novas!Porque não experimentar?Entre alguém que nos defenda e,se falharem também,cá estaremos para os criticar!Mais ano,menos ano de tanta asneira,pode ser que resulte:Porque não?

  3. Subscrevo a 100% excepto nas "invenções" Álvaro e V. Gaspar. Álvaro foi para mim a par de Paulo Macedo um dos ministros mais assertivos do governo. V. Gaspar fez o que tinha de ser feito e se lhe faltou o principal (reformar o Estado cortando despesa estruturalmente) foi porque não o deixaram dentro do próprio governo.

    Quanto à remodelação, P. Portas é uma perda importante pois estava a fazer um bom trabalho no MNE; Machete, de 74 anos não me parece que vá manter a mesma vitalidade. Por outro lado encarregar P. Portas de reformar o Estado é para esquecer.

    Pires de Lima é mais um "crescimentista" que ainda não percebeu que o principal papel de um Ministro da Economia é destruir (regulamentos, burocracias, subsídios) e não atirar dinheiro para cima dos problemas.

    Aliás, TODOS os Ministros do CDS poderiam estar perfeitamente enquadrados em qualquer governo do PS…

  4. Bom dia Ricardo, desde já os meus parabéns pelo blog, apesar de ser a 1a vez que comento costumo acompanhar todos os seus post, por norma costumo concordar com as ideias que aqui deixa… Faço parte da classe jovem que diz ''ligar pouco a política'' mas com os anos tenho tentado aproximar me mais da realidade politica do nosso país. Para isso tenho contado com a sua ajuda, para descodificar os discursos feitos pela classe politica, que na minha opinião ou são fracos evasivos e cheio de duplos significados para depois facilmente darem o dito por não dito, (estilo o do Presidente da Republica) depois extremamente populares em que apenas enchem nos os ouvidos de falsas verdades e promessas de mais investimentos e empregos que já nem o Pai Natal acredita, ou então apenas descarados, utilizando palavras caras para iludir o povo, mas que no fundo não tem um pingo de verdade agarradas ao seu significado! Consigo perceber o que diz que eleições antecipadas apenas nos daria má imagem lá fora, e a Troika e a bolsa e isso tudo, mas então é só aceitar??

    Aceitamos ter um ministro que se demite irrevogavelmente, mas com um melhor cargo já não faz mal??

    Ter uma ministra das finanças que está ligada a um dos casos mais polémicos em que o estado portugueses ficou altamente lesado e aparentemente vai continuar a pagar, aceitamos??

    Ter um Presidente da Republica que não tem uma posição distante do seu partido, porque certamente se estivesse-mos com um governo socialista dificilmente o governo se manteria depois destes acontecimentos.

    Então e a credibilidade das pessoas? Isso já não importa??
    Pedem nos esforços e tudo mais, mas é isto que temos em troca? E aceitamos?

    Não consigo ser a favor ou contra de eleições antecipadas, mas parece-me que andam a rir-se demasiado da nossa cara, e nós apenas aceitamos.

    É isto?

  5. Ó anónimo "cagão", o que estás a fazer aqui neste site?
    à 1:06 vens aqui com esse comentário ?!?!
    pois, deves tar sozinho em casa, sem amigos/amigas e vens aqui despejar a tua frustração.
    não gostas do que lês aqui, cria o teu próprio blogue!
    votaste no psd/cds e cortaram-te o subsidio? pensa nisso quando votares.
    a tua miúda deixou-te? temos pena.
    és do sporting? azarito
    a saída para tudo isso és tu, mais ninguém. portanto, vai dar banho ao cão e não incomodes os outros, tá?

  6. A salvação nacional – "sob o risco de não recebermos a próxima tranche de dinheiro.". É treta Arrumadinho, uma grande treta. Em momento algum eles nos vão deixar cair pq pura e simplesmente não se podem dar a esse luxo. E o melhor exemplo é mesmo esta crise. Uma pequena convulsão e Madrid foi fortemente atingido. Se Portugal cai todos os outros caiem a seguir, que não haja a mínima dúvida sobre isso. Eles não nos vão deixar cair. Cabe aos nossos políticos mostrar a estes politicos europeus da treta q pretendemos mudar, corrigir os nossos erros mas dentro de prazos e condições justas, acertadas, reais e competentes.

    Eleições antecipadas – " e não no interesse nacional". Mas quem pede eleições antecipadas fá-lo com vista ao interesse nacional. Fá-lo pq considera q este governo e estas politicas atentam contra os interesses nacionais. E doa a quem doer os factos estão do lado deles: desemprego, falências, recessão, economia estagnada. Mesmo os indicadores positivos a q se estão a agarrar foram brilhantemente desmontados num destes dias no programa da SIC em que o José Gomes Ferreira é entrevistador por um Prof. da universidade do Minho. O interesse nacional é mudar de políticas e mantendo este Governo não há garantias q tal aconteça pq Passos voltou a dizer q este é o caminho certo.

    A remodelação – Quando a crença nos politicos é nula venha quem vier apenas mudam as moscas. Acho absurdo que se continue a nomear ministros com ligação à SLN/BPN e depois se esconda isso no curriculo do homem. Nem há palavras para descrever tal situação. E a cada remodelação temos mais um ministério…

    As vozes do povo – O povo é o mesmo povo para quem a SIC e a TVI fazem as tardes de domingo que fazem. O povo é aquele que acredita piamente no que os jornais e opinion makers dizem. O povo é manipulado com muita facilidade. Uma coisa é certa BE e PCP nunca estiveram no poder e são os únicos a quem não podem ser acatadas responsabilidades por este estado em q o país se encontra. A História está cheia de calamidades, catástrofes e erros colossais suportados por maiorias. Sinceramente penso que isso é uma argumentação irrelevante para analisar a situação do país.

  7. Faz um pouco de confusão também outros dois temas, que não abordou aqui, que acho importantes.
    1 – A nova profissão: Vice Primeiro Ministro, que nem sei o que o senhor vai fazer; em vez de emagrecer a despesas ainda se criam mais figuras politicas que não se sabe bem o papel que vão (mais um ponto para a fraqueza deste governo)
    2 – Nomeação de Rui Machete, que pertenceu à SLN, mais um tacho a somar a tantos outros. Como é possível isto acontecer? Nunca iremos ter politicos com carreira provada de trabalho.
    Talvez só quando esses papeis forem melhor pagos… Quem é o gestor, economista, etc, que se sujeita a ganhar menos e com possibilidade de ruina de uma carreira sólida numa empresa.

    Ass: Eduardo

  8. sem financiamento não há dinheiro para injectar na economia, não há taxas de juros decentes para apoiar as pequenas e médias empresas, o motor da nossa economia, e com isso não se podem criar postos de trabalho ou baixar impostos. Presumo por estas suas palavras, que é isto que tem feito esta governo? Eu não vi nada disso, mas devo ser eu que ando mal informada. Vamos deixar então este governo, governar e bem. Com o Paulo que a primeira coisa que fez foi procurar um palácio digno da sua pessoa, seguranças privados 24 horas por dia, cafezinhos a pala do zé povinho, rendas das energias e PPP que o Álvaro queria acabar e por isso foi de carrinho,subidas de impostos brutais na palavras do gasparzinho, com o PM a dizer que somos uns caloes e que não podemos viver a custa do países do norte,o deficite que sobe sobe sobe, desemprego sobe sobe sobe e etc etc etc, Mas parece que tudo vai bem no reino de Portugal

  9. Não sei porque ainda se dão ao trabalho de responder a estas pessoas cuja opinião, de tão estruturada e eloquente, vale ainda menos que nada. Ainda aqui há dias falei disso no meu blog… Concordo com todas as análises que fizeste, mas acho que a ideia de pôr todos os partidos a falar e a tentar chegar a um acordo a médio prazo que incluísse o fim desta legislatura e a próxima (seja ela rosa ou laranja) era uma ideia boa. Pouco exequível, como se viu – e se percebeu desde sempre – mas boa, porque iria permitir que durante pelo menos alguns anos o país não andasse constantemente aos avanços e aos recuos. Mas de todos eles quem é que ainda se importa com este jardim à beira-mar plantado, de seu nome Portugal?

  10. Concordo inteiramente com o seu texto. Enquanto os partidos politicos e os própios politicos puserem os seus intereses à frente de país,enquanto os srs deputados que estão na assembleia, supostamente a "lutar" pelos interesses do povo e não pelos seus interesses (próprios ou partidários)a chamada democracia, fica comprometida!
    Maria

  11. Não é bem assim como o arrumadinho diz.
    Os últimos anos foram negros, as medidas foram irresponsáveis e os resultados ainda nos afundaram mais.
    O que se anda a passar é insustentável.
    Não é possivel que, com medidas de austoridade com as que temos tido, tenhamos os resultados que aparecem.

  12. Eu ja nao posso ouvir alguns partidos de esquerda, principalmente o BE. o PCP ainda mostra que tem uma visao instituicional diferente e que resteita certos tramites, mas o BE nem por isso. Depois passam a vida a falar em eleicoes e democracia. Mas este governo nao foi eleito com eleicoes e num processo democratico? Por eles era eleicoes de 3 em 3 meses. Ja agora o BE esta semrpe a dizer que a troika tem de ir embora. Pagavam as contas exactamente com o que??

  13. O José Gomes Ferreira, que é economista, diz que Álvaro Santos Pereira foi um óptimo ministro, não percebo porque o Ricardo pensa o contrário.

  14. É mesmo esse o contributo que quer dar à discussão? Quando é que as pessoas vão perceber que o facto de se ter uma opinião, de se dar uma opinião, não se significa que se é dono da verdade? Meu caro, eu não sou sabichão, eu penso pela minha cabeça e apresento as minhas ideias no meu blogue pessoal. Se não concorda com elas, diga porquê, apresente as suas, dê o seu contributo. Mas lá está, tal como na classe política, também na sociedade civil há muita gente que só gosta de apontar o dedo, porque na altura de construir, de contribuir com qualquer coisa, assobiam para o ar.

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