É na terra não é na lua

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Estou há duas horas a ver um documentário português chamado “É na Terra Não É na Lua”, vencedor do grande prémio do Doc Lisboa. Ainda falta uma hora para terminar. Ao todo, são 180 minutos que retratam o isolamento de quem vive na ilha do Corvo, nos Açores. São vidas filmadas tal como elas são. E, cinematograficamente, elas não são assim muito interessantes. Tal como não é assim muito giro ver planos de vários minutos de mar a embater nas rochas, de um homem a cortar carne com um serrote, de gente a trabalhar no porto, de homens a observar pássaros, de uma mulher que durante uns 5 minutos debita nomes de santas numa igreja. Também não me parece que funcione muito bem em cinema um plano de vários minutos em que nos é mostrada uma folha de jornal, para que possamos ler a notícia até ao fim.

Um documentário não tem de ser uma coisa chata para ser uma coisa boa (veja-se o caso do “José e Pilar”, que é maravilhoso). Mas no cinema português ninguém parece entender isso, principalmente no universo da ficção.

Vai uma apostinha em como este filme não vai ter mais de 500 espectadores? E a culpa não é dos espectadores, que são estúpidos, é de quem faz estes filmes e se acha mais esperto por isso.

1 Comentário

  1. o documentário é sobretudo um filme estético, podemos fruir em tempo real e ter prazer visual com o que vemos, por isso parece monótono. É belo, romântico, podia ser desactualizado, mas pelo o contrário é muito contemporâneo.

  2. Vi o documentário e recomendo-o vivamente. Devo pertencer ao grupo estimado dos 100 espectadores, extra habitantes da ilha do Corvo que o considerou absolutamente maravilhoso. É mais do que a ilha do Corvo,conta-nos o segredo da preciosidade da vida com grande simplicidade e dignidade. Quem não aprecia o documentário agora,vai certamente fazê-lo um dia. Quanto ao Corvo, fiquei com a ideia de ser um local magnífico e poderoso, adoraria poder viver aquelas vidas, quem sabe se ainda posso.

  3. Só hoje vi este post. Todas as opiniões são (obviamente) válidas, mas queria acrescentar que o filme em questão foi feito sem subsídios. Que, em Maio deste ano, contava com 3 mil espetadores e, que em novembro de 2012, está em terceiro lugar no top da FNAC. Não precisava de ser validado por júris internacionais, mas foi; 500 espetadores seriam bons, mas 3 mil é melhor. Esse número entretanto aumentou já que o filme tem andado em tournée pelo país. Obrigada, Rita

  4. Olha á tua volta .
    vês pessoas a cantar e a dançar, familias felizes e com muita diversão.
    Acho que não.

    O cinema serve para retratar a realidade , (que geralmente, é melancólica e dura)…para que dessa forma mudemos a nossa monotonia de viver.
    O cinema não serve para animar. Isso não é cinema, isso sáo filmes.

    Se o filme te irritou/aborreceu , é bom sinal. è sinal que conseguiste sentir a solidão e o sofrimento das pessoas daquela ilha, que era exatamente o que o realizador queria mostrar!

  5. Eu vi o filme (não vi até ao fim devido a uma falha técnica – com muita pena). Vi quase todo e pretendo vê-lo todo assim que puder. Gostei e acho que os planos demorados e a calma que transmite fazem parte do conceito. Acho que não se transmitiria o pretendido sem que existissem essa calma, essa demora.

    E o filme continua a ser exibido… a sala onde o vi estava até cheia.

  6. Ehhh pá, desculpem, mas ao ler o este post, com o qual devo desde já dizer que concordo (e que não concordasse era uma opinião tão válida como qualquer outra!) não pude deixar de me lembrar deste maravilhoso post da Cocó http://coconafralda.clix.pt/2010/07/puta.html
    É que de facto, se gosta é porque é um elitista de primeirissíma linha que vê coisas de que a populaça em geral não gosta. Agora se não gosta é porque é um inadaptado cultural que não entende as subtilezas da 7ª arte…A maioria dos coméntários nem se sequer se aproxima minimamente do que o Arrumadinho queria dizer…
    Realmente, e como dizia a minha avó "Deus te dê paciência e um paninho para embrulhá-la…"
    Keep going with the great work…

  7. Um pequeno pormenor… Os financiamentos ao cinema não são públicos, na medida em que o Estado não gasta um tusto com isso. Os financiamentos resultam de uma taxa aplicada aos distribuidores de cinema. Portanto, não sai propriamente do Orçamento, no sentido clássico que costumamos associar a essa expressão, no sentido de "vir dos nossos bolsos".

  8. Caro anónimo. Lamento dizer-lhe, mas o filme a que se refere (o que conseguiu os 8500 espectadores) é o Tabu, e não o documentário de que falo (e já agora, o "Tabu" é um grande filme – recomendo). O "É na Terra, Não É Na Lua" conseguiu, com todas as suas visualizações, 1996 espectadores. Ainda assim, bastante mais do que eu pensava. Mas o facto de as pessoas terem ido ver o filme não significa que tenham gostado. Já fiz o teste de o emprestar a dois amigos açorianos. Nenhum conseguiu ver até ao fim.

  9. Meu caro,

    Opiniões valem o que valem e, felizmente, temos liberdade para as partilhar.
    Eu gostei e digo mais, no registo documental – que tem as suas regras e expetativas – é um dos melhores portugueses dos últimos anos. Não gostaste e tens todo o direito.
    Mas falhaste claramente numa coisa: 8500 espetadores! São mais do que leitores-compradores do teu novo livro…
    Boa sorte

  10. Caro Arrumadinho,

    mas é interessante ver um acumular de lugares comuns sobre relações, escolhas, etc, sem faltar um final dramático à moda de telenovela venezuelana dos anos 80, o que descreve a pasmaceira que, para mim, foi o filme "Um dia".

    Repare, tem todo o direito a criticar os filmes que vê, mas, pelo menos, admita que foi o Arrumadinho que não achou esses momentos interessantes e que tal não é regra para ninguém.

  11. Ainda nao vi o documentario, mas estou muito curiosa como acoriana que sou. Ja agora acrescento que este documentario vai estar no festival de cinema de San Francisco no mes de Abril, o que e optimo para Portugal!

  12. Ainda nao vi o documentario, mas estou muito curiosa como acoriana que sou. Ja agora acrescento que este documentaria vai estar no festival de cinema de San Francisco no mes de Abril!

  13. 1. A opinião da crítica em Portugal não serve de critério para nada porque é maioritariamente ignorante.
    2. Em 2010, dez dos dezasseis críticos dos 'Cahiers du Cinema' incluiram no top10 dos melhores filmes da década '2000' filmes do Pedro Costa, Manoel de Oliveira, João César Monteiro, João Pedro Rodrigues…
    3. O dinheiro público serve exatamente para isso. Para projetos artísticos (espera-se que com qualidade) que à partida são comercialmente menos viáveis. Aliás, como há dinheiro que apoia a agricultura e a indústria.

  14. sou uma "rapariga" de 52 anos que leio o teu blog ja ha algum tempo.. e digo te sinceramente "gabo-te a paciência" para ouvires certas coisas.. é que na minha humilde opinião , ha pessoas que só vem aqui "para dar coiçes"… fogo !!! deixem falar ..deixem escrever… nao querem … nao venham..bolas!!!!! é que muitissimas vezes é so mesmo para "picar"… gosto do que escreves, leio te aqui e em alguns sitios onde publicas.. PARABENS… fatima

  15. Sou dos Açores, nunca visitei o Corvo é certo. Mas ainda hoje comentei com o meu irmão "A Time Out deu 4 estrelas ao documentário sobre o Corvo! Como é que é possível se falar durante TRÊS HORAS seguidas sobre o Corvo sem ser uma seca?!". Ao que ele, que já visitou o Corvo, me responde "Sim, não entendo como é que se fala durante 3 horas sobre uma ilha que se vê em menos de uma hora".

    Continuando, mesmo sendo dos Açores, não pretendo ir ao cinema ver o dito. Três horas é muito tempo, mesmo que fosse a falar do meu rico Fayal que é mais mexido. Não digo que não seja interessante. Não digo que não o veja um dia. Em casa, aos poucos. Play, Pause e Stop quando me apetecer. Agora estar 3 horas numa sala de cinema a ver aquilo de empreitada. Não, obrigada 😉
    E até acredito que seja engraçado. Porque eu sei o que é viver numa ilha (pequena, não minúscula), e retratar isso durante 3 horas e ainda ganhar um prémio.. é obra!

  16. Depois disto tudo, digo que estou de acordo com o Arrumadinho. Fui aos Açores a adorei tudo o que vi. Foi a viagem da minha vida (até agora). Não vi o documentário, mas tenho pena que a maior parte da produção portuguesa seja assim, chata e que só agrade a 500 pessoas. Lamento que, com mais uma obra do mesmo calibre, se perca assim a oportunidade de conhecer realmente o povo que vive na Ilha do Corvo.
    Também estou de acordo que nem tudo tem de ser mainstream, mas neste país tem de ser tudo marginal? E também sou contra o facto do meu dinheiro, como contribuinte, servir para financiar obras que declaradamente apenas são para interesse dos amigos do realizador. Quando assim é e até se faz alarido disso, porque é que o estado tem de financiar uma coisa que não é para dar lucro? Até porque se der, é logo classificada como produto sem interesse cultural.
    Bluebluesky, penso que aquilo que o Arrumadinho quis dizer foi exactamente o contrário, aqueles espectadores que se atrevem a não gostar destas "pseudo-intelectualisses" é que são rotulados de "estúpidos" (e não é pelo Arrumadinho).

  17. Cheguei à blogoesfera há pouco tempo mas já deu para perceber que és uma estrela e o que não falta por essa Internet fora é gente que embirra e faz troça de ti (o que não percebo: é como quando a Juve Leo, no seu próprio estádio, se põe a gritar contra o SLB). Há espaço para tudo. Como no cinema: alguns documentários fazem-se para quinhentas pessoas, para o público do Doc e para as pessoas que vêem a RTP 2 às onze e meia da noite. Se fosse um filme comercial não precisaria de financiamento, não é? Nem tudo pode ser mainstream ou marginal. Na cultura ou nos blogs.

  18. De facto, é preciso ter paciência para ler algumas barbaridades.
    Mas é de brindar que haja tanta imaginação em Portugal. A partir de uma simples opinião as pessoas fazem as interpretações mais hilariantes!

    Onde é que leram que o documentário ilustra as vidas desinteressantes das pessoas? Bolas!

    No todo, concordo com tudo o que foi dito no post. Nao sendo grande entendida em cinema, sou uma grade consumidora de filmes e lamento que a maioria dos filmes nacionais sejam uma verdadeira seca!
    Pode ser que nao sejam para agradar as massas, mas para agradar alguém deve ser, senão deixavam estar na gaveta. Toda a obra de arte, passa pela contemplação e admiração do espectador, por isso, teorias da singularidade sao na verdade: Bullshit!

    Pseudo intelectualismos e minorias armadas em eruditas até me provocam urticária!

    Beijinhos tabóm?!

  19. Querido Arrumadinho,
    Depois de alguns comentários que li tenho-lhe a dizer…Um dia, gostaria de ter metade da sua paciência!!!

  20. Cara Anónima das 19h59. Começa por escrever "informe-se senhor!", e depois diz que o filme ganhou um prémio no Doc Lisboa. Em primeiro lugar, eu sei perfeitamente que o filme ganhou o prémio do júri no Doc Lisboa, mas por que raio é que isso tem de mudar a percepção que eu tenho do filme? Ah, ganhou um prémio é espectacular. Até podia ter ganho 10 óscares e eu achá-lo mau. Há muita gente que parece não ter percebido que isto é um blogue pessoal, e não um site generalista. Nos blogues pessoais, o dono do blogue diz o que acha e o que pensa sobre os assuntos, não procura escrever notícias nem ser politicamente correcto. O que eu escrevi sobre o filme e sobre o cinema português é a minha opinião. Se adorou o documentário, óptimo, perfeito, fico muito contente.

  21. Ao anónimo das 18h10. O seu comentário é maravilhoso. Começa por dizer que concorda com o que a leitora M. escreveu – e ela escreveu que o filme que é eu fiz é uma bela merda. Ou seja, acha que o filme que eu fiz é uma merda, mas depois não sabe que filme é esse, nem se fui eu que o fiz. Então qual é a parte em que concorda, se nem sequer sabe de que filme se está a falar?

  22. Informe-se senhor! Esse documentário ganhou o Doc Lisboa!! E foi por algum motivo! Eu assisti à estreia e posso dizer que ia preparada para uma monumental seca…no final ADOREI! Se é um documentário um pouco pseudo intelectual? Sim, assumo… Se tem um sentido de humor rebuscado? Tem! Se teve mais de 500 espectadores? Teve! Aceito a sua opinião, mas ainda assim permito-me discordar e achei importante reforçar que este documetário, sendo o resultado de 4 anos de filmagens, ganhou um prémio com alguma importância em Portugal. Ah, e eu ADOREI…caso não tivesse ficado claro! 🙂

  23. Bom eu no fundo compreendo o que queres dizer e também concordo. Acho que deviam se preocupar um bocadinho no impacto que um documentario desses pode ter no publico em geral, ou nos 100 que o vêem, ou até numa só pessoa que o vê. É lamentável que, só uma pequena percentagem é que poderá entender a ideia do realizador. E outro facto é que a grande percentagem olhará para isso como uma coisa que é surreal, que não pode existir no seculo XXI ah pois claro, lá está, e teria de ser no Corvo, uma ilha ali no meio do atlantico.
    Agora tenho aqui que deixar claro, algo que me revolta e é uma opinião, que aproveito para dizê.la (nada tem a ver contigo moço): Sinceramente, já estou cansada que vão falar dos Açores, ou de qualquer ilha que seja, como o fim do mundo. Nunca vi ninguém falar no impacto IMPORTANTE que os Açores têm a nível económico por exemplo. Na minha opinião, já me cansa essa ideia que todos nós somos uns coitadinhos, que vivemos num pedaço de terra rodeado de mar. Pois é, estas pessoas gostam de viver no Corvo, como todas as outras pessoas gostam de viver na terra onde nasceram. Vivem dos recursos que têm, são muito despreocupados com as merdinhas do que os outros acham, e lutam pela sua honra. É triste para mim ver a forma parva que retratam os açores, que toda gente fala com o mesmo sotaque, que todos são uns coitadinhos, vindos com roupas sujas, ainda com a rede da pesca no bolso.

    Não percebo porque é que estão a fazer deste post, que é uma opinião muito verdadeira até, um alvo de gozo ou preconceito. o Arrumadinho não está a criticar as pessoas do corvo, mas o parvalhão que quer transmitir uma ideia aborrecida e sem contexto.

    E já agora, eu sou Açoreana 😛 Já deu para reparar não?

    cumprimentos,

    Raquel 🙂

  24. Cara Margarida C, lamento desiludi-la, mas eu nunca fiz nenhum filme. E o argumento que escrevi ainda não foi produzido, por isso não estou bem a ver que filme é que foi ver a achar que era meu.

  25. ui, porque o teu filme foi muito interessante… foi foi. fui vê-lo, porque adoro ler-te, mas deixa-me que te diga, que bela m*rda que ali estava.

    Margarida C.

  26. Não sendo muito apreciadora de documentários, nem vi ainda o filme em questão para poder opinar.
    Sou uma açoriana de gema residente nas ilhas e conhecedora da realidade corvina, o que se passa normalmente é que o pessoal do "continente" vem cá e acha muito bonito mas depois não entende as diferentes realidades.
    Os Açores não são iguais, viver em S. Miguel, não é igual a viver no Pico e muito menos no Corvo.
    Tive colegas continentais a quem quando contava que as mulheres grávidas das ilhas que não têm hospitais têm que se deslocar um mês antes do parto para uma ilha com hospital ficavam abismados.
    Mas voltando ao Corvo os últimos documentários que se fizeram especialmente o da Sic mostram os Corvinos como uma tribo indígena que mora no meio atlântico com umas regras especiais e uns costumes diferentes…Simplesmente acho que quem os vêm fazer não compreende aquela realidade.
    São 400 almas numa vila pequena que de inverno tem 3 voos por semana e dias em que o barco não pode lá ir. No entanto o Corvo é das poucas ilhas dos Açores que não tem perdido população. Aquela gente gosta de morar lá, assim daquela forma, mas os senhores realizadores não entendem. Não não usam cinto de segurança (não têm policia, só GNR), sim têm de ligar para as Flores para pedir mercearia, se precisam de uma emergência médica lá vai a força aérea, mas continuam lá…
    Eu sinceramente gostaria que as passagens de avião para os Açores deixam-se de ter preços proibitivos para os portugueses "continentais" conhecessem a nossa realidade e o bonito que é cá viver.
    Desculpa Arrumadinho sei que era só um post sobre um chato documentário sobre o Corvo.

  27. Há tanto mais para mostrar nos Açores do que um plano do mar a bater nas rochas durante não sei quanto tempo, e muito mais, para além de tornar, visualmente, as vidas de quem lá vive enfadonhas a quem assiste ao documentário… e se esse documentário assim é, não sei se conseguirei vê-lo até ao fim.. e atenção que conheço perfeitamente e sou defensora dessas belas ilhas às quais chamo casa!! 🙂
    Partilho da opinião que a realização portuguesa move-se lentamente, mas felizmente temos novos bons realizadores que querem mostrar que podemos ser bons, muito bons.. e encontrei, por exemplo, em Um funeral à chuva, a imagem disso mesmo… (que nada tem a a ver com documentário.. nem com o tema que aqui se debate.. mas pareceu-me apropriado dizê-lo e ilustrar a minha opinião…)

  28. Arrumadinho,
    Veja as coisas com outros olhos. Imagine o que é a vida numa ilha como o Corvo. Deve ser um aborrecimento de morte, pelo menos para uma alma cosmopolita como a sua (outros, aqueles que anseiam por um retiro de paz e sossego, acharão que é o paraíso na Terra). Não haverá muito que fazer, senão olhar o mar bater nas rochas por largos minutos, ler o jornal…
    É um documentário, não é um filme de acção, é hiper-realista, o que for.
    Think out of the box!
    Marta

  29. Também depende de como é filmado, imagino. O "Straight Story" nada tem na história de interessante (a não ser o facto de um homem atravessar os EUA num cortador de relva) e é um filme lindo.

  30. Não vi o documentário mas adoro os Açores. Ainda não conheço o Corvo mas pelo que já ouvi falar é mesmo assim. Não pode julgar a vida de uma pessoa por aquilo que vê, está a ser superficial. Acredite que aquilo que pode ser entediante para si, pode ser uma benção para outro.

  31. Eu acho que as obras de arte em geral sofrem um pouco desse problema, ou antes, dessa ambiguidade. De não terem que agradar as massas e o facto de propositadamente não o fazerem, isto é, a arte não tem de facto que agradar a todos mas a mim também me irrita o modo como os artistas se vêm excluídos da sociedade ao ponto de só querem fazer coisas que sejam entendidas por eles próprios…Porque será que as coisas têm que ser assim tão exclusivas? Porque será que um filme agradável é facilmente conotado como irrelevante? Quando não entendo as coisas, espero que sejam pelo menos que sejam bonitas. Não posso falar desse filme porque não o vi, mas fiquei curiosa…

  32. Caro CAP CRÉUS, como é óbvio, estou a dizer que a vida dessas pessoas não é assim tão interessante… cinematograficamente. Sei lá se a vida, de facto, é interessante ou não? Provavelmente é, e muito. Mas não são essas as partes escolhidas para o documentário. E por muito interessante que uma pessoa possa ser, por muito interessante que possa ser a história que ela tenha para contar, isso não quer dizer que, cinematograficamente, isso constitua um bom momento. Foi isto que eu quis dizer.

  33. "E elas não são assim muito interessantes. Tal como não é assim muito giro ver planos de vários minutos de mar a embater nas rochas, de um homem a cortar carne com um serrote, de gente a trabalhar no porto…"
    Não te deves basear num documentário que achas menos interessante, para dizeres que a vida dessas pessoas é pouco interessante.
    Pode sim, estar filmado de modo a dar essa imagem.
    Parece-me demasiados preconceitos para um só post acerca de um documentário.
    A vida numa ilha pode ser muito interessante. Digo-te que que já vivi numa e conheço todas as dos Açores.
    Vê lá isso com outros olhos.
    E carrega Benfica!

  34. Tiago, na teoria concordo contigo, e neste filme, particularmennte, o que vou dizer nem se aplica, mas falando de forma mais abstrata do cinema português, acho que se os cineastas não querem ter público, não se preocupam em que o seu trabalho interesse às pessoas, então, não devem recorrer a financiamentos públicos. Encontrem os seus próprios mecenas, invistam dinheiro próprio, e façam os filmes que quiserem, para serem vistos pelas 100 pessoas que lhes interessam que o vejam.
    Não acho que um artista tenha de ter uma preocupação única com o público, mas o que acontece com 90 por cento dos filmes portugueses (e estou a ser simpático) é que não interessam às pessoas e são péssimos (quem o diz são os críticos, não sou eu).
    Sou completamente a favor da obra de autor, experimentalista, e que até deve recolher apoios, mas esse dinheiro deve vir de outras obras mais comerciais, que são boas, e agradam às pessoas. E essa preocupação que eu acho que não existe na maioria das pessoas envovidas na produção de cinema nacional. Repito que este exemplo não se aplica ao documentário que referi, já que não teve apoios públicos e foi feito com dinheiro do realizador, Gonçalo Tochas. Mas, talvez por isso, sinto que é uma visão demasiado pessoal, demasiado intimista, demasiado extensa, e que não vai, mesmo, interessar a quase ninguém. E é pena, porque fazem falta ao cinema português filmes que interessem às pessoas, porque filmes que só interessam aos autores, desses, temos aos pontapés. E financiados por nós.

  35. Não compreendo a ligação entre ter muito ou poucos espectadores e ser giro ou deixar de ser giro. A única coisa que me parece que seja legítimo dizeres, é: "Eu acho o documentário aborrecido, este documentário não é para mim".

    Se calhar o autor do documentário nem quer ter mais de 500 espectadores, apenas quer ter os espectadores certos, e, aparentemente, não és um deles. Isto não significa que o autor seja mais ou menos esperto, e tu, ou eu, mais ou menos estúpido.

    Nem tudo é suposto agradar às massas, felizmente.

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