É este o caminho?

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O ataque ocorrido em Londres, e que em Inglaterra é visto como um acto terrorista, é, para mim, apenas o lado mais gráfico e cru do que é mundo hoje, do que se tornou a Europa ocidental em tempos de crise global, em que os valores que andámos a construir durante décadas perderam muito do seu valor, em que a se esfumou a consciência do que somos enquanto seres humanos, inteligentes, sociáveis e civilizados.

A frase que saiu da boca daquele animal, que assassinou um homem à catanada no meio da rua, e que recordava a máxima do “olho por olho, dente por dente” é a prova dessa intolerância em que parece que caímos, que nos consome, a uns devagar, a outros muito mais depressa. Dilacera-se uma vida na estrada, faz-se disso um espectáculo mediático, e depois culpa-se o governo. Justifica-se a violência do momento com a violência do passado, sem se olhar ao que isso significa – e isso significa que recuámos 50 anos na forma de pensar.

O ataque daquele animal, um negro de origem nigeriana, que apareceu num vídeo de mãos ensanguentadas, segurando uma faca e um cutelo, espoletou raiva dos extremistas de direita, que abriram caça ao preto, tal como há uns anos o espancamento de Rodney King, em Los Angeles, levou à revolta dos negros, que destruíram parte da cidade. Este ataque é apenas mais um numa sequência preocupante. São actos hediondos que nos acontecem à porta de casa, num país que só não é o nosso por acaso, porque amanhã pode bem ser.

O mundo que criámos e em que vamos vivendo, um mundo em crise de dinheiro e de valores, gera cada vez mais desequilíbrios e desequilibrados. Noto isso nas pequenas coisas, como os ingleses notam agora em grandes coisas. Vejo colegas de profissão ameaçados de morte porque escrevem mal de um jogador de futebol, vejo gente que me escreve mensagens de ódio quando escrevo textos de amor, vejo massas em fúria a querer destruir gente só porque tem mais do que elas, porque escorregou, porque pôs o pé onde não devia.

Quando devíamos estar a dar as mãos para conseguirmos construir um mundo melhor, mais justo, mais seguro, mais feliz para nós e para os nossos filhos, estamos a virar costas aos valores mais básicos, a gerar ódios, invejas e a fomentar guerras.

É mesmo esse o caminho que queremos seguir?

15 Comentários

  1. E o que se está a passar em Estocolmo? Tão lamentável…E supostamente com a morte de um português na sua génese.

  2. Cara Mafalda, para mim, "animais" são as pessoas que cometem actos deste género, sejam brancos ou pretos. Não acho que isto seja uma característica relacionada com a cor da pele, mas, como escrevi, o resultado de um mundo que todos ajudamos a criar. E é isso que é triste.

  3. E depois vêm esses "animais" dizer que os brancos é que são preconceitosos, racistas e que odeiam os negros. Afinal de contas quem tem razão? Quem é que é cria as guerras? Quem é que mata? Quem é que é racista? Os brancos? Não me parece…

  4. Sem tirar nem pôr. O mundo está a ficar muito feio. Todos os dias, nas mais pequenas coisas, vejo maldade nas pessoas(nem todas claro). Chegámos a um ponto em que se mata por qualquer coisa. Perdeu-se o respeito pela vida humana e confesso que isso começa a assustar-me. Não por mim mas pelo meu filho.

  5. Eu que te leio todos os dias sem te comentar, hoje sinto-me impelida a dizer-te que as tuas palavras me arrepiaram a alma. Que mundo é este? Não, não é este o caminho!

  6. E é tão por isso que adoro a Austrália. 3 aviões, 30 horas de voo, mas tão diferente do meu Portugal (que apesar de tudo, adoro, mas que não é país onde queira construir uma vida, essa mentalidade geral dá-me volta ao miolo), do Brasil onde já vivi, ou da Europa dos dias de crise actual. Quando cá cheguei, há menos de um ano, pensei para mim: mas este país é mesmo real? Sei bem o caminho que quero seguir, e não é de todo esse, da crítica fácil, do ódio que não dá em nada, ou da inveja desmedida. Nah, fui.

  7. E é tão por isso que adoro a Austrália. 3 aviões, 30 horas de voo, mas tão diferente do meu Portugal (que apesar de tudo, adoro, mas que não é país onde queira construir uma vida, essa mentalidade geral dá-me volta ao miolo), do Brasil onde já vivi, ou da Europa dos dias de crise actual. Quando cá cheguei, há menos de um ano, pensei para mim: mas este país é mesmo real? Sei bem o caminho que quero seguir, e não é de todo esse, da crítica fácil, do ódio que não dá em nada, ou da inveja desmedida. Nah, fui.

  8. Lamentavelmente, a xenofobia é um sintoma que sempre acompanhou as grandes crises socio-económicas.
    Nos últimos tempos,o reino unido tem sido prolífero em episodios desses. Por um lado são um povo de traços muito nacionalistas. ao minimo desatino de algum membro de uma minoria etnica ou de um imigrante, as fações radicais tendem a ver uma oportunidade para os seus actos condenáveis.
    O equilibrio é frágil.outro exemplo sao as vigilias urbanas em que grupos de muçulmanos patrulham as ruas de bairros de londres tentando impor a lei islamica. Insultam e ameaçam mulheres por estarem de mini-saia. Ou homens por beberem uma cerveja na rua..Ainda que vivam num país que constitucionalmente defende a liberdade religiosa..um país em que nuutos membros dessas patrulhas são imigrantes,sendo que deveriam respeitar os costumes locais. Obviamente que tudo vai acumulando num já apertado barril de polvora.
    É muito triste.É definitivamente um retrocesso.

  9. Tao bom ler que ha pessoas conscientes e que ainda podem contrabalançar o odio, a tristeza, a raiva, o desnorte de tantos, de cada vez mais…
    Eu nao quero nao esse mundo para mim, para os meus filhos, e sei que um dia nao vou conseguir esconder por mais tempo que ele existe e fazer com que eles saibam viver com isso!
    Perderam-se os valores e a transmissao dos mesmos e so me faz sempre lembrar o livro de Saramago (que falta fazem as palavras dele…) "A jangada de pedra"…
    Ha demasiadas pessoas que nao sabem de onde vem e muito pior, para onde vao! O desnorte interior so se pode reflectir num total desespero espiritual para o exterior e depois resulta em actos destes, simplesmente irracionais.
    é assustador ate onde um espirito perdido e desesperado pode chegar e ver o olhar daquele homem é, no minimo, perturbador.
    Numa sociedade onde o equilibrio material é cada vez mais importante e procurado e o desiquilíbrio da essencia é cada vez mais notorio faz com que o caminho a seguir seja aquele que, ao que parece, nao vai dar ao pote de ouro no fim do arco-iris, mas sim ao abismo onde as almas se perdem para sempre…
    (nao sei se é demasiado fatalista mas ainda estou a digerir o resultado dos jogos do nosso glorioso!!! :p )

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