Desamor – O Fantasma

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Uma das histórias de desamor que mais me comoveram e intrigaram foi-me contada quando já tinha dado por concluído o meu livro, “Desamor”, que chega às livrarias no início de Junho. Foi-me contada num jantar, em frente a outras pessoas, deixando toda a gente com um nó na garganta, num silêncio profundo.

O relato foi feito com pausas e lágrimas. A ferida de amor, recente, estava ainda aberta.
A história aconteceu com uma mulher inteligente, culta, bem sucedida, que nunca se imaginara metida em aventuras semelhantes. É a prova de que incidentes de amor, mais simples, mais duros, mais atribulados, acontecem a qualquer um, em qualquer altura. Ninguém está preparado para nada.

Há dias, falei novamente com a protagonista desta história e convidei-a a estar presente, no dia 18 de Junho, ao meu lado, na apresentação do livro. Ela irá dar a cara e dizer aquilo que lhe apetecer sobre o que viveu. Embora ainda sofra diariamente com este episódio marcante, também ela sabe que a exposição desta história poderá funcionar como mecanismo de prevenção para outras mulheres.

Não quero revelar-vos tudo, mas deixo aqui uma pré-publicação deste capítulo. Não é a história completa, mas já dá para sentirem o que se passou. Se quiserem ler o resto, bem como os restantes capítulos, já sabem, é procurar o livro, muito em breve, em qualquer livraria ou hipermercado.

Aqui fica o início de “O Fantasma”.

 pré-publicação de um capítulo de “Desamor”.

O Fantasma

Sempre fui muito céptica em relação a redes sociais e durante muito tempo recusei-me a ter um perfil no Facebook, ou, sequer, a querer perceber como é que aquilo funcionava. Mas como sou empresária, com um pequeno negócio, achei importante ter uma página profissional numa rede social para tentar comunicar melhor a marca e atingir potenciais novos clientes.

Pouco tempo depois de arrancar com o perfil da minha empresa no Facebook, comecei a receber comentários de um Francisco Alves, que tinha sempre qualquer coisa a dizer sobre todos os posts que publicava. Eram quase sempre simpáticos, mas, ao fim de algum tempo, parecia-me uma coisa quase obsessiva. Como a minha página não tinha assim tantos fãs, muitas vezes, os únicos comentários eram os dele, e isso fez com que o visse quase como o meu amigo profissional online. Dei por mim a abrir o perfil dele e a tentar saber mais sobre aquela pessoa, mas não consegui, já que era privado. Eu tentava sempre responder aos comentários dele, mas, por ser uma página profissional, não podia perder o tom institucional, embora muitas vezes tivesse vontade de ser mais provocadora, já que era esse muitas vezes o tom que ele usava.

Ao fim de uma semana de trocas de comentários regulares, mas impessoais e acanhados, recebi uma mensagem privada dele. Nem sabia que essa possibilidade existia. Dizia que percebia que era complicado falarmos através da página da empresa, que os comentários poderiam parecer abusivos, mas que poderíamos sempre usar as mensagens ou trocar mails. Respondi-lhe e falei-lhe um pouco de mim. Disse-lhe que me chamava Susana Sousa, tinha 27 anos, começara um negócio próprio na área da organização de casamentos e que ainda era muito inexperiente no Facebook. Ele respondeu-me minutos depois. Já sabia que se chamava Francisco Alves, tinha 31 anos e era engenheiro numa empresa belga. Era de Lisboa, mas estava a viver perto de Bruxelas, embora viesse com alguma frequência a Portugal.

Durante algumas semanas, trocávamos várias mensagens por dia, que se foram tornando cada vez mais pessoais e cada vez mais entusiasmadas. Fiquei a saber que ele era solteiro, que tinha tido um relacionamento muito longo que terminara há um ano, que estava muito bem na vida e que contava voltar a Portugal daí a dois ou três anos, com dinheiro suficiente para comprar uma casa a pronto e arranjar um emprego numa multinacional, a fazer mais ou menos o mesmo que em Bruxelas. Era um homem inteligente, empreendedor, muito divertido e com um lado algo infantil a que também achava graça — era surfista, falava imensas vezes das saudades das ondas do Guincho, dos amigos de Peniche, da Ericeira, de noites na praia ao calor da fogueira a beber cervejas e a contar histórias. Pareceu-me um rapaz solitário e fiquei com a sensação que a nossa troca de mensagens era resultado dessa solidão que ele sentia, talvez por estar longe de casa, da família e dos amigos.

Percebemos que as nossas conversas caminhavam para a sedução e nenhum quis parar. Se no início me sentia assustada, ao fim de três semanas de mensagens diárias estava já embrenhada e viciada nos nossos encontros online. Fazíamos companhia um ao outro durante quase todo o dia de trabalho, e já só falávamos no momento em que nos iríamos ver pessoalmente. Eu, que era a pessoa mais anti-redes sociais, sentia-me apaixonada por uma pessoa que nunca tinha visto, mas que conhecia melhor do que muitos amigos de há vários anos.

Quase tudo na vida dele era sedutor, desde a atitude perante o trabalho, até à forma carinhosa como falava da família. As conversas duravam há sensivelmente um mês quando ele me perguntou se era a minha empresa que iria organizar o nosso casamento. Sozinha, em frente ao computador, emocionei-me, as lágrimas caíram-me pela cara, e não soube o que lhe responder. Aquilo soou-me quase a um “Queres casar comigo?” à distância, um assumir de compromisso, algo que nunca um homem me havia dito. Respondi-lhe que sim, e que seria o casamento mais bonito de sempre. Foi então que ele me disse que, daí a dois meses, viria a Portugal. Acho que aquele foi o dia mais feliz da minha vida em muitos anos. Ser quase pedida em casamento e saber que o homem por quem estava verdadeiramente apaixonada vinha finalmente ter comigo eram notícias com força para me deixar a sorrir durante meses.

As nossas conversas evoluíram depois para um tom mais sexual. Começámos a falar sobre o que nos apetecia fazer, a fazer planos para o nosso primeiro encontro, e acabámos por combinar uma conversa por Skype, para nos vermos, pelo menos em vídeo, já que no Facebook dele existiam apenas duas fotografias, e em nenhuma conseguia ver-lhe bem a cara, apesar de se perceber que era um rapaz bonito e elegante.

Nessa noite, liguei-lhe para o Skype e ele atendeu. Fisicamente, não era muito parecido com o que demonstravam as fotografias, que deviam ser mais antigas, foram tiradas ao longe, e numa ele estava a surfar e noutra a andar de bicicleta, por isso, era difícil fazer uma comparação. Parecia-me mais gordo e não tão bonito, embora não fosse feio — era um rapaz normal. Não foi isso, naturalmente, que mudou o que quer que fosse na minha maneira de sentir a relação. A pessoa que estava à minha frente era o homem por quem me apaixonara naqueles últimos meses, mesmo sem o ter visto uma única vez. A conversa foi mais curta do que o normal, e acabou, tal como eu esperava (e desejava, no fundo) numa espécie de relação sexual via vídeo, a única que nos era permitida. No entanto, não voltámos a fazê-lo. Preferimos guardar tudo para quando estivéssemos juntos.

Faltavam poucos dias para o 20 de Dezembro, data em que o Francisco chegaria a Portugal, quando ele me disse que gostava que eu conhecesse os pais dele. Achei aquilo romântico, carinhoso. Hoje em dia, é muito raro encontrar um homem que faça questão de apresentar a namorada aos pais, parece uma coisa muito do início do século XX, mas claro que lhe disse que sim, que teria muito gosto em conhecê-los. Ele ainda não sabia a hora do voo, porque estava dependente de conseguir resolver umas burocracias antes da viagem, mas disse-lhe que o iria esperar ao aeroporto. Ele ficou muito contente, e pediu-me apenas para não correr logo para ele, já que estariam lá os pais, e, por isso, seria melhor eles cumprimentarem-no e, depois, ele apresentava-me. Concordei, naturalmente.

No dia seguinte, o Francisco não apareceu online, como era hábito. Fiquei preocupada, até porque, na véspera, não me disse que iria estar indisponível ou com excesso de trabalho. Esperei, enviei-lhe algumas mensagens para o perfil dele de Facebook, mas não obtive resposta. Pela primeira vez, lembrei-me que não tinha qualquer outro meio para o contactar, que não a internet. Tentei ligar-lhe para o Skype, mas não estava online. Enviei-lhe um mail para o único endereço que tinha dele, mas não obtive resposta. Comecei a ficar mais apreensiva, até porque a viagem dele era daí a dois dias e nunca tínhamos ficado tanto tempo sem nos contactarmos.

Passaram-se dois dias sem que tivesse tido uma única mensagem dele. Chegou o dia 19, a véspera de ele chegar a Portugal. Tive então a certeza de que alguma coisa se tinha passado. Entrei em desespero, chorei o dia inteiro, não consegui ir trabalhar. O que me deixava mais nervosa era o facto de me sentir completamente impotente para fazer o que quer que fosse. Não sabia o nome da empresa dele, nem a morada de casa, nem telemóvel, nada. Lembrei-me de tentar contactar alguns amigos dele no Facebook, para ver se algum me poderia ajudar e saber qualquer coisa sobre ele. Abri a página dele e vi uma publicação de um amigo que me deixou de pernas bambas e em estado de choque.

— Pessoal, o Francisco foi vítima de um assalto em Bruxelas, quando circulava na rua, à noite, com dois outros amigos. Não sabemos exactamente o que se passou, mas ele acabou por ser baleado e está internado no hospital. O estado de saúde dele implica cuidados, por isso, vamos esperar que ele tenha sorte e torcer todos para que ele recupere o mais rápido possível. Logo que haja novidades darei notícias por aqui.

56 Comentários

  1. Confesso que o final desta historia me desiludiu muito, demasiado inconclusiva… começa tão bem, prende e depois pimba… não tem o fim que merecia, é pena.
    Gostei muito do teu primeiro livro Arrumadinho, espero que este seja ainda melhor!! 🙂
    Carolina

  2. Nao entendo como alguem se apaixona por outro alguém ä distância, sem nunca ter olhado, sentido. A paixao, o amor é uma coisa de pele. Está-se a ver no que vai dar essa história e entendo que seja uma desilusao, mas ela devia ter tido mais cautela. O que ela viveu é uma ilusao, nao amor. Histórias de desamor têm que ser de facto histórias em que existiu uma relacao e em que a coisa dá para o torto. Tal como a minha relacao de 7 anos, em teve todas as fases : enamoramento, paixao, amor, co habitacao, desemprego, distância e em que no final ele se revela uma pessoa totalmente diferente e termina 7 anos com um email e um grito ao telefone. Isso é desamor. Tenho pena desta rapariga mas estava-se a ver no que ia dar, e amor, amor mesmo é pele, é vivência, nao é internet!

  3. Interessei-me por este capítulo, como muitas das pessoas que por aqui comentaram, mas questionei-me sobre a veracidade do mesmo.
    Não querendo discutir semântica, e ainda que não duvide da personagem que agora conta como é que a história se desenvolveu, trata-se apenas de uma perspectiva, e, julgo que, talvez por diplomacia minha, esse tal Francisco Alves teria uma coisinha ou outra a acrescentar.
    Acredite que não tento descredibilizar o Ricardo nem o seu trabalho, contudo, por ter estado numa situação semelhante, algo que se prolongou, intermitentemente, por três anos, por ter dado o benifício da dúvida e por ainda hoje não somar grandes certezas, talvez gostasse de descobrir o que leva alguém a vender fantasias a desconhecidos.
    Eu compreendo que é disso mesmo que nasce e vive o fascínio através do computador, da fantasia que se agarra à imaginação de cada um, mas não consigo compreender a necessidade de brincar com a sensibilidade alheia.
    Espero sinceramente que a Susana tenha percebido, assim como eu tive de perceber, que um simples verso solto não perdura, nem cria poesia, e que qualquer união necessita de tangibilidade.
    A si, Ricardo, desejo-lhe sucesso com este novo desafio.

  4. A não ser que isto tenha acontecido há mais de 7 anos. Estou em Bruxelas desde 2006 e quando há homicidios do género, tudo se sabe, quanto mais não seja nas publicações da comunidade portuguesa em Bruxelas.
    Também tenho a leve impressão que este Francisco não existia!
    R.

  5. A mim parece-me que aconteceu mesmo e não queria estar no seu lugar, mas já agora seria muito interessante a própria contar a historia de viva voz porque palpita-me que tem muito sumo e seria muito interessante e pedagógico, vou querer conhece-la lá estarei na feira do livro dia 18 contem comigo!

  6. Damn it! Como é que vou conseguir aguardar tanto tempo para ver o fim da história? O rapaz morre? É um perfil falso? É um pervertido? Revela, please!!!…

  7. Hummm como eu sou muito desconfiada, acho que essa história tem esturro… Fiquei curiosa e vou ter de comprar o livro (que grande golpe de marketing, pá!) ou então… ler o resto da história numa livraria.

  8. Apesar de curiosa, só me parecem haver duas hipóteses para uma história que sabemos que não teve um final feliz… O Francisco morreu, ou apenas usou essa mulher. Como a história é para servir de alerta, só pode ser esta ultima!

  9. Parabéns por mais um passo importante. Escrever um livro é do…camano. Voltar a escrever, e já ter sucesso garantido, ainda mais. Sinceros parabéns. Inveja da boa 🙂

    Abraço.

    (boa escolha, está tudo em pulgas para deslindar a história)

  10. Um amigo meu passou por algo do género há uns anos atrás… Quando começaram a marcar a data para se encontrarem, recebe a notícia por via das redes sociais que a rapariga teria falecido… O rapaz na altura fartou-se de chorar, até perceber que de facto tinha estado apaixonado por alguém que nem existia, um perfil falso que alguém usou para o magoar. Muito baixo!

  11. oooooh ! E agora o resto da história está no livro? ou é a senhora que vai contar no lançamento do livro? Fiquei confusa ……

  12. histórias de amores alimentados na net em que depois o homem, porque quase sempre é ele, desaparece do dia para a noite, (sem bem que se a questão do roubo e do hospital do tal de francisco for verdadeira há que ter outros elementos em consideração), é do que mais abunda. Conheço casos e também fui vítima de uma história desse género, há 7 anos atrás. São realidades com as quais não sabemos lidar, até porque quase sempre a informação sobre a pessoa é escassa. Hoje sou feliz ao lado do meu marido, também o conheci no facebook, mas como era da minha área profissisonal e trabalhávamos em localidades relativamente próximas, com muitas pessoas conhecidas em comum… a coisa mudou ligeiramente. Há casos e casos, mas quando estamos completamente a zeros sobre a pessoa , este mundo dos encontros online é um risco. Muitas vezes estamos a lidar com pessoas que só param quando acham que já se divertiram o bastante.

  13. Assim que li os dois primeiros parágrafos convenci-me de que tinha a certeza que não ia gostar do que lia, pois histórias online não me convencem, mas depois…
    fiquei completamente agarrada, como é que é possível? Dia 10 e dia 18 lá estarei!
    Parabéns Ricardo!

  14. É óbvio, olhando ao título do livro, que esta senhora deverá ter passado um "pequeno inferno", acredito que foi usada, enganada e humilhada!

  15. Muitas pessoas não têm a mínima noção do que pode acontecer com as redes sociais, os perigos que nos rodeiam!

    Passei cobras e lagartos com o FB, ainda hoje há um toque de telemóvel que me deixa com um nó no estômago e já lá vão uns anos!

  16. Pronto, o 'Desamor' vai directamente para a minha lista de livros a ler nos próximos tempos. Assim que esteja disponível nas livrarias, comprarei com todo o gosto! Gostei bastante desta amostra…Muito bem escrito e de forma bastante cativante. Desde já, muitos parabéns!

  17. Olá
    Não tenho a certeza, mas parece mesmo estratégia de engate, a senhora deve ter sido enganada.
    A escrita está fantástica. Vê-se mesmo que o francisco a enrolou bem. A lenga-lenga também não me é desconhecida
    Serve de alerta para muitas pessoas.
    Bom lançamento

  18. Fiquei com um aperto no estômago ao ler este excerto.. como uma leitora disse antes, não podendo neste momento gastar dinheiro em livros vou ter de o pedir emprestado por uns minutos numa qualquer livraria!
    Não sabendo ainda o final desta história, assusta-me pensar que tal pode acontecer. Tenho uma relação há cinco anos e sempre que ele vai a algum sítio mais 'manhoso' fico sempre a pensar nestas coisas…

  19. Excelente estratégia de Marketing 🙂
    Se já tinha vontade de comprar o livro, agora não vou mesmo resistir a comprá-lo preciso de saber como acaba esta história…

    Muitos parabéns pelo livro que aí vem e já agora pelo novo bébé 🙂

    Joana

  20. Gostava que publicasses o resto. Pelo pouco que contas parece que vivi algo muito parecido. E para servir como alerta é necessário conhecer o fim da história. Contudo sei que não é "inteligente" da tua parte publicar uma história do livro que irás lançar. Sucesso com este novo livro.

  21. Então isto faz-se?! Uma pessoa fica embrenhada na história e ag…? Infelizmente não me posso dar ao luxo de gastar dinheiro em livros e já estou mesmo a ver que vou ter que fazer aquela coisa (que por sinal odeio!), que é ir para o supermercado ou livraria ler o resto da história!

    Ou então, podes ser um fofinho e publicar o resto… 😀

  22. O Ricardo é muito mau:-) Não se faz 🙂 Queria saber o resto da história e fiquei pendurada!Agora a minha veia cusca ficou muito curiosa.
    Vou aguardar pelo livro!

  23. por favor, publica o resto… tão apetecível… mesmo que ponhas a história toda as pessoas vão querer folhear tudo o resto.
    a sério… fico aguardar o resto da história….não sejas mauzinho….

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