Cheio de pedalada

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A minha relação com bicicletas começou muito cedo. Aos três anos, reza a história da família, comecei a andar numa bicicleta sem rodinhas. Os meus avós tinham um restaurante em Setúbal, mesmo no meio do Jardim do Bonfim, e alugavam bicicletas a quem quisesse passear pelo parque. Claro que eu, como me colava sempre a eles, porque podia comer gelados à borla (eu adorava o Laranja e o Ananás, que custavam 10 escudos, mas a minha avó dizia que eram “de gelo” e “os gelados de gelo são uma porcaria”, por isso acabava sempre por comer Epás, Pernas-de-Pau ou Super-Máxis), adorava entrar naquela espécie de oficina onde guardavam as bicicletas e pôr-me em cima delas. E foi assim que comecei a andar. Nem chegava com os pés ao chão. Empurrava um pedal, esperava que o outro chegasse ao meu pé, empurrava o outro, esperava pelo outro, e era assim. O mais certo era parecer um sapo, mas o que importa destacar é a falta de visão dos meus pais. Então têm um filho que aos três anos já pedala, um talento nato do ciclismo, e atiram todo este potencial para o lixo.

Bom, mas voltando ao meu fascínio por biclas, interessa referir o que é que eu gostava mesmo, mesmo de fazer enquanto pedalava pelo jardim. O meu passatempo preferido era o de observar putos à beira do enorme lago. Esperava pelo momento em que os pais estivessem a olhar para o lado, corria até eles e pimbas!, putos ao banho. Depois fugia a pedalar, todo torto, e refugiava-me na oficina das bicicletas. Claro que os pais topavam-me e iam direitinhos aos meus avós para fazer queixinhas, e acho que levava uns puxões de orelhas.

Uns anos mais tarde, quando já vivia em Faro, tinha uma tristeza muito grande porque tinha uma bicicleta muito podre, que não conseguia competir com as BMX dos meus amigos quando fazíamos corridas à volta do edifício Riamar, onde eu vivia. Na partida, talvez por compaixão, recebia um valente empurrão, que me fazia liderar a prova durante aproximadamente 4 segundos, mas depois era vê-los passar e eu não podia fazer nada. O meu consolo era o facto de ser o campeão das derrapagens. A minha bicicleta era daquelas que travam quando se pedala para trás, e, com isso, conseguia deslizar a roda como gente grande. Mas também era a única habilidade que sabia fazer. Nunca na vida consegui fazer um cavalinho, para grande desgosto meu, na altura.

Quando fiz 10 anos, recebi finalmente a minha BMX, branca e vermelha. Foi em Maio. Em Junho vim de férias para Setúbal, para vir ter com a minha mãe, e já não regressei a Faro. O meu pai divorciara-se, e nunca mais vi a casa onde morava. Fiquei sem a BMX, sem os brinquedos, sem grande parte da roupa, sem o meu irmão mais novo – tinha na altura três anos, e ficámos vários anos separados – e sem os meus amigos, que nunca mais vi.

Fiquei um ano a viver em Setúbal, mas nunca mais tive uma bicicleta decente. Aí aos 15 anos comprei uma em segunda mão a um colega de turma, que tinha a alcunha de Malmeque (por causa das grandes orelhas – parecia o Alf), mas estava demasiado podre e poucas vezes a usei.

Depois veio a fase das motas, desliguei-me um bocadinho das bicicletas e só recuperei o gosto pelas pedaladas aos 24 anos, quando fiz a minha primeira Volta a Portugal em Bicicleta, na altura como jornalista de A Bola. No ano seguinte tive o privilégio de dar um salto maior, e fui enviado-especial à Volta a França. Passei um mês atrás do Armstrong e do José Azevedo. Na altura, escrevi praticamente sozinho um suplemento de 48 páginas sobre a História do Tour (era a edição do centenário) e apaixonei-me pela modalidade. Ainda hoje, adoro tardes de Verão a ver o Tour na televisão.

Há uns meses, o meu sogro ofereceu-me uma bicicleta que ele usava quando era ciclista. Andava, mas precisava claramente de uns retoques. Resolvi recuperá-la. Uma pintura num azul vintage, banco, punhos e pedais castanhos e voilá, ganhei uma bicicleta que apaixona os coleccionadores. É com ela que vou trabalhar todos os dias, é com ela que tenho percorrido a cidade de Lisboa nos últimos dois dias. Só hoje fiz: Campo Pequeno-Praça de Espanha-Sete Rios-Benfica-Telheiras-Campo Grande-Campo Pequeno-Saldanha-Marquês-Rossio-Praça do Comércio-Santa Apolónia-Parque das Nações-Santa Apolónia (aqui tive um furo)-Chiado-Calçada do Combro-São Bento-Rato-Campolide-Radial de Benfica-Benfica-Radial de Benfica-Praça de Espanha-Marquês-Campo Pequeno.

É a prova de que Lisboa é uma cidade ciclável. 🙂

Para as esposas que andam sempre à procura de um presente original para os maridos, deixo uma sugestão: comprem-lhes uma bicicleta.

Aqui fica a minha bicla, que até tem um nome: Agostinha.

1 Comentário

  1. A minha relação com as bicicletas não começou lá muito bem… talvez porque me ofereceram uma bicicleta com uma cor que eu não gostava: AMARELO!!!! Passados uns anos, resolvidas a questão (de não gostar da bicicleta, não do amarelo!) comecei a andar e adoro andar de bicicleta até hoje.
    Muitas quedas, muitos sustos e muitas habilidades depois, ainda hoje sou uma super-fã de andar de bicla!

    Maura

  2. Acredito que esta paixão antiga pelas bicicletas seja partilhada por grande parte dos simpatizantes do arrumadissimo blog, fazendo reviver com nostalgia, inumeros momentos da nossa ja distante infancia.

    Este post que nos faz sentir algumas destas emoçoes sobre rodas , conjugando-a com o estilo de vida mais maduro e cosmopolita, incentiva a que todos possamos trazer para o seu daily life um pouco daquilo que nos faz sentir verdadeiramente felizes e despreocupados..seja com o transito, estacionamento…

    Car Runs On Money and Makes you Fat

    Bike Runs on Fat and Saves you Money

    Investiga sobre fixed gear bikes… Vais gostar do conceito urbano de andar de bike… E a Agostinha ja tem parte desse espirito

  3. Arrumadinho, depois de ter lido o teu roteiro do dia de ontem,tiro-te o chapeu e faço-te a devida vénia!! Andar em Lx de bicicleta já não é fácil e ainda por cima conseguir dar essas voltas todas!!! Vai lá vai…

  4. Uma história bonita… fez-me lembrar que me apaixonei pelo ciclismo e pela Volta a Portugal nos verões que passava com os meus avós em Campo de Ourique. O meu avô tinha uma bicicleta linda, tal como a tua, mas infelizmente não sei que destino se lhe deu… adorei o texto!

  5. Estou mesmo só à espera que a minha filha aprenda a andar de bicicleta sózinha para darmos umas voltinhas juntas (no campo, claro, que a pisca só tem 3 anos!Ainda tentei andar com ela na cadeira, mas tenho medo de me desequilibrar e cairmos as duas!). Também aprendia aos 3 anos e perto dos 4 já não tinha rodinhas! E lembro de ter ido ao Jumbo de Alfragide com uns 9 anos para comprar a minha bicileta cor-de -rosa com cestinho!
    Agostinha é um nome giro para a bicicleta!! ehehehe

  6. Adorei este post!: )). Adorei conhecer a Agostinha!! Eu não tenho relação com bicicletas e entristece-me muito pq vivo numa cidade de bicicletas (mas não é amesterdão).. Keep walkin'! : ) Matilde

  7. Tive uma igualzinha! Era do meu avô, passou para o meu pai e depois para mim. Já era verde garrafa quando a herdei e só lhe tiraram o selim de cabedal e o guiador torcido de profissional 😉
    Aprendi só aos 12 anos e também não chegava com os pés ao chão, mas isso não me impediu! Hoje em dia só mesmo aulas de indoor! Muitas!

  8. A minha relação com bicicletas nunca foi pacífica. A última vez que me meti numa acabei por me meter montra a dentro… Digamos que podia ter corrido melhor.
    Eu culpo o meu ouvido interno. Deve ser meio tortinho, coitado.

  9. Andar de bicicleta em LX é de coragem… confesso que não gosto muito de de ver ciclismos nem ciclistas, acho feio ou deve ser das roupas dos ciclistas bliéc parvoíce eu sei 🙂

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