Calle

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Estreou ontem na Culturgest a peça (ou monólogo) “Os Meus Sentimentos”, um livro de Dulce Maria Cardoso que é interpretado (ou dito) pela actriz Mónica Calle, que se tornou conhecida no início dos anos 90 quando se despiu no monólogo “Virgem Doida”, a partir de um texto de Rimbaud. Este novo espectáculo dura cinco horas, tem quatro intervalos, e a actriz, supostamente, debita todo o livro de Dulce Maria Cardoso.

Ontem, a peça começou com 1h30 de atraso. De acordo com o que li, porque não estive lá, Mónica Calle pediu desculpas, fumou um cigarro em silêncio durante uns minutos, pediu a alguém para subir ao palco e ler-lhe o Credo ao ouvido. Foi repetindo partes, saltando outras. Depois começou a falar. Ao fim de uns minutos, baixou a saia, tirou os collants, as cuecas e masturbou-se durante algum tempo. Depois perguntou várias vezes à plateia: “Algum homem quer um pedaço de mim?”.

Ao primeiro intervalo, parece que algumas pessoas preferiram não regressar.

Não li o livro de Dulce Maria Cardoso, não sei até que ponto Mónica Calle estava apenas dentro da personagem, ou se alguma coisa lhe estava a correr mal durante o dia – ela justificou o atraso com problemas pessoais.

Para muitas pessoas, o que se passou ali foi arte pura, um acto genial de coragem artística.
Para outras, foi um absurdo, um momento decadente, triste e que não tem justificação, nem pela via da criatividade artística.
A arte tem muito de incompreensão. Tal como os génios ou muitos grandes artistas, que habitam no seu mundo, de lá não saem, não procuram ser entendidos ou apreciados, fazem o que entendem que devem fazer escudados na carapaça da “arte”.

Confesso-me um ignorante com certa capacidade em entender certas formas artísticas, principalmente aquelas que me transcendem por completo, que me parecem muito mais actos de loucura desesperada do que resultado de um acto de genialidade artística. É um problema meu, bem sei. São os quadros totalmente em branco, ou totalmente negros, que já vi em várias galerias, é a secretária com um maço de cigarros em cima ou a vitrine com medicamentos do Damien Hirst, as instalações inatingíveis que mais parecem emaranhados de lixo. Falta-me o gene para entender algumas destas coisas e encaixá-las por baixo do grande chapéu da “arte”.

Há génios que só são entendidos por outros génios.

Mas, para mim, não faz sentido haver artistas sem público.

Não sei se o espectáculo de Mónica Calle terminou com uma sala em apoteose a aplaudi-la, ou se, no fim, restavam meia-dúzia de resistentes. Só sei que se tinha vontade de ir ver a peça, agora, depois de saber o que me espera, perdi-a.

1 Comentário

  1. Na verdade, a arte ou os artistas não têm de ser imediatamente compreedidos, depende do grau de formação artística do público e este não é homogénio.Isso cultiva-se: o Alberto Carneiro era pastor e hoje faz instalações de vanguarda, tipo "Land Arte". O Van Gogh não vendeu um quadro em vida…É certo que um artista para ser reconhecido não tem que estar morto, como antigamente, mas isso não quer dizer que o público aceite logo o seu trabalho e esse reconhecimento também nunca será feito por todos, como é óbvio. Do que conheço da Mónica Calle é que é uma atriz que deixa o corpo e a alma no palco, com pouquíssimos meios, em todas as suas peças e, não tem mesmo nada a ver com os actores de plástico das novelas televisivas que não sabem dizer uma frase de seguida, parece que esses, sim, são do agrado geral!

  2. Há uma miúda no FB "Joana Marques" que copia os teus textos no mural dela como se fossem pensamentos originais. copiou um parágrafo inteiro deste post…

  3. É verdade.
    Copia, praticamente tudo, como se fosse em nome próprio.
    Não vejo qualquer referência ao autor deste blog.

  4. Olá!
    Que cena macabra, um nojo!
    Onde é que leste essa notícia? Não encontrei, mas pelo que li numa entrevista e no resumo do livro, parece-me que essa cena faz parte da peça.
    Carla

  5. Eu não teria ficado sequer até ao 1º intervalo. A começar com a falta de respeito de pôr o público 1,5h à espera, depois faltar-me-ia o génio, com certeza…

  6. Alguém masturbar-se para uma plateia também é algo que me transcende… mas isto se calhar sou eu que também me falta o tal gene da arte…

  7. Eu sou um bocado como tu. Há alguns tipos de arte que não entendo. Pela tua descrição do que se passou ontem no espectáculo de Mónica Calle, tenho a certeza de que se tivesse estado lá também não tinha compreendido. Assumo que nessa área também me sinto muitas vezes uma ignorante por não acompanhar tamanha genialidade [ou loucura].

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