Aventuras por São Pedro de Moel

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Desta vez coloquei-me na primeira linha de partida, para ver se não ficava afunilado nalguma rua estreita

Horas antes de partir para São Pedro de Moel, onde fui correr o 1.º Sunset Trail, organizado pela minha equipa, a OFFtel runners, troquei umas mensagens com um grupo de amigos que costumam correr. Uma delas, a Sara, dizia que queria correr a Maratona de Lisboa, a 6 de Outubro, e estava a pedir-nos ajuda, para que fossemos, à vez, treinar com ela. Na conversa, lá lhe disse que ia correr os 21 km de trail a São Pedro de Moel, ao que ela me respondeu qualquer coisa como “tu és é maluco, quem me tira o alcatrão tira-me tudo”.

Pois bem, foi esta frase que me foi a acompanhar o percurso todo – “Quem me tira o alcatrão tira-me tudo”. É que, embora goste muito de trail, e treine de vez em quando em Monsanto, estas perninhas levam infinitamente mais quilómetros de alcatrão do que de mata ou areia, por isso, ainda sou um novato nisto das corridas de aventura. E desta vez voltei a sofrer, mas a sofrer como gente grande.

A começar, tinham-me dito que a prova teria “uns quatro quilómetros de areia solta” e era “quase toda plana”. Foi mais ou menos com estas duas ideias que parti. Como praticamente não tenho treinado, culpa das malditas alergias, senti-me competente para terminar uma prova “quase plana” e com “uns quatro quilómetros de areia solta”. Enganaram-me bem.

Logo na partida, e depois de uma conversa com a querida Rosa Mota, entrámos pela areia da praia de São Pedro. Esta ideia, que quase teve de ser autorizada pelo Papa, foi excelente. Quem estava na praia divertiu-se a ver o pessoal a passar (e foram apenas uns sete ou oito minutos) e quem ia a correr achou graça a esta interacção (e ainda deu para ver umas miúdas de biquini, pronto). Uns 150 metros mais à frente, voltámos à estrada, já a subir (então e aquela parte de ser tudo plano?). E esta foi a parte mais fácil. É que uns metros depois, a prova entrou pelas dunas de areia solta, e assim se prolongou durante nove quilómetros. Nove! Sempre em areia tipo praia, em que uma pessoa se enterrava quase até ao joelho (é exagero, pronto). E tudo a subir e a descer. Ah, mas esta subida é curtinha, são só uns 30 metros. Muito bem, 30 metros empinados e em areia solta, ou seja, parecem 10 quilómetros. E assim fomos, durante os tais nove quilómetros. Nas subidas, muitas vezes, tinha de caminhar, e aproveitava as descidas para voar pelas dunas. Pobres músculos das pernas.

Mas mesmo a partir do quilómetro 9 a coisa não melhorou. A areia ia, mas voltava sempre, mais ou menos solta. E ainda houve direito a passagem dentro de água e a uma subida enorme, tipo montanha, em que muita gente dava ia de gatas ou agarrada aos ramos para não vir por ali abaixo. Uma violência.

E foi nestas alturas que me lembrei da Sara, e do alcatrão – que saudades do alcatrão, tão durinho e plano.
Mas um trail é isto, é desafio e superação, é ver os obstáculos, ofendê-los, mas superá-los e sorrir para eles, é galgar metro a metro em esforço, com a convicção de que não seremos derrotados por areia solta, rios de água, lama ou subidas a pique. Muito mais do que um teste às pernas, um trail é um teste a nós próprios, à nossa força de espírito e capacidade de sofrimento.

Dorothy Parker disse um dia que não gosta de escrever livros, gosta de os ter escrito. No trail o sentimento é esse: chegar ao fim e pensar “já está”, e dizer “consegui” e pensar “venha o próximo”.

Duas palavras mais: uma para a organização da OFFtel. Impecável. Não tenho uma única coisa a apontar. Percurso bonito, duro e desafiante, sistema de chip para controlo de tempos funcionou na perfeição, marcação do percurso sem falhas, staff nos sítios certos a orientar os corredores, abastecimentos maravilhosos (sobretudo o dos 14 km), meta num sítio bonito, excelente sandes de porco assado no final. Outra para São Pedro de Moel, uma localidade muito bonita, com casas maravilhosas e gente muito simpática. Uma prova como esta contribui muito para a divulgação da região, traz muita gente de fora e mostra, por dentro, a beleza e o misticismo do Pinhal de Leiria.

Ao lado do pessoal do CorrerLisboa e da grande Rosa Mota
Na passagem de água, já sem grande energia
Mais uma descida – esta era a parte fácil
O grande Daniel e mais dois OFFtel, os homens do carro vassoura, que vinham no fim a limpar o pinhal
Era deste abastecimento que estava a falar: fruta, chocolates, gomas, mel, pastéis de nata, tudo
Se nesta altura me tivessem posto o Miguel Mota à frente tinha-lhe batido (é o organizador que inventou esta subida)
O hotel Mar&Sol
Outra das partes boas de ter ido a São Pedro foi a de ter conhecido o Hotel Mar & Sol, o mais bonito da região, mesmo em frente ao mar. Simpaticamente, convidaram-me para ficar aqui hospedado, num quarto maravilhoso (o 220, recomendo), que tem uma varandinha onde pude ler o jornal no domingo de manhã, com uma vista perfeita.
Num hotel, quase tanto como as instalações, valorizo o atendimento. E aqui a nota é máxima. Simpatia, disponibilidade e grande profissionalismo. Tive direito a visita guiada ao spa, que é relativamente recente – “se quiser pode vir correr amanhã às 7 da manhã, que lhe abrem o ginásio”, disse-me o recepcionista, ah! ah!, correr, pois, pois. Depois mostrou-me o topo do hotel, com toda aquela vista imponente, onde se fazem sunsets ao domingo.É daqueles sítios onde terei de voltar obrigatoriamente.
O restaurante envidraçado do hotel
No topo, perto da zona de lounge, há esta área perfeita para apanhar sol, ler e ver o mar
É aqui, no terraço, que aos domingos há sunset parties
Uma foto que coloquei no Instagram, em São Pedro de Moel
Na praça central, junto à entrada para a praia, há uma senhora a fazer crepes com Nutella por €2,5
São Pedro, um paraíso perdido em pleno Verão (e a um domingo)

22 Comentários

  1. São Pedro é um lugar maravilhoso: seja para fazer praia, para fazer exercicio ou passear.

    No dia 13 estava no KM 14 no abastecimento. Para o pessoal que participou no trail – corrida, só tenho duas a dizer-vos:respeito e admiração!!!!

  2. Eu por acaso só fiz a caminhada mas como sou principiante já foi dura lol , quanto á minha praia visto que sou de Leiria , como já foi dito não a troco por nada , não passo duas semanas no máximo sem a ver seja no verão seja no inverno

  3. oooH, não vi a senhora dos crepes!!! tb gostei bastante da prova e espero voltar!!

    🙂 a minha prespectiva foi qualquer coisa assim:
    "…poucos segundos depois do sinal de partida para o 1.º Sunset Trail de S. Pedro de Moel, atravessava o areal, o qual me tinha recusado antes a pisar para não entrar areia para os tênis :O e ainda tive atravessar um pequeno afluente de água, não pequeno o suficiente para o conseguir saltar por cima, ou seja, pés molhados e mais areia… gggrrrrr
    seguiram-se 9km de piso de areia, durante os quais ponderei cruzar os braços em cima do peito, fazer beicinho, franzir a testa e dizer que me recusava a dar mais um passo que fosse… que era impossível correr em tais inclinações de areia
    mas entretanto desprendi o burro e dei em avançar…
    a andar, a correr ou a "corrandar" eu queria e ia acabar a prova…
    3h depois atravessei a meta. e nem dei pelas horas a passar e porquê? porque os abastecimentos ajudaram a dar energia ao corpo, porque atravessar o pinhal a fintar ramos e pinhas e a sentir uma brisa refrescante e aromatizada me fazia respirar a plenos pulmões, porque uma ponte sobre um ribeiro me confortou psicologicamente, porque percorrer um ribeiro de água fria com o nível da mesma a dar pelos joelhos mas a molhar-me praticamente as pernas todas revigorou o andamento, porque correr ao lado de um pôr do sol a espelhar no mar um reflexo que quase me batia nos calcanhares é coisa rara de me acontecer, porque os últimos 7km foram feitos praticamente sempre a correr e a cumprimentar com uma palavra de incentivo quem ficava para trás o que me fez sair da minha bolha e porque apesar de sozinha não me permiti não desfrutar de cada momento mesmo os mais difíceis, afinal fui eu que me propus fazer aquele trail, é certo que desconhecia as dificuldades (elevadas), mas o que é aquilo comparado com o que às vezes nos deparamos na vida?!…"

  4. Bonitas palavras e bonita discrição da nossa zona, embora eu não tenha participado, dou lhe os meus parabéns por tudo 🙂

  5. Obrigada por ter gostado tanto do "nosso" refúgio maravilhoso! Já quanto ao Miguel Mota imagino que, no final daquela subida, tivesse cerca de 300 pessoas a quererem sová-lo!! Lol…

  6. Obrigada por "falar" tão bem do nosso maravilhoso refúgio!!! Já quanto ao Miguel Mota imagino que tivesse, no final daquela subida, cerca de 300 pessoas a quererem "sová-lo"!! Lol….

  7. Obrigada por "falar" tão bem do nosso maravilhoso refúgio!!! Já quanto ao Miguel Mota imagino que tivesse, no final daquela subida, cerca de 300 pessoas a quererem "sová-lo"!! Lol….

  8. A minha praia! adorei ler-te sobre esta linda zona que não troco por algarve nem alentejo! S. pedro têm uma magia que só entende quem conhece! voltem em família que vão adorar

    Sandra Jorge

  9. Nada na (nossa) zona de São Pedro é plano, nem as praias nem a zona da mata, nem sequer as estradas de alcatrão principais. É sempre a subir e a descer, mais ou menos acentuado, mas sempre a subir e descer. Mas é sem duvida um zona maravilhosa.

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