Ask what you can do for your country

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Aqui há uns anos escrevi uma coisa que muita gente considerou quase ofensiva: disse eu que José Sócrates era o melhor político português e que tinha conseguido, no primeiro mandato, fazer um trabalho decente tendo em conta a grave crise internacional em que a Europa – e Portugal – estava mergulhada.

Hoje, mantenho quase tudo. Continuo a achar que Sócrates é o mais profissional de todos os políticos, mas, agora, não acho que o primeiro mandato tenha sido assim tão bom. E por uma razão simples: os números que eram dados como verdadeiros na altura, afinal, foram rectificados, e o que pareciam ser contas do défice razoáveis foram, afinal, más. O problema maior foram mesmo as eleições de 2009. Para as ganhar, Sócrates inventou um cenário de retoma, que não existia, aumentou funcionários públicos, desdramatizou o que só tinha de ser dramatizado, e diabolizou Ferreira Leite, que deu a entender ser pior que Satanás, uma encarnação do mal que vinha aí para nos sugar até aos ossos, para nos levar o pouco que ainda conseguimos ter.

Bom, mas isso já lá vai. Até o Sócrates já lá vai. E vem aí Passos Coelho.

O homem ainda nem tomou posse e parece que já corre por aí um mail a atacar o currículo do senhor, e a dizer que nunca fez nada na vida, e que acabou o curso quase aos 40 anos e mais não sei o quê (só vi isto por alto, porque agora ando mais ocupado a passear).

Sinceramente, acho que é nesta pequenez mental que esbarra o nosso crescimento enquanto povo. Gostamos sempre de esmiuçar o outro, de procurar o ponto fraco, de descobrir onde bater, encontrar o podre. E não estou obviamente a meter a imprensa neste saco – é esse, também, o papel do jornalista, procurar o que está errado, desconfiar das normalidades, procurar a fraude e denunciá-la. Agora, estou é a falar das pessoas que passam este mail de amigo em amigo, acrescentando mais um comentário malicioso, mais uma boca a apontar um defeito.

Em lugar de nos preocuparmos, primeiro, com a nossa própria produtividade, com a necessidade de sermos melhores, mais cultos, mais competentes, mais eficientes, não, procuramos é mostrar que o outro – seja o primeiro ministro seja o gajo da cadeira ao lado, seja o chefe da contabilidade (“Ah, sabias que o Zé Francisco da Contabilidade é sobrinho da Maria José que é vereadora da câmara? Está explicado como é que ele chegou lá”) – é muito pior, e tem defeitos, e não tem méritos.

Não sei se o Passos Coelho nunca trabalhou. Não posso dizer que não o conheço de lado nenhum, porque conheço. Não posso dizer que nunca falei com ele na vida, porque já falei, várias vezes. Não posso dizer que sou completamente desinteressado no que escrevo, porque sei que ele é um homem honesto e capaz, e sei-o pelo que disse antes, porque o conheço, porque já falei com ele várias vezes, porque sou amigo de algumas pessoas que o ajudaram a chegar onde chegou.

Acho que toda a gente merece uma oportunidade. Foi por isso que fiquei contente com a vitória do PSD nestas eleições. Eu já votei PS, já votei PSD, já votei Bloco, já votei CDU. Desta vez não votei. Não votei porque não estava em Portugal no domingo das eleições. Mas acho que chegou a hora de Passos Coelho mostrar o que vale. E nós temos a obrigação de, antes de atirar pedras, ajudar, dar o nosso contributo para que o País saia de onde os anteriores governos o deixaram. E ainda antes de dizermos “este vai ser igual!”, “são todos uns bandidos” ou “já dei para esse peditório” vamos tentar mais uma vez. Até porque só temos duas hipóteses: ou puxamos para um lado, ou puxamos para o outro; ou fazemos parte da solução, ou fazemos parte do problema.

E acho que a solução devemos ser nós, e não esperar que sejam os outros a procurá-la.
Anteontem voltei a estar em frente à frase que Kennedy um dia disse: “Don’t ask what your country can do for you,, ask what you can do for your country”. Nunca foi tão actual.

1 Comentário

  1. Não concordo que o Sócrates tenha sido, ou seja, um bom político. Uma pessoa que utiliza a mentira, encenação e manipulação para mover as massas, não pode ser boa pessoa.

  2. é verdade, a questão é mesmo o que os cidadãos podem fazer pelo país, acho que nunca conheci um povo tão inerte com tão pouca iniciativa para mudar seja o que for como o nosso. em termos gerais a maioria das pessoas estão à espera de saber o que pode ser feito por elas, queixam-se que não há emprego, mas enquanto estão desempregadas só vão estourar o subsidio de desemprego ao café e trocar cusquices com a vizinha…estamos no ano do voluntariado, há tanta gente, nos hospitais, em lares e nas ruas a precisar de ajuda o que não falta são coisas para fazer pelo nosso país.
    Quanto ao passos coelho, eu tenho fé nele, há por ai muita gente a dizer que com o passos coelho é que vamos pagar, se estão a falar da divida, ela vai ter de ser paga de qualquer forma por isso mais vale cedo do que tarde como tem acontecido (para nossa desgraça) até agora.

  3. Não comentando a parte do Sócrates, concordo consigo. Não vejo qual o problema de se terminar um curso aos 37, provavelmente muita dessa gente com mail não tem curso, e não está preocupada com isso. Lula da Silva era um sindicalista que transformou o Brasil (ir ao Brasil antes Lula e depois comprova isso). E quando é que as pessoas vão perceber que ser política é uma profissão, uma carreira como outra qualquer? Dizer que nunca se fez nada? Apoiado este texto

  4. O Sócrates não é, nem nunca foi um bom politico. Teve sim, gente muito capaz em seu redor.
    Teve os meios tecnológicos, e claro. Teve e tem, tal como se viu na hora da saída, uma enorme eloquência.

  5. Este é o momento certo para recordarmos essa frase do Kennedy.
    É um enorme disparate dizermos que a culpa do estado da nação é dos politicos.
    É também nossa, de todos nós, que somos coniventes com as incompetências, com as mentiras dos nossos pares, que temos no nosso dia a dia uma atitude que premeia sempre os medíocres, pois se aceitarmos que alguém é realmente bom no que faz teremos que trabalhar mais para também sobressaírmos.
    A culpa é nossa, que levamos as canetas do escritório para casa, o papel de fotocópia, que no supermercado servimos aos amigos presunto serrano e carregamos na tecla da mortandela, que sempre é mais em conta e a empresa não precisa.
    É nossa, que nunca percebemos que o que os direitos adquiridos vêm com responsabilidades acrescidas, e que quando estragamos um bem municipal estamos a estragar algo que é nos pertence tanto como as cadeiras da sala de jantar cá de casa.
    A responsabilidade é nossa. Alguma vez teremos a coragem de a assumir?

  6. estar ausente não é desculpa para votar, desde maio que fomos bombardeados com a questão do voto antecidpado, que era possivel aí desde 15/5.
    bastava fazer prova da viagem.

  7. Bom, pelo menos metade estavam interessados, senão não tinham ido votar. Pequenez é de quem fica em casa, a remoer política e políticos, mas nunca levanta o cuzinho do sofá para ir votar. Não estou muito entusiasmada com o Passos Coelho, mas não é embirração com o senhor, é mesmo cansaço. Acho que vão ser tempos dificeis, quer lá estivesse a, b ou c. E o senhor contra as má linguas – trabalhe. Trabalho feito sempre foi o melhor argumento. (acho que o 1º mandato do Sócrates teve medidas importantes, mas o 2º mandato foi péssimo e sempre a descer.)

  8. Concordo com boa parte do que foi dito, eu tb admiro Sócrates teve mal no segundo mandato, e ao Passos Coelho dou-lhe o beneficio da dúvida e acho que por ora o merece

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