Às voltas por Leiria

0
2381

Ontem meti-me numa aventura inédita: fui correr um trail à noite de 22 km. Já fiz provas de estrada de 5, 10, 15, 20, 21 e 42 km, mas nunca tinha feito um trail, que implica correr pelo meio do mato, por trilhos estreitos, trepar obstáculos com cordas, passar por locais agarrado a redes, descer caminhos quase em rapel, escalar montes a pique, enfim, uma loucura.

Na véspera da corrida deveria ter cumprido com a regra básica — deitar-me cedo, dormir bem, descansar o mais possível. Deveria. Mas não cumpri. Demos um jantar lá em casa que terminou perto das 4 da manhã, deitámo-nos lá para as 4h30 e de manhã, bem cedo, tivemos de ir para o veterinário com o pequeno Manolo, que teve uma gastrite. Saímos de lá perto da hora de almoço e voámos para Leiria. Cheguei ao hotel às cinco e ainda tinha de ir comprar uma luz frontal para a prova e dois quilos de alimento para doar à Caritas (a prova tem esta componente solidária). Voei para o Leiria Shopping, onde estava metade da cidade a fazer compras de Natal. Entrei no centro comercial equipado de calções, meias pelos joelhos e corta-vento. Ah, e a correr. Pronto, quem me viu ficou a achar que era um louco.

Demorei uns 10 minutos e lá fui até ao estádio. Estacionei, ainda sem dorsal, sem saber bem onde era a partida, e quase em cima da hora para o tiro de partida. Lá fui a correr até ao ponto de partida, onde cheguei quase às seis da tarde. Por sorte, a coisa estava um pouco atrasada. Coloquei a luz frontal na testa e percebi que não tinha o parafuso apertado, logo, a luz ficava a apontar-me para o nariz, em vez de apontar para a estrada. Nova aventura: encontrar uma chave de fendas. Felizmente, o Miguel Mota, da organização, lá me disse onde me poderia desenrascar. Guiado pela minha companheira de corrida Ana Lúcia Bento lá fui até uma loja ali perto onde um senhor me apertou o parafuso da luz frontal. Vesti a camisola da OffTel Runners, que simpaticamente me convidou para integrar a equipa (espero ter cumprido — dei o meu melhor) e lá fui para a partida. Ainda me cruzei com a Analice Silva, a senhora de 69 anos com quem corri a maratona em Maio, e com o Luís Milagres Sousa, o organizador dessa mesma prova.

A prova arrancou já depois das 18h30. Começou logo com uma subida a pique, ainda em estrada, em direcção a uma mata. Foram 600 metros a galgar terreno e a entrar pela lama. Quando pisei a primeira poça de água fiz aquele ar de “porra, pá, já me sujei”. Ah! Ah! Mal sabia eu que 15 minutos depois iria estar a correr com lama até meio das canelas.

A prova teve depois uma parte do percurso em estrada, uns 2 ou 3 km, até mergulhar definitivamente no campo. Foram quilómetros e quilómetros a subir, a saltar obstáculos, a contornar árvores, a tentar equilibrar-me para não vir pelo monte abaixo, nos rios de água lamacenta que corriam. Fui ao chão três ou quatro vezes, cortei-me numa perna, deixei ali, literalmente, sangue, muito suor e lágrimas de esforço. O abastecimento aconteceu aos 12 km, no Castelo de Leiria. Quando lá cheguei, e me deliciei com um pastel de nata quentinho, ainda pensei em ficar-me por ali. Estava muito cansado, a escorrer sangue pela perna, já levava 1h40 de luta nas pernas, mas aguentei-me. Ajudou muito estar a correr ao lado da Ana Lúcia, que puxou por mim quando estava pior, e foi puxada por mim quando se sentia em dificuldades. Juntos, superámos todos os desafios, subimos a todos os pontos altos da cidade, percorremos todas as matas leirienses, cruzámos quase todas as árvores, escorregámos por todas as encostas. Terminámos, lado a lado, exaustos, com o tempo de 2h41m. Eu fui 159.º e ela 158.ª, em quase 400 inscritos.

Espero, sinceramente, ter honrado a camisola da Offtel Runners, que tão simpaticamente me convidou. Uma coisa é certa: dei tudo.

Aprendi, no entanto, algumas lições para futuras provas de trail.

1. Nunca levar ténis de estrada. Todas as vezes que acabei a escorregar pela encosta tiveram a ver com isto. São impróprios para terrenos de lama, terra e obstáculos.
2. Nunca levar calções. Passamos por diversos caminhos de vegetação alta, ramos, urtigas, por isso, quanto mais protegidos, melhor.
3. Levar um gorro, um boné ou um lenço e colocar a luz frontal por cima. É que com duas horas de corrida aquilo começa a fazer comichão, o elástico começa a magoar, e se estiver qualquer ali pelo meio ajuda.
4. Levar luvas. Tive de me agarrar a redes, cordas, fui ao chão algumas vezes, e se tivesse luvas teria sido tudo mais fácil.
5. Se estiverem hospedados num hotel, levem um par extra de ténis (podem ficar no carro) e umas calças de fato de treino. É só para não vos acontecer como a mim e terem de entrar no hotel com ar de quem foi atirado de um carro em movimento e foi a rebolar pela ribanceira.

O fim-de-semana acabou da melhor maneira, com um almoço fantástico no António Padeiro, em Alcobaça, só mesmo para repor as calorias que gastei na véspera.

1 Comentário

  1. Tenho uma paixão pelo desporto radical e por quem pratica grande admiração, soube desta prova por amigos de leiria que a fizeram aos trambolhões e com alguns arranhões, preso por saber que mesmo com lama chegou direito e a tempo, de saborear um bem repasto, no meu restaurante preferido de Alcobaça, terra minha, dos coutos e de toda a gente que por lá passa e que não passa sem lá voltar. ACruz

  2. Eu cá só tenho a dizer: belas pernas! A Pipoca que me desculpe, é com todo o respeito, mas as verdades são para se dizer! 🙂 Felicidades aos dois!

  3. O Rui, lamento mas o Arrumadinho escreveu bem é trail e não trial….

    Obrigado Arrumadinho por honrares a nossa camisola, foste incrível… acompanhar a Ana Lúcia não é tarefa para amadores, PARABÉNS! Espero ver essa camisola e essa inscrita outra vezes por esse pais fora!

  4. Sempre a aprender, vais ver que para a próxima vai correr lindamente pois mais precavido irás.

    Não posso deixar de dizer que é agradável a nós mulheres ver um homem com pêlos nas pernas. É que anda para aí uma moda, digamos, insipida.

  5. Olá!
    Como "trailrunner" gostava de te dizer: bem vindo ao clube e parabéns pela prova! 🙂
    Também corro em estrada mas desde que descobri esta variante da corrida não quero outra coisa!!
    Espero encontrar-te um dia destes, num qualquer monte de Portugal… 😉
    Abraço

  6. OMG…é preciso ter coragem..no mínimo…não participei na São Silvestre cá do Porto pelo simples facto de ser de noite e estar um frio de morte..meu Deus…muito bem muito bem

    (ocadernodeardnas.blogspot.pt)

  7. Boa tarde.

    Desculpa a correção mas é trail e não trial.
    O mais importante é que tenhas experimentado. A minha experiência é completamente oposta à tua. Nunca corri em estrada, aliás, antes de Maio deste ano não gostava de correr, só de jogar futsal. E agora já fiz provas de 30km e no dia 26 de Janeiro será a minha 1ª ultramaratona (45km). http://www.trilhos.abutres.net/

    Espero que repitas a experiência do trailrunning.

    Abraço
    Rui Ferreira

DEIXE UMA RESPOSTA