As prioridades que definimos para a nossa vida

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"I Spy A Family". Uma das frases mais emocionantes do filme "When Harry Met Sally"

A idade, mas sobretudo a vivência, levam-nos a, frequentemente, redefinirmos prioridades na vida. O que há uns anos era tudo para nós, hoje pode ser algo irrelevante ou secundário. Pela ordem inversa, o que não há muito tempo podia ser um aspeto menos importante na vida pode ser, agora, o nosso maior objetivo.

Definir essas metas, reorientar o caminho, é fundamental para que nos mantenhamos equilibrados, motivados e focados. Sempre achei que, de uma forma ou de outra, quase todos procurávamos as mesmas coisas, ou coisas muito parecidas, a partir de certa idade, e depois de já termos vivido bastante. Claro que há exceções, e pessoas que não mudam, mas são uma minoria. Quando nos casamos, quando temos filhos, quando criamos uma família, parece evidente que a nossa prioridade e orientação de vida não pode ser a de ir apanhar bebedeiras às sextas e sábados com os amigos, até de madrugada. Sou o primeiro a defender que isso deve continuar a acontecer, e deve continuar sempre a acontecer, não pode é, como é evidente, ser uma prioridade na vida.

Crescer, amadurecer, é, também, aprender a tirar prazer de coisas que, antes, nos pareciam particularmente aborrecidas ou sem graça. Qualquer pessoa concordará que passar cinco horas na kidzania a um sábado de manhã com os filhos pode ser a seca de uma vida, mas quem é pai também sabe que quando vemos a alegria dos miúdos naquele momento, a excitação com a brincadeira, quando eles nos puxam pela mão para os irmos ver a andar no carro dos bombeiros, ou quando pedem para irmos aprender a tocar um instrumento com eles, tudo isso nos enche felicidade, e isso compensa largamente o aborrecimento de passar ali uma parte do dia. Ver os filhos a crescer, a fazer as coisas deles no dia a dia, a brincar, a imitar vozes, a alterar letras das canções inserindo os tradicionais elementos de humor escatológico infantil como “chulé”, “cocó”, “pum” e “chichi”, tudo isso traz a um pai uma alegria que o faz ter a certeza de que estar com aquelas criaturas é, de facto, a coisa mais importante da vida.

Uma das características mais importantes para se ser um bom pai, uma boa mãe ou um bom marido, ou mulher é o sermos altruístas, o sabermos colocar o interesse do outro, ou o bem-estar do outro, à frente de nós próprios. E este é um dos grandes desafios dos tempos modernos. As pessoas têm cada vez menos paciência, são cada vez menos tolerantes, estão cada vez mais dispersas em mil e uma coisas, sempre agarradas às redes sociais e aos chats, desfocadas daquilo que deveria ser relevante, ao ponto de acharem que há coisas mais importantes do que a família. E não há. Só que uma coisa é haver momentos em que pomos os interesses dos filhos, da mulher, do marido à frente dos nossos, outra totalmente diferente é fazermos sempre isso, e deixarmo-nos anular por completo. E esse é outro dos dramas de muitas famílias. É sempre importante existir equilíbrio de forças entre os elementos do casal, na relação entre pais e filhos, na relação entre os irmãos, para que todos saibam que ninguém está acima de ninguém e a única coisa que está acima de toda a gente é a família.

Nesta altura do Natal, e como já escrevi aqui, são cada vez mais as famílias partidas, separadas por mortes, por pessoas que emigraram, por separações, por quezílias. É sobretudo por isso que sinto esta altura do ano com enorme tristeza, até porque tudo o que mencionei existe na minha família. O meu avô materno, talvez a maior referência da minha vida, morreu há quatro anos. O meu irmão Manuel, que é talvez a pessoa mais parecida comigo que conheço, está a viver em Florença (felizmente deve estar a chegar a Portugal a esta hora), a minha irmã Patrícia vive em Luanda com as minhas sobrinhas (e nenhuma vem cá no Natal), o meu filho mais velho nem sempre passa a noite de 24 comigo, ou seja, à noite, na véspera de Natal, quando nos sentamos em frente àquelas mesas enormes cheias de açúcar, mesmo que tenhamos ao nosso lado as pessoas que mais amamos, e que mais nos amam, não nos vamos conseguir focar a 100 por cento nisso, não vamos conseguir ser felizes como já fomos, nos tempos de miúdos, em que nada disto era assim, e em que ser inocente era uma coisa que, sei hoje, não tinha preço.

Peço desculpa por não estar propriamente eufórico com o Natal, nem a cantar canções alegres com camisolas de lã ridículas, mas é sobretudo nestes momentos de felicidade generalizada que me dá mais para olhar para mim e para a minha vida, e para os outros, e para a vida dos outros, e sentir que mesmo fazendo tudo o que considero correto, mesmo lutando para ser o melhor pai, o melhor filho, o melhor irmão, o melhor marido, nada disso chega se a dedicação for unilateral. 

Há, no entanto, dois caminhos: continuar a lutar pelo que considero ser correto, mesmo que isso dê muito trabalho, e me obrigue a muitos sacrifícios e um enorme altruísmo, pondo frequentemente os que amo à frente dos meus interesses, ou desistir, seguir o caminho mais fácil e tornar-me igual aos outros. As 12 maratonas que já corri ensinaram-me muitas coisas, talvez a mais importante seja só esta: desistir, nunca.

Bom Natal a todos. Abraços de grupo nessas famílias, que são o melhor que temos.

21 Comentários

  1. “Desistir nunca” é isso mesmo, porque, na minha opinião, as relações constroem-se todos os dias,e por vezes, dar espaço, para que o outro sinto a nossa falta, também é importante. espero que acabem os dois juntos.
    Em caso de crise aguda um terapeuta pode ajudar. Recomendo a Cláudia Morais. Ajudou-me imenso. Aliás, ajudou-NOS imenso.

  2. Olá Ricardo,

    já não vinha ler-te há algum tempo e fiquei um pouco perdida neste novo formato de blog.
    O facto de não haver uma consistência temporal no acesso aos posts e aparecerem todos baralhados sem que os possamos agrupar por timeline é muito complicado para quem quer apanhar o fio à meada.

    O grafismo está giro mas é pouco prático e intuitivo.

  3. Concordo com cada palavra mas às vezes é realmente difícil encontrar o equilíbrio entre o altruísmo e a dose certa de “egoísmo”. Se calhar egoísmo é uma palavra forte demais mas aprendi nos últimos anos que, para sermos boas pessoas e boas para os outros, temos que cuidar de nós também. E, quando temos família, cuidar de nós é, quase sempre, cuidar daqueles que mais amamos. Quase sempre, não sempre.

  4. É muito difícil ter uma relação com um homem já com filhos / filho. No meu entender deve-se fomentar ao máximo a relação da criança com a madrasta o que muitas vezes não acontece porque a mãe arranja uma série de anticorpos, invejas e ciumes que muitas vezes o pai permite. Como pensar em família se criam tantas barreiras em torno do filho do meu marido ? ‘ Vou buscá-lo mas a mãe não quer que eu lá vá à rua dela com nenhuma mulher’, ‘ Há a festa da escola mas a mãe vai lá estar e não quer que tu vás’, ‘ A mãe diz que não quer que partilhes nenhuma foto da criança, só eu o posso fazer’. ‘ Vocês agora namoram mas ele foi casado com ela e tem um filho em comum, tens que te aguentar’. ‘ A mãe soube que íamos ter um bebé e agora vai-me meter em tribunal para aumentar a pensão de alimentos à criança. ‘ A criança tem uma festa mas como não posso ir vou fazer um filme mas tu não podes aparecer’. 🙂

  5. Aquela sua semana de férias na neve (que ela detesta) acabou assim que casou, mas a semana de férias dela (consigo ou semsigo) no Algarve foi sempre sagrada. E não é a questão de “o que andará ele/ela a fazer?”. Não parece que o vosso problema fosse esse. É questão de qd era para si “isso é o lifestyle da solteirice” e qd era para ela “não estou para “apanhar secas” em Lisboa”. Para mim unilateral é isso. E sendo uma pessoa que viaja tanto em trabalho…momentos a só não lhe faltariam. De qq das formas, não são as férias nem as viagens que salvam relações. O que salva relações é o desfazer a mala assim que se chega e voltar a ordenar tudo no sitio. Ainda para mais qd a pessoa que está connosco é arrumadinha e lhe faz confusão uma mala 3 semanas num quarto/corredor porque não há paciência para tarefas menores. Pequenas coisas que se vão tornando num campo de minas.

  6. Agora somos nós que temos o dever de criar boas recordações na memória dos nossos filhos, mesmo sofrendo com o desmoronar do que para nós era o Natal. É o altruísmo…guardamos a nossa dor e sorrimos…beijinho, força…

  7. Escreves muito bem. Fluído, simples e honesto.
    Que a vida te deixe passar pelas tristezas da forma menos difícil possível. E que a felicidade seja uma constante, mesmo quando acontece apenas no segundo em que olhas para os teus miúdos.
    Segue tranquilo. Segue com saúde.

  8. Vivemos numa época inimiga da família. As solicitações são muitas e muito aliciantes e a dispersão do tempo e das emoções é muito difícil de controlar. Um dos pilares da nossa sociedade está a ruir e parece que andamos todos conformados com isso. Infelizmente.

  9. O Natal era a minha época favorita do ano, ansiava sempre pelo Natal, agora é só aquela época que eu desejo que passe rápido.
    É difícil quando quem amamos não está, ou quando quem amamos está mal.

  10. Tanta verdade sobre as famílias, sobre essa época efetivamente tão triste que é o Natal…
    Força Ricardo!!! Quando as diferenças são tão evidentes não vale a pena uma vida paralela… há mais vida lá fora!!! E os nossos filhos transbordam nela!!!! Fica bem!!

  11. Talvez porque nos dias que correm queremos estar sempre online, sempre em contacto com o mundo… e nem nos apercebemos que desligamos de quem está ao nosso lado. Acho feio. Mas também acabo por ser culpada nesse “crime”. Tentemos contrariar a forma como o tempo urge e aproveitar o que realmente vale a pena.

    Já vi em muitos comentários que podem estar a ter uma fase difícil (tentem cumprir com o “desistir nunca!”) e não me preocupa minimamente se o meu comentário não for publicado. Simplesmente senti que gostaria de enviar um abraço de força e coragem para ambos (sou seguidora há muitos anos, antes mesmo do casamento). Nem sempre é fácil (acho que toda gente sabe disso) mas acho que vale a pena (ainda sou solteira, mas quero acreditar que sim).

    Beijinhos, vou esperar que tudo se resolva pelo melhor.

  12. O meu Natal este ano também vai ser diferente.
    É o primeiro Natal sem a minha última querida avó e sem o meu irmão que perdi fatalmente no 11 de Julho.
    Ainda assim, continuo a gostar do Natal.
    E não estou mais triste hoje do que há um mês ou dois ou em qualquer outro dia do ano a partir do momento em que os perdi.
    A tristeza passou a fazer parte do meu dia a dia, na minha expressão, na minha vida e eu simplesmente estou a aprender a viver assim, sem eles.
    O Natal é só uma oportunidade de num dia estarmos efectivamente reunidos em família, nos mimarmos mais, dedicar uma palavra especial a alguém mais distante, e nos sentirmos amados por quem nos rodeia.
    Ainda que com todas as perdas irreparáveis, todas as contingências das famílias reconstruídas (a minha também contém “meus e nossos”), todas as quezílias entre familiares alargados, e a complexa logística na junção de sogros, pais, tios, ex sogros e demais familiares nesta altura…continuo a adorar o Natal!!

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