Maratona de Madrid #02: as lágrimas da vitória

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Eu sabia que tinha o que era preciso para conseguir.

Treinei muito, estava a fazer boas médias de tempo a um ritmo elevado e no grande teste antes da corrida consegui aguentar 33 quilómetros a uma velocidade consistente. Estava, por tudo isto, confiante e otimista.

Só que depois havia tudo o resto.

Vais entrar no Inferno

Havia os que me diziam que a prova era a mais dura que já haviam feito, e que só falavam de todas as subidas, e em particular da última, de sete quilómetros, que derrubava qualquer um. Havia as previsões meteorológicas que apontavam para chuva e frio ao longo de toda a prova. Havia também uma ligeira ansiedade que eu sabia que me podia atrapalhar no dia da prova, porque muitas vezes me deixa sem fome ou com más sensações no início das provas.

A Maratona de Madrid era para mim um teste a muitas capacidades que eu sei que tenho, mas que algumas vezes não aproveito, ou não rentabilizo porque treino menos do que devia. Era também o ponto de chegada após meses a acordar às 5h30, 6h00, 6h30 para treinar no duro, para fazer distâncias de 10, 15, 20 quilómetros, ou mais curtas, de 6, 7, 8 mas a velocidades muito altas. Não conseguir, falhar, ficar sem forças eram por isso impossibilidades, para mim. Tinha a certeza que mesmo que a prova não me corresse bem jamais desistiria, porque eu não desisto. Nunca desisti de uma corrida, ou melhor, abandonei apenas uma porque me lesionei com gravidade. O que não sabia era se iria ser fortíssimo, forte ou iria apenas cumprir.

Ainda antes de sair para a estrada, nunca pus a hipótese de não bater o meu recorde pessoal, de 3h57m20s, que consegui o ano passado em Nova Iorque. Sabia que, mesmo num dia mau, mesmo se as subidas fossem tão infernais como me diziam, iria conseguir baixar esse tempo. Foi esse o compromisso que assumi aqui no blogue, no texto que escrevi há dias. Lá no fundo, sabia que estava em condições de fazer 3h30, mas optei por baixar ligeiramente as expetativas e apontar para um resultado de 3h35 a 3h45, já a contar com o tal cenário infernal de subidas intermináveis.

O dia da prova

A manhã acordou tal como os meteorologistas previam: feia e carregada de chuva. Saí do hotel debaixo de um corta-vento e de manga curta, porque apesar da carga de água que caía os 12 graus que eram prometidos para o decorrer da prova seriam suportáveis de manga curta.

Como o pequeno-almoço do hotel só começava às 8h00 (e a corrida era às 9h00) optei por comer num café, por volta das 7h30. Uma tostada com tomate, uma sandes mista, uma banana e um café. Não era o ideal, mas era o possível. Fui até à zona da partida, sempre debaixo de chuva e algum frio, e consegui chegar-me bem à frente, muito perto dos corredores de elite.

A prova começou como começam quase todas as que faço: com más sensações. Senti-me um pouco pesado e preso de movimentos, desconfortável, com a digestão incompleta, mas a experiência também conta, e já sabia que aquilo tudo passaria alguns quilómetros mais à frente. Logo nos primeiros metros tirei o corta-vento e ofereci-o a uma das milhares de pessoas que, mesmo à chuva, foram para a beira da estrada bater palmas aos corredores e gritar “ânimo” e “campeónes”, as duas palavras que mais ouvi. Quando lhe entreguei o corta-vento, e lhe disse “un regalo”, ele desatou aos saltos de alegria, como se lhe tivesse oferecido um bilhete premiado do Euromilhões. Muito divertido.

Corrida 04 Mad.jpg

A corrida continuou e consegui seguir a minha estratégia: aguentar-me sempre a um ritmo entre os 4’50” e os 4’55”. Sabia que para terminar a corrida abaixo das 3h30 teria de fazer uma média inferior a 5’00”, por isso resolvi nunca correr acima deste ritmo. Os primeiros seis quilómetros foram quase todos a subir, mas, mesmo assim, consegui ir sempre dentro do ritmo que estipulei. Quando a subida terminou, e começaram a chegar algumas descidas, consegui começar a ganhar segundos de vantagem. Até aos 15 km fiz sempre registos entre os 4’30” e os 4’45”. Para mim, estes segundos que ganhava agora eram segundos que poderia perder no final, quando as pernas tivessem de enfrentar a tal subida terrível nos últimos quilómetros.

A chuva não parava, por vezes caía mesmo com muita força, mas comecei a sentir-me cada vez melhor, e bastante forte. Aos 24 quilómetros consegui mesmo baixar dos 4’30” e fiz um quilómetro a 4’29”. Só que logo nessa altura senti a minha primeira quebra, ao passar por dentro do parque da Casa de Campo. As pernas começaram a pesar-me, percebi ao olhar para o relógio que o meu ritmo estava a cair, e fiquei preocupado. Estaria a ficar “sem gasolina”? Era demasiado cedo para isso. Optei por tomar o meu primeiro gel energético, para ver se ajudava. Não senti nenhuma melhoria imediata, mas uns minutos depois abandonámos o parque (após uma subida terrível) e regressámos à estrada. Apanhámos uma longa descida (na Avenida de Portugal) e tentei recuperar o tempo perdido, acelerando, até para ver como as pernas respondiam. Responderam bem. Voltei a sentir-me forte e com energia, olhei para o relógio e estava novamente a fazer uma média de 4’40”, ou seja, tudo normal.

Corrida01Mad.jpg

Por estar a correr a minha sexta maratona, já tenho mais ou menos a noção das sensações por que passo, logo, o muro (que costuma aparecer por volta dos 32, 33 quilómetros) é uma coisa que não me assusta. E voltei a não dar por ele. Passei muito bem nesta fase da corrida, e mesmo já sentindo um desgaste grande sabia que tinha energia suficiente para ir até à meta. Nesta altura já sabia que ia bater o meu recorde por uma larga margem, e só queria manter o ritmo na tal subida infernal para tentar baixar das 3h30′, isto depois de ter superado todas as metas que estabeleci no início (passar aos 10 km abaixo dos 50′ — fiz 47′, passar aos 20 km abaixo da 1h40′ — fiz 1h34′, passar aos 30 km abaixo das 2h30′ — fiz 2h23′).

Corrida02Mad.jpgA subida dos infernos

A estrada começou finalmente a empinar aos 35 quilómetros. Chegava a tal subida de que todos falavam. No início, não me pareceu muito agressiva. Consegui não perder muito tempo e manter o ritmo até aos 39 km (4’54”, 4’58”, 5’01”, 5’04). Depois começaram a faltar-me as forças, mas já tinha um avanço demasiado grande para que não conseguisse o meu objetivo. Baixei então para os 5’20”, 5’23 e 5’10”. Estes últimos três quilómetros já os fiz com a bandeira de Portugal na mão, o que me encheu de orgulho e me deixou mesmo emocionado. Correr aqueles quilómetros finais em grande esforço, com um sentimento de realização e conquista enormes, com a nossa bandeira, e com muitos e muitos gritos de incentivo de toda a gente, que dizia “Força, Portugal”, ou “Vai, Portugal”, foi mesmo emocionante e bonito.

Cortei a meta debaixo de um temporal e com um frio de rachar 3h27m17s depois de ter partido. Fui o 24.º melhor português (em quase 200) e o 7.º português no meu escalão.

Mas muito mais do que as marcas na classificação importam-me as marcas que esta corrida deixou em mim. Acabei a prova quase em lágrimas, por perceber que tudo o que trabalhei para aquele momento valeu a pena, todos os sacrifícios que fiz, todos os dias em que me levantei ainda de noite para ir correr, sempre sozinho, valeram a pena. 

A corrida, correr, é também isto, é o sentirmo-nos invencíveis, capazes de tudo, uns campeões, os campeónes, como nos gritaram os de Madrid.

Agora, venha a próxima.

bandeira 02.jpg

26 Comentários

  1. Muitos parabéns. Também tive o prazer de fazer esta Maratona. Os gritos das pessoas que não arredavam pé a apoiar os atletas são inesquecíveis. Foi a minha estreia nesta distância, com muitos Kms de treino. Fiz 3h23m46. Foi uma sensação espectacular cortar a meta. Muita emoção. Abraço e boas corridas 😉

  2. Uau, muito bem! Isto sim, é um exemplo de coragem, persistência, fé em si próprio e muita força interior. Relato incrível e certamente inspirador para muitas pessoas (eu incluída)!
    E muitos parabéns por ter alcançado o objectivo traçado, faz com que tudo tenha valido a pena 🙂

  3. Como te disse no instagram, apesar de não ser nada de corridas admiro, muito, quem corre maratonas. E o teu texto deixou-me emocionada (o que pode parecer tonto, eu sei) mas é a verdade.
    Os meus parabéns e olha, continua a correr. Eu continuo aqui para ler tudo o que tiveres para contar. 😀
    http://www.letirose.com

  4. Mas como é possível alguém se emocionar só por fazer um corridita?
    Pois é, só quem passa por elas é que consegue perceber. E, se eu me emociono em muitas corridas (mesmo as de 10 Km) em que consigo atingir o objectivo proposto, já na maratona não me consigo só emocionar, é que choro mesmo. Meses de treino e de alguns sacrifícios que culminam no cruzar da meta. E aí é o descontrolo total.
    Parabéns! 🙂

  5. Parabéns, o esforço foi recompensado… mas mesmo que não o fosse estaria de parabéns na mesma por tentar e acreditar! Um exemplo.

  6. Olá Ricardo..nós tb só tínhamos pequeno almoço ás 8h mas depois de tanto dar na cabeça aos senhores do Hotel eles lá estavam às 7:25 à nossa espera…era dia da maratona de Madrid o Hotel tem de abrir uma excepçao!Boa prova, o meu marido tb a fez 3h.41 nuno troia Aveiro!

  7. Ricardo, sigo o á muito pouco tempo, e esperei por este fantástico relato com bastante expectativa! Apesar de não ter ido pesquisar o resultado final, estive sempre convicto da superação do objectivo proposto, face ao trabalho preparatório feito. Muitos parabéns. Pena o nosso glorioso não ter abrilhantado mais esse dia fantástico.

  8. Muitos, muitos parabéns.

    A minha prima Vera Almeida também participou. Admiro a vossa dedicação e empenho. Venham mais!

  9. Parabéns, já tinha visto o teu tempo no Facebook e é realmente é impressionante.
    Excelente relato quase que nos sentimos transportados para a corrida. Comecei há pouco tempo a correr e só fiz ainda uma prova oficial de 10km, mas a sensação de chegar ao fim, de nos superarmos é algo inexplicável, é uma adrenalina e um bem-estar tão grande que acho que só quem corre conhece.

  10. Ufaaa que alívio ter acabado de ler…
    O Arrumadinho tem a capacidade de escrever e de nos transportar para a situação e eu própria estava a sentir as pernas pesadas, estava com medo da tal subida e no fim do texto, também eu estava com as lágrimas nos olhos e cheias de orgulho por si..por ter conseguido! PARABÉNS!Uma verdadeira inspiração!

  11. Parabéns Ricardo! Admiro todas as pessoas que se desafiam a correr uma maratona.
    Eu corro 7/8Km em menos de 55mn, com algum sacrifício e já me sinto orgulhosa. 🙂 E nunca conseguirei fazer uma Maratona e talvez nem uma Meia Maratona.

    Gostava de o ver correr ( e à sua mulher) a (Meia) Maratona do Funchal em 31/06/2016. 🙂

  12. O Ricardo, para além de ser um corajoso atleta, domina a arte da escrita de uma forma bastante peculiar! Continue a correr, mas sobretudo não páre de escrever. Aqui, ou noutro sítio qualquer.
    (Sempre vou mostrando os seus testemunhos aos meus doentes, como tentativa de motivação para um estilo de vida saudável)

    Adriana

  13. Eu choro a ler os vossos (seu, da Ana e da Sónia) testemunhos, cada um de sua maneira me emociona. A maratona é uma prova que me assusta imenso. Fico a tremer só de pensar que alguém que me é “próximo” faz esta prova com uma perninha às costas. Que força gigante! Parabéns e que venham mais!!

  14. O Ricardo escreve tão bem e tem tanta noção de como criar emoções que inicialmente achava que alguma tragédia tinha acontecido, pela forma como relatas esta maratona o final toca-nos, principalmente a superação pessoal. Muitos parabéns!

    Aproveito também para te incentivar a escrever um romance ou um policial, a tua forma de escrever é cativante.

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