As capas chico-espertas do mundo cor-de-rosa

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Há dias parámos numa bomba de gasolina, e, como tantas vezes, lá levei a revista cor-de-rosa do dia, que a minha mulher devora, especialmente no Verão. A capa era, claro, bombástica. Já não me lembro do tema, nem de qual era a revista, mas sei que pelo caminho ela ia a ler em voz alta algumas passagens, que desmentiam por completo “a bomba” que estava na capa. Infelizmente, esta é a regra, e não a excepção. E a dúvida que tenho hoje é a mesma que tinha há vários anos, quando estava na chefia de um jornal popular e me envolvia em discussões de horas com outros colegas, editores, directores, em que debatíamos cada palavra da capa, para que se conseguisse um equilíbrio entre uma frase “sexy”, com apelo de compra, mas ao mesmo tempo totalmente fiel ao que vinha no texto: afinal, o que é que os leitores de noticiário mais cor-de-rosa querem? Querem a verdade? Na minha opinião, até podem querer, mas isso não é o mais importante. Para mim, querem assunto de conversa, e isso sim, é o que os faz comprar as revistas.

A minha dúvida inicial tem lógica, afinal, semana após semana, duas, três revistas fazem capas enganadoras e, mesmo assim, não baixam de vendas. A minha pergunta era sempre a mesma: mas o que é que leva alguém a comprar uma revista todas as semanas, mesmo sabendo que as notícias na capa não são verdade? A resposta é a que deixei: querem assunto para falar com outras pessoas, querem saber o que se diz da vida dos outros, mesmo que isso que se diga não seja verdade, ou totalmente verdade.

Sempre me interessou a discussão das notícias falsas publicadas na imprensa. Este foi, aliás, o tema da minha tese final de licenciatura, em que tentei perceber as diversas razões que levam a que um órgão de comunicação publique uma história que não é verdade. Analisei os cinco diários generalistas existentes na altura, entrevistei vários jornalistas e directores de jornais, tentei analisar e dar exemplos dos casos mais polémicos relacionados com notícias falsas, e o resultado final foi interessante. Excluí as revistas cor-de-rosa porque, como disse, acredito que as razões para “enganar” o leitor são diferentes. E não são, ao contrário do que a maioria das pessoas gosta de dizer, “só para vender revistas”. Como é óbvio, todos os directores de jornais e revistas fazem as capas que, acreditam, vão vender mais. Um director que, hoje em dia, se desligue por completo do “apelo de compra” das capas está condenado ou vive noutro mundo. Todos os jornais e revistas querem vender, sejam eles de referência ou cor-de-rosa, porque se não venderem fecham as portas. Agora, para vender não tem de se recorrer a notícias falsas, a especulações ou a formulações de capa enganadoras. Mas isto, uma vez mais, não é válido para as revistas cor-de-rosa, porque para quem as lê o mais importante é ser entretido. E a ficção também serve para entreter.

13 Comentários

  1. Bom, nesse caso, o caro João Sousa deve ter um olho clínico, e conhecimentos que superam os de todos os editores e directores de jornais e revistas onde já trabalhei, porque em 18 anos de profissão não foram assim tantas as vezes que detectaram erros em textos meus. Claro que terei muitos – sobretudo gralhas, porque quer parecer-me que confunde erros com gralhas – que devem existir em vários textos que tenho aqui no blogue, mas pronto, prefiro escrevê-los e ter uma ou outra gralha, do que não fazer nada.

    E, já agora, visto que deve ser novo aqui no blogue, explico-lhe a política de aprovação de comentários: o que não for sobre o tema, ou o que for unicamente parvo, não é publicado, tão simples quanto isso. Se quer criticar alguma coisa sobre os textos, está à vontade, e basta abrir qualquer caixa de comentários para perceber que o que não falta por aí são opiniões diferentes da minha. Se quer ser só parvinho, então, escusa de perder tempo e gastar caracteres, porque vão parar ao lixo.

    Última nota: não sei que idade tem, mas olhe que nos anos 80 eram um sucesso comercial as cassetes de anedotas do Cantiflas, não o mexicano, naturalmente, mas o português, o tal que só metia as pessoas a rir quando dizia palavrões.
    Deixo-lhe um link, se quiser ficar a conhecer um pouco este vulto da cultura popular nacional dos anos 80. http://www.dailymotion.com/video/xen13y_o-cantiflas-portugues-1ª-parte_fun

  2. Eu falava do facto de nunca ter lido um texto teu que não tivesse um erro factual. Escrevi “virtualmente todos” porque felizmente nunca li todos os teus textos.

  3. Caro João de Sousa, confesso que não percebi muito bem o seu comentário. O que é que quer dizer com “virtualmente todos os textos que és pago para escrever na imprensa”? Eu sou pago para ser jornalista, e uma das minhas missões é escrever textos, sim, é verdade. O que é que isto tem de “virtual”? Alguns podem ter um ou outro erro – como o de todos os jornalistas, que acontecem por mil e uma razões. Mas uma coisa é um erro num texto, uma informação errada, trocada, mal interpretada. Outra, totalmente diferente, é fazer uma capa a dizer que duas pessoas estão separadas e, lá dentro, no texto, percebe-se que afinal só estão separadas porque um está a trabalhar durante uns meses no norte, mas que a relação continua óptima. Isso é enganar, deliberadamente, os leitores. É querer vender-lhes uma história e depois dar-lhes outra. Qual é a semelhança entre isto e escrever um texto jornalístico normal, que possa conter um erro factual cometido sem intenção?

  4. Pequeno troll, quando virtualmente todos os textos que és pago para escrever na imprensa têm erros factuais, a conversa é a mesma?

  5. Olá, não podia concordar mais. As chamadas de capa nas revistas cor-de-rosa servem muitas vezes para serem desmentidas no próprio número da revista. Já todos sabemos que funciona assim pelo que na maior parte das vezes que leio essas capas já sei que a noticia será muito mais soft ou mesmo contrária. Parece-me mais grave em generalistas, desportivos e revistas informativas que isso aconteça. Inserirem ‘fonte segura diz que…’ e depois se prova que essas noticias são falsas. Por dois motivos: espero que ao ler uma notícia esta me seja dada enquanto tal (de forma séria e objectiva) e os desmentidos raramente tem o mesmo nível chamativo dado ao falso assunto. É por este motivo que deixei de comprar ‘um’ jornal e passei a ver as notícias na internet: desta forma posso ler as várias fontes e tentar extrair uma visão mais realista. Um assunto é tratado de forma tão diferente no Público, Expresso, Correio da Manhã (só para dar um exemplo) que muitas vezes parece que os jornais estão a tratar um caso diferente.

  6. Numa dessas revistas a capa era :”Toy salva mulher da morte”.

    Lá dentro a “mulher” afinal era uma tia, que se sentiu mal e o Toy foi chamado e levou-a ao Hospital. Esteve sempre perto dela e deu-lhe o apoio necessário. Nada a ver com o show off da capa. LOL

    A imprensa actual não procura informar mas sim defender interesses superiores. Tive a oportunidade (boa ou má, não sei) de acompanhar de perto um caso de tribunal com algum relevo. Numa das sessões uma testemunha testemunho que digamos uma parede era branca. No dia seguinte o jornal dizia “testemunha prova que parede era preta”…

  7. As mentiras vendem sempre mais do que as verdades. O meu pai quando morreu, um Diário da região (Madeira) fez disso 1ª Capa. Até aí tudo bem, porque sendo a morte do meu pai suicidio no Hospital. Mas foi a forma como veio a noticia e como foi explorada que fez-me ir ao próprio Diário falar com as pessoas responsáveis. Claro que o desmentido veio dias depois, mas não 1ª página, mas lá no meio, muito mais discreto. Os “jornalistas” que mentem e exploram e magoam não merecem ser chamados de jornalistas. Quanto aos outros diários da região, deram a noticia a titulo informativo ( sem exploração e sem expeculação). Não sei como é que essas pessoas que inventam dormem a noite descansados.

    Sandra / Madeira

  8. foi por isso mesmo, capas falsas, que deixei de ler e comprar revistas cor-de-rosa.
    agora vejo na loja só para confirmar a noticia da capa.

  9. Ainda hoje vi uma capa chocante (não me lembro qual era a revista): “A vida louca de Marcelo [Rebelo de Sousa]”, sendo que uma das razões dessa vida louca era o filho às portas da morte, precedida do namoro com atriz.
    Inclassificável.

  10. Sinceramente acho o jornalismo de forma geral muito mau em portugal, vivemos na época em que as noticias são apenas para vender e não para informar.

    Quantas vezes se vê uma capa de revista ou jornal com uma capa muito “interessante” e depois o assunto que nos levou a comprar a revista é meia pagina com uma foto enorme e com informação que se podia ter visto em qualquer sitio!

    Já vivemos à muito tempo numa época em que apenas os números interessam( leia se dinheiro) no telejornal sobre os incêndios, não se falava no numero de árvores, de animais, de pessoas, mas sim do valor das árvores ardidas … triste.

  11. Acho que isso acontece com várias publicações e não apenas com as revistas do segmento social. Aquelas que ninguém lê mas que vendem que nem pães quentes com algumas publicações a rondarem as 200 mil unidades por semana.

    Por exemplo, quantas vezes vemos nas capas dos desportivos contratações de jogadores que afinal não são contratados e que nunca tiveram para ser? Isto não é enganar o leitor mas com um produto desportivo? E o mesmo se aplica aos restantes segmentos.

    O social é mais visível porque mexe com a vida das pessoas e porque anda nas bocas do mundo. Enquanto jornalista, condeno a mentira como truque de vendas. Quer seja para falar da famosa x, do jogador y ou do político z.

    Aquilo que não percebo são as pessoas que compram publicações que semanalmente são baseadas em mentiras. Acho que à primeira podemos cair todos. A partir daí, depende de cada um.

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

  12. Eu deixei de ler revistas “cor-de-rosa” faz muito tempo! Comprar nunca comprei. Limito-me a ver as imagens e as gordas quando vou ao cabeleireiro.
    Não fazem o meu género de revistas, prefiro a Vogue, a Máxima e a Elle (principalmente no verão, que é quando tenho tempo para ler mesmo a revista toda!).
    Querer vender revistas todas as editoras querem realmente; mas concordo que os leitores de determinadas revistas, não querem saber exactamente a verdade, mas apenas manterem-se a par do que se especula no momento sobre determinadas pessoas, e andar entretido com isso realmente!
    Não critico quem o faz, mas acho que há muito mais com o que uma pessoa pode se entreter e tirar algum real proveito disso do que ler as revistas “cor-de-rosa”!

    Bom post!
    Obrigada
    maria joão

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