Aqui está um indeciso

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Pela primeira vez em muitos anos, chegou ao último dia útil antes das eleições e não faço ideia em quem é que vou votar.

Até aos meus 25 ou 26 anos, a decisão era relativamente simples: PCP. Durante a minha adolescência e período da faculdade, fui sempre assumidamente de esquerda, do contra, e admirador da capacidade de trabalho dos autarcas e deputados comunistas (a minha alcunha na faculdade era mesmo a de “Comuna”, sendo que fazia parte do CREM — Comité Revolucionário de Estudantes Marxistas. Ainda hoje admiro essa capacidade dos políticos do PCP, mas já não acho que a solução seja a de estar sempre do contra, nem acho que os trabalhadores têm sempre razão, muito menos que os capitalistas são uns exploradores e a raiz do mal de todos os mundos.

O facto de ter mergulhado no mercado de trabalho, de ter estado de todos os lados possíveis — de estagiário explorado a director — fez-me ver que é muito mais difícil tomar decisões, ser o impulsionador da mudança, da acção, do que estar sentado na cómoda poltrona dos que mandam uns bitaites, dos que dizem que isso assim está tudo errado, mas que nunca têm ideias melhores, válidas e construtivas para que se possa crescer e levar um projecto para a frente. Não estou a falar de ideologias nem de partidos, mas de pessoas. Foram muitas das pessoas ligadas ao PCP com quem trabalhei que me fizeram ver que o mundo não é como eles o pintam, e que tantas e tantas vezes só dizem coisas por dizer, porque depois, no dia-a-dia, comportam-se como uns tiranos, estão sempre prontos a lixar o próximo, desde que o próximo seja alguém que esteja acima deles na cadeia hierárquica. E porquê? Só por isso, porque está por cima, porque ganha mais, logo, é um alvo a abater.

Senti isso, sobretudo, quando saí e voltei ao jornal onde trabalhava. Saí quando era um puto, um jornalista mal pago e de quem toda a gente gostava, e voltei poucos anos depois, ainda um puto, mas com um cargo de chefia, e, só por isso, já com meio mundo de costas voltadas para mim, unicamente porque agora era chefe, quando, na verdade, era a mesmíssima pessoa.

A vida desfez-me o sonho comunista, tornou-me mais prático, realista e com vontade de fazer, e não apenas de criticar ou julgar. Não acredito numa sociedade em que todos somos iguais, pelo simples facto de que não somos todos iguais. Há pessoas boas e pessoas más, gente competente e gente incompetente, trabalhadores que dão o litro e outros preguiçosos. Não defendo, por isso, que todos devam receber o mesmo, ter os mesmos privilégios. Os talentosos, os trabalhadores, os empenhados, os que representam efectivas mais-valias para a empresa, que geram dinheiro e, com isso, postos de trabalho, devem ter outro tipo de recompensas financeiras, como é para mim óbvio. Embora não tenha uma ideologia marcada, sou adepto desta meritocracia, vejo a sociedade de forma liberal, acredito na mão invisível que deve guiar a economia, e não numa nacionalização geral de todos os meios de produção, como defende a ideologia comunista.

Com este abandono do meu sonho comunista, perdi uma referência de voto. Não me identifico com nenhum partido, e vou votando consoante os programas eleitorais, os candidatos ou os movimentos que surgem. Já votei no Bloco, no PCP, na CDU, no PS e no PSD. O único que nunca mereceu a minha cruz foi o CDS, porque embora hoje considere que tenho uma razão mais à direita do que à esquerda, continuo a ter um coração mais à esquerda do que à direita. Em Lisboa, estou indeciso entre o António Costa e o Fernando Seara, embora saiba que a vitória será do candidato do PS. Admiro o António Costa, acho que fez algumas coisas boas por Lisboa, embora pudesse ter feito muito mais, mas também gosto do Fernando Seara, esse grande benfiquista, que durante muitos anos conheci apenas por Reboredo Seara, como ele era chamado na minha universidade, onde dava aulas. Como não sei bem em quem votar, vou ali ler os programas que ambas as candidaturas me deixaram na caixa do correio e domingo logo decido.

16 Comentários

  1. Meu caro, por favor não fale do que desconhece…

    Eu sou comunista e doutoranda em História Contemporânea! Pasme-se até sei de história mundial!!!!!!

    Ah! E não, não gosto do José Estaline e outros que tantos que as pessoas que conhecem pouco de história e quase nada de ideologias (o que será falar de apropriação de ideologias) gostam de apelidar de comunistas…

    Já das criancinhas…

    Um abraço da cidade das acácias,

    Catarina

  2. Eu de facto acho muito engraçado como se muda de lado em 3 tempos.Quem é explorado é comuna, quando se passa a explorador ou simplesmente a estar no bem bom a coisa muda de figura não é?É tão típico e previsível que doi.

  3. Deixem-me só fazer uma ressalva, eu sou comunista, sou-o desde ainda antes da faculdade… Militei na jota, fui candidata à Assembleia da República em lugar não elegível, fiz campanhas e quando me propuseram candidatar-me em lugar elegível, recusei por me achar demasiado nova e sem experiencia de vida activa no mundo do trabalho…
    Até hoje nunca me ouviram dizer, nem ouvirão, que toda gente merece o mesmo e que todo o tecido económico deve estar nas mãos do Estado, ou que nos devemos pautar todos pela mediocridade ( e francamente já estou um bocado farta dessa ideia redutora com que a maioria das pessoas vê a ideologia)…
    Tal como o Pedro disse “Defende-se sim uma justa distribuição da riqueza obtida pelo trabalho e isso é completamente diferente. Os comunistas não são contra os ricos, são contra os ricos que exploram os trabalhadores para serem ricos. É totalmente diferente.”
    Concordo com o Pedro quando diz ” Somos mesmo todos iguais e temos todos os mesmos direitos e deveres. Não confundir esta igualdade com a questão da remuneração do trabalho”, a responsabilidade maior, remuneração maior, mas também responsabilização maior…
    Quanto ao papão do patrões e economia, o PCP sempre defendeu as pequenas e médias empresas (aliás uma grande parte dos comunistas activos dentro do partido são pequenos empresários que como todos os pequenos empresários são o tecido activo do país, o que mais se debate com todas as dificuldades e burocracias, e que não podem fugir ao fisco como as grandes empresas), já em relação às grandes empresas, essas sim verdadeiras máquinas de fazer dinheiro para accionistas sem rosto nem responsabilidade, há que ter outro discurso… Que dizer de uma Sonae cheia de moralismos e trabalho precário, que leva a sua sede para fora do país para não pagar impostos?!? Ou de uma EDP que faz o mesmo, apesar de ter sido erguida com os impostos dos Portugueses?
    Ninguém diz que as empresas devam ser todas pequenas e/ou estar na mão do Estado (que ideia mais redutora e fora de contexto histórico), o que se diz é que as empresas estratégicas para o país (como as das energias e comunicações e algumas dos transportes) essas sim devem ser do Estado (porque sem elas ele não funciona e o mercado (para tristeza das teorias neoliberais não se autorregula nem distribui as suas riquezas), como o exemplo das gasolineiras tão bem mostrou, ou esta crise todos os dias nos manda à cara…
    Quanto à exploração… Bem… O trabalho deve ser feito com ética, seja ele qual for e o trabalhador deve ser responsabilizado por isso, bem como, deve ter um pagamento justo e digno… Na generalidade das fábricas, a soma dos trabalhadores não ganha mensalmente o que ganha o departamento administrativo (já para não falar nas chefias), sendo que o número de trabalhadores é sempre maior que o dito departamento (se assim não for a empresa é insustentável)… Agora pergunto eu: se o departamento administrativo parar, a empresa encerra? e se os operários deixarem de trabalhar (particularmente se forem especializados)?
    O salário justo deve corresponder às responsabilidades, mas não podemos esquecer que um desfasamento abusivo cria mais descontentamento e menor produtividade… (O exemplo da Autoeuropa é paradigmático nesse aspecto, ninguém ganha 500 euros e por alguma razão será).
    Infelizmente nunca tivemos uma verdadeira cultura de empresários em Portugal, toda a gente quer ser patrão e viver do status sem trabalhar, lamentavelmente… Infelizmente em Portugal as pessoas esquecem-se que toda a gente é substituível e que o país não morre por determinado quadro legitimamente optar por melhores condições…
    Posto isto, defendemos a manutenção do SNS e do Estado Social no seu todo e com responsabilização dos seus dirigentes (já que até agora só ficaram com os salários altos – portanto com a parte boa do negócio)! Estamos assim tão longe dos ideais sociais de uma Noruega ou Suécia?!? E quem se atreve a chamá-las de comunistas?!?
    Mais importante: com tanta defesa e aplicação dos ideais neoliberais estamos mais ricos e/ou felizes?!?

    Um abraço da cidade das acácias,

    Catarina

    P.S.: Já estive dos dois lados, do empresário e do empregado!

  4. Fernando Seara demonstrou pelo pouco trabalho que fez em Sintra que não há espaço para ele em Lisboa.
    Lisboa evoluiu muito com António Costa, basta andar na cidade e perceber o trabalho estruturado que fez, ele merece o voto dos lisboetas merece uma maioria absoluta.
    Ele e a sua equipa estão de parabéns geriram de forma exemplar a cidade de Lisboa, mas há ainda aspetos a melhorar, há que dar oportunidade à equipa de António Costa de continuar.
    Tenho a certeza que vão conseguir.
    Acredito realmente em António Costa e na sua equipa, e na sua capacidade de envolver os lisboetas. Juntos vamos fazer Lisboa.

  5. Ricardo confesso que esperava um bocado mais de ti. PCP? So uma pessoa completamente ignorante da historia mundial contemporanea e que vota nesse partido e ainda por cima admite. E isto nao ‘e so balelas partidarias, sao mesmo factos historicos.

  6. (Continuando o comentário de cima)
    Tal como no Porto, temos o candidato que veio de Gaia.
    Para perceberem, é como quem tivesse sido Presidente da Câmara do Seixal e quisesse ser agora Presidente da Câmara de Lisboa. Ou de Condeixa e agora quisesse ser de Coimbra. Não pode ser.
    Faz comícios com febras, sandes de porco, cerveja e Tony Carreira.
    Não há apresentação de ideias nem apresenta propostas. Dá “música”.
    Faz promessas loucas e que nem vai conseguir cumprir.
    Exemplo: diz que, com ele, quem vive em bairros sociais, vai passar a ser da classe média.
    Isto é um engano, porque nenhum presidente da câmara pode prometer e cumprir isto.
    (não discuto que quem viva em bairros sociais possa e deva melhorar a sua vida, mas isso é uma coisa diferente).
    Está na hora de “arrumarmos” com estes tipos.
    back to work now.
    Abr

  7. É daquelas conversas que gosto de ter mas que é dificil de fazer por escrito. Quem sabe um dia… 🙂

    Acho que a realidade actual mostra que os mercados são uma faca de dois gumes…bem afiados.

  8. Não quero entrar na “discussão” comunista (tanto o Pedro como o Ricardo – desculpa, mas “arrumadinho” é assim tipo um nick e daí não usar – trocaram bons argumentos e eu não iria acrescentar nada de novo), mas não posso deixar de concordar com o Pedro, o Fernando Seara foi apresentado pelo Miguel Relvas.
    Bem sei que as ideias, o programa do Fernando Seara é que deveria ser importante para escolhermos se votamos ou não. Normalmente é.
    Mas estamos a falar do Miguel Relvas e, por causa dele, tudo fica diferente.
    Logo um dos critérios deveria ser:
    Fernando Seara, depois de três mandatos em Sintra, vem para Lisboa.
    Gerir a câmara de Lisboa não é a mesma coisa que gerir a câmara de Sintra. É muito mais dificil e os problemas não são os mesmos.
    Fernando Seara tanto fala de politica, como de direito, como de futebol e a mim, pessoalmente, irritam-me estas pessoas que tÊm demasiadas certezas.
    Isto para mim é o que importa.
    Cumprimentos

  9. Caro Pedro. Quando digo que não somos todos iguais não quero dizer que nem todos devemos ter os mesmos direitos e deveres. Como é óbvio, defendo que sim. O que escrevi, e expliquei logo após essa frase, foi que nem todos cumprimos com os nossos deveres da mesma forma, logo, na altura de reivindicar direitos, é normal que uns recebam mais do que os outros.

    Dizes, e bem, que os comunistas defendem uma justa distribuição da riqueza obtida pelo trabalho, mas de acordo com a teoria comunista, todos deveríamos trabalhar para o Estado, e seria esse Estado a distribuir a riqueza na forma de salário, sendo esse vencimento muito idêntico em todas as profissões. É uma realidade que, para mim, não faz sentido, e com a qual não concordo. Não concordo com a “estadização” da sociedade, com uma sociedade nacionalizada nos seus meios de produção, nem concordo com salários iguais ou muito próximos para toda a gente. Há profissões que obrigam a 20 anos de estudo intenso, outras que requerem a quarta classe, há trabalhos altamente qualificados, outros não, logo, não me parece justo que recebam quase o mesmo. Mas acho que nisso estamos de acordo.

    Por fim, os comunistas tendem a ver exploradores em todos os empresários, sobretudo os grandes. E, como me parece lógico, em grandes empresas há sempre quem ganhe pouco e quem ganhe muito — isso não é exploração, são regras de mercado. Mas lá está, na ideologia comunista não há direito a mercado, é tudo nacionalizado. E andamos às voltas nisto.

    Mas acho que é por estes princípios fundamentais que nenhum de nós é comunista.

  10. “Não acredito numa sociedade em que todos somos iguais, pelo simples facto de que não somos todos iguais”

    Somos mesmo todos iguais e temos todos os mesmos direitos e deveres. Não confundir esta igualdade com a questão da remuneração do trabalho.

    “Não defendo, por isso, que todos devam receber o mesmo, ter os mesmos privilégios”

    E ninguém defende isso. Em todas as conversas que tive com comunistas nenhum defendeu essa ideia. Defende-se sim uma justa distribuição da riqueza obtida pelo trabalho e isso é completamente diferente. Os comunistas não são contra os ricos, são contra os ricos que exploram os trabalhadores para serem ricos. É totalmente diferente.

    Posto isto digo que nunca votei PCP e enquanto não refrescarem as ideias como por exemplo sinto que o BE com a Catarina Martins e Ana Drago está a fazer, dificilmente votarei PCP.

    Entre Costa e Seara não devia haver qualquer dúvida. Seara foi apresentado pelo Relvas, mais não devia ser preciso dizer.
    🙂

  11. E assim também estou eu… a poucos dias das eleições comecei a guardar os programas que me põem na caixa do correio para conseguir decidir em quem votar.

  12. Gostei muito da sua análise. Embora eu sempre tenha sido de direita, o arrumadinho pôs em palavras precisamente os motivos que me levam a sê-lo, por contraposição com o que eu acho que significa ser de esquerda. Pelo menos em Portugal e com os complexos do 25 de Abril (E não, não tenho 70 anos, tenho 35.)
    Mags

  13. Por falar em autarquicas, sou só eu que acho completamente desnecessario o balurdio gasto em campanhas? Vivo numa ilha de 5 mil habitantes e há 6 candidatos á câmara. Em cada esquina, há 6 placards gigantes de campanha, a cada 5mins passa um carro com altifalantes a promover o seu partido, todos os dias entregam no meu local de trabalho 10 panfletos de cada candidato.. É mesmo necessário??? É assim em todo o país ou só aqui?? Vivo em Porto Santo, há estradas em condiçoes horriveis, os voos diretos pra lisboa vao acabar em outubro e ficaremos isolados.. N seria melhor gastar o dinheiro das campanhas em melhorias praticas?? Fico triste com estas coisas, a serio que fico.. Por isso nao sei em quem vou votar, mas na maioria nao sera de certeza!

  14. Olá Arrumadinho. Eu vou votar num homem bom, num brilhante Professor e intelectual, num pensador e numa pessoa com um Partido comum programa muito, muito interessante – e possível! Voto em Paulo Borges.

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