Aniversários

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Não me lembro do momento em que deixei de gostar de fazer anos. Sei que terá sido pelos 30.

Até aos meus 10 anos não tenho memória dos meus aniversários. Sei que não havia grandes festas, nem a casa cheia de amigos. A única coisa de que me recordo verdadeiramente era das cartas, dos telefonemas e das encomendas que me chegavam da minha mãe, que vivia a 350 quilómetros. Lembro-me de ter feito 11 anos e aí sim ter tido a tal festa, e um jogo de futebol, e até uns slows para dançarmos agarradinhos a umas miúdas (as brasas do 5.º ano) – tenho uma foto muito deprimente que documenta este momento.

Depois entrei naquela fase em que já começava a organizar as coisas sozinhos. Eram aqueles jantares com os colegas, em que cada um paga o seu. E nessa altura até achava graça ao dia do aniversário. E achava graça porque queria crescer depressa, queria deixar de ter 14, porque era um número infantil, e passar a ter 15, que impunha mais respeito, mas depois já queria era ter 16, para poder entrar nas salas de jogos, e depois queria ter 17, porque quem tinha 17 já estava acima dos putos que acabavam de fazer 16, e depois queria ter 18, porque 18 já é ser maior. E por aí fora. A vontade parou nos 30, ou lá perto.

Quando comecei a trabalhar em jornalismo, aos 19 anos, na Rádio Azul de Setúbal, era quase a mascote da redacção. Ainda hoje me cruzo com algumas das pessoas com quem trabalhei e continuo a ser “o puto”, apesar de ter 35 anos. Dois anos mais tarde, cheguei pela primeira vez à redacção de um jornal diário nacional, já em Lisboa. Com 21, continuava a ser a mascote. Lembro-me perfeitamente do primeiro encontro de redacção, a 5 de Janeiro de 1998, em que os jornalistas se apresentavam um a um. Eu estava a um canto a ouvir e a tremer, só de pensar na minha vez. “Bom dia, eu sou o Não Sei Quantos, tenho 30 anos e venho da Visão”, “Bom dia, eu sou a Não Sei Quantas, tenho 29 anos, e venho do Público”, e por aí fora. Lá chegou a minha vez. “Bom dia, eu sou o Ricardo, tenho 21 anos e venho de casa”, disse eu. Foi a gargalhada geral. Pronto, voltei a ser o puto, mas desta vez “o puto que vem de casa”. Nessa altura, continuava a querer crescer depressa, e a contar mais aniversários, porque isso me poderia trazer maturidade e experiência. Aos 24, quando editava uma secção noutro jornal nacional, continuava a sentir o peso da (pouca) idade. Aos 27, já como chefe de redacção, sentia o mesmo. E depois acabou. Deixei de ter pressa.

Hoje, sinto o dia do aniversário quase como um momento de reflexão sobre a vida, o que ficou para trás, o que fiz de bem e de mal, o que conquistei e ainda quero conquistar. Não me sinto velho, continuo a olhar para a frente com grande vontade, mas esse olhar para trás deixa-me por vezes abalado. Pensar que daqui a outros 35 anos terei 70 parece-me estranho. Também sei que não é uma coisa minha, e que outros sentem o mesmo.

Ainda estou longe de fazer 36 (podem ir começando a preparar a minha prendinha, que até Maio têm mais do que tempo), mas gosto sempre de pensar que quando essa altura chegar o Verão estará à porta. É sempre uma forma optimista de ver o futuro próximo.

1 Comentário

  1. Caro arrumadinho, não me leve a mal, mas tenho vindo a reparar que usa algumas palavras, digamos, menos agradáveis. Por exemplo: em vez de dizer prenda deveria dizer presente, encarnado em vez de vermelho, retrete em vez de sanita, enfim… Sempre me ensinaram que há certas palavras que não devem ser usadas por serem feias e por poderem ser associadas a determinadas ideologias políticas ou classe social.
    Aliás, na única vez que ouvi um dos meus irmãos dizer prenda, fomos repreendidos e foi-nos dito que 'prenda' eram os 'cocós' de cão…
    Beijinho
    Assunção Cabral da Câmara

  2. Compreendo muito bem como te sentes porque muitas vezes também me sinto assim. No meu caso, penso que mais 6 anos e estarei com 50, apesar de, não raramente, também me verem ainda como um puto. Por vezes, isso até tem as suas vantagens… Um abraço.

  3. Curioso. O dia de aniversário, para mim, também é dia de balanço, reflexão e traço novas metas. Mas eu adoro fazer anos. Adoro o dia do meu aniversário. Um dia só meu, em que peço e tenho…
    Fico como os putos. No próximo aniversário, se calhar, até vou encher a casa de balões e chapéus pirosos.
    Definitivamente, apesar dos cabelos brancos, parece-me que nunca vou crescer. E isso é tão bom!

  4. Eu odeio fazer anos. Isto é, odeio o dia do meu aniversário. Não me lembro de alguma vez ter gostado, ainda que a pressa de crescer também me tenha acompanhado, ano após ano, durante vários anos.
    Por agora, os dias de aniversário são fretes em que a única coisa que me preocupa é fazer a vontade à minha mãe, que se ilumina todos os 26 de Janeiro e a quem acho que devo o esforço de estar feliz e contente no bocado que passo com ela. Fora isso, chateia-me o dia, falar com as pessoas a correr, ouvir 200 vezes a mesma coisa e não conseguir ter um dia normal.

  5. eu vou fazer 25 daqui a uns dias e preferia não os fazer, é como diz o/a Sentimento de Mim, estou a ver o tempo a passar demasiado rápido e ainda não fiz nada do que queria fazer na vida…

  6. Reiki,Lei da atracção universal ( livro segredo)leitura de auto ajuda sem grandes filosofias podem ajudar a ultrapassar anos ambíguos, podem ser futilidades, mas eu aprendi que TUDO é bom desde que sirva para fazer sentir bem, evitar responsabilizar os outros pelos nossos fracassos e não viver em função das ideias e exigencias dos outros,tentar sobreviver. Vou arejar…….

  7. Tenho a mesma idade que tu, feita há poucos dias. Aos 27 senti o peso da idade, hoje, apesar de saber que estou a ficar mais velha continuo a adorar celebrar o meu aniversário.
    Todos os anos em que apago as velas e corto o bolo são sinal de que ando cá e de que a vida é para aproveitar.
    Perder tempo com depressões de idade é "useless", porque é preferir que o tempo não passe… E se ele não passa é porque estamos mortos.

  8. Lembro que os 24 ainda foram bem recebidos, mas os 25… doeram, porque estava a ver o tempo a passar demasiado depressa e não estava a sentir-me realizada, estava frustrada com tudo e todos. A partir daí, só os 30 foram especiais pela ocasião associada. Os restantes aniversários preferia que fossem dias que não existissem na agenda.

  9. Sensibilidade e cumplicidade, tem destas coisas, mas para não stressar, não ser demasiado optimista(miguel)é manter os pés na terra e saber esperar e por vezes passar tempo a fazer coisas nunca antes imaginadas, …eia. nota eu a pensar que o animal era no feminino? perfil com stress. K.

  10. Eu fiz 39 este ano! E adoro fazer anos! Adoro que telefonem! Adoro que me mandem postais! Adoro que receber prendas (o mais pessoais possíveis, adoro coisas feitas pelos meus amigos)! Adoro receber flores! É tão bom fazer anos!! Provar ao mundo e a nós mesmos que ainda temos muito para aprender, muito para partilhar, muito para oferecer, muito para festejar!!!
    …ok, não gosto muito que me cantem os parabéns, porque não gosto particularmente da música!!!

  11. É uma perspectiva interessante do crescimento de uma pessoa, ver a mudança, a maturidade…Acho que eventualmente acabamos todos por pensar nisso e chegar à conclusão que crescemos depressa demais 🙂 Por vezes, eu tenho essa sensação!!
    Gostei bastante deste post!!
    Ah…e não há nada melhor que fazer anos em Maio 🙂

  12. Sou igual…custa-me tanto, mas tanto…
    E este ano entao…nem quero pensar nisso, só faltam 4 meses e nao me imagino e nao me sinto e nao consigo interiorizar a idade que vou fazer…
    Parece que a vida me está a fugir por entre os dedos…

  13. …eia,também nunca achei piada fazer anos, mas gosto muito de ir aos anos dos meus amigos e participar nas diversões, malandrices, etc., recordo um aniversário de dois ou três amigos em que eu era a única rapariga e um tal convidado "zé peq. p.".UAU..UAU.Quanto a prendas, o melhor é sempre a surpresa e ser feliz com as pequenas vitórias. BeijK.

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