Ah, vou castigar este! Ah, vou castigar aquele!

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Acho um disparate esta histeria que se gerou à volta na análise nacional aos resultados das eleições autárquicas. O que parece estar em jogo, para a maioria dos analistas, é o saber se o governo vai ou não ser castigado pelos portugueses neste acto eleitoral. Sinceramente, acho que isso não só não faz sentido, como não é o que está na cabeça da maioria dos eleitores.

Então o senhor João Manuel vai deixar de votar no candidato do PSD, em quem acredita, e que faz tudo pela sua junta, só porque quer castigar o Passos Coelho? Ou a dona Maria Silva vai votar no candidato do PS, que não lhe diz nada, só porque acha que assim vai chatear o PSD nacional? Mas alguém pensa assim? Duvido. Ou melhor, haverá, mas são muito poucos.

As autárquicas são, para muita gente, as eleições mais importantes, aquelas em que podem escolher as pessoas que realmente conhecem, o seu presidente de junta, o seu candidato do concelho, é um acto eleitoral de proximidade, cumplicidade, mais físico e sentimental do que todos os outros. Não há leituras nacionais a fazer. Ganha quem, localmente, trabalha melhor, inspira mais confiança, perde quem, localmente, fez asneira ou não conseguiu passar uma mensagem de competência ou proximidade. As máquinas partidárias não têm a mesma importância que num acto eleitoral nacional, como numas legislativas, ou europeias (nestas, sim, fazem-se leituras nacionais, porque, ao contrário das autárquicas, são as mais distantes das pessoas, aquelas que envolvem menos paixão).

Na noite eleitoral, claro que todos os partidos se vão sentir vencedores, todos irão encontrar razões para dizer que se sentem muito felizes com os resultados, mas não me parece que haja assim tantos vencedores. Mas um, pelo menos, penso que já tem garantias de vitória: a CDU. Irá recuperar muitas câmaras no Alentejo, e conseguirá manter as votações e os vereadores em algumas cidades importantes. Não me parece que perca muitas das câmaras que já tem. De resto, penso que o PS irá cantar vitória, mas sem grandes razões para isso: irá ganhar Lisboa, é certo, mas essa é daquelas vitórias amargas para Seguro porque quanto mais esmagador for o triunfo de António Costa mais a máquina socialista se virará para ele e o quererá a liderar o partido nas legislativas de 2015. De resto, irá voltar a perder o Porto e na balança final deverá subir muito pouco o número de câmaras que já tinha. O PSD, que é capaz de não perder muitas câmaras, deverá, no entando, deixar fugir o Porto, mas verá nesta pequena derrota uma vitória, justificando-a com o tal castigo à política nacional, que só é aplicada porque o PS deixou o País entregue à Troika — ou seja, para o PSD as autárquicas serão uma vitória porque estão a pagar uma factura do PS.

O CDS é que deverá ser esmagado neste acto eleitoral, uma derrota que Paulo Portas deverá assumir, já que nem ele deverá encontrar um ângulo positivo nos resultados do partido.

Aguardemos então por domingo.

Ah, e continuo indeciso.

7 Comentários

  1. Concordo plenamente e viu-se isso mesmo aqui na Madeira, as pessoas estavam cansadas de mais do mesmo, candidatos escolhidos pelo líder regional sem valor e que simplesmente eram muito manipuláveis por Alberto João Jardim… O PSD perdeu a câmara do Funchal, porque jogou sujo… O Bruno Pereira queria tanto o poder que “traiu” Albuquerque à espera do empurrãozinho que deu para o torto…
    Eu acredito que as autárquicas são as verdadeiras eleições, em que as pessoas votam em pessoas, em programas em que acreditam e não só num símbolo partidário…

  2. Quem acha então que fica com o porto?
    Nas autárquicas há votações partidárias para a assembleia municipal, porque não se vota no rosto , ao contrário do presidente da freguesia e do município

  3. Concordo plenamente com esta análise e não diria melhor. Apesar de numa eleições nacionais não me ver a votar no partido X ou Y, aqui nas autárquicas penso de modo diferente, aliás, aqui vou votar num partido, algo que não consigo fazer para umas eleições nacionais, tal é o descrédito que tenho nos políticos em geral.

  4. Análise bem feita, sobretudo no critério “Local”.
    Eleições nacionais são bem diferentes das locais.
    Já agora, a CDU só não perde câmaras porque não alinhou na limitação de mandados, senão perdia quase todas as câmaras, porque os presidentes estão lá há 20 e 30 anos. pouco coerentes…

    abraço

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