A zona de conforto*

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O mundo, tal como está hoje, seja aqui seja nos Estados Unidos ou na China, tornou-se uma competição. Temos de ser melhores do que a pessoa que trabalha ao nosso lado, para que um dia, se houver necessidade de despedir alguém, não estarmos na linha dos dispensáveis. Temos de ser melhor do que o outros players no mercado, porque a concorrência esmaga os mais fracos, e os que se deixam esmagar acabam por ter de sair, de fechar portas. Temos de ser melhores pais porque o mundo está perigoso e é fundamental que os nossos filhos tenham a formação mais adequada para que partam com boas ferramentas. Temos de ser melhores maridos ou melhores mulheres porque se nos desleixarmos corremos o risco de sermos deixados para trás por uma concorrência ainda mais feroz no mercado dos afectos e do sexo.

Mas mesmo quando cumprimos com muitas destas coisas corremos o risco de falhar. Porque todos falham, mais dia menos dia, seja por culpa própria, do mercado, da crise, de outras pessoas, do azar. Há sempre aquele momento em que até os mais preparados, mais inteligentes, astutos, brilhantes, dão com a cabeça na parede. E isto acontece, muitas vezes, porque nos faltou vencer uma última batalha: a da luta interior.

A capacidade de reinvenção não é só uma qualidade, é, cada vez mais uma necessidade. Não basta termos uma boa ideia, é preciso reinventá-la regularmente, transformá-la, e tentar, sempre, que ela se mantenha única, diferente, original. Ter uma ideia é fácil. Copiá-la também. Por isso, quem tem uma boa ideia tem de ter capacidade de ter outras 50, e de as ter primeiro do que os outros. O que não muda, o que não se mexe, tende a morrer cada vez mais rápido. Os modelos novos tornam-se velhos cada vez mais depressa. Apesar de continuar a haver conforto na rotina, a novidade é cada vez mais excitante, e rodeia-nos por todo o lado. Há solicitações originais a cada segundo, e, por isso, se insistimos no modelo antigo, num modelo repetitivo, tendemos a desaparecer.

Ser original foi, e ainda é, motivo de piadolas e um certo preconceito. Gera conversas, críticas. Quem não o é, tende a criticar quem é, tende a ridicularizar quem arrisca, quem faz diferente, quem é diferente, quem percebe que só sendo único poderá distinguir-se. E, hoje, é cada vez mais importante que nos distingamos.

Eu gostava de ver mais de muita gente. E gostava de ver mais de mim. Mas é difícil libertarmo-nos da teia do conforto. É ela que nos protege, mas também é ela que nos pode prender. E a verdade é que se nunca sairmos dela nunca vamos ver outras coisas.

Há uma frase famosa que diz que “a vida começa onde termina a zona de conforto”, e isso, para mim, faz cada vez mais sentido.

* este é parecido com o título de um livro de Jonathan Franzen (“Zona de Desconforto”), um dos meus autores preferidos. Mas, se por acaso esbarrarem com ele numa livraria, não vão ao engano: é fraquito.

1 Comentário

  1. Mas sabes Ricardo, a viver na Australia, nao acho que a vida aqui seja uma competicao. Nao falo em determinados postos de trabalho, que esses sim, sao autenticas corridas a medalhas invísiveis. Falo na vida em geral, todos lidam bem com a saída da zona de conforto, todos fazem pela vida, no geral ninguem quer ser mais que ninguem. (Desculpa os acentos mas escrevo de teclado ingles)

    Diana

  2. Caro O Arrumadinho,

    Naturalmente referia-me à ideia e não ao desenvolvimento da ideia, parece-me ser isso a que te referes. Não sou dono de nada, sou apenas desconfiado e esta resposta pareceu-me frontal e sincera, pelo que considero o assunto encerrado.

    Lamento a acusação infundada mas, afinal de contas, relvas é coisa que não falta neste mundo, esse sim é um verdadeiro desaquado, pelo menos na minha perspectiva.

  3. Muito bom post Arrumadinho!
    Acho que o "sair da zona de conforto" é um desafio que nem toda a gente está disposta a arriscar. Pois nem sempre é o caminho mais fácil a seguir.
    Mas acho mesmo que só assim as pessoas realmente crescem, aprendem, a todos os níveis.

  4. Caro O Olhar do Lobo. Em primeiro lugar, não conhecia o seu blogue. Conheci-o agora, depois do seu comentário. Em segundo, acho que basta olhar para o seu texto e para o meu para perceber que não têm rigorosamente nada a ver um com o outro, e que a única coisa coincidente é o título do post.
    Em terceiro lugar, um "plágio" é uma cópia evidente e descarada de qualquer coisa. Só com muita má fé se pode ver algum plágio entre os dois textos.
    Não me parece que sejamos donos do tema "zona de conforto", e também não me parece que sejamos os únicos a escrever sobre esta temática, daí achar este seu comentário completamente desadequado.

  5. Percebi perfeitamente a tua mensagem! Isto foi só para provocar e apimentar a discussão. Sair da zona de conforto é algo que tenho feito toda a vida, sei bem o que isso é. Não me tenho dado mal. Dá trabalho? Dá. Não é fácil? Por vezes não, principalmente quando à tua volta, família e sociedade em geral, vivem no mais puro do comodismo, como exemplo tens pessoas de 40 anos com bons empregos, cunhas arranjadas pelos paizinhos, a viver com os pais, para não gastarem um tostão do seu ordenado e a terem contas bancarias bem recheadas! Essas não teem preocupações com a crise. Mas vai-se a ver, foram formatadas por quem está à sua volta para isso e até são valorizadas por não terem saído da zona de conforto…

  6. Adoro quando as pessoas interpretam os textos à sua maneira (erradamente), tiram uma conclusão (errada), congratulam-se por isso (erradamente) e depois mandam uma piadola (que não faz sentido, já que tudo o resto está errado).

  7. Não li ainda todos os teus post's, nem sei se alguma vez o farei, mas certamente ESTE é para mim de longe o melhor! Quando dizes que a vida começa onde termina a zona de conforto, estas a dar a receita para muitos dos nossos problemas como sociedade portuguesa!
    bom post!

    ER

  8. Isso quer dizer que vais partir para uma nova aventura ao nível profissional? Vais-te tornar freelancer? Boa! Mais um a viver do bloguesito!

  9. Gostei muito do texto, é tal e qual o que sinto e tanta gente deve pensar o mesmo. Mas quantas vidas precisávamos de ter para podermos completar-nos como queremos? Não se pode viver em todo o lado nem fazer um pouco de tudo. São as escolhas da vida…

  10. temos de sair da zona de conforto para sermos alguém, e temos como diz a frase, ser todo em cada coisa, ou até mesmo mais, agradar a gregos e a troianos para sermos alguém na vida e mesmo assim ter personalidade e convicção para continuar a lutar pelos nossos ideiais.

    ELA

  11. Acho que esta necessidade é relativamente recente nos portugueses mas é uma das atitudes centrais na cultura anglo saxónica. Mas não se enganem: existem assimetrias naturais que dificilmente serão ultrapassadas. Portugal dificilmente será um país com uma economia liberal. Digo isto porque "sair da zona de conforto" é muitas vezes mal acolhido. Portugal é um país clássico com e quem não jogar com isso nunca terá sucesso em solo lusitano.

  12. OK, Obrigada! Por acaso, não me tinha apercebido do carácter autobiográfico do livro, pelo que esta dica renovou em mim a vontade de o ler. Quem sabe até sou surpreendida e, daqui a uns tempos, venho aqui partilhar o quanto, afinal, eu gostei do livro ("que assim seja!").
    Lá está, vou sair da minha zona de conforto (que provavelmente seria deixar o livro quietinho na prateleira, perante uma crítica de alguém que valorizo do ponto de vista das preferências literárias – aliás, devo te dizer que a vontade de ler o "Liberdade" se deveu, em parte, ao que escreveste, num texto sobre uma viagem)e vou arriscar entregar-me, mais uma vêz, ao Frazen (salvo seja!).
    Um abraço
    Patrícia

  13. A meu ver, um dos melhores posts das últimas semanas… Ricardo acertou em cheio num sentimento partilhado por imensa gente (nomeadamente por mim!) É por estas partilhas, que o seu blog é de passagem obrigatória diariamente!
    God save this Blogger 😉

  14. Olá Patrícia. Tens razão, é Zona de Desconforto, sim. É um livro autobiográfico, sobre a infância e juventude do Franzen, mas que não traz nada de novo ou transcendente. Podes perceber, com a leitura, que algumas das bases que o levaram a criar as personagens do Liberdade (a família do Walter, sobretudo) estão ali, na vida dele, dos amigos dele. Mas é só isso. Ler o Liberdade, uma obra-prima, e depois esta Zona de Desconforto cria desilusão, sim. Mas lá está, é interessante para quem gosta do Franzen, mas não esperes nada do outro mundo.

  15. Olá!

    Agora fiquei meio abananada! Então eu, que estou a terminar o "Liberdade" (e a adorar, diga-se), e que tenho ali guardadinho na estante à minha espera o "Zona de Desconforto" (não de "Conforto" – não leves a mal estar a "corrigir" ; é mesmo sem qualquer pretensiosismo. É só porque achei o título do livro bastante apelativo e original, precisamente por não ser o óbvio…) e tu dizes que aquilo é fraquito… É mesmo? Passo à frente? Vai-me frustrar imenso depois do "Liberdade"? Ora bolas, tinha imensas expectativas…
    Gostei muito deste post!

    Patrícia

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