A tristeza

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Hoje parei-me num texto do “Público” sobre tristeza. É um assunto que sempre me interessou, se calhar por ser, em mim, um fenómeno evolutivo. Há uns 10 anos devia ser, como cantam os Clã, “um pateta feliz”. Estava de bem com tudo, seguia a minha vida imperturbável e eram muitas, mas mesmo muitas, as ocasiões em que me sentia “feliz a 100 por cento” – está lá na mesma música, a “Corda Bamba”. A vida ainda me tinha pregado poucas partidas, tinha conhecido poucas pessoas verdadeiramente más, outras ainda não se tinham revelado uns escroques, vivia numa relação que me parecia perfeita, tinha um percurso profissional anormalmente ascendente, tudo o que fazia corria bem, em tudo o que me metia tinha sucesso. A vida era fácil.

Claro que eu lutava para que assim fosse. Dava tudo, e tinha a sorte de estar rodeado de gente que me ajudava, me apoiava em todas as decisões, e me dava força e confiança para não parar. Na verdade, também tive o mérito – e a sorte – de não ter tomado muitas decisões erradas. E quando as tomava aparecia sempre qualquer coisa que me ajudava a rectificar tudo isso. Há um episódio do “Seinfeld” em que o George Costanza tenta demonstrar que ao Seinfeld tudo corre bem. Ganha o dinheiro que quer, tem as namoradas que quer, dá-se bem em todas as situações, e, por isso, quase toda a gente gosta dele (menos o Newman – há sempre alguém que não gosta das pessoas com sucesso). Eu sentia-me um bocado assim. E hoje, quando olho para esses tempos, percebo que era o tal “pateta feliz” porque a vida me corria estupidamente bem a todos os níveis.

Só que, claro, os anos passam, os obstáculos crescem, os desafios vão sendo muitas vezes maiores, e nem sempre temos capacidade de os superar a todos. Às vezes caímos, muitas vezes tropeçamos, procuramos atalhos, queremos experimentar coisas novas e acabamos por nos perder. Todos, de uma forma ou de outra, hoje ou ontem, experimentámos o fracasso, seja a nível pessoal, seja a nível profissional. E nesse percurso, no momento em que nos fugia o pé, em que já perderamos o equilíbrio e só esperávamos pela hora em que bateríamos com os costados na calçada, aí, percebemos o que é falhar, descobrimos a dor, o medo, o sofrimento. Depois, quando estávamos lá em baixo a pensar no que nos acontecera, encontrámos a tristeza, a tal tristeza de que hoje me falava o “Público”.

Dizia o artigo que todos temos de sentir o que é a tristeza. Que isso é bom. Que isso nos faz pessoas mais equilibradas, menos frustradas, menos stressadas, mais fortes a lidar com adversidades. O artigo era muito voltado para os pais, que devem deixar que os filhos experimentem a tristeza, e não os encham de drunfos ao menor sinal de infelicidade. E aquilo faz todo o sentido. Só sabendo o que é estar triste, só experimentando essa tristeza, podemos saber o que é a felicidade, o que é estar verdadeiramente lá em cima.

Demorei muitos anos a perceber o que era estar triste. Mais precisamente 27 anos. Foi a primeira vez que a vida me atirou abaixo. Com essa pré-depressão desmoronaram-se muitas outras coisas. Basicamente, só me ficou o emprego que tinha na altura, e pouco mais. Levantei-me, voltei a ser feliz, consegui coisas novas e, na verdade, nunca mais necessitei de procurar ajuda, como naquela altura. Já fui ao chão não sei quantas vezes, e sempre me levantei. E nem sempre me demorou muito até recuperar o sorriso que, para quem me conhece, sabe que é quase uma imagem de marca.

Também não será desta. Nem a dor de morte, que só agora descobri, me vai mudar no que ele me ensinou a ser. E, por ele, todos, os que ele amava, voltaremos a ser felizes. De preferência, patetas felizes. Ele ia gostar disso.

1 Comentário

  1. Muito bonito o texto!

    Sabes que eu acredito que só quando vamos ao fundo e descobrimos essa tristeza, ganhamos consciência do que é a dor, a alegria, qd aprendemos a rir e a chorar na mesma dimensão, encontramos o nosso equilibrio!

  2. De facto o contacto com a perda de alguém próximo é a descoberta da dor mais intensa. Eu nunca tinha sentido tristeza profunda até perder a minha filha. Mas de facto é como dizes, a perspectiva de vida muda radicalmente e passamos a adocicar os momentos de felicidade, com ainda mais intensidade. E passamos a amar na saudade aquilo que já não podemos amar em vida…. E como diria o meu chefe brasuca, "manter a mente quieta e a espinha ereta"!

    Clara

  3. Por acaso também vi essa reportagem sobre a tristeza, e chamou-me a atenção. Estava bastante direccionada para os pais e como eles devem deixar os seus filhos estar tristes. Que isso ia fazê-los perceber o outro. Que ia ajudá-los também a crescer. E neste texto, a tristeza está adaptada ao que sentes neste momento. Nunca sei muito bem o que dizer nestas alturas, mas fica o comentário…

  4. Também me estou a levantar.Todos os dias, penso que não é tristeza nem depressão nem dor que ela iria quer para mim e por isso sorrio e sigo o meu caminho como melhor sei.

  5. Hoje levantamo-nos um bocadinho. Amanhã outro. Não está a ser fácil. Mas nós sabemos que não estamos sozinhos. E mais uma vez sentimos que somos mais unidos que nunca. Na alegria, e agora na tristeza também.

    Um beijinho grande

  6. admiro a força de voltares acima. não é fácil mas assim são as cambiantes que nos revelam e nos tornam mais "nós". Escreve um livro sobre isso. Talvez ajudes alguém. Que precisa.

  7. Gostei do teu texto…
    sim… existe uma vez na nossa vida que todos vamos mesmo ao fundo … de uma forma ou de outra nos conseguimos levantar e …

    depois dessa…
    já é muito difícil voltarmos ao fundo… pelo menos… nunca mais iremos descer tanto…

    não li o texto do público mas… ficou o teu 🙂

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