A Raquel de quem não se fala

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Aqui estou eu a conversar com a Raquel Carvalho (com a fita na cabeça) antes da partida para o sunset trail de São Pedro de Moel

Conheci a Raquel há quase um ano, na madrugada do dia 26 de Janeiro, às 4h30 da manhã, na estação de serviço da segunda circular. Na véspera, ela ligou-me para saber se lhe podia dar boleia para Leiria, onde teríamos de estar às 6 da manhã para apanharmos um autocarro para Miranda do Corvo onde iríamos correr o Trilho dos Abutres. A madrugada estava fresquinha, mas felizmente nenhum de nós se atrasou. Ela parou por cortesia, porque afinal já não precisava de boleia e iria levar o carro dela, mas tomámos um café para abrir a pestana e falámos um pouco. Lá me disse que era a primeira vez que iria correr um trail, que estava cheia de medo, e que não sabia se teria pernas para fazer os 23 km. Tentei tirar-lhe essas ideias da cabeça, disse-lhe o quão emocionantes os trails poderiam ser, mas não a vi muito convencida.

Voltámos a parar já à entrada de Leiria para mais um café e uns minutos de conversa. Deixámos os carros junto ao Estádio de Leiria onde já estava a nossa equipa, a OFFtel runners, pronta para sair para Miranda do Corvo. No autocarro, foi uma galhofa até chegarmos, com a malta toda divertida.

Chegou a prova e a Raquel continuava muito pessimista. Tentei animá-la, mas sem sucesso. Pouco mais de 3h30 depois de ter partido, cheguei ao fim, todo empenado, depois da prova mais dura que já fizera na vida. Procurei a Raquel, mas ninguém sabia dela. Fui tomar banho, passei pelo autocarro da equipa, fui comer uma banana para fortalecer as pernas, estive na conversa com o pessoal e decidimos ir todos almoçar. Já estava a terminar uma pratada de massa quando apareceu a Raquel, toda torta, com ar de poucos amigos. Chegara há pouco, demorara 5h30 a percorrer o 23 km e parecia completamente desanimada. “Nunca mais me apanham noutra. Trails não é coisa para mim”. Lá brinquei com ela, disse-lhe que normalmente as provas não são assim tão duras, e que a primeira é sempre a que custa mais. E é. Não me pareceu muito convencida.

Já em Lisboa, ainda falámos em marcar um ou outro treino, para ver se a convencia a gostar de trail, mas nunca aconteceu. Soube que uns dias depois ela correu a Scalabis Night Run e ficou… em primeiro lugar. Oi? Primeiro lugar? Será a mesma Raquel?, pensei eu. Era. Reencontrei-a já este Verão em São Pedro de Moel, no sunset trail. Afinal, voltara aos trails, e parecia outra pessoa. Conversámos um pouco na partida, e assim que soou o tiro deixei de a ver. Mas desta vez quem ficou para trás fui eu. Completou a prova com menos meia-hora do que eu, e ficou em segundo lugar. A Raquel medricas dos Abutres havia-se tornado numa lebre.

Domingo, na Maratona de Lisboa, lá estava ela na fila da frente para correr os 42 km. Sinceramente, nem a vi durante o percurso. A Raquel completou a prova em 3h13m55s, ficou em 7º lugar entre as mulheres e foi a melhor portuguesa. Alguém ouviu falar dela? Provavelmente não. A Raquel não é do Benfica, nem do Sporting, é da Juventude Vidigalense, é uma OFFtel runner e uma campeã. Em 10 meses passou de uma mariquinhas que andava a pisar ovos num trail a melhor atleta portuguesa na Maratona de Lisboa.

São histórias destas que me fazem ter a certeza que quando acreditamos em nós, quando procuramos os nossos limites, conseguimos chegar lá.

17 Comentários

  1. Obrigada a todos pelo carinho demonstrado….totalmente inesperado!
    O meu único objectivo foi fazer a minha primeira maratona…e chegar ao fim,
    pois queria dedicar a concretização deste sonho ao meu avô que faleceu há 3
    semanas.Queria poder chegar a meta e … sentir o abraço de quem me esperava…
    Correr ensinou-me que sou capaz…de muito mais… Mais do que imaginava, pois
    os únicos limites estão na nossa cabeça… Por isso, mesmo que encontres uma
    dificuldade, faz dela um desafio a superar… E lembra-te, a força que não se
    sente hoje, será a força do amanhã, permitindo-te melhorar não só enquanto
    atleta mas também como pessoa…

  2. A Raquel tem aquela fibra 😉 Muitos Parabéns!
    Mas quero também relembrar que a Raquel correu esta maratona em representação do Leiria Marcha Atlética Clube xD

    Admiro todo o teu percurso,

    Beijnho

    Daniela

  3. Uma história simples e realmente inspiradora.
    Gosto de ver s pessoas vencerem de forma independente e por mérito próprio, tanto no desporto como na vida. Principalmente quando batem os “craques de redoma”.
    A vontade é o melhor equipamento desportivo.
    Em Portugal, praticamente, só valorizamos os atletas depois de ganharem as medalhas, e muitos morrem sem sequer terem uma oportunidade que lhes anime e que lhes inspire a lutar. Já é tradição secular, os portugueses ficarem à espera que a vitória bata à porta, e é neste paradigma de (des)valor que vivemos. Depois nas próximas olimpiadas já apostamos tudo nos que ganharam no passado, e a verdade é que as medalhas pouco ou nada se têm repetido. O outros ficam a treinar um pouco à sombra.
    Vejamos no caso do futebol, o Pauleta que só foi convocado para a seleção nacional aos 28 anos. Todos sabemos que não foi por acaso que mesmo tardiamente convocado, bateu o recorde de golos do Eusébio… é assim Portugal!!!
    Força RAQUEL e não te esqueças:
    A VONTADE É O MELHOR EQUIPAMENTO.
    Por conta própria, a vitória sabe a dobrar.

  4. Comecei a fazer dieta. Passados dois meses (faz hoje) perdi 14kg…ainda sou mt pesado..estou com 116kg…mas há duas semanas comecei a correr…a tentar vá…e sabe muito bem!
    E vir aqui ler estes relatos dá vontade de fazer mais.

  5. Parabéns à Raquel e à Juventude Vidigalense. Sugiro que um dia escreva um texto ou, porque não, a revista onde trabalha, sobre esta fábrica de campeões de atletismo que a maioria dos portugueses desconhece.

  6. Gostaria de comentar, mas, desde que os meusúltimos comentarios foram ignorados, sem eu perceber porquê, acho que iria perder o meu tempo e, por isso, vou coibir-me de o fazer.

  7. Que testemunho maravilhoso !!! Deve ser tipo eu que fiz um trail uma vez e disse q “Nunca mais” 😀 Mas estou a pensar dar outra oportunidade 🙂 Adoro ler os posts que escreve sobre corridas !! Se quiser falar mais dos trails tb agradeço 😉 Gosto mesmo muito deste tema e voce ainda por cima escreve bem “pra caraças ” 😉 Beijinho

  8. Antes de mais gostaria de dar os parabéns à Raquel Carvalho, a melhor Portuguesa na Maratona de Lisboa, que embora não tenha contado com a participação de atletas que correm abaixo das 2h30, como a Jéssica Augusto, a Dulce Félix ou a Marisa Barros, não deixa de ser um grande resultado para uma atleta com tão pouca experiência. Há outros casos de sucesso como este. Estou a lembrar-me da Filipa Elvas que, aos 37 anos foi a única mulher a conseguir terminar a duríssima (mais de 20 mil degraus) Maratona da Grande Muralha da China, este ano. A Filipa só começou a correr há dois anos…
    Divulgar estes feitos só engrandece o desporto e é uma motivação extra para estes atletas. Parabéns.

  9. Podia dizer que me cruzei com ela no Scalabis, mas a verdade é que eu cheguei tão no fim 101º lugar femenino que só a vi mesmo no palco, obrigado por partilhar a força da Raquel de serta forma encoraja a tambem eu não desistir.

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