A polémica Quintela vs Sousa Tavares

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Estalou ontem uma nova guerra entre José Diogo Quintela e Miguel Sousa Tavares, com o cronista a assinar uma crónica violentíssima no “Público” em que acusa o comentador de silenciar todas as polémicas relacionadas com o BES e Ricardo Espírito Santo, já que a sua filha é casada com o filho do banqueiro.

Antes de comentar este assunto, queria deixar dois pontos prévios:

1. Não gosto da postura arrogante, pretensiosa e superior de Miguel Sousa Tavares, embora goste de o ler e o respeite imenso como comentador. Quem me lê recordará um texto recente que escrevi sobre ele em que me espantei com a quantidade de disparates que disse sobre o jornalismo actual.

2. Gosto muito de José Diogo Quintela, acho-o um homem inteligente, culto, sensato, um bom humorista. Ao contrário do que muita gente diz, não concordo que ele viva do impulso que Ricardo Araújo Pereira deu aos Gato Fedorento – tem o seu mérito, escreveu muitos dos textos, construiu óptimas personagens, e acho-o extremamente competente no que faz. Também gosto de o ler no “Público”.

Ontem, nas redes sociais, uma quantidade imensa de gente partilhou o artigo de Diogo Quintela (que podem ler mais abaixo) elogiando-lhe a coragem e dando-lhe razão neste assunto, apontando a omissão de Sousa Tavares como uma grave falha de carácter do comentador.

O que muita gente não se deve lembrar é que este artigo não cai do céu, não surge do nada, e que antes de estalar esta polémica já José Diogo Quintela e Miguel Sousa Tavares tinham estado envolvidos numa guerra que terminou com a saída do humorista do jornal “A Bola”. Ou seja, há aqui uma espécie de vingançazinha que é preciso não esquecer.

Esse problema no jornal “A Bola” teve a ver com uma frase dura de Sousa Tavares, que quase pediu ao presidente do FC Porto que processasse Diogo Quintela por causa de um texto (humorístico) dele em que relacionava Pinto da Costa com pagamentos a árbitros. O humorista quis responder-lhe na semana seguinte, mas o director do jornal “A Bola” pediu-lhe para não o fazer. Quintela optou por sair do jornal e Ricardo Araújo Pereira acompanhou-o, por solidariedade.

Nesse caso, Quintela teve razão. Sousa Tavares errou, não tinha de se meter em assuntos de humor, e se Pinto da Costa se sentiu lesado, então, ele que processasse o humorista.

A resposta surgiu agora, dois anos depois, com este texto de Quintela no “Público”.

Facto: tudo o que o humorista diz (sem qualquer humor) é verdade. Sousa Tavares nunca fala do BES. Nem de Ricardo Salgado.

Mais um facto: a filha de Sousa Tavares é casada com o filho de Ricardo Espírito Santo, sim, é verdade.

E outro facto: Sousa Tavares fala imensas vezes de banqueiros, da banca, de broncas da banca, muita vezes de forma acutilante. Só não fala do BES. Tudo verdade.

Mas o facto de Miguel Sousa Tavares não falar do BES e de Ricardo Salgadao dele um escroque? Um mau comentador? É um erro ele não abordar este assunto e não falar do seu compadre? Não. Para mim não é.

Pela relação familiar que tem com Ricardo Salgado, Miguel Sousa Tavares fica automaticamente limitado nas opiniões que pode dar sobre este assunto. Se disser mal do banqueiro, então, pode estar a criar sérios problemas familiares (para si, para a filha, para o genro, etc). Se disser bem de Ricardo Salgado, cai-lhe tudo em cima porque está a favorecer um familiar.

Qual é a solução mais lógica, e a única de bom senso? Não falar. Não dizer nada. É exactamente o que eu faria no lugar dele, e é, seguramente, o que 99 por cento das pessoas fariam no lugar dele.

Não acho a atitude de Sousa Tavares condenável, nem sequer acho que haja qualquer coisa de imoral no facto de ele não falar de assuntos relacionados com o BES. Acho, até, preferível que assim o seja, já que se falasse eu ficaria sempre a pensar se ele não teria qualquer interesse familiar nas coisas que estaria a dizer. Não falando, acho apenas que se está a proteger, o que é natural.

Já acho muito mais estranho que um humorista venha agora, do nada, fazer toda uma crónica (sem graça, repito) a atacar um comentador, expondo a sua vida familiar, relacionando-a com o seu trabalho, como se o que ele diz fosse uma revelação inédita. É público que a filha de Sousa Tavares é casada com o filho de Ricardo Espírito Santo. Não há aqui qualquer segredo, nem uma grande descoberta de Quintela. Até por isso, esta crónica cheira-me a vingança pessoal por assuntos mal resolvidos entre os dois e que Quintela não explica no seu texto. Se quisesse ser totalmente sério, então, o humorista deveria ter explicado que entre ele e Sousa Tavares há uma guerra com dois anos.

Vamos agora inverter as coisas. José Diogo Quintela foi sócio de Dias Loureiro (que está envolvido no caso BPN) na empresa das padarias portuguesas. O outro sócio é o primo, Nuno Carvalho. Alguma vez Quintela escreveu um texto humorístico sobre as polémicas de Dias Loureiro e o seu envolvimento no caso BPN? Se, por ventura, o outro sócio dele viesse a ser envolvido nalgum escândalo iria Quintela brincar com isso nas suas crónicas? Ou fazer sketches? Não me parece. Seria uma questão de bom senso.

Para finalizar, a resposta de Sousa Tavares. Ouvido pelo site da SÁBADO, o comentador disse que Quintela “é um falhado, um medíocre” e que só quer “promover-se” à conta dele.
Um disparate pegado.

Quintela não é um falhado, é um humorista de sucesso, um empresário de sucesso e está muito bem na vida.

Quintela não é medíocre, é um homem talentoso e empreendedor.

Quintela não precisa de se promover à conta de Sousa Tavares — é um dos rostos mais conhecidos de Portugal.

Sousa Tavares, como já é habitual, não soube responder com nível a uma crítica. E seria muito fácil desmontar a crónica de Quintela.

1 Comentário

  1. O Arrumadinho diz: "Eu, pelo contrário, penso que ser isento é não se falar de assuntos em que somos parte interessada."
    A sério?
    O mais hilariante é que o diz, enfim…
    Em tom de desabafo prefiro dizer que a idade da inocência tem destas coisas, nunca se sabe muito bem quando faz fronteira com outro tipo de idades menos abonatórias à inteligência humana porque de facto e na minha muito humilde opinião, o que o "Arrumadinho" acabou de dizer foi…indescritível. Os exemplos para uma afirmação destas chegam a ser cruéis, só para mostrar a sua falta de bom senso.
    Quanto ao MST e ao ZDQ, dois homens inteligentes cada um com as suas idiossincrasias que não tenho o direito de julgar, pois também tenho as minhas.
    Agora… "…penso que ser isento é não se falar de assuntos em que somos parte interessada"…
    Por amor da santa!!!

  2. …penso que ser isento é não se falar de assuntos em que somos parte interessada…
    Isto não é ser isento. É não querer se envolver em assuntos dos quais podem advir posições, no mínimo, incómodas.

  3. Concordo!

    Se não tem condições e imparcialidade suficiente para comentar os temas mais relevantes e com interesse para o país deixa de desempenhar o seu papel como comentador de forma profissional. Sinceramente é isso que penso.

    Para quê ouvir uma pessoa que já sabemos que vai "saltar" assuntos por ter outros interessantes quando a actualidade do país passa precisamente pelos temas que evita?

  4. Mas se é parte interessante e não pode comentar assuntos relevantes no país então não tem condições para desempenhar o papel de comentador !

    Eu se fosse prima do Passos Coelhos nunca aceitaria ser comentadora politica, pois, por esse raciocino nunca poderia falar imparcialmente sobre ele..

  5. Concordo contigo quando dizes que MST tem o direito a não comentar polémicas que envolvam os Salgados e o BES, pela falta de isenção e problemas familiares que estariam associados, conforme referiste.
    Contudo, não acho que o ZDQ tenha estado mal. Ora lá por MST ser comentador, e estar habituado a criticar as acções de uns está imune à crítica de outros? Se ele pode e tem direito a estar calado? Pode. Mas então põe-se a jeito! A verdade é que ele é dos maiores comentadores da nossa praça e Salgado um dos homens mais influentes dessa mesma praça. E isso é uma ironia do caraças. Lá por já toda a gente saber da relação que une os dois, isso não quer dizer que não se fale disso.
    ZDQ não tem pois o medo de pôr o dedo na ferida. Pode ser até uma vingançazinha (merecida, convenhamos), mas qualquer pessoa já podia ter tido a coragem de chamar os bois pelos nomes.
    ZDQ mereçe por isso o meu aplauso.

  6. O MST não deveria falar dos outros bancos já que "não pode" falar do BES. É ridículo, porque é como se ele tivesse uma espécie de "joker", do género "ai do Salgado não posso dizer nada porque ele é meu compadre, mas já os outros todos são uns ladrões". Gostei da crónica do Quintela.

  7. Exacto. Há que corrigir o texto acima. Foi censura, cortaram parte do texto que o ZDQ escreveu. Não foi nenhum pedido para que não escrevesse sobre A ou B. Memória curta (ou selectiva) Sr. Arrumadinho…

  8. Só para esclarecer que neste texto está uma incorreção!
    Ninguem pediu ao Diogo quintela para não responder no jornal a bola, foi muito pior, o diretor do jornal a bola, vitor serpa, simplesmente cortou parte da crónica do Quintela, em que respondia a mst… Depois disso Quintela e Ricardo araújo pereira saiaram do jornal!!
    Ps: Ricardo Araújo Pereira e José Diogo Quintela eram dos poucos que respondiam á letra aos constantes disparates que miguel sousa tavares escreve e diz.

  9. Não estou nada de acordo com a suposta 'isenção' do MST por ser 'parte interessada' (esta escolha de palavras é muito interessante!): se ele já é pago para comentar a actualidade, também tem direito de opção nos temas???
    Assim o trabalho dele fica fácil demais…
    MST é mais um 'boy' em Portugal.

  10. Realmente se o MST tem ligações familiares com o BES só faz é bem estar caladinho… mas também não lhe ficava mal ser um senhor e explicar exatamente isso: ah e tal, tenho relações familiares, não quero melindrar a minha filha e genro, por isso abstenho-me de comentar. Pronto, e toda agente entendia (e acredito que tb o Zé Diogo Quintela, que é um tipo inteligente). Ora o nosso "gato fedorento" apanhou uma lacuna e "carrega benfica".
    E que tal juntar numa casa estilo Big Brother Dias Ferreira, Paulo Garcia, Quintela e MST?? Heim?? Havia de ser bonito…

    em suma: às vezes os homens não passam de uns meninos pequenos.

    Maria Martins

  11. Não gosto nem nunca gostei do MST. É arrogante, prepotente. Ainda no dia da entrevista do Sócrates vi o comentário dele na SIC noticias logo a seguir e só disse banalidades…ainda bem que lá estava o José Gomes Ferreira para falar sem papas na lingua e com conhecimento dos factos.

  12. "Pela relação familiar que tem com Ricardo Salgado, Miguel Sousa Tavares fica automaticamente limitado nas opiniões que pode dar sobre este assunto. "

    Então não pode ser comentador. Simples. Se aceita ser comentador mas "exige" que não comente certos assuntos, tem esse direito, mas tb tem que suportar as consequências que são este tipo de "bocas".

    Amanhã o BES aparece ligado a um brutal escândalo e MST não comenta? Para mim é inaceitável. Ainda por cima quando, como reconheces, ele não se importa de desancar outros banqueiros. Querem ver que o gajo que se esquece de declarar 8.5 milhões é uma excepção no mundo podre que é a banca?????

    Quanto à zanga, vingança e afins. Se for sempre nestes moldes, venham elas. Gosto. Anima isto. 🙂

  13. O Zé Diogo Quintela não fazer textos humorísticos, não fazer sketches ou não brincar nas suas crónicas com as polémicas que envolvem os seus sócios nada tem a ver como facto do MST não fazer comentários acerca do BES. Não nos podemos esquecer do papel de um e de outro. O MST é comentador político e jornalista. É pago para isso. Tem obrigações que o Diogo não tem… É a minha opinião.

  14. Não falar nunca poderá ser isenção.Não faz sentido nenhum.Uma pessoa pode é estar por algum motivo isenta (desobrigada) de falar ou fazer-lo com isenção(desapaixonadamente, com imparcialidade).Chama-lhe outra coisa.

  15. Desconhecia a polémica, mas fiquei perfeitamente esclarecida. Gosto de ler ambos, mas prefiro o José Diogo apenas no campo do humor e o Miguel sem os seus ataques de raiva. Um chazinho para ambos, para acalmar os ânimos, e perdoem-se mutuamente, até porque é altura de Páscoa. 😉

    pippacoco.blogspot.pt

  16. Não concordo que o ZDQ tivesse de justificar o que fosse. Óbvio que se tratou de uma vingança, e ele aproveitou bem o facto de estarmos em mês de IRS, num ano em que se soube que o banqueiro tinha esquecido de declarar uns trocos. Foi bem metida, acho até que ele devia estar à espera desta oportunidade.

  17. Gosto de todas as explicações que dás, pois para uma pessoa como eu, que não está ao corrente de nada de politiquices, fico um pouquinho ao corrente do que se passou e do que se está a passar 🙂

  18. Não. Há muita gente a achar isso. Eu, pelo contrário, penso que ser isento é não se falar de assuntos em que somos parte interessada. É o que acho que faz mais sentido. Mas são opiniões.

  19. Se calhar sou só eu que acho que ele como jornalista, comentador político deveria ser isento e não se esquivar de falar de assuntos pertinentes porque não lhe dá jeito? Logo ele que nunca perderia a oportunidade de o fazer se fosse qualquer outra pessoa?
    Para mim é falta de profissionalismo…

  20. Mais uma vez,este texto demonstra o porquê de eu gostar tanto de vir aqui. Escreves bem,com raciocínio lógico e coerente. Claro que tens razão e não podia concordar mais. Nem sabia deste estalar de verniz. Admiro ambos. Cada um,da sua maneira,muito própria. E percebe-se porque não fala o Miguel Sousa Tavares do Bes e o Diogo Quintela,do Dias Loureiro. Mas isso,devia obrigar a ambos a um silêncio em outros assuntos também.
    Parabéns Ricardo,és um excelente Jornalista!

  21. Ui, que barracada mais feia. Opto por não comentar este tipo de polémicas pois, como muito bem explicaste, OS DOIS têm razão, OS DOIS erraram em certos pontos. Vai daí, certamente que a verdade e a razão está lá no meio.

    Posto isto, aviso já que gosto da escrita do Sousa Tavares, mas que detesto a arrogância dele, o ar de enjoado e o facto de ser defensor de touradas.

  22. Concordo consigo na apreciação prévia que faz aos dois intervenientes. MST é arrogante, prepotente e consegue sempre defender opiniões contrárias às minhas, não concordo com nada que ele diz nem com a forma como diz. Quanto a ZDQ já provou várias vezes, inclusive pelas crónicas no Público que também acompanho, que é muito mais que um palhaço que de vez em quando aparece na TV às custas de RAP. Quando fala a sério,fá-lo muito bem.

    Acho que não é "vingançazinha" nenhuma, não precisa. Porra, ZDQ tem toda a razão: aquilo que a Bola fez foi censura, o jornal e MST ficaram mal na fotografia, enquanto ZDQ saiu pela porta da frente e ainda levou consigo o também respeitável RAP. E obviamente que Quintela não tinha que explicar guerra nenhuma entre os 2, onde isso está escrito? Apeteceu-lhe escrever sobre o assunto, escreveu!

    Claro que MST não tem obrigação nenhuma em falar de Ricardo Salgado, mas muito menos tem ZDQ de falar sobre Dias Loureiro. Um é jornalista, que se tem pronunciado sempre, como diz no seu post, sobre temas similares; o outro é humorista, falou a sério desta vez, mas mais vezes fala "a brincar".

    Quanto à resposta de MST: ridícula e à sua imagem

    Já agora "O humorista quis responder-lhe na semana seguinte, mas o director do jornal "A Bola" pediu-lhe para não o fazer". –> Não foi assim, foi mais grave na minha opinião: Quintela escreveu a sua "resposta" e parte desta foi censurada pela Bola sem qualquer aviso prévio.

  23. Não conhecia as quezílias entre os dois e fiquei completamente esclarecida. Não me parece que nenhum dos dois tenha tido o comportamento certo! Ainda falam das mulheres 😉

  24. Assim se compreende agora o sucesso da padaria portuguesa….: associação a Dias Loureiro. Agora é que não ponho lá mais os pés. Marisa

  25. e assim se comenta e escreve com isenção. parabéns.
    só uma opinião: gosto muito de MST, de o ler, principalmente, mas é insuportavelmente arrogante e tem zero "poder de encaixe" , como , de resto está à vista… Pena estas "tricas" entre pessoas inteligentes e com imenso talento….somos assim:pequeninos.

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