A Nôno

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Confesso que despertei tarde para o drama da Nonô. Quando parei para tentar perceber quem era a criança de que todos falavam à minha volta, já o caso era de domínio público. Fui então perceber melhor os contornos de todo este drama e, como quase toda a gente, comovi-me com a luta daqueles pais, com o sorriso permanente da criança e a forma inocente e feliz como ela vivia os seus dias, apesar de tudo o que lhe estava a acontecer.

Quando conheci melhor o caso ainda trabalhava na Cofina, onde me cruzava quase todos os dias com a Lara Afonso, tia da Nôno, que falava da sobrinha com um carinho único e era, também ela, um rosto da luta de toda a família.

Talvez por ter deixado o edifício, e ter perdido um pouco o contacto com os avanços da doença, fiquei incrédulo quando soube, ontem, da morte da Nôno. O sentimento, percebi quase de imediato, era comum a centenas de amigos que tenho nas redes sociais. Aos poucos, todos eles foram substituindo a sua foto de perfil por um fundo cor de rosa, uma homenagem simbólica à criança. Para algumas pessoas, é difícil entender como é que gente que não conhece uma criança de lado algum pode sentir-se triste ou abalada com essa morte. Para mim, é muito simples. A luta da Nonô é simbólica para todos. Não deve haver um pai ou uma mãe que não se coloque, ainda que por segundos, na pele da mãe da Nôno, que não pense: “Porra, se isto fosse com o meu filho…”. Sinto que é daí que nasce este sentimento comum de tristeza pela morte desta criança. Os avanços da doença aumentavam essa tristeza em todos nós, as pequenas vitórias da Nonô eram vividas por muitos como uma pequena esperança. Acredito que é também por isso que esta morte mexeu com tanta gente.

Depois, depois há os outros, os indignadinhos do costume, gente que acha que a prioridade deve ser sempre a de ser cool e não embarcar em movimentos populares. Não tardou que começasse a ler mensagens de gente irritada por estarem todos a pintar o Facebook de cor de rosa, a lamentar que todos chorem a morte de uma criança que não conhecem de lado nenhum, chateados por haver meio mundo triste com esta notícia.

Não tenho nada contras as pessoas a quem lhes passa ao lado este assunto, o que me intriga é que haja gente verdadeiramente chateada só porque há gente triste com a morte de uma criança. Haters gotta hate. O costume.

20 Comentários

  1. Ricardo, tens de reciclar os amigos do teu facebook.´

    Não conheci ninguém possivelmente indignado com a opção da mudança de foto para rosa, nem li nada do género no mural do meu facebook. Tenho 500 amigos no facebook. Não são muitos, mas já é uma óptima população para tirar estimativas.

  2. O que muita gente não percebeu ou não quis perceber é que não é uma questão de indignadozinhos como lhes chama, a questão é que todos os dias, infelizmente, morrem crianças vitimas desta e de outras doenças, algumas mais próximas de cada um de nós do que a Leonor, mas dessas ninguém fala, ninguém sabe, por essas ninguém chora. E espantem-se também essas são guerreiras, corajosas, príncipes e princesas.

    Não quero, nem nunca o faria, menosprezar os sentimentos de ninguém. Mas não consigo ficar mais triste pela Leonor do que por qualquer outra criança anónima que morre diariamente. E sim, acho que nestas coisas das correntes solidárias há muita gente que vá no comboio, que tenha posto a foto de perfil a cor de rosa só porque os outros também o fizeram, porque assim também faziam parte e eram cool, quando provavelmente nem seguiam a história da Leonor.

    Querem chorar, chorem, mas chorem por todos aqueles que travam esta batalha diariamente e que diariamente a perdem.

  3. Já li o seu post inúmeras vezes e tenho mesmo que comentar.
    Sou mãe de dois filhos e também já tive um problema oncológico. Sou duplamente mastectomizada e conto com 7 operações no meu currículo.
    Não tenho facebook, mas de vez em quando vou espreitar através de uma amiga.
    Não quero pensar na dor que é a de perder um filho, é com toda a certeza a maior do mundo. É pura e simplesmente antinatura.
    No entanto, acredite, que a maior parte das pessoas pôs o quadrado rosa simplesmente porque sim. Daqui a meia dúzia de dias, tirando a família que a vai chorar para todo o sempre, ninguém se vai mais lembrar desta menina.
    Não tenho dúvida nenhuma que este caso foi amplamente mediatizado e por isso é que teve esta visibilidade.
    No IPO estão dezenas de crianças nas mesmas condições mas ninguém fala delas ou chora por elas.
    Está na moda estas correntes por causa dos FB , Twitter e afins, mas depois tudo se esvai como o fumo.
    Vamos ver quanto tempo mais é que a página está aberta e quanto mais dinheiro é que vão angariar para poderem dar uma luz ao fundo do túnel a outras crianças.
    Repito, que em momento algum quis/quero menosprezar a dor e o sofrimento da menina e agora da sua família.
    Para eles vai toda a minha solidariedade.

  4. Eu não sabia quem era, não conhecia o caso e não pintei o meu Facebook de cor de rosa. Mas qualquer pessoa fica triste ao saber da notícia de crianças doentes ou que não conseguiram vencer a sua luta contra o cancro.

    É como dizes, haters gotta hate. É deixá-los entregues ao seu veneno e esperar que nunca tenham de passar pelo mesmo (porque é coisa que não se deseja a ninguém).

    http://www.prontaevestida.com

  5. Eu não fiquei indignada mas associo-me ao grupo dos que não percebe porque chorar a morte desta criança e não chorar a de outras tantas que, infelizmente, todos os dias morrem desta doença e que elas sim, também são umas guerreiras/os. A diferença é que esta criança tinha uma “figura pública” na família. Nada contra, cada um rema com os remos que tem. Não conheci a menina, e sinceramente, apesar do mediatismo do caso, nunca tinha ouvido falar nela. O problema é meu, pois cada vez que vejo a palavra cancro deixo de ler a notícia ou mudo de canal.

  6. Olá Arrumadinho.

    Olha, eu troquei a minha foto de perfil para um fundo cor-de-rosa, em homenagem à Nonô, muitos dos meus amigos o fizeram também e felizmente desde que a menina morreu que nenhum hater do género se atravessou no caminho. Se se atravessasse, azar, que guardasse esse rancor às costas que a homenagem é minha, não é de mais ninguém.

    Mas escrevo-te para te dizer que não sou mãe, não tenho – e ainda bem – nenhum familiar ou amigo próximo a sofrer com este drama do cancro. Ainda assim, a história da Nonô tocou-me profundamente. De facto, ela não me conhecia. Mas eu conhecia-a a ela. Todos os dias seguia as notícias da mãe Vanessa. Preocupei-me. Rezei por elas. A Nonô não foi uma metáfora de um possível filho ou familiar ou alguém próximo. Entendo que para outros fosse assim. Para mim não. A Nonô conquistou-me por ela própria. Partiu-me o coração quando soube da notícia.

  7. Nunca aqui comentei nada…mas agora apeteceu-me porque me revejo naquilo que escreveu…é triste que no meio desta desgraça se arranje vontade e coragem para criticar um gesto de carinho e solidariedade para com esta família. A crítica banalizou-se. Há um ano perdi um sobrinho de 8 anos para esta luta…a solidariedade, a palavra não resolve mas aquece o coração. Estes pais perderam parte do seu..quem tem filhos consegue por segundos imaginar o que esta e outras tantas famílias sentem. Mas sentir de facto esta dor não!Respeitem a dor deixem-se de críticas!

  8. Curiosamente li o teu texto ontem, ao final da noite. Depois de ter lido diversos comentários/textos partilhados no facebook a criticar quem sentiu esta triste história de uma forma especial.

    A vontade foi copiar o teu texto e colar em todos os sítios onde estavam esses comentários/textos.

    A parte final do teu texto diz tudo. É triste que assim seja mas assim irá continuar a ser.

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

  9. Acompanho há vários meses o caso da Nô, contribuí para ela e sorri com cada sorriso maravilhoso que ia sendo publicado no facebook. Era impossível ficar-lhe indiferente, porque ela era o rosto da coragem, da fé, da inocência de uma menina a lutar numa batalha inglória. Fui apanhada de surpresa, porque até há poucos dias, tudo parecia ir no bom caminho. Quando soube da morte chorei, fiquei abalada, mudei o meu perfil para cor de rosa e publiquei tanto no facebook como no meu blogue, homenagens. Não sou mãe, mas sou tia, sou irmã mais velha, sou mulher e apaixonei-me pela história desta menina. Os outros, os que não compreendem, não me podiam ser mais indiferentes.

  10. Sou uma entre tantas que mudou a foto de perfil para cor de rosa e sou também Mãe. O seu texto resume o sentimento generalizado pela partida da Nôno.
    Apenas um pequenino reparo, falar daqueles “indignadinhos” é dar-lhes muita importância. A Vida (esta ou outra) encarregar-se-á de um dia fazê-los perceber o que significam as palavras Amor e Solidariedade. Lamento profundamente que “esses” nunca tenham sido amados.
    A Nôno ensinou-nos muitas coisas (e eu nunca a conheci) e a sua força era do tamanho do Universo.

  11. Olá.
    Eu não acho que se deva ficar chateado com aqueles que estão tristes com a morte da criança, mas sinceramente, não percebo o “drama” à volta de toda esta situação.
    Existem tantas crianças a morrer por este mundo fora, e as pessoas ficam assim porque uma criança morreu.

    Eu quase que sinto isto como se fosse um momento para se “fingir que se chora”… as pessoas não estão realmente preocupadas, sentem pena, mas logo esquecem. A morte da Nono é triste, mas a ignorancia para com todos os outros que falecem e não se fala, é ainda mais triste.

  12. Eu não conheço pessoalmente nenhum familiar da Leonor, nem nunca conheci a Nonô. Ontem à noite quando soube da sua morte chorei. Chorei por ela, uma criança, pelos pais e …porque sou mãe! Quando nos tornamos pais e mães vemos e sentimos tudo de maneira diferente. Que descanse em paz a pequena Nonô.

  13. Não sabia que havia pessoas (???) que estavam irritadas por muitos estarem tristes pela partida da Nono…é incompreensível. Apesar de não a conhecer, segui o combate desta pequena guerreira. Tenho dois filhos, um da idade da Nono…é impossível não me passar pela cabeça o “e se fosse um filho meu”. Uma criança não deveria sofrer, estar doente…morrer…não devia…
    Tal como não deveriam existir estes haters…ou ranhosos…como lhes quisermos chamar.

    http://thelusofrenchie.blogspot.pt

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