A minha linha de Bus

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Quando era miúdo odiava andar de autocarro.

Aos seis anos já fazia, sozinho, as longas viagens entre Faro e Setúbal, ou entre o pai e a mãe. Lembro-me de que não tinha medo, mas morria de tédio ao longo daquelas seis horas. Levava sempre na mochila um saquinho com uma sandes e um Caprissone de laranja, a caderneta de cromos, os repetidos, e um ou outro livro de banda desenhada para me ir entretendo. Mas na verdade ao fim de uma hora já tinha comido tudo, já tinha lido os livros todos e já sabia de cor os nomes de todos os jogadores do campeonato (também decorava as posições, as alturas e o local de nascimento, a bem dizer – isto para verem o quão desocupado eu era). Depois, ficava cinco horas a olhar para o boneco, geralmente entalado entre a janela e uma qualquer pessoa que achava imensa graça a uma criança a viajar sozinha, e então metia conversa, sempre com assuntos que me interessavam muito pouco – “Então, para onde é que vais? E por que é que estás sozinho? E não tens medo? E tens alguém à tua espera?”.

Depois havia as viagens Setúbal-Elvas, ou Faro-Elvas, onde viviam os meus dois primos, companheiros de brincadeira desde que nascemos, e os meus melhores amigos. Contava os meses, os dias, as horas até que chegava o dia em que o autocarro me levava a Elvas. E aqui a dor era ainda maior. O Caprissone e os livros atenuavam menos a dor e a ânsia de chegar fazia com que aquelas horas de viagem parecessem dias.

Segunda-feira vou regressar do Algarve de autocarro. Até poderia vir de boleia com um amigo no domingo, mas só de pensar que posso ter quatro horas para ler em paz, quatro horas para ver séries e filmes no computador portátil começo logo a sentir o estômago aos saltos, como nos tempos das viagens a Elvas.

Ser adulto é, às vezes, uma seca.

1 Comentário

  1. Realmente os tempos mudam. Alguma vez eu deixava o meu filho de seis anos ir sozinho de autocarro para algum lado? Mesmo que vá no autocarro comigo vai ali, ao meu lado de mão dada 😀
    Este port arrepiou-me, a sério! Mas eu também ia a pé para a escola, cerca de 1 km e hoje em dia levo o meu pequeno de mão dada até à sala de aulas.
    Sou muito galinha, es verdad!
    Boas férias

  2. "Mas se acabei de dizer que, agora, gosto de andar de autocarro, por que é que haveria de ir de Intercidades?"

    Se for num expresso de Alta Qualidade da EVA… acaba por ter um conforto igual ao superior de um Intercidades. 🙂

  3. Por acaso não sou grande fã do meio de transporte autocarro… Implicava sempre muitas malas e tralhas a mais para ir para a universidade, mas quando ia para Coimbra ou Lisboa para passar férias com uma prima que é como se fosse minha irmã, ficava delirante… Levava carradas de livros e era feliz naquelas horas em que planeava as férias ao minuto e pensava nas aventuras que ia ter com a prima mais velha, sem sombra de dúvida a mais fixe do planeta! Não foi assim há muito tempo, mas agora o tempo e o trabalho impedem-me desses "caprichos"… Acho que, pelo menos, será sempre simbólico de tempos mais simples… Obrigada por me lembrares dessas viagens fatídicas (acho que ainda tenho alguns bilhetes lá guardados)!
    Boas férias e que o casal venha bem arrumadinho para mais uma série de posts viciantes!

  4. O autocarro não me deixou assim muitas saudades, mas concordo com a última linha. Lá por sermos adultos não significa que deixemos de ser crianças.
    Eu adoro voltar à infância e fazer disparates propositados para relembrar a criança que fui. Houve tantas coisas na minha infância que me deixaram saudades e só tenho pena de não ter 'ganas' suficientes para me pôr a subir às àrvores, que era o passatempo preferido!

    Beijinhos e boa viagem*

  5. És sem duvida nenhuma uma pessoa curiosa. Desculpa tratar-te na 1ª pessoa do singular (não me conhecesses de lado nenhum), cá no norte é assim que tratamos as pessoas que de alguma forma queremos bem, adoro ler-te, acompanho o teu blog diariamente, e é como se te conhecesse pessoalmente. Continua a escrever porque eu vou continuar a ler..
    Boas férias

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