A grande lata policial

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Para o fim-de-semana ficar bem recheado, outra história absurda, esta mesmo à porta de casa.

Vivo numa rua que tem um traço contínuo enorme, que não é descontinuado em lado algum. Ou seja, quando ando à procura de lugar num lado da rua, e não encontro, tenho de ir dar quase a volta à cidade para poder passar para o outro lado, e procurar lugar no sentido oposto. Quantas e quantas vezes já avistei lugares ali mesmo ao lado e acabei por perdê-los por ter de ir dar a tal volta gigantesca.

Bom, no sábado de manhã, saí de casa um pouco atrasado, e tinha o carro num sentido, sendo que precisava de ir para o outro. E pronto, lá fiz o que toda a gente faz ali, uma inversão de marcha por cima do traço contínuo. Uns 150 metros abaixo, um carro da polícia estacionado no outro lado da rua. Um agente saiu do carro e fez-me sinal para enconstar.

– O senhor sabe o que fez?

– Sei, sim senhor.

– Vou precisar da carta de conduções, documentos da viatura e bilhete de identidade.

Muito bem. Entreguei tudo e fiquei à espera da multa.

Nestes casos, quando sei que não tenho razão algum, não costumo dizer rigorosamente nada. Já levei multas tão absurdas, tão ridículas (€250 por ter a corrente da mota a tocar na matrícula, €250 por não me ter feito “atempadamente à direita” antes de sair da auto-estrada, coisas do género), que, quando a coisa é simples e eu não tenho razão, mais vale ser cordial, pagar e não barafustar.

Uns minutos depois, o agente chamou-me à viatura da polícia para assinar a multa. Passei a estrada, abeirei-me do carro e lá me entregaram o papel. Foi quando o outro agente, com quem ainda não tinha falado, e que estava ao volante, meteu conversa.

– O senhor sabe que não pode fazer isto?

– Sim, sei. Peço desculpa, mas estava muito atrasado, e se não fizesse inversão de marcha teria de ir dar uma volta enorme.

– Pois, mas é o que tem de fazer.

Aproveitei então para deixar uma ideia.

– Mas olhe que é um disparate uma rua destas, enorme, não ter o traço descontinuado em lado algum. Tem aqui um parque de estacionamento grande, e quem quer entrar para aqui tem de ir dar uma volta sem fim. Bastava descontinuarem o traço aqui, na zona da entrada para o parque, e facilitavam imenso a vida às pessoas.

– Isso não é possível. Depois era uma confusão de trânsito.

– Olhe que não. Assim é bem pior, porque as pessoas cruzam na mesma o traço contínuo, mesmo que ele não esteja descontinuado, porque isto assim é um disparate.

– As pessoas são é preguiçosas. Não custa nada ir dar a volta.

– Olhe que para uma pessoa que more aqui, como eu, que tenha de andar sempre a sair de casa, a estacionar de um lado ou do outro da rua, não é uma questão de preguiça, mas de economia de tempo. E isto resolvia-se descontinuando o traço numa única zona, em frente ao parque, mais nada.

– É a sua opinião.

– Pois, bem sei.

Voltei a atravessar a estrada e entrei no meu carro. Coloquei o cinto, guardei os documentos, liguei o carro e quando vou a arrancar, quem é que me passa à frente? O carro da polícia, que fez inversão de marcha mesmo à minha frente, por cima do traço contínuo. Afinal, ir dar a volta não é assim tão simples, não é senhores agentes? Confesso que fiquei um minuto parado, incrédulo, a achar que aquilo tinha sido feito mesmo para gozar com a minha cara. Ainda pensei em tirar a matrícula e apresentar uma queixa, mas já sei, por experiência própria, que é uma perda de tempo, e que uma queixa contra um polícia nunca dá em nada.

25 Comentários

  1. Pareceu-me realmente um gozo á situação que tinha acabado de acontecer.. São estas desigualdades de 3º mundo que este governo quer implementar. Fiquei chocada… :S

  2. Desculpa… não leves a mal mas fartei-me de rir… Simplesmente porque o desfecho da historia é tão absurdo, tão surrealista que de facto não estava à espera de tal coisa!

  3. Somos engraçados. Todos nós. Quando lemos um relato destes todos desejamos que se apresente queixa. Quando nos acontece a nós ninguém o faz… Quantos dos que lêem o relato não foram já vítimas de um furto (carteirista ou outro sem violência) e não apresentaram queixa “porque não valia a pena”. 🙂

    http://urreivainu.blogs.sapo.pt/

  4. Acho eu que é óbvio que em todas as profissões existem bons e maus profissionais mas, os responsáveis pelo cumprimento da lei têm uma responsabilidade acrescida e em Portugal é demasiado comum o abuso por parte dos ditos. Bem, verdade seja dita que, em Portugal o abuso no cumprimento de funções policiais ou outras é praticamente parte do ADN nacional.

  5. Também acho que devia ter feito queixa. Mesmo sabendo que não dá em nada fica registado. Bem, pensando melhor, não fazendo queixa os matrecos que multaram e depois fizeram o mesmo de que resultou a multa, ficam sem saber se você viu ou não. É que se souberem que viu ficariam todos contentes, que a intenção é essa : enxovalhar as pessoas.

  6. Isidora tal como em todas as profissões há bons e maus profissionais, e o mesmo acontece na polícia, que não tem perfil para envergar a farda que usam.
    Acho engraçado ver as pessoa de dedo em riste, a acusar as nossas forças de segurança, e depois quando é o “ai jesus” são os primeiros a chamá-los, a ligar para o 112 e falar com o polícia que está do outro lado da linha. Temos um excelente corpo de polícias de segurança, que envergam a farda com orgulho, trocando muitas horas de sono, por horas de serviço. Temos da melhor polícia da Europa, que mesmo tendo sido dos primeiros a sentir os cortes desta crise, não tendo progressão de carreiras, porque as mesma foram “congeladas” fazem um excelente trabalho. Não estou a defender os agentes com que o arrumadinho se cruzou, como disse em todo o lado há bons e mau profissionais. Mas aposto que quando precisar não está logo a ligar para os “corruptos” que atendem a linha do 112.

  7. Catarina Martins nao posso deixar de responder ao seu comentario que penso ser, e sem querer ofender ja que nem sei que profissão exerce, um pouco hipocrita. Todo o dinheiro de um país roda, se levassemos as coisas pela sua logica qualquer pessoa seria sua patroa.. Penso que muitos comentarios aqui sao injustos, pois as pessoas preferem sempre odiar e dizer mal, mas poucas são as vezes que a policia é reconhecida pelo trabalho que prestam a sociedade que arriscam muitas vezes a vida. Concordo que a situaçao descrita neste post é, no minimo, caricata mas ha sempre bons proficionais e maus profissionais. E quanto ao facto de fazer queixa de um policia nao dar é nada, nao é de todo, verdade. Posso dize-lo com conhecimento, pois o meu pai faz parte da psp que basta algue fazer queixa de um agente, que bem rapidamente lhe é colocado um processo em cima que pode resultar em que esse agente nunca mais volte a exercer a sua profiçao. Se há coisa que a policia nao é, é com certeza protegida quer pelo estado quer por todas as pessoas que preferem, quase sempre por defeitos ao seu trabalho.

  8. Ola Ricardo!
    Tem que se fazer queixa sim! Não podemos deixar passar essas situações! Os policias são uns corruptos e abusam da autoridade que tem. Conheço centenas de casos como o seu. Eu própria já fui alvo desse tipo de situações… e acredite se os levarmos a tribunal com provas daquilo que os acusamos eles são punidos sim!
    Admiro o seu sangue frio em não arranjar conflito, comigo há sempre confusão da grande!
    Continuação de bons textos!
    Isidora
    http://isidorabandarra.blogspot.pt/

  9. És o típico portugues, refila mas nunca faz queixa, ou então só faz queixa quando não tem razão. Se isso não era de apontar a matrícula ou filmar e ir armar banzé à esquadra, publicar nas redes sociais, o que fosse, achincalhá-los assim forte e feio… Mas não.

  10. Ricardo,
    É com situações deste tipo a acontecerem a jornalistas, que eu vejo que de facto, o comum mortal não pode mesmo fazer nada…
    Então não era de filmar e tentar por tudo que isso passasse em prime time na TVI?! Só assim é que as coisas funcionam neste país…
    Sydney

  11. Bem esta história é surreal, mas sem querer estar a defender os agentes será que eles não teriam uma chamada urgente a qualquer lado??
    Isso explicaria a atitude deles, mas também me parece que foi uma grande “lata policial” ! Ah Ah Agora até me dá vontade de rir desculpa! 😉

  12. Ó beta, será caso para tanto ?!?!? perderem regalias ?!?!?
    não estou aqui a defender os policias, o arrumadinho tem toda a razão, mas nem todos os policias se comportam assim e olha que sem policias as coisas estavam bem piores e não podias, por exemplo, tomar um copo com as tuas amigas de forma sossegada… além disso, um PSP ganha entre 900 e 1200 euros…acho que nem é muito para quem, em cumprimento do seu trabalho, pode levar um tiro…
    muita calma, está bem?

  13. Estou de acordo com este comentário. Pena é que os agentes não quebram as regras de trânsito só nessas situações. Pura e simplesmente acham que, como têm uma roupa catita e conduzem umas latas do Estado, podem fazer isso. Na vila onde cresci ligavam os pirilampos e passavam vermelhos… para ir buscar o jantar à churrascaria antes da bola começar. Outra situação caricata pode ser vista todos os dias no Strada Outlet. O parque exterior têm dois lugares reservados para a PSP. Estão sempre vazios. Mas há sempre um carro ou dois da PSP nos lugares normais. Pois eu, sempre que um agente da autoridade pisa a bola, faço queixa. São os nossos impostos que lhes pagam o ordenado, eu, e milhões de portugueses, somos os seus patrões.

  14. Oing :S Credo… é mesmo a gozar! Dá vontade de não pagar a multa, e de fazer queixa. É por estas e por outras quando os “coitados” se andam a queixar de ordenados e condições laborais, azar, que percam todas a regalias.

    Beta

  15. A queixa só te traria problemas…giro era teres conseguido filmar isso. Mas adiante…é a nossa polícia. Muita sorte tiveste tu em não levar umas cacetadas por ainda estares a contrariar a opinião dos meninos.

  16. Arrumadinho, lamento discordar.
    Acho que os agentes da PSP (e da GNR, PJ, SEF, etc.etc.) podem não cumprir as regras de trânsito, desde que estejam em missão policial, claro.
    Dou-te um exemplo: há um alerta de um assalto em curso a uma residência, com os assaltantes lá dentro; a PSP dirige-se ao local e não encontra lugar para estacionar; faz sentido a PSP perder tempo e andar à procura de um lugar para estacionar ou, porque está em missão, aceita-se que até estacione em segunda fila ou em cima do passeio ?!?!

  17. Há uns tempos também tive uma situação caricata.
    Parei em segunda fila e um agente da autoridade abordou-me e disse que eu estava a dificultar o trânsito naquela zona e que teria de pagar 30 € de multa. Não pediu que apresentasse a minha identificação nem tão pouco os documentos da viatura.
    Eu como não tinha razão (embora a rua estivesse vazia), e também não tinha dinheiro naquele momento para pagar a multa, disse “Então vai ter de elaborar um auto de notícia e pago a multa no MB!”
    Policia: “Mas não tem 30 €, paga os 30 € e nem é preciso elaborar auto nenhum!”
    Eu: “Não, não tenho, por isso lhe estou a pedir que elabore o auto e depois pago. Não vou poder pagar em dinheiro agora. ”
    Policia: “Bom, sendo assim vá-se lá embora.”
    HHUUUMMM… esta situação deixou-me a pensar, estaria eu de facto a ser autuada ou apenas a pagar um almoço a alguém…

  18. Eu tinha feito queixa.
    Pelo menos ficava assinalado em algum sítio!
    Não devias ter ficado sem fazer nada!
    Assim é que não conseguimos mudar nada neste país de politiquices!
    Até podemos não conseguir, mas pelo menos tentámos.

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