A Feira

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Hoje, talvez 20 anos depois, voltei à feira popular de Lisboa. Não a fazia tão grande, seguramente não me lembro dela tão animada. Mas fiquei feliz, não só pela alegria de milhares de crianças que por ali andavam, mas sobretudo pela cidade, que voltou a ter um espaço que nunca deveria ter perdido, nem que fosse sazonalmente.

Quando decidimos que iríamos passar pela feira, imaginei um passeio tranquilo, num recanto um pouco decadente, com animações vazias e animadores a debitar aquelas frases sempre iguais há 30 anos. Vi-nos a comer um pão com chouriço e uma fartura, a andar na roda gigante, e projectei a imagem do meu filho mais velho a andar sozinho nos carrinhos de choque sem ninguém contra quem chocar. Percebi que estava enganado assim que nos começámos a aproximar da Av. 5 de Outubro, onde o trânsito estava parado. Depois, o caos para estacionar.

Lá nos safámos. Chegámos à feira e nem queria acreditar: milhares de pessoas, filas gigantescas para tudo e mais alguma coisa. Só a das farturas devia ter uns 150 metros, sem exagero. A minha vontade imediata foi de ir embora e voltar noutro dia, mas quando se tem um puto pela mão que só fala daquele momento há duas horas fazer-lhe isso seria quase um crime. Aguentei-me. Já a minha mulher, não teve outro remédio que não dar meia-volta, até porque o chão, quase todo em gravilha, tornava impossível empurrar o carrinho do bebé (quem tiver bebés, já sabe, não vale a pena levar o carrinho). Fiquei eu e o miúdo.

Começámos pela casa do terror, ou lá o que é aquilo. Não mete medo nenhum, mas a verdade é que logo no primeiro spot havia três criancinhas aí de 4 ou 5 anos a chorar baba e ranho e a bater o pé, insistindo com uma mãe desesperada que não avançavam mais. Lá percorremos os corredores a ouvir gritinho tipo “Uahahahahahaha”, com o chão a tremer, uns jactos de ar, nada de jeito. Mas pronto, o puto gostou.

Mais 20 minutos numa fila e conseguimos fichas para o Chicote, que é um daqueles ovos que andam à volta. Até foi engraçado, e consegui fazer um vídeo com as caretas do miúdo, que ficou divertido. O mais stressante foram os carros de choque para crianças. Stressante, sobretudo, por culpa dos pais. Compram-se as fichas e depois é guerra aberta a ver quem consegue apanhar um carro. Claro que os miúdos andam ali à nora, tipo jogo da cadeira, e muitos acabam sem carro, então, os paizinhos resolvem agir por eles, e o que acontece é que assim que termina uma viagem saltam uns 20 pais em fúria a tentar arrancar de lá os filhos dos outros para conseguirem um lugar para o deles. É um bocadinho decadente, mas pronto. Eu optei por deixá-lo por conta dele, para se desenrascar. Ficou de fora uma vez, duas, mas lá se safou à terceira.

O que ele gostou mais foi de uns rolos que andam dentro de água, que são empurrados pelos miúdos, tipo hamster numa rodinha. Há dois rolos, que levam uns três ou quatro miúdos, e uma bola, que é só para um. Ele teve a sorte de ficar na bola. Adorou andar por lá aos trambolhões dentro da bola, em cima da água. Para acabar, fomos à montanha russa, que tem a maior fila. Foram 25 minutos à seca, e depois a viagem é muito fraquinha, mas pronto, o que interessa é que a criançada se divirta. E todo o esforço, todas as secas valem a pena quando no fim recebemos um beijo e a frase: “Papá, hoje foi dos dias mais divertidos de sempre”.

7 Comentários

  1. Ola arrumadinho, adoro o seu blog e o da pipoca mas nao sei se me engano mas ela e o seu filho nao parecem ter uma relacao muito proxima. Ela nunca fala dele e sempre que voce fala dele, ela nunca esta por perto

  2. Coisas simples fazem a felicidade momentânea de uma pessoa. Ou de um grupo delas. Se eu estivesse no teu lugar, já sentia o dia ganho ao ouvir o meu filho dizer uma coisa dessas. Um abraço.

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