A fauna da Loja do Cidadão

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Passar um dia na Loja do Cidadão permite-nos perceber melhor as pessoas que nos rodeiam. Entre os que passam cinco horas a olhar para o ar, até aos que dormem e ressonam nas cadeiras desconfortáveis, encontra-se de tudo. Mas há algumas figuras peculiares. Destaco aqui cinco géneros.

O Chico-esperto

— Maria, que número tens?

— O D256. Vai no D224, ainda falta.

O Chico-Esperto olha para o ecrã táctil onde se tiram as senhas, espreitando pelos óculos na ponta do nariz.

Carrega, depois, no visor e recolhe uma senha e vai levá-la à mulher, todo orgulhoso.

— Toma lá esta. É o 0123. Vai no 0121, és já a seguir.

— Mas viste o que quer dizer o O?

— Não.

— Então vê lá.

O homem volta para perto do visor, e espreita pelos óculos, desconfiado.

— Hum, o 0 é para passaportes.

— Pois, eu disse-te.

— Não faz mal, faz-te de parva que eles são obrigados a atender-te na mesma.

O mentiroso exagerado

Às 15h25, um homem mete conversa com a mulher do lado.

— Isto está impossível. Estou aqui desde as dez da manhã.

— Pois, imagino. Eu só cheguei às 13h30 e já não tenho posição, imagino o senhor. Que número é o seu?

— É o C174.

Foi nesta altura que olhei para a minha senha. Eu era o C150 e tinha chegado às 11h10, logo, o mentiroso tinha chegado por volta das 12h ou 12h30 e estava ali a armar-se em vítima.

O porcalhão

Um pai espera com uma criança sentada no banco ao lado. Do outro lado estou eu.

O miúdo espirra para cima do pai.

— Hei. Espirra para o outro lado! — disse o pai.

Para o outro lado? Para cima de mim, portanto, é isso?

A desgraçada

Uma mulher na casa dos 40 anos senta-se ao meu lado. Começa a ver o telemóvel. Passados uns minutos guarda-o e cobre a cara com a mão. Achei que iria adormecer. Não. Passados uns segundos desata a chorar, com as lágrimas a escorrerem-lhe pela cara.

Olhei a medo para a senhora, que soluçava. Toquei-lhe ao de leve, sem saber muito bem o que fazer, e lá arrisquei:

— Precisa de alguma coisa?

Ela olha para mim, com a cara esborratada, e finge um sorriso.

— Olhe, preciso que me saia o Euromilhões.

Fiquei sem saber o que dizer. Sorri de volta, pronto.

Lá limpou a cara e voltou ao telemóvel.

A “distraída”

Quando estava a ser atendido, na mesa do lado, chega uma rapariga, que devia ter uns 30 anos, e entrega a senha. O senhor olha para ela de alto a baixo e pergunta a medo:

— A senhora é prioritária porque….?

— Eu? Não, não sou.

— Está grávida?

— Não.

— Então porque é que tirou a senha prioritária?

— Tirei? A sério? Oh, meu Deus, nem reparei. Estou aqui há duas horas e nem vi isso.

— Pois, mas se não é prioritária não vai dar…

— Mas vou ter de ir para o fim da fila? Eu estou aqui há duas horas! Não me pode atender, já que estou aqui? Por favor, eu não posso perder outro dia para vir aqui.

— Pois, se não é prioritária não a vou poder atender.

E lá foi ela a dizer mal da vida e do homem.

22 Comentários

  1. Ricardo, perdoe-me mas não posso deixar de acrescentar uma espécie: “os vírus com pernas”, aquelas pessoas em fase contagiosa de doença que se deslocam para sítios públicos e não usam máscara de protecção. If you know what I mean…

  2. Arrumadinho fizeste-me lembrar da minha pessoa quando vou à loja do cidadão, observo tudo e mais alguma coisa! E assiste-se a cada história…acho que conseguia escrever um livro se lá fosse mais vezes.

  3. Hoje, se tinha dúvidas que o nosso país deixou de funcionar, deixei de ter. Hoje tentei telefonar durante todo o dia para os CTT, Camara Municipal ( serviço de atendimento ao Público), Cabovisão e NINGUÉM atendeu as chamadas e não consegui resolver nada 🙁
    Por isso Ricardo, já nada me espanta, nem os chicos espertos da vida nem nada. Estamos fechados para obras? por tempo indeterminado. Triste…

  4. Quantas pessoas não vao com aquelas muletas para serem atendidas? Então nas finanças, são todos os dias. E individuos de etnia cigana com crianças ao colo, UI é a toda hora!!!!!

  5. Felizmente, há muito que não frequento destes locais (aconteciam-me sempre episódios de me tirar do sério quando ia à segurança social, Instituto de Emprego, etc, etc). Isto só contextualizar a minha falta de noção: mesmo tirando uma senha prioritária, a pessoa que tem prioridade chega a esperar 2horas???!!! 2h com prioridade? Mesmo?

  6. Obrigado por estes retratos, Arrumadinho!
    Aprende-se sempre imenso a observar as pessoas à nossa volta. E é especialmente útil para não fazermos também nós próprios figuras ridículas. Já que há quem erre, ao menos que aprendamos a não os repetir.

  7. a “distraída” provavelmente foi dizer mal da vida e do homem para o blogue dela… “sacanas dos funcionários públicos, ganham uma fortuna , é só privilégios e regalias, férias 6 meses por ano, e nem têm compreensão nenhuma numa situação destas, logo por mim que sou tão querida e tenho tanto que fazer que até me sobra tempo para escrever blogues” e depois vai ter 258 comentários solidários a desancar mais no estúpido, insensível funcionário… e é isto…

  8. Falas da loja do cidadão mas podias referir-te a quase todos os sítios que têm atendimento ao público. Muito bom!

    Já não existem aquelas pessoas que levam crianças de “dez” anos ao colo só para passar à frente?

    homem sem blogue
    homemsemblogue.blogspot.pt

  9. Pelo menos que os funcionários daí repararam que não é prioritário e não atenderam, porque já vi muita gente a tirar senha de prioritário e esperar que os funcionários reparem e nada.

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